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Episódio 3: A Primeira Fissura

last update Petsa ng paglalathala: 2026-09-16 21:58:56

Alguns anos haviam se passado desde a chegada de Jane a Minaçu.

Gaby agora tinha dezessete anos. Beto, dezenove.

O casamento prometido desde a infância deixara de parecer uma história distante contada pelas famílias. Dentro de oito meses, quando Gaby completasse dezoito anos, os dois ficariam oficialmente noivos.

Mas outra mudança já havia alterado a rotina do casal.

Beto deixara Minaçu para cursar Ciências Contábeis em Uruaçu. Durante a semana, ficava fora. Às sextas-feiras, voltava para casa.

Fred, praticamente da idade de Beto, também havia partido para estudar Agronomia em Brasília e, assim como o amigo, costumava retornar nos fins de semana.

Para Gaby, aquelas sextas-feiras haviam se transformado em pequenos reencontros.

Naquela, não foi diferente.

Assim que ouviu o carro parar na casa ao lado, correu até a janela.

Beto mal havia fechado a porta quando ela saiu.

— Até que enfim!

Ele abriu os braços.

— Estava com saudade também.

Gaby se jogou no abraço dele.

— Você demorou.

— A estrada estava uma porcaria.

— Você sempre tem uma desculpa.

— E você sempre reclama antes de me dar um beijo.

Ela sorriu.

— Talvez porque você mereça.

Beto se inclinou para beijá-la, mas Gaby virou o rosto no último instante.

— Ah, é assim?

— É.

— Então tá.

Ele fingiu voltar para casa.

— Beto!

— Ué. Não quer me beijar.

— Idiota.

Gaby segurou sua camisa e o puxou de volta.

Era assim entre eles: brigas que não eram brigas, provocações, ciúmes pequenos e planos enormes.

Beto fazia parte da vida dela havia tanto tempo que Gaby não conseguia separar as lembranças em duas categorias: as que tinham Beto e as que não tinham.

Ele simplesmente estava lá. Sempre estivera.

Na casa ao lado, nas brincadeiras da infância, nos almoços em família, nas festas, nos fins de semana.

E, agora que passava a semana em outra cidade, Gaby sentia sua ausência de um jeito que nunca havia precisado sentir antes.

— O que vamos fazer amanhã? — perguntou.

— Não sei ainda.

— Beto...

— O quê?

— Você passa a semana inteira fora e chega sem saber o que vai fazer comigo?

— Com você eu já sei. O problema é saber o resto.

— Que resto?

Beto riu.

— Interrogatório agora?

— Só perguntei.

— Amanhã a gente sai. Prometo.

Ele lhe deu outro beijo.

— Está melhor?

— Um pouco.

— Difícil agradar você.

— Então pode procurar outra.

A frase saiu em tom de brincadeira.

Mas Beto desviou os olhos por uma fração de segundo.

Tão rápido que Gaby não percebeu.

***

Fred apareceu pouco depois.

Os dois amigos conversavam quando Jane passou do outro lado da rua acompanhada do irmão, Luiz Gustavo.

Fred interrompeu o que dizia por um instante. Seus olhos acompanharam Jane.

Beto percebeu.

— Ah...

Fred voltou-se para ele.

— O quê?

— Nada.

— Então para de olhar com essa cara.

Beto abriu um sorriso.

— Jane?

Fred deu de ombros.

— O que tem ela?

— Você é que está olhando.

— Não posso olhar?

— Pode. Só não costuma olhar duas vezes.

Fred riu.

— Agora você fica contando?

— Quando é tão óbvio, nem precisa.

Fred tornou a olhar para o outro lado da rua. Jane e Luiz Gustavo já estavam mais distantes.

— Acho ela interessante.

Beto arqueou as sobrancelhas.

— Interessante?

— É.

— Essa é nova.

— O quê?

— Você achar uma garota “interessante”.

— Vai começar?

— Estou tentando entender.

Fred riu.

— Não tem nada para entender.

— Tem, sim. Se fosse só para ficar com ela, você já teria tentado.

Dessa vez, Fred não respondeu imediatamente.

E foi justamente o silêncio que chamou a atenção de Beto.

Conhecia o amigo havia tempo demais. Fred gostava de garotas, saía, se divertia, mas nunca parecia interessado em transformar uma conquista em alguma coisa maior. Não fazia promessas e tampouco parecia procurar alguém para fazê-las.

Talvez por isso Beto tivesse percebido antes mesmo que Fred admitisse.

— Você está gostando dela.

Fred soltou uma risada.

— Também não exagera.

— Estou errado?

— Eu disse que acho ela interessante.

— Você nunca acha ninguém interessante. Acha bonita. Divertida. Interessante é novidade.

Fred balançou a cabeça, divertido.

— Agora virou especialista em mim?

— Não precisa ser especialista. Só precisa te conhecer.

