LOGINCapítulo 5 — Jogos e Máscaras
O dia seguinte chegou como um sopro abafado, carregando consigo uma mistura de confusão e sentimentos não ditos. Maia acordou cedo, com a lembrança do café ainda viva na memória. Vini havia sido insistente demais e, apesar de seu charme forçado, Maia sentia que ele escondia uma postura bem mais arrogante do que deixava transparecer. Por outro lado, Caio e Lisa pareciam ter criado uma conexão — mesmo que Lisa continuasse um pouco tímida demais para admitir isso em voz alta. Ao chegar ao colégio, Maia evitou o olhar de Dante no corredor. Ele parecia mais distante do que nunca, rindo alto com Valentina encostada em seu ombro, como se fossem o casal mais apaixonado da escola. Só que ela sabia que era fachada. Sentia isso. Mas, ainda assim, doía. Lisa se aproximou, tentando animá-la. — Você tá bem? — Tô, só tô focando em outras coisas. Dante não tem esse poder todo sobre mim. — Claro que não tem — Lisa respondeu com um sorriso, mesmo percebendo o quanto Maia estava mentindo para si mesma. Na aula, o clima era frio entre Maia e Dante. Nem uma troca de olhares. Nem um resmungo sarcástico. Nada. E isso parecia pior do que qualquer discussão. Enquanto a aula se arrastava, Maia tentava prestar atenção, mas não conseguia. Seus pensamentos estavam inquietos, sua mente dançava entre os olhares de Dante e as palavras de Vini na tarde anterior. O sinal tocou, e ela saiu rapidamente da sala, buscando um pouco de ar, só para dar de cara com Vini encostado em seu armário. — Oi, novata — disse ele, com um sorriso torto que mais parecia um desafio. — Cê tem um problema com nomes? Já falei que não sou sua novata. — Relaxa, é só meu jeito carinhoso de te chamar. — Ele se aproximou mais, e Maia cruzou os braços, já impaciente. — Tava pensando… que tal a gente sair? Eu, você… algo divertido. Você tem um quê de diferente que me deixou curioso. — Eu passo — respondeu ela, seca, já desviando o corpo para sair dali. Mas Vini segurou levemente o braço dela. — O que foi? Vai me dizer que tá esperando o Dante? Ele não tá interessado em ninguém, a não ser nele mesmo… e talvez na Valentina. Mas você já deve ter percebido isso, né? As palavras bateram como ácido, mas Maia manteve a postura firme. — E você tá achando que pode vir aqui com esse seu sorrisinho idiota e achar que eu vou cair na sua? Que graça você acha que tem ser o plano B de um idiota? — disse ela, firme, soltando-se do toque dele. Nesse momento, Dante surgiu no fim do corredor. Ele não ouviu tudo, mas viu a aproximação. Seus olhos gelaram ao ver Vini tão perto dela e perceber que Maia estava irritada. Ele deu dois passos em direção aos dois, mas parou. Respirou fundo e se virou, indo embora. Maia o viu de relance. E, por dentro… algo apertou. Ela ainda era só uma garota tentando fingir que não sentia nada. Mas a verdade é que, naquele corredor, o jogo havia virado. E os dois sabiam disso. Maia saiu daquele corredor com o peito em chamas. As palavras de Vini, o olhar de Dante… tudo parecia uma grande bagunça emocional que ela não queria — nem sabia — como lidar. Ela encontrou Lisa no pátio, sentada em um banco sob a sombra de uma árvore, folheando o caderno sem muita atenção. Quando a viu se aproximar, Lisa logo percebeu: alguma coisa não estava bem. — O que houve? — perguntou, ajeitando-se no banco para dar espaço à amiga. Maia suspirou fundo antes de se sentar. — Eu tô surtando por causa de um garoto. É isso que tá acontecendo. Lisa arqueou uma sobrancelha. — Vini? — Credo, não! — Maia fez uma careta. — Aquele babaca acha que o mundo gira em torno dele. Tentou me chamar pra sair hoje, acredita? — Ele o quê?! — Lisa quase deixou o caderno cair. — Esse garoto tem a autoestima de um imperador romano. — Pois é. E ainda teve a ousadia de sugerir que Dante não tá nem aí pra mim e que talvez eu devesse dar uma chance pra ele. Lisa bufou. — Macho é um negócio difícil de defender… Maia soltou uma risada fraca e depois ficou em silêncio por alguns segundos, até encarar as folhas verdes acima delas. — E o pior… é que, por mais idiota que Dante seja, eu odeio admitir que tem algo em mim que ainda quer ele. Mesmo quando ele tá lá, com a Valentina… fazendo questão de me lembrar disso. Lisa virou o corpo na direção dela, com um olhar carinhoso. — Você tá sentindo, né? — Eu não quero — disse Maia num sussurro, quase como