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04 — ALCATEIA

last update Fecha de publicación: 2025-09-29 07:19:27

AURORA

A loba dentro de mim rosnou — um som baixo que ecoou apenas na minha mente, mas ainda assim fez meu corpo estremecer.

Ela o sentia.

Mesmo à distância, sabia que ele estava ali.

Mais do que nunca, precisei manter o controle. Ela tentava romper as barreiras que eu mesma impus, ansiando por correr de volta para ele.

Mas eu não podia.

Sabia dos riscos que poderia levar até ele.

Fechei os olhos e respirei fundo, forçando minha loba a recuar. Era como empurrar uma fera contra uma jaula — eu sentia cada arranhão, cada rugido contido.

Ela queria o toque dele, o cheiro dele, o vínculo que nos unia. Eu, por outro lado, tentava esquecer.

Após meu encontro com Suelen, passei o resto do dia ansiosa pelo que estava por vir. Quando a noite já avançava, adentrei a floresta e libertei minha loba.

Ela sacudiu os pelos, farejou o ar e imediatamente tomou o rumo do limite onde encontraria Suelen. Mas antes de chegar, retomei o controle. Minha loba recuou, rosnando baixinho — frustrada, mas obediente.

Manter minha natureza escondida era mais do que uma escolha… era uma necessidade.

Quando cheguei ao local em minha forma humana, Suelen já estava à minha espera.

— Não vou ter problemas como tive no restaurante, vou? — perguntei, e minha voz traía um pouco da apreensão. Ela sabia de quem eu falava.

— Não ligue para aquele idiota — disse Suelen, com um meio sorriso. — Ele é uma boa pessoa. Só passou por muita coisa.

Eu também havia passado por muita coisa, mas nem por isso era rude com quem cruzava meu caminho. E agora, mais do que nunca, queria evitá-lo.

Ele devia estar furioso comigo.

Assim que entramos no território da alcateia, outro lobo nos aguardava. Pela postura e presença, imaginei que fosse o alfa, mas Suelen o apresentou como beta.

— Pretende se juntar à nossa alcateia? — perguntou, o olhar suave contrastando com a voz firme.

Não queria parecer rude.

— Prefiro conhecer o lugar antes de decidir.

Ele assentiu, compreensivo, embora sua atenção permanecesse atenta demais.

Fiquei encantada com cada canto que Suelen me mostrou. Tudo era compartilhado. Havia leveza ali. Uma sensação de comunidade que me era completamente estranha.

Talvez, pela primeira vez em anos, a ideia de permanecer em algum lugar não me apavorava — e isso, por si só, era assustador.

— Aqui é tudo tão diferente de onde eu vim. As pessoas parecem gentis… acolhedoras — murmurei.

— E por que não seriam, Aurora? Você não fez nada contra elas — respondeu Suelen, com simplicidade.

Fiquei em silêncio. Eu havia aprendido a esperar o pior. Confiar nunca foi fácil.

Chegamos diante de uma horta iluminada e cheia de movimento. Assim que percebeu nossa aproximação, uma mulher bonita e sorridente se adiantou.

— Cadê o idiota do meu irmão? Veio com você? — perguntou a Suelen, que negou com um sorriso.

— Joyce, esta é Aurora. Ela está conhecendo a região.

Joyce me observou com curiosidade, mas o sorriso permaneceu. Nunca gostei de ser o centro das atenções, mas ali a sensação era diferente.

— Tudo aqui é muito bonito. Estou admirada — comentei.

— A colheita é sempre compartilhada — explicou Joyce. — Todos ajudam. Todos se beneficiam.

Tudo ali era o oposto da alcateia de Victor.

Onde ali havia colaboração, lá reinavam rigidez e controle. Cada erro era punido.

— Deve ser bom viver assim — murmurei, quase para mim mesma.

— Se você não tiver onde ficar, pode permanecer aqui. Essa vida também pode ser sua — disse Joyce, em tom gentil.

— Tenho certeza de que aquele lobo rude não seria adepto dessa ideia — deixei escapar.

Os olhos dela se voltaram para mim, intrigados.

— Se você conheceu meu irmão, não precisa se preocupar… ele não vive aqui.

Aquilo me pegou desprevenida.

— Killiam não vive aqui?

Joyce negou, a tristeza evidente.

— Este era o lar dele. Foi aqui que crescemos. E foi aqui que começou a construir uma vida com Jade.

