Home / Romance / Prometida ao Homem Errado / Episódio 4: O Que Gaby Não Sabe

Share

Episódio 4: O Que Gaby Não Sabe

last update publish date: 2026-09-16 22:04:20

Naquela noite, Beto encontrou Fred mais quieto do que o normal.

— Vai desistir?

— De quê?

— Da Jane.

— Não tem nada para desistir.

— Você gostou dela.

Fred soltou o ar.

— Gostei.

Era a primeira vez que admitia aquilo sem tentar transformar em brincadeira.

— Então pronto.

— “Pronto” o quê?

— Vai atrás.

Fred balançou a cabeça.

— Você viu como ela me tratou.

— Jane trata todo mundo daquele jeito.

— Com você, não.

Beto franziu a testa.

— O que eu tenho a ver com isso?

— Nada. Só estou dizendo que ela não parece muito interessada em mim.

— E vai desistir porque ela fez uma gracinha?

— Não estou acostumado a correr atrás de quem olha para mim como se eu estivesse atrapalhando a paisagem.

Beto riu.

— Seu orgulho é enorme.

— E muito bem cuidado.

— Talvez ela esteja fazendo charme.

Fred deu de ombros.

— Talvez.

— Quer que eu dê uma força?

— Não.

— Posso conversar com ela.

— Beto...

— O quê?

— Se algum dia eu quiser alguma coisa com Jane, resolvo sozinho.

Beto ergueu as mãos.

— Está bem.

Fred ficou alguns segundos em silêncio.

Beto abriu um sorriso.

— Sabia.

— Não espalha.

— Por que eu espalharia?

Fred encarou o amigo.

— Porque você não consegue guardar segredo.

— Consigo, sim.

— Desde quando?

— Desde que o segredo seja importante.

Fred riu.

— Então estou ferrado.

Beto empurrou o amigo pelo ombro.

— Relaxa. Não vou contar para ninguém.

E Fred acreditou.

***

Beto, porém, também tinha segredos.

A distância que fazia Gaby contar as horas para as sextas-feiras dera a ele uma liberdade que nunca tivera enquanto os dois viviam praticamente porta com porta.

Em Minaçu, era difícil dar um passo sem que alguém soubesse. A cidade conhecia sua família, conhecia a de Gaby e, principalmente, conhecia a promessa. Qualquer garota que se aproximasse demais podia virar comentário; qualquer comentário podia chegar aos pais e, dali, inevitavelmente a ela.

Uruaçu havia mudado essa dinâmica.

Lá, Beto era apenas mais um universitário. Não o filho de Alice. Não o vizinho de Glória. Não o rapaz prometido desde criança à menina da casa ao lado.

E ele começava a descobrir que havia uma diferença enorme entre acreditar que Gaby seria sua esposa algum dia e se comportar como se já tivesse feito uma escolha definitiva.

Mesmo nos fins de semana, nem todas as noites de Beto terminavam depois que ele se despedia dela.

Às vezes, começavam ali.

Depois de passar parte do sábado com Gaby, encontrava os amigos e, quando queria prolongar a noite longe dos olhos conhecidos de Minaçu, seguia para Campinaçu, a cerca de sessenta e quatro quilômetros dali.

Fred muitas vezes ia junto.

A diferença entre os dois era simples: Fred estava livre. Não tinha namorada, não devia fidelidade a ninguém e podia aproveitar a noite como quisesse.

Beto, não.

E Fred fazia questão de lembrá-lo disso.

— Você ainda vai se dar mal — avisou certa vez.

— Para de ser moralista.

Fred soltou uma risada.

— Moralista? Eu estou aqui com você.

— Então qual é o problema?

— O problema é que eu estou solteiro. Você não.

Beto fez pouco caso.

— Minaçu é pequena demais. Todo mundo sabe da vida de todo mundo.

— Por isso você vem para Campinaçu.

— Exatamente.

— Campinaçu não fica do outro lado do mundo.

— Aqui ninguém está vendo.

— Gaby confiaria em você mesmo se estivesse.

Beto ficou sério.

— Não mete a Gaby nisso.

— Você é que está metendo.

— Eu gosto dela.

