LOGINO corredor da escola estava agitado como sempre, mas, para Maia, tudo parecia acontecer em câmera lenta. Os risos, as conversas, os passos... Tudo parecia distante, abafado por aquela onda de indiferença que ela havia se forçado a vestir como armadura.
Ela passou por Dante sem sequer olhar em sua direção. E ele, pela primeira vez, sentiu o gosto amargo de ser ignorado. Não que não estivesse acostumado com desprezo, mas o dela? O dela incomodava mais do que gostaria de admitir. Sentado no banco de trás da sala, ele passou a língua pelos lábios e soltou um riso curto, quase debochado. — Marrenta mesmo… — murmurou. Mas seu olhar permaneceu preso a ela até o último fio de cabelo desaparecer em direção ao outro lado da sala. Na aula, Maia fingia normalidade. Copiava anotações, conversava com Lisa, sorria mecanicamente. Mas, por dentro, a imagem do celular vibrando com a mensagem de Valentina continuava queimando em sua mente. Enquanto isso, Dante estava diferente. Quieto demais. Até mesmo os professores notaram. E, quando Valentina se aproximou, sorrindo como se fosse dona do mundo, ele não a afastou como de costume. Na verdade, respondeu. Baixo, monossilábico, mas respondeu. Deixou que ela se sentasse ao seu lado. Não porque queria, mas porque era mais fácil do que encarar o caos que Maia estava despertando nele. E foi aí que Valentina viu sua chance. — Podia me levar embora depois — disse ela, com um olhar atrevido, cruzando as pernas. — Ninguém nunca andou com você naquela moto, Dante. Acho que já tá na hora de mudar isso, né? Ele não respondeu, mas também não negou. E isso foi suficiente para ela abrir aquele sorriso venenoso, achando que estava ganhando espaço. Do outro lado da sala, Maia viu. E, com o coração apertado, soltou uma risadinha seca. — Tá vendo? — disse à Lisa, tentando soar leve. — Foi tudo coisa da minha cabeça. Ele e Valentina se merecem. Lisa não acreditou, mas respeitou o momento. — Você pode fingir pra mim, mas não pra você mesma, Maia… — Tá tudo bem, sério. — Ela suspirou. — Nem tem nada entre a gente. E nem quero que tenha. Mas o que ela realmente queria… era que ele tivesse vindo atrás dela. Nos corredores da escola, Dante continuava com seu teatrinho. Deixava Valentina rir alto ao seu lado, aceitava seus convites para andar pelos pátios e até respondia às suas investidas com comentários secos, mas presentes. Era como se quisesse provar para si mesmo que Maia não fazia diferença. Mas fazia. E cada passo dela para longe dele doía mais do que ele gostaria de admitir. Quando Valentina o cutucou com a chave da moto, rindo e dizendo: — E então? Vamos sair depois da aula? Ele soltou um riso debochado. — Subir na minha moto não é pra qualquer uma, Valentina. Ela franziu o cenho, mas riu sem graça. — Ué, pensei que estivesse cedendo… Dante apenas deu de ombros e saiu andando, deixando a menina plantada no meio do pátio, com cara de interrogação. Mais tarde, com o céu já tingido em tons suaves de fim de tarde, Maia e Lisa se encontraram no cafézinho vintage do centro da cidade. Sentaram-se numa mesinha charmosa perto da janela, onde as luzes do letreiro piscavam suavemente. — Eu precisava disso — disse Lisa, soltando um suspiro. — Sério, minha cabeça tava fervendo hoje. — A minha também — respondeu Maia, girando o canudo no copo de suco. — E não é por causa de provas... Lisa riu baixo, mas seu olhar foi fisgado pela entrada do café, onde dois garotos do colégio entravam rindo. Um deles era Dante? Não. Um deles era Caio, o mesmo que Lisa andava stalkeando nos stories havia semanas. Maia, atenta como sempre, percebeu o súbito