ANMELDEN~~ Valentina ~~Bati na porta de madeira da casa de dona Maria Helena com o coração apertado. Ao meu lado, Edward segurava as malas de roupas dos nossos amigos que trouxemos de Boston. Quando a porta se abriu, foi Giovanne quem apareceu. O terno impecável e o olhar imponente de costume tinham dado lugar a uma camisa escura com as mangas dobradas, olhos fundos e um semblante visivelmente abatido pela noite em claro.Nem precisamos trocar palavras formais. Dei um abraço apertado no meu chefe, que me acolheu com um suspiro pesado, antes de seguir direto para o quarto simples no fundo do corredor.Encontrar Jade naquele estado partiu a minha alma. Ela estava encolhida na cama de solteiro, envolta em um cobertor grosso, com os olhos inchados de tanto chorar. Abracei minha amiga com força, deixando que ela desabafasse mais uma rodada de lágrimas silenciosas contra o meu peito. Edward permaneceu encostado no batente, os olhos marejados diante de uma dor que nem todo o dinheiro do mundo poder
~~ Jade ~~O som rítmico e mecânico do ventilador pulmonar preenchia o quarto de isolamento como um eco fúnebre. Cada passo que dei em direção àquele leito pareceu arrancar um pedaço da minha alma.João Pedro estava ali, pálido, com o peito subindo e descendo apenas pelo comando frio do tubo traqueal. Vários acessos venosos cruzavam seus braços arroxeados, administrando doses cavalares de medicamento para sustentar uma pressão que teimava em desabar.Aproximei-me da grade da cama e segurei a mão dele. Estava fria, com as pontas dos dedos arroxeadas. O nó na minha garganta sufocou o pouco ar que me restava.— Me perdoa, meu irmão… — As lágrimas caíram grossas sobre a pele inerte dele. Minha voz saiu rasgada, em um pranto que eu não tinha mais forças para conter: — Me perdoa por não ter sido capaz de cumprir a promessa que eu te fiz… Eu jurei que ia te tirar daqui, jurei que ia te devolver a vida, e eu falhei com você… Eu não consegui chegar a tempo.Apertei os dedos dele contra o meu r
~~ Jade~~Minhã balançou a cabeça de um lado para o outro, as mãos tremendo de forma incontrolável enquanto tentava puxar o ar entre os soluços:— Foi de repente, minha filha… De madrugada… Ele começou a queimar em febre e teve uma crise de tremores muito forte, que não passava por nada… As enfermeiras do home care tentaram conter, mas ele travou a respiração, engasgou e começou a ficar roxo…Minhas pernas vacilaram de novo, e o braço de Giovanne envolveu minha cintura com firmeza, me mantendo de pé enquanto o chão parecia sumir sob os meus saltos.— Quando a ambulância chegou aqui no hospital — minha mãe continuou em um fio de voz entrecortado, limpando as lágrimas com o dorso da mão —, os médicos disseram que ele broncoaspirou… Ele teve uma parada cardíaca ainda na emergência, filha… Foram quase vinte minutos tentando reanimar o meu menino… Eles conseguiram fazer o coraçãozinho dele bater de novo, mas…Ela cobriu o rosto com as duas mãos, rompendo em um choro tão doloroso e rasgado
~~ Jade ~~Saímos do Plaza às pressas, sem olhar para trás e sem nos despedirmos de absolutamente ninguém. Enquanto nosso carro rasgava a noite em direção ao hotel onde estávamos hospedados, Giovanne grudou o telefone no ouvido. Ele acionou a operadora do hangar executivo da Vance, ordenando que a tripulação preparasse o jato da empresa para decolagem imediata com plano de voo prioritário para o Brasil.No banco da frente, Edward e Valentina nos ajudavam a alinhar tudo:— Vamos direto daqui, meu amor — Giovanne determinou, guardando o aparelho e segurando meu rosto entre as mãos frias. — Nós temos roupas no nosso apartamento em São Paulo. Se pegarmos um voo para Boston para fazer malas, vamos perder horas preciosas.Apenas concordei com um aceno trêmulo de cabeça, as lágrimas silenciosas ainda queimando a minha pele.— Vocês dois podem ir em paz — Valentina garantiu com a voz firme e solidária. — O Edward e eu pegamos o trem de volta para Boston amanhã cedo, fazemos as malas de vocês
~~ Giovanne ~~O sangue subiu direto para as minhas têmporas, fervendo como lava pura. Bastou a frase de Valentina ecoar nos meus ouvidos para que qualquer resquício de boas maneiras corporativas fosse estraçalhado. Segurei os braços de Jade com firmeza, conferindo com os próprios olhos se não havia um arranhão sequer em seu rosto ou em sua pele.— Ela não encostou em mim, amor, a Valentina interveio antes… — Jade tentou me acalmar, a voz suave pousando como um bálsamo inútil contra a tempestade que me cegava.— Pouco me importa se encostou ou não! Essa mulher passou de todos os limites admissíveis! — rosnei baixo, ajeitando o paletó do smoking com violência. — Eu vou colocar essa louca no lugar dela agora mesmo, diante do pai e de quem mais estiver por perto!— Giovanne, espera! — Edward deu um passo à frente, tentando me conter pelo ombro com prudência. — O salão está lotado de investidores e da imprensa internacional, não cria um escândalo!— Que se foda a imprensa! Ninguém levanta
~~ Jade ~~O mestre de cerimônias anunciou a Vance, e os aplausos ecoaram pelo auditório monumental do Plaza. Subi ao palco de mãos dadas com Giovanne sob a claridade implacável dos holofotes. Ele fez a abertura com a imponência de um líder nato, mas, ao me passar o microfone, seus olhos transmitiam orgulho puro. Apresentei as diretrizes de otimização dos peptídeos associados a coagonistas metabólicos com clareza cirúrgica. Quando concluí a explicação técnica sobre a proteção vascular ampliada, a plateia de cientistas e investidores internacionais se levantou em uma ovação estrondosa. Descemos sob cumprimentos efusivos e fomos guiados ao foyer de mármore para o início do coquetel. O tilintar de taças de champanhe e os flashes da imprensa cobriam o salão, mas o cansaço do salto fino começou a cobrar seu preço e senti minha cabeça girar.— Vou ao toalete retocar a maquiagem antes do brinde oficial, amor — sussurrei para Giovanne, tocando a lapela de seu smoking.— Não demora, baby — e