se estivesse confessando algo proibido. — Eu juro que não quero. Ele não vale a pena. E, mesmo assim… ele mora aqui. — Tocou o próprio peito. — Feito uma praga. Lisa estendeu a mão e segurou a dela. — Tudo bem sentir. Mas não esquece quem você é. Se ele quiser entrar de verdade, vai ter que atravessar o muro que você ergueu. E fazer por merecer. Maia sorriu, mas seus olhos ainda estavam melancólicos. — Eu só queria não sentir nada. Ia ser tão mais fácil. — Mas aí não seria você, Maia — disse Lisa, com firmeza. — E olha, mesmo ele sendo um babaca às vezes… é impossível não ver o jeito que ele olha pra você. E, por um momento, o coração de Maia oscilou entre a raiva e a esperança. Mas, no fim, ela apenas respirou fundo. Ela ainda estava aprendendo a sobreviver nesse campo de batalha chamado coração. Maia se recostou no banco, deixando a cabeça pender para trás. Fechou os olhos por um instante, como se quisesse pausar o mundo. Lisa ficou em silêncio, respeitando o tempo da amiga. Às vezes, não era preciso falar muito — bastava estar ali. — Você acha que eu sou boba por estar me deixando afetar por ele? — perguntou Maia, sem abrir os olhos. — Não. Eu acho que você é humana. E corajosa. Porque, mesmo com medo, você não finge que não sente. Isso te torna mais forte do que imagina. Maia virou o rosto, olhando para Lisa com ternura. — Obrigada por estar aqui. — Sempre, bobona — brincou Lisa, empurrando de leve o ombro dela. As duas riram e, por um momento, a dor pareceu mais leve. O toque da amizade servia como âncora quando tudo ameaçava desmoronar. — Vamos embora? — perguntou Lisa, já se levantando. — Vamos — assentiu Maia, pondo-se de pé. Enquanto caminhavam juntas pelo pátio, os últimos raios do sol banhavam o colégio com uma luz dourada, quase mágica. Maia ainda sentia o coração apertado, mas sabia que, com Lisa por perto, podia seguir. Mesmo em pedaços. Do outro lado da escola, atrás da biblioteca, Dante observava de longe. Não ouvira o que fora dito, mas bastou olhar para o jeito como Maia abaixou a cabeça e como Lisa a abraçou para saber que tinha feito alguma coisa errada. De novo. Ele bufou, encostando-se à parede, frustrado consigo mesmo. Por que ela? Por que logo ela tinha que fazer o coração dele querer algo de que ele sempre fugiu? E por que… mesmo tentando se afastar, ele ainda não conseguia parar de olhar? Dante passou a mão pelos cabelos, inquieto. Aquele nó no peito não era raiva. Era medo. Medo de se importar. Medo de que Maia o enxergasse de verdade — e talvez não gostasse do que visse. E ali, entre despedidas silenciosas e promessas não ditas, os dois seguiam tentando fingir que não se importavam. Quando, na verdade… estavam apenas fazendo de tudo para sobreviver ao próprio sentimento.Os dias que se seguiram foram diferentes de tudo o que Maia e Dante haviam vivido até ali.Depois de tantas lágrimas, desentendimentos e verdades dolorosas, finalmente parecia que o mundo havia decidido dar uma trégua aos dois.Não significava que todas as feridas haviam desaparecido de uma hora para outra. Algumas ainda precisavam de tempo, de conversas sinceras e, principalmente, de atitudes. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eles estavam dispostos a enfrentar tudo juntos.Dante não perdeu mais nenhuma oportunidade de demonstrar o quanto Maia era importante para ele. As mensagens de bom-dia voltaram a fazer parte da rotina, assim como as ligações demoradas, as brincadeiras bobas e os encontros que sempre terminavam com a promessa de que logo estariam juntos novamente.Maia, por sua vez, aprendeu que não precisava carregar todos os problemas sozinha. Que amar alguém também significava confiar, permitir que essa pessoa conhecesse suas inseguranças e aceitar que nem sempre precisa
Dessa vez, não fugiria da conversa. Contaria toda a verdade, assumiria seus erros e faria o que fosse necessário para tentar consertar as coisas. Foi Sabrina quem abriu a porta. — Dante? — Bom dia, senhora Sabrina. A Maia está? A mulher observou o rapaz por alguns segundos. Conhecia aquela expressão. Havia sofrimento nos olhos dele, mas também uma determinação que não passava despercebida. — Está, sim. Pode entrar, querido. Dante agradeceu e entrou, encontrando Maia na sala. Assim que o viu, ela ficou imóvel por um instante, surpresa com a presença dele. Os dois se encararam, e toda a saudade que tentavam esconder pareceu ocupar o espaço entre eles. — Dante? O que você está fazendo aqui? — Preciso conversar com você. Sobre tudo. Maia hesitou, mas concordou com a cabeça. Sabrina, percebendo que os dois precisavam de privacidade, inventou uma desculpa para deixá-los sozinhos. Dante se aproximou do sofá, mas permaneceu em pé, sem saber exatamente como começar. — Eu descobri
