LOGINManhã de domingo:
O ônibus deixou Uruaçu para trás.
Gaby continuou olhando pela janela por algum tempo, embora já não houvesse nada para ver além da estrada.
A paisagem passava diante de seus olhos sem que realmente a enxergasse.
Agora não havia Fred para distraí-la com uma piada. Não havia malas para arrumar nem ônibus para procurar. Não havia mais nada a fazer
Dois dias depois, Jane descobriu que algumas cenas continuavam produzindo efeitos muito depois de terminarem.— Seu pai quer falar com você no escritório.Jane ergueu os olhos.A empregada já se afastava quando ela perguntou:— Agora?— Agora.Jane fechou a revista que estava lendo e se levantou.Desde o fim de semana, praticamente não saíra de casa.Não porque estivesse arrependida.A pequena marca na testa já começava a mudar de cor, embora ainda doesse quando tocava nela.Beto também não a procurara.Isso a incomodava mais do que gostaria de admitir.Desceu as escadas e caminhou até o escritório do pai.Quando abriu a porta, encontrou Luiz Gustavo sentado em uma das poltronas.Parou.O irmão ergueu os olhos para ela, mas não disse nada.O pai estava atrás da mesa.Sério.— Fecha a porta, Jane.Ela obedeceu.— O que foi?— Senta.Jane olhou novamente para Luiz Gustavo antes de ocupar a outra poltrona.O pai permaneceu alguns segundos em silêncio.— Eu fiquei sabendo do que você fez.
Manhã de segunda-feira:Fred tentou ligar para Gaby outra vez.A chamada não completou.Ficou olhando para a tela por alguns segundos.Desde que a deixara na rodoviária de Uruaçu, esperava alguma notícia.Qualquer coisa.Um “cheguei”.Um “estou bem”.Até um “me deixa em paz” serviria.Mas Gaby não tinha ligado.Quando a vira entrar sozinha naquele ônibus, sabia que ela tinha uma boa quantia de dinheiro. Sabia que era inteligente. Sabia que conseguia se virar.Naquele momento, tudo isso parecera suficiente.Agora já não tinha tanta certeza.Não porque duvidasse dela.Mas porque fora ele quem a ajudara a partir.E fora ele quem escolhera guardar silêncio.A conversa com Beto só piorara a sensação.Seu Ivan pr
Fim da tarde de domingo:Beto encontrou Fred encostado no carro, olhando alguma coisa no celular. Assim que percebeu a aproximação do amigo, Fred guardou o aparelho no bolso.Não sorriu.Beto notou.— Preciso falar com você.Fred cruzou os braços.— Fala.— Aqui?— Você veio até aqui.Beto respirou fundo.Desde que acordara, parecia que todas as pessoas de Minaçu haviam decidido julgá-lo.Os pais.Os pais de Gaby.Cida.Flávia.Até gente com quem mal conversava.Agora Fred.— Você soube do que aconteceu, né?Fred o encarou.— Acho que a cidade inteira soube.— Não precisa falar assim.— Assim como?Beto passou a mão pelos cabelos.— Parece que todo
Manhã de domingo:O ônibus deixou Uruaçu para trás.Gaby continuou olhando pela janela por algum tempo, embora já não houvesse nada para ver além da estrada.A paisagem passava diante de seus olhos sem que realmente a enxergasse.Agora não havia Fred para distraí-la com uma piada. Não havia malas para arrumar nem ônibus para procurar. Não havia mais nada a fazer.Só pensar.E era justamente o que Gaby não queria.Fechou os olhos.Imediatamente viu Beto e Jane outra vez.Abriu-os.A imagem continuava lá.Tentou se concentrar na estrada.Não conseguiu.Como não percebera?A pergunta surgiu pela primeira vez e trouxe outras atrás dela.Lembrou-se das vezes em que Cida e Flávia haviam falado sobre Jane.Dos olhares.Da
— Para onde ela foi?— Não sabemos.— Como não sabem?— Porque ela não disse.Antes que Beto pudesse responder, o som de um carro entrando na garagem fez Glória olhar para fora.Os dois se viraram.Ivan havia voltado.Bastou olhar para o rosto dele para saber que não havia encontrado Gaby.Glória foi até a porta.— Ivan?Ele balançou a cabeça.— Nada.Beto saiu alguns passos em sua direção.— Padrinho, onde o senhor procurou?Ivan fechou a porta do carro e o encarou.A expressão mudou ao perceber quem estava ali.— O que você está fazendo aqui?— Procurando a Gaby.Ivan soltou uma respiração pesada.— Pois entre na fila.Passou por ele e entrou em casa.— Fui novamente à casa de Cida e Flávia. Nenhuma das duas teve notícias dela. Rodei mais alguns lugares e passei pela rodoviária.Beto se virou rapidamente.— E?— Houve troca de turno. O funcionário que estava lá tinha começado havia pouco mais de meia hora. Disse que não viu Gaby durante o turno dele.— E o funcionário de antes?— Já
Domingo de manhã:Beto praticamente não dormiu.Quando conseguia fechar os olhos, a cena voltava.Gaby entrando no banheiro.O grito.O vidro se espatifando.O colar arrancado do pescoço.E aquelas três palavras.Eu te odeio.Precisava falar com ela.Explicar.Pedir desculpas.Ele fizera merda. Sabia disso.Mas não deixara de amar Gaby.Jane fora somente sexo.Gaby era diferente. Era com ela que imaginava se casar, construir uma família, passar o resto da vida. Tinham crescido ouvindo que ficariam juntos e, até poucas horas antes, preparavam-se para anunciar o noivado.Gaby quisera esperar até o casamento, e Beto respeitara sua decisão.Isso, porém, nunca significara, em sua cabeça, que ele também precisasse esperar.As outras coisas eram... outras coisas.Talvez fosse uma lógica absurda para Gaby.Para ele, até aquela noite, funcionara.Pegou o celular e ligou novamente.Chamou até cair na caixa postal.Nada.Ela estava com raiva. Tinha razão.Mas a raiva passaria.Tinham brigado ant