Fred soltou uma risada desacreditada.

— Tem um jeito estranho de demonstrar.

Beto encarou o amigo.

— Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

— Para você.

Beto ficou em silêncio.

— Eu vou casar com a Gaby.

Fred balançou a cabeça.

— Então talvez devesse começar a lembrar disso antes do casamento.

Beto não respondeu.

Para ele, as duas coisas realmente pareciam ocupar lugares diferentes.

Gaby era sua namorada. Sua prometida. A garota com quem crescera e com quem imaginava formar uma família.

As outras não significavam nada.

E talvez justamente por ter tanta certeza de que Gaby faria parte de seu futuro, Beto não sentisse medo suficiente de perdê-la.

***

Jane começou a descobrir algumas coisas quase sem esforço.

Luiz Gustavo havia feito amizade com os rapazes da cidade. Beto e Fred estavam entre eles. E bastava ouvir.

Uma cidade pequena tinha essa vantagem: ninguém precisava procurar muito por informação.

Ela circulava.

Numa noite, Jane encontrou o irmão se arrumando para sair.

— Vai aonde?

— Encontrar o pessoal.

— Quem?

— Beto, Fred... uns amigos.

— Aqui?

— Primeiro.

Jane apoiou-se na porta.

— Primeiro?

Luiz Gustavo olhou para ela.

— Por que o interesse?

— Curiosidade.

— Desde quando você está curiosa sobre meus amigos?

— Desde que não tenho nada melhor para fazer nesta cidade.

Ele riu.

— Talvez a gente vá para Campinaçu depois.

Jane guardou a informação.

— Beto também?

— Talvez.

— Gaby vai?

Luiz Gustavo parou.

— Por que Gaby iria?

— Ela é namorada dele.

— Justamente.

Jane franziu a testa.

— Não entendi.

— E nem precisa.

— Luiz.

— Jane.

Ela cruzou os braços.

— O que eles vão fazer em Campinaçu?

— Sair.

— Com as namoradas?

— Já disse que Gaby não vai.

— Então com quem?

Luiz Gustavo soltou uma risada.

— Você pergunta demais.

— E você está escondendo alguma coisa.

— Não estou escondendo nada. Só não vou me meter na vida dos outros.

Jane sorriu lentamente.

Não precisava mais perguntar. A resposta estava na cara do irmão.

Beto ia para Campinaçu.

Gaby, não.

E havia alguma coisa acontecendo por lá que Luiz Gustavo não queria contar.

Jane só precisava descobrir o quê.

***

Na segunda-feira, na escola, Jane encontrou Gaby radiante.

— Você e Beto saíram no sábado?

— Saímos.

— Ficaram juntos até tarde?

— Não. Depois ele foi encontrar os amigos.

Jane disfarçou o interesse.

— E você não se incomoda?

— Com o quê?

— Ele passar a semana fora e ainda sair com os amigos quando volta.

Gaby riu.

— Claro que não. Ele não tem que ficar grudado em mim o fim de semana inteiro.

Jane observou a tranquilidade com que ela respondeu.

— Você está estranha — Gaby disse.

— Estou pensando.

— Isso é perigoso.

Jane riu.

— Muito.

— Gaby!

A voz de Cida interrompeu a conversa. Ela se aproximava acompanhada de Flávia e, assim que chegou, segurou Gaby pelo braço.

— Vem comigo. Quero te mostrar uma coisa.

— Agora?

— Agora.

Gaby riu da urgência da amiga.

— Já volto.

As duas começaram a se afastar, mas Flávia permaneceu.

— Jane.

— Flávia.

— Você faz isso de propósito?

Jane ergueu as sobrancelhas.

— Faço o quê?

— J**a uma coisa no ar e depois finge que não disse nada.

Jane sorriu de leve.

— Não sei do que você está falando.

— Sabe, sim.

— Se a Gaby não se incomodou, por que você está se incomodando?

Flávia estreitou os olhos.

— Porque eu conheço a Gaby.

— Eu também.

— Não como eu.

— Flávia! — Gaby chamou, alguns passos adiante.

Flávia sustentou o olhar de Jane por mais um instante.

