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Capítulo 3 - Entre Troféus e Mensagens

Author: Müller
last update publish date: 2026-10-23 05:27:01

O som insistente do despertador ecoou pelo quarto enquanto raios dourados escapavam pela fresta da cortina. Maia apertou os olhos, tentando ignorar aquela sensação esquisita que pesava no peito. Era como se algo estivesse prestes a acontecer... e ela não sabia se isso a deixava animada ou nervosa.

Depois de uma noite gostosa ao lado da mãe — com risadas, filme velho e chocolate quente — o dia seguinte chegou com um tom diferente. roupinha casual ,espelho, cabelo solto com as ondas naturais... "Hoje vou fingir que não ligo pra nada", pensou.

Na escola, tudo parecia o mesmo, até...

— Lembrem-se, turma — disse o professor enquanto recolhia alguns papéis da mesa. — O trabalho em dupla que definimos ontem deve ser entregue até a próxima semana. Não deixem pra última hora.

Maia, que tentava se concentrar na matéria enquanto rabiscava discretamente em seu caderno, soltou um leve suspiro. Tinha se esquecido completamente da existência do tal trabalho. E claro, justo ela tinha que estar com o Ferraz.

Como se tivesse escutado seus pensamentos, Dante virou para trás em sua carteira e, com aquele sorrisinho carregado de ironia e provocação, disse:

— Vai querer fazer o trabalho onde, novata? Na biblioteca chata da escola ou... na minha casa?

Lisa, sentada ao lado de Maia, arregalou os olhos em silêncio, prestes a explodir por dentro. Já Maia apenas arqueou uma sobrancelha e respondeu com um tom ácido:

— Na sua casa? Você tá brincando, né?

— Tô falando sério — respondeu Dante, recostando-se de forma displicente. — Meus pais não estão quase nunca, a casa é tranquila e tem espaço de sobra. E funcionários pra tudo. Sem bagunça. Sem interrupções. Só nós dois… e o tédio do trabalho.

— Você realmente é convencido. — Maia cruzou os braços, pensativa por um instante. — Tudo bem. Eu só quero me livrar logo disso. Mas não pense que vou subir naquela sua moto.

Dante soltou uma risadinha baixa.

— Marrenta. Do jeito que eu gosto.

— Boa sorte tentando me conquistar — rebateu ela com um olhar desafiador.

— Não vou precisar de sorte — respondeu ele com aquele sorriso que escondia mais do que mostrava.

Maia apenas revirou os olhos.

Do outro lado da sala, Valentina observava com atenção. E a raiva silenciosa crescia no peito.

------------

Maia desceu do carro com um suspiro. Ela preferia ir a pé, mas Dante tinha insistido em pedir um motorista, já que ela se recusou a subir na moto dele mais uma vez.

Assim que o portão da mansão se abriu, Maia precisou controlar a expressão para não deixar transparecer seu deslumbramento. Era, definitivamente, A CASA. Imponente, moderna, de linhas amplas e com um jardim perfeitamente podado que parecia ter saído de uma revista de arquitetura.

Um dos funcionários a guiou até o interior da mansão. O lugar exalava luxo, mas também um vazio silencioso. Um lar frio e espaçoso demais para alguém da idade de Dante. E, de alguma forma, isso a fez sentir um leve aperto no peito.

Quando ele apareceu, desceu as escadas com a calma de quem mora num palácio.

— Bem-vinda, novata. Não esperava que viesse mesmo — disse ele, com um sorriso provocante.

— Eu disse que queria me livrar logo disso — respondeu seca. — Onde vamos fazer?

— Meu quarto é mais confortável. Antes que diga alguma coisa, relaxa. É só pra trabalhar — disse ele com um meio sorriso malicioso.

Maia seguiu Dante até o quarto dele, com passos cautelosos e expressão neutra. O ambiente tinha uma atmosfera estranhamente acolhedora — entre o caos charmoso e a estética impecável. Era como se cada detalhe tivesse sido moldado por ele mesmo: troféus de competições de luta, livros de suspense e filosofia, uma guitarra encostada ao lado da escrivaninha e um mural com algumas fotos antigas. Era o tipo de quarto que contava histórias... mas também escondia outras.

— Bonito o lugar — ela soltou, quase sem pensar, olhando ao redor.

— Imaginava que você ia dizer que era "Exagerado" — retrucou ele, com um sorrisinho torto.

— Continua sendo — respondeu na lata, arrancando uma risada baixa de Dante.

Eles se sentaram diante da escrivaninha. O clima ainda era denso, mas já menos cortante.

Durante a próxima hora, os dois mergulharam no conteúdo do trabalho. O tema, para a sorte de ambos, era interessante: “A influência dos mitos modernos nas decisões humanas”. Maia era rápida com as ideias e Dante, surpreendentemente, também. A discussão fluía. Em alguns momentos, ele desviava o olhar só para observá-la falar com tanta intensidade, o brilho nos olhos verdes dela quase hipnotizando.