silêncio da amiga. — Te conheço, Lisa… — Ela arqueou uma sobrancelha. — Quem é ele? Lisa tentou disfarçar, enfiando a boca no canudo. — Ninguém. Um cara da escola. Só acho ele… bonitinho. — Uhum. — Maia apoiou o queixo na mão, divertida. — Você tá com crush real, confessa. Lisa corou, com os olhos arregalados e o olhar nervoso. — Tá, talvez. Mas ele nem sabe que eu existo. E o amigo dele… o amigo é bonitão também, mas parece todo convencido. Foi aí que Maia teve uma ideia. Um brilho travesso surgiu em seu olhar. — Então vamos mudar isso. — Maia… não! O que você tá pensando? — Relaxa, só vou puxar assunto. Quem sabe o convencido não se interessa por mim e você ganha tempo com seu bonitinho? Lisa arregalou os olhos. — Você tá maluca? — Eu tô ajudando. Dá licença, tá na hora de a cupida Maia entrar em ação. As duas riram. E, enquanto Maia se levantava para fazer contato com os garotos, ela mesma se surpreendeu por não sentir nem um friozinho na barriga. O tal convencido até que era bonito, mas… ele não tinha o sorriso torto de Dante. Não tinha o jeito intrigante que ela odiava… e que, de alguma forma, também a fazia sorrir sozinha no meio da noite. Caio era o tipo que exalava gentileza no olhar. Já Vini, por outro lado, carregava aquela arrogância típica de quem se acha irresistível. Maia não demorou a notar o brilho nos olhos de Lisa quando ela olhou para Caio. Ela atravessou o café com confiança e parou em frente aos dois, que esperavam seus pedidos no balcão. — Oi, vocês são Caio e Vini, né? — Somos — respondeu Vini, com aquele sorriso presunçoso, dando uma olhada nada sutil de cima a baixo nela. — E você é? — Maia — respondeu ela, firme, ignorando o olhar de Vini e se voltando para Caio. — Minha amiga ali, Lisa, tá com vergonha, mas vive falando de você. Achei justo apresentar vocês. Caio sorriu, surpreso, mas lisonjeado. — Sério? Que legal… Posso ir lá dizer oi? — Pode, ué. Melhor que esperar o destino fazer mágica. — Maia deu de ombros. Vini deu um passo à frente. — E se a gente se juntasse a vocês? Já que estamos todos aqui… Maia deu um sorrisinho, não por simpatia, mas porque sabia que manter Vini por perto talvez facilitasse as coisas para Lisa. — Claro. Vamos lá. Os quatro se acomodaram à mesa. Caio puxou assunto com Lisa e, logo, os dois estavam rindo timidamente. Vini, claro, tentou virar o centro das atenções. — Então, Maia, você sempre chega assim, quebrando o gelo? Ou é só comigo? — Só quando acho que vale a pena — respondeu ela, firme. — Mas, até agora, ainda tô decidindo se esse é o caso. Vini riu, tentando manter a pose, mas ficou visivelmente incomodado com a resposta afiada. Enquanto isso, Caio perguntava a Lisa qual era sua série favorita, e os dois trocavam elogios sobre livros. Lisa parecia finalmente à vontade, com os olhos brilhando a cada sorriso do garoto. Maia observava a cena com satisfação. Missão em andamento. Mas, mesmo imersa naquele momento divertido, havia um incômodo discreto no fundo de sua mente… uma lembrança dos olhos de Dante encarando os dela no refeitório e do jeito como ele passou a ignorá-la. Ela balançou a cabeça, afastando o pensamento. E, de repente… — Então, Maia… — Vini recostou-se na cadeira, girando o copo entre os dedos. — Que tipo de garoto chama sua atenção? — Hm… Geralmente, os que não acham que podem conquistar qualquer uma com um estalar de dedos. — Ela bebeu um gole de seu cappuccino, sem desviar os olhos dos dele. Vini riu, encarando-a como se fosse um desafio. — Você é diferente. Gosto disso. — Que bom, mas não me esforço pra agradar — respondeu ela, com um sorrisinho cínico. Enquanto