Dante ficou imóvel, encarando a mãe como se estivesse esperando que ela desmentisse aquelas palavras. — Você fez o quê? A pergunta saiu baixa, quase num sussurro, mas a expressão em seu rosto deixou claro que ele estava longe de estar calmo. A mãe começou a chorar novamente. — Eu sei que errei, filho. Mas, por favor, me deixa explicar... — Explicar o quê, mãe? Que você se aliou à Valentina para destruir o meu relacionamento? — Não foi exatamente assim... — Então como foi? Porque, até onde eu entendi, você decidiu que a Maia não era boa o suficiente para mim e resolveu acabar com tudo antes mesmo de me dar a oportunidade de escolher! Dante se afastou, passando as mãos pelos cabelos. Era difícil acreditar que aquela mulher, que poucos minutos antes chorava por causa da traição do marido, também fosse responsável por parte do sofrimento que ele e Maia estavam enfrentando. A mãe respirou fundo, tentando encontrar as palavras. — Eu mandei as mensagens ameaçando a Maia para que el
Dante passou a noite inteira pensando em Maia.Por mais que tentasse se distrair, sua mente sempre encontrava um caminho de volta até ela. Lembrava-se de cada palavra trocada, de cada olhar magoado e de tudo o que havia acontecido nos últimos dias. Queria procurá-la, abraçá-la e pedir que os dois encontrassem uma maneira de resolver aquela situação, mas a mágoa ainda pesava em seu peito.Ele sentia falta dela. Mais do que gostaria de admitir.O problema era que, além de estar magoado, Dante também estava preocupado. As ameaças que Maia vinha recebendo não saíam de sua cabeça. Alguém estava tentando assustá-la, e ele precisava descobrir quem era e por quê.Quem poderia querer fazer tanto mal a ela?Virou-se na cama, pegou o celular e abriu a conversa dos dois. Ficou alguns segundos olhando para a tela, tentado a mandar uma mensagem, mas acabou desistindo. Não sabia se Maia queria falar com ele, e a possibilidade de ser recebido com o mesmo silêncio que vinha tentando suportar o fez des
Maia chegou à escola naquela manhã decidida a mudar as coisas.Depois da conversa com a mãe, compreendeu que não poderia continuar fugindo das pessoas que amava sob a desculpa de estar protegendo-as. Ainda tinha medo das consequências, mas estava cansada de carregar tudo sozinha.A primeira pessoa que precisava procurar era Lisa.Encontrou a amiga perto da sala de aula e esperou até que ela ficasse sozinha antes de se aproximar.— Lisa, a gente pode conversar?A amiga assentiu, e as duas caminharam até um lugar mais tranquilo.Maia entrelaçou os dedos, tentando organizar os pensamentos.— Eu queria te pedir desculpas. Sei que te magoei quando me afastei sem explicar nada, e você não merecia isso.Lisa permaneceu em silêncio, esperando que ela continuasse.— Eu estava com medo. Recebi aquelas mensagens anônimas e comecei a acreditar que, se mantivesse todo mundo longe, conseguiria impedir que as coisas piorassem. Achei que estava protegendo vocês, mas acabei tomando decisões por todo m
Na sala, a mãe de Maia entrou em casa cansada, deixando os próprios pertences de lado. Ao perceber a mochila e o celular da filha sobre a mesa, concluiu que ela já havia chegado.Preparava-se para chamá-la quando a tela do aparelho se acendeu.Uma notificação apareceu, fazendo-a hesitar.Ela não era o tipo de mãe que costumava invadir a privacidade da filha. Sempre acreditara que a confiança era construída com diálogo, não com controle. Ainda assim, havia dias em que percebia algo diferente em Maia.Os sorrisos estavam menores. As respostas, mais curtas. A tristeza, cada vez mais difícil de esconder.Preocupada, acabou pegando o celular e encontrou as mensagens anônimas que a filha vinha recebendo.Começou a ler uma após a outra, sentindo o coração apertar a cada palavra. As mensagens revelavam ameaças, pressões e o medo que alguém vinha colocando sobre os ombros de Maia.Quando terminou, permaneceu imóvel.Sua filha estava sofrendo havia tanto tempo, tentando proteger a mãe e as pess