— Estou indo.

E alcançou as amigas.

Jane ficou para trás.

Ainda não sabia exatamente o que havia por trás das viagens de Beto a Campinaçu.

Mas agora sabia duas coisas: Gaby confiava nele o bastante para não fazer perguntas, e Flávia prestava atenção demais para deixar passar qualquer pergunta que Jane fizesse.

Se quisesse descobrir o restante, teria de ser mais cuidadosa.

..................................

💬 NOTA DA AUTORA

Acho que Beto acaba de nos apresentar uma versão amorosa daquela velha comparação: “igual geladeira — você nem precisa olhar para saber que continua lá.” 😂

Para ele, o futuro já está decidido: vai se casar com Gaby. Talvez seja justamente essa certeza que o faça acreditar que pode viver outras coisas sem perdê-la.

E vocês: é imaturidade, confiança demais no amor de Gaby... ou Beto já não tem desculpa? 👀

Se gostou do capítulo, deixe seu like/voto. ❤️

Nos vemos no próximo capítulo!

Nelma de Paula

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Prometida ao Homem Errado   Episódio 6: A Dúvida

    Beto afastou a garota depressa.— Gaby!Ela se virou.— Gaby, espera!Beto se levantou tão rápido que quase derrubou a garota, mas Gaby já começava a se afastar.Depois, a correr.— Gaby!As lágrimas já lhe impediam de enxergar direito. Ouviu passos atrás de si.— Espera! Eu posso explicar!Ela não queria explicação. Não queria ouvir a voz dele, muito menos olhar para ele.— Gaby!Outra voz se juntou à de Beto.Fred.Ela parou e se virou.Beto vinha alguns passos à frente. Fred estava logo atrás.E alguma coisa se encaixou dentro dela.Fred.Campinaçu.As noites em que os dois saíam juntos.Gaby olhou diretamente para ele.— Você sabia?Fred hesitou.Foi o bastante.Gaby voltou-se para Beto.— Gaby, olha para mim — ele pediu, aproximando-se. — Eu posso explicar.— Não encosta em mim!Beto parou.— Não é o que você está pensando.Gaby o encarou, incrédula, antes de olhar novamente para Fred.Seu namorado havia acabado de beijar outra garota. Seu amigo de infância sabia que aquilo acont

  • Prometida ao Homem Errado   Episódio 5: O Flagrante

    Na segunda-feira na escola, Jane encontrou Gaby radiante.— Você e Beto saíram no sábado?— Saímos.— Ficaram juntos até tarde?— Não. Depois ele foi encontrar os amigos.Jane fingiu desinteresse.— E você não se incomoda?— Com o quê?— Ele passar a semana fora e ainda sair com os amigos quando volta.Gaby riu.— Claro que não. Ele não tem que ficar grudado em mim o fim de semana inteiro.Jane estudou seu rosto.Gaby realmente não desconfiava.— Você está estranha.— Estou pensando.— Isso é perigoso.Jane riu.— Muito.— Gaby.A voz de Cida interrompeu a conversa.Ela se aproximava acompanhada de Flávia e lançou um olhar rápido para Jane antes de segurar Gaby pelo braço.— Vem comigo. Quero te mostrar uma coisa.— Agora?— Agora.Gaby riu da urgência da amiga.— Já volto.As duas começaram a se afastar, mas Flávia permaneceu por um instante.— Jane.— Flávia.— Você faz isso de propósito?Jane ergueu as sobrancelhas.— Faço o quê?— Joga uma coisa no ar e depois finge que não disse