isso, Caio se inclinava um pouco mais para perto de Lisa, com um brilho gentil no olhar. — Nunca pensei que alguém lembrasse de mim assim… Quer dizer, a maioria nem sabe meu nome — comentou ele, um pouco corado. — Eu sei — disse Lisa, baixinho, brincando com o canudo novamente. — Você é um dos únicos que parece… real. Maia, ao lado, escutava discretamente e sorria com ternura. Ver Lisa se abrir assim era raro — e lindo. Mas sua atenção foi arrancada daquele momento quando sentiu o pé de Vini tentando “esbarrar” no dela debaixo da mesa. Ela lançou um olhar fulminante. — Cuidado com o pé, Vini. Costumo chutar de volta — disse, afiada. Ele riu, mas recuou discretamente. As conversas se desenrolaram por mais algum tempo, até que Lisa e Caio começaram a falar sobre um autor de quem ambos gostavam. Maia percebeu o quanto eles estavam realmente se conectando. Ela se levantou para pegar mais açúcar e, ao voltar, olhou para Lisa, que sorria de um jeito que ela não via havia tempos. Por um instante, esqueceu-se de Dante, de Valentina, dos olhares atravessados. Ali, naquele café, com aquela pequena vitória do destino, Maia sentiu que talvez… mesmo em meio ao caos, algumas coisas pudessem dar certo. Mesmo que não fosse com ela. Ainda.Os dias que se seguiram foram diferentes de tudo o que Maia e Dante haviam vivido até ali.Depois de tantas lágrimas, desentendimentos e verdades dolorosas, finalmente parecia que o mundo havia decidido dar uma trégua aos dois.Não significava que todas as feridas haviam desaparecido de uma hora para outra. Algumas ainda precisavam de tempo, de conversas sinceras e, principalmente, de atitudes. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eles estavam dispostos a enfrentar tudo juntos.Dante não perdeu mais nenhuma oportunidade de demonstrar o quanto Maia era importante para ele. As mensagens de bom-dia voltaram a fazer parte da rotina, assim como as ligações demoradas, as brincadeiras bobas e os encontros que sempre terminavam com a promessa de que logo estariam juntos novamente.Maia, por sua vez, aprendeu que não precisava carregar todos os problemas sozinha. Que amar alguém também significava confiar, permitir que essa pessoa conhecesse suas inseguranças e aceitar que nem sempre precisa
Dessa vez, não fugiria da conversa. Contaria toda a verdade, assumiria seus erros e faria o que fosse necessário para tentar consertar as coisas. Foi Sabrina quem abriu a porta. — Dante? — Bom dia, senhora Sabrina. A Maia está? A mulher observou o rapaz por alguns segundos. Conhecia aquela expressão. Havia sofrimento nos olhos dele, mas também uma determinação que não passava despercebida. — Está, sim. Pode entrar, querido. Dante agradeceu e entrou, encontrando Maia na sala. Assim que o viu, ela ficou imóvel por um instante, surpresa com a presença dele. Os dois se encararam, e toda a saudade que tentavam esconder pareceu ocupar o espaço entre eles. — Dante? O que você está fazendo aqui? — Preciso conversar com você. Sobre tudo. Maia hesitou, mas concordou com a cabeça. Sabrina, percebendo que os dois precisavam de privacidade, inventou uma desculpa para deixá-los sozinhos. Dante se aproximou do sofá, mas permaneceu em pé, sem saber exatamente como começar. — Eu descobri