— Você é bem diferente do que parece — ele soltou, de repente.

— Isso foi um elogio?

— Talvez.

Ela levantou uma sobrancelha, desconfiada.

— Tá tentando descobrir se pode gostar de mim agora, Ferraz?

— Pode ser que sim. Ou talvez eu já saiba que gosto e esteja só esperando você perceber que também gosta.

Maia bufou, desviando o olhar, disfarçando o calor que subia em seu rosto. Ele era impossível. E absurdamente encantador.

— Vou pegar uma água. Quer?

— Quero sim — disse, ainda sem olhar diretamente pra ele.

Dante se levantou devagar, como se quisesse permanecer só mais um segundo naquele espaço com ela. Quando saiu, Maia ficou sozinha no quarto. Por alguns instantes, ela observou o lugar com mais atenção. Havia algo triste ali. Luxuoso, bonito, cheio de vida... mas solitário. A ausência dos pais dele era gritante, mesmo não sendo dita em voz alta.

Ela caminhou distraída até a estante de troféus. Tocou de leve uma medalha de ouro. "Campeonato de Muay Thai Estadual." Uma pequena faísca de admiração cresceu dentro dela.

Mas então o celular de Dante, largado sobre a mesinha, vibrou.

Maia não queria ver. Mas olhou.

"Oi baby, estou com saudades. Imagino que você também. 💋 – Valentina"

Seu coração afundou no peito.

Claro. Como ela pôde esquecer com quem estava lidando? Dante Ferraz. O garoto que era o centro de todas as atenções. A mesma criatura sarcástica que andava com Valentina feito prêmio de status.

Como se um alarme soasse dentro dela, Maia começou a guardar suas coisas, o ar escapando dos pulmões com certo pesar.

Quando Dante voltou com os copos:

— Já vai?

— Já adiantei bastante coisa. Você pode terminar e me mandar. — A voz dela era cortante.

— Alguma coisa aconteceu?

— Nada que você não possa imaginar. — Ela evitou o olhar dele. — Obrigada pela água.

Antes que ele pudesse insistir ou questionar, Maia já estava cruzando a porta.

---

Maia chegou em casa com passos rápidos, o coração ainda pesado. Jogou a mochila no canto do quarto e afundou na cama, sem acender a luz. O silêncio da casa parecia acolhê-la, mas ao mesmo tempo fazia ecoar ainda mais os pensamentos que ela queria ignorar.

“Oi baby, estou com saudades.”

Aquela mensagem se repetia na cabeça dela como um disco arranhado. O rosto de Dante também — o sorriso torto, o olhar intenso, as provocações doces que, até poucos minutos atrás, estavam fazendo seu coração bater mais rápido do que deveria.

Mas agora tudo parecia mentira. Claro que era.

— Que tipo de garota eu sou, hein? — sussurrou para si mesma, com um riso sem graça. — Me deixando abalar por um garoto como ele... idi0ta.

Ela se virou na cama, abraçando o travesseiro como se aquilo pudesse conter o turbilhão dentro do peito. Sentia-se uma tola por ter acreditado, mesmo que por um segundo, que Dante poderia ser diferente. Por que ele a chamaria para fazer o trabalho na casa dele? Por que falaria daquele jeito, como se estivesse realmente interessado? Era só charme barato... ou pior, um jogo.

— Ele e Valentina se merecem — murmurou, com a voz embargada, mesmo que seu coração ainda relutasse em aceitar isso.

Maia fechou os olhos, determinada.

“Chega. Eu não vou cair nessa. Não por ele. Nunca por ele.”

Do outro lado da cidade, Dante encarava o teto do próprio quarto, deitado na beirada da cama. A luz do abajur iluminava o celular em sua mão, onde a mensagem de Valentina ainda estava aberta. Ele a relia sem emoção.

"Oi baby, estou com saudades. Imagino que você também."

Ele soltou um riso seco e digitou com rapidez:

"Tô ocupado."

Largou o celular com certo desprezo na mesinha ao lado e passou as mãos pelos cabelos castanho-claros, bagunçando-os com frustração. A cena de Maia saindo do quarto dele com aquele olhar magoado e frio não saía da cabeça.

— Droga... — murmurou.

Por mais que ele tivesse sentido uma pontinha de orgulho por provocar ciúmes nela, agora algo dentro dele incomodava. Porque, diferente das outras garotas, Maia não se deixava prender. Ela ia embora. Ela o desarmava sem dizer uma palavra. E isso o deixava completamente... intrigado.

E, pela primeira vez, Dante Ferraz sentiu que talvez estivesse perdendo o controle.

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