  • Prometida ao Homem Errado   Episódio 4: O Que Gaby Não Sabe

    Naquela noite, Beto encontrou Fred mais quieto do que o normal.— Vai desistir?— De quê?— Da Jane.— Não tem nada para desistir.— Você gostou dela.Fred soltou o ar.— Gostei.Era a primeira vez que admitia aquilo sem tentar transformar em brincadeira.— Então pronto.— “Pronto” o quê?— Vai atrás.Fred balançou a cabeça.— Você viu como ela me tratou.— Jane trata todo mundo daquele jeito.— Com você, não.Beto franziu a testa.— O que eu tenho a ver com isso?— Nada. Só estou dizendo que ela não parece muito interessada em mim.— E vai desistir porque ela fez uma gracinha?— Não estou acostumado a correr atrás de quem olha para mim como se eu estivesse atrapalhando a paisagem.Beto riu.— Seu orgulho é enorme.— E muito bem cuidado.— Talvez ela esteja fazendo charme.Fred deu de ombros.— Talvez.— Quer que eu dê uma força?— Não.— Posso conversar com ela.— Beto...— O quê?— Se algum dia eu quiser alguma coisa com Jane, resolvo sozinho.Beto ergueu as mãos.— Está bem.Fred f

  • Prometida ao Homem Errado   Episódio 3: A Primeira Fissura

    Alguns anos haviam se passado desde a chegada de Jane a Minaçu.Gaby agora tinha dezessete anos. Beto, dezenove.O casamento prometido desde a infância deixara de parecer uma história distante contada pelas famílias. Dentro de oito meses, quando Gaby completasse dezoito anos, os dois ficariam oficialmente noivos.Mas outra mudança já havia alterado a rotina do casal.Beto deixara Minaçu para cursar Ciências Contábeis em Uruaçu. Durante a semana, ficava fora. Às sextas-feiras, voltava para casa.Fred, praticamente da idade de Beto, também havia partido para estudar Agronomia em Brasília e, assim como o amigo, costumava retornar nos fins de semana.Para Gaby, aquelas sextas-feiras haviam se transformado em pequenos reencontros.Naquela, não foi diferente.Assim que ouviu o carro parar na casa ao lado, correu até a janela.Beto mal havia fechado a porta quando ela saiu.— Até que enfim!Ele abriu os braços.— Estava com saudade também.Gaby se jogou no abraço dele.— Você demorou.— A es

  • Prometida ao Homem Errado   Episódio 2: Uma Certeza Perigosa

    Em 2003, aos quatorze anos, Gaby continuava tão certa de seu futuro quanto estivera durante a infância.Ela e Beto já não eram apenas as duas crianças que todos diziam que um dia se casariam. Agora namoravam, e o que antes existia como uma promessa feita pelas mães começava a ganhar, para Gaby, o significado de uma escolha.Romântica, nunca enxergara aquele namoro como uma experiência passageira. Era apenas o começo de uma história cujo final acreditava conhecer.Um dia terminariam os estudos. Depois viriam faculdade, trabalho, casamento, filhos.Ela não sabia exatamente quando cada coisa aconteceria.Mas sabia com quem.Beto.Naquele mesmo ano, uma nova família chegou a Minaçu.Os Pacheco vieram do interior de São Paulo e se instalaram na cidade em meio ao crescimento econômico da região. Paulo Pacheco comprou uma casa grande, abriu uma pousada e matriculou os filhos na escola local.Luiz Gustavo logo encontrou seu espaço.A irmã também.Janecelly.Jane, como preferia ser chamada.No

  • Prometida ao Homem Errado   PARTE 1 - Episódio 1: Prometida desde Menina

    Alguns anos depois.— Gaby é minha namorada.— Não sou, não!— É sim.Aos sete anos, Gabriela já havia aprendido que discutir com Beto podia ser uma tarefa cansativa. Dois anos mais velho, ele tinha a irritante mania de falar como se sempre soubesse mais do que ela.Naquela tarde, os três brincavam perto de casa, como faziam quase todos os dias. Fred, praticamente da idade de Beto, assistia à discussão com um sorriso divertido.Gabriela cruzou os braços e fez cara feia para Beto, que respondeu com a segurança de quem tinha certeza absoluta do que dizia.— Minha mãe falou.— Minha mãe falou que a gente vai casar. Não falou que eu sou sua namorada.— Se vai casar comigo, é minha namorada.Gaby pensou por alguns segundos. A lógica parecia boa, mas havia alguma coisa nela que não a convencia.— Mas eu não quero namorar agora.— Então namora depois.Fred caiu na gargalhada.— Vocês dois são muito doidos.Beto lançou um olhar atravessado para o amigo.— Você está rindo por quê?— Porque ela

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status