Dante ficou imóvel, encarando a mãe como se estivesse esperando que ela desmentisse aquelas palavras. — Você fez o quê? A pergunta saiu baixa, quase num sussurro, mas a expressão em seu rosto deixou claro que ele estava longe de estar calmo. A mãe começou a chorar novamente. — Eu sei que errei, filho. Mas, por favor, me deixa explicar... — Explicar o quê, mãe? Que você se aliou à Valentina para destruir o meu relacionamento? — Não foi exatamente assim... — Então como foi? Porque, até onde eu entendi, você decidiu que a Maia não era boa o suficiente para mim e resolveu acabar com tudo antes mesmo de me dar a oportunidade de escolher! Dante se afastou, passando as mãos pelos cabelos. Era difícil acreditar que aquela mulher, que poucos minutos antes chorava por causa da traição do marido, também fosse responsável por parte do sofrimento que ele e Maia estavam enfrentando. A mãe respirou fundo, tentando encontrar as palavras. — Eu mandei as mensagens ameaçando a Maia para que el
Dante passou a noite inteira pensando em Maia.Por mais que tentasse se distrair, sua mente sempre encontrava um caminho de volta até ela. Lembrava-se de cada palavra trocada, de cada olhar magoado e de tudo o que havia acontecido nos últimos dias. Queria procurá-la, abraçá-la e pedir que os dois encontrassem uma maneira de resolver aquela situação, mas a mágoa ainda pesava em seu peito.Ele sentia falta dela. Mais do que gostaria de admitir.O problema era que, além de estar magoado, Dante também estava preocupado. As ameaças que Maia vinha recebendo não saíam de sua cabeça. Alguém estava tentando assustá-la, e ele precisava descobrir quem era e por quê.Quem poderia querer fazer tanto mal a ela?Virou-se na cama, pegou o celular e abriu a conversa dos dois. Ficou alguns segundos olhando para a tela, tentado a mandar uma mensagem, mas acabou desistindo. Não sabia se Maia queria falar com ele, e a possibilidade de ser recebido com o mesmo silêncio que vinha tentando suportar o fez des
Maia chegou à escola naquela manhã decidida a mudar as coisas.Depois da conversa com a mãe, compreendeu que não poderia continuar fugindo das pessoas que amava sob a desculpa de estar protegendo-as. Ainda tinha medo das consequências, mas estava cansada de carregar tudo sozinha.A primeira pessoa que precisava procurar era Lisa.Encontrou a amiga perto da sala de aula e esperou até que ela ficasse sozinha antes de se aproximar.— Lisa, a gente pode conversar?A amiga assentiu, e as duas caminharam até um lugar mais tranquilo.Maia entrelaçou os dedos, tentando organizar os pensamentos.— Eu queria te pedir desculpas. Sei que te magoei quando me afastei sem explicar nada, e você não merecia isso.Lisa permaneceu em silêncio, esperando que ela continuasse.— Eu estava com medo. Recebi aquelas mensagens anônimas e comecei a acreditar que, se mantivesse todo mundo longe, conseguiria impedir que as coisas piorassem. Achei que estava protegendo vocês, mas acabei tomando decisões por todo m
Na sala, a mãe de Maia entrou em casa cansada, deixando os próprios pertences de lado. Ao perceber a mochila e o celular da filha sobre a mesa, concluiu que ela já havia chegado.Preparava-se para chamá-la quando a tela do aparelho se acendeu.Uma notificação apareceu, fazendo-a hesitar.Ela não era o tipo de mãe que costumava invadir a privacidade da filha. Sempre acreditara que a confiança era construída com diálogo, não com controle. Ainda assim, havia dias em que percebia algo diferente em Maia.Os sorrisos estavam menores. As respostas, mais curtas. A tristeza, cada vez mais difícil de esconder.Preocupada, acabou pegando o celular e encontrou as mensagens anônimas que a filha vinha recebendo.Começou a ler uma após a outra, sentindo o coração apertar a cada palavra. As mensagens revelavam ameaças, pressões e o medo que alguém vinha colocando sobre os ombros de Maia.Quando terminou, permaneceu imóvel.Sua filha estava sofrendo havia tanto tempo, tentando proteger a mãe e as pess