Fred ficou alguns segundos em silêncio.

— Ela é diferente.

Beto tornou a olhar na direção de Jane.

Não via nada de extraordinário. Era bonita, segura e um pouco arrogante, talvez. Mas não entendia o que havia nela para fazer Fred, justamente Fred, pensar duas vezes.

— Diferente como?

— Não sei ainda.

Ainda.

Beto reparou na palavra. Fred pretendia descobrir.

Por alguma razão, aquilo provocou nele um incômodo pequeno e difícil de justificar.

— Então vai atrás.

— Talvez.

— Talvez? Está com medo de levar um fora?

Fred riu.

— Não. Só não sei ainda o que quero fazer.

Beto arqueou uma sobrancelha.

— Você realmente está diferente.

— Para de inventar coisa.

— Não estou inventando nada.

Fred balançou a cabeça, ainda sorrindo.

— Esquece isso.

— Está bem.

Beto deixou o assunto morrer.

Mas, quando tornou a olhar para Jane ao longe, já não a viu exatamente da mesma maneira.

***

A oportunidade de Fred se aproximar surgiu poucos dias depois.

Gaby estava com Jane, Flávia e Cida quando Beto e Fred chegaram.

— Oi — Beto cumprimentou, aproximando-se de Gaby.

Fred veio logo atrás.

Gaby percebeu quando ele olhou para Jane. Lembrou-se do primeiro encontro dos dois, diante da escola, e sorriu.

— Jane, você já conhece o Fred direito?

Fred lançou um olhar de advertência para Gaby.

Ela fingiu não perceber.

Jane deu de ombros.

— Já vi algumas vezes.

— “Já viu”? — Fred repetiu, levando a mão ao peito. — Depois de tantos encontros pelos corredores desta cidade, sou apenas alguém que ela já viu.

Cida riu. Flávia também.

Jane, não.

— Minaçu é pequena. A gente vê todo mundo várias vezes.

Fred sustentou o sorriso.

— Isso foi quase uma declaração.

— De quê?

— Ainda estou tentando descobrir.

Beto riu.

Jane encarou Fred por alguns segundos.

— Você sempre faz piada de tudo?

— Quase tudo.

— Deve ser cansativo.

O sorriso dele diminuiu.

Gaby sentiu o clima mudar.

— Fred é assim — tentou explicar. — Ele gosta de fazer todo mundo rir.

— Percebi.

Jane ajeitou a mochila no ombro.

— Vamos?

A pergunta foi dirigida às meninas.

— Já? — Gaby perguntou.

— Tenho coisas para fazer.

Jane se despediu e saiu.

Fred acompanhou-a com os olhos.

Beto esperou que ela se afastasse.

— Acho que você causou uma ótima impressão.

— Cala a boca.

Gaby olhou de um para o outro.

— O que está acontecendo?

— Nada — Fred respondeu depressa.

Beto abriu um sorriso.

— Nosso amigo...

Fred segurou o braço dele.

— Nem termina.

— Está bem.

Gaby estreitou os olhos.

— Vocês estão muito estranhos.

— Nós sempre fomos — Fred respondeu.

E, dessa vez, conseguiu fazê-la rir.

Mas não voltou a olhar para Jane.

***

Beto e Fred se despediram pouco depois.

Flávia esperou os dois se afastarem antes de olhar na direção em que Jane havia desaparecido.

— Não sei o que ele vê nela.

Gaby virou-se para a amiga.

— Quem?

— O Fred.

Cida soltou uma risadinha.

— Você entendeu muito rápido que ele estava interessado.

Flávia lançou um olhar para ela.

— Todo mundo entendeu.

— Sei.

— Cida...

Gaby riu.

— Mas por que você está falando isso?

Flávia tornou a olhar na direção em que Jane havia seguido.

— Porque tem alguma coisa nela que não me convence.

— Também acho — Cida concordou.

Gaby olhou para as duas.

— Vocês implicam com a Jane desde que ela chegou.

— Não é implicância — Flávia respondeu.

— Então é o quê?

Cida deu de ombros.

— Não sei explicar. Às vezes acho ela meio falsa.

— Falsa por quê?

— Eu disse que não sei explicar.

— Então pronto.

Flávia balançou a cabeça.

— Você confia muito fácil nas pessoas, Gaby.

— E vocês desconfiam muito fácil.

— Talvez.

Gaby sorriu.

— Então uma coisa compensa a outra.

Para ela, o assunto estava encerrado.

Para Flávia e Cida, não.

.................................

💬 NOTA DA AUTORA

Às vezes, a primeira fissura aparece em detalhes tão pequenos que a gente nem percebe. 👀

Gaby não viu nada demais. Mas vocês viram?

Qual personagem deixou vocês mais desconfiados neste capítulo?

Se gostou, deixe seu like. ❤️

Nos vemos no próximo capítulo!

Nelma de Paula

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