Um aperto inesperado surgiu em meu peito. Minha loba rosnou, possessiva. Quem era Jade? Eu precisava descobrir.

Elas me levaram para conhecer outro ponto da alcateia. Paramos diante da creche. O prédio, de paredes claras, estava decorado com desenhos infantis pendurados nas janelas. Mesmo vazio, transmitia alegria.

— As crianças passam boa parte do tempo aqui — explicou Joyce. — É um dos lugares mais especiais da alcateia.

Era tudo tão diferente da minha antiga realidade que parecia irreal.

Gostaria de ficar ali por um tempo, mas um pensamento logo me atravessou — e se Victor aparecesse ali? Forcei-me a afastá-lo. Queria acreditar que estava longe o bastante para que isso não acontecesse.

— Joyce… o que aconteceu para que Killiam não viva mais aqui — perguntei, sentindo uma inquietação crescente.

Ela respirou fundo.

— Nossa alcateia foi atacada. Jade, a companheira dele, morreu nessa invasão.

Meu peito apertou.

— Era um grupo enorme de lobos. Não queriam nada além de espalhar o terror... e conseguiram.

Uma rajada de vento atravessou a praça.

— Meu pai e os guerreiros lutaram para defender todos. Mas a cada golpe, ficávamos mais vulneráveis — continuou Joyce.

— Não houve piedade — acrescentou Suelen. — Idosos e crianças foram mortos. Algumas lobas foram violentadas. Foi o dia mais terrível que vivemos.

Meu estômago revirou.

Não era apenas horror. Era reconhecimento.

— Naquela noite, perdemos nosso pai — disse Joyce. — E descobrimos que Jade estava entre as que foram atacadas.

Meu coração falhou uma batida.

— Ela foi morta pelos invasores?

— Não — respondeu Suelen, com o olhar distante. — Eles a deixaram viva. Mas às vezes penso que teria sido menos cruel se não a tivessem deixado.

O ar pareceu rarefeito.

— Killiam a encontrou na floresta — continuou Joyce. — Amarrada a uma árvore, violentada e com o corpo totalmente retalhado. Nossos médicos fizeram de tudo… mas ela desistiu de lutar.

Suelen desviou o olhar.

— Uma parte do meu irmão morreu naquele dia.

Algo se contraiu dentro de mim.

— Sinto muito — murmurei.

— Killiam criou nossa rede de hotel e passou a administrar o restaurante, tentando seguir em frente. Mas ele nunca voltou a ser o mesmo.

A história dele ecoava na minha própria dor.

Killiam parecia forte. Carregava o peso do passado e, ainda assim, permanecia firme.

Eu, ao contrário, ainda fugia.

“Você nunca foi fraca, Aurora. Foi resiliente. A culpa não é sua. Aquele idiota me acorrentou, mas não mais”, minha loba rugiu.

Senti sua força pulsar dentro de mim.

Selvagem e inabalável.

Pela primeira vez ela não sussurrava... ela bradava.

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Último capítulo

  • Protegida pelo Alfa   EPÍLOGO

    KILLIAMNo dia em que Aurora me disse que estava em trabalho de parto, eu quase enlouqueci. Meu coração disparou de um jeito que nunca antes havia sentido. Corri para casa, e o mundo pareceu entrar em câmera lenta.Não foi fácil para ela. Aurora estava exausta depois de quase doze horas de dores intensas. A cada contração, eu sentia como se parte da minha própria alma estivesse sendo testada junto com a dela.Segurei sua mão o tempo todo, sentindo os ossos dos meus dedos quase se esmagarem contra os delas — e, ainda assim, não soltei.Sua respiração estava acelerada, o suor escorria por sua testa, mas seus olhos… aqueles olhos brilhavam com uma determinação que me deixava sem ar.— Você consegue, pequena… já está tão perto — murmurei, tentando soar firme, embora minha voz tremesse.E então aconteceu.Um choro agudo e forte preencheu o ar, cortando qualquer outra sensação, como se o mundo inteiro tivesse parado apenas para ouvir aquele som.Meus olhos arderam instantaneamente. Quando n

  • Protegida pelo Alfa   35 — DECLARAÇÃO

    KILLIAMO quarto estava mergulhado em um silêncio quase sagrado, quebrado apenas pela respiração serena de Aurora ao meu lado. A luz suave que atravessava a janela desenhava sombras delicadas sobre o corpo dela, ainda levemente corado depois do que havíamos compartilhado.Fiquei ali, imóvel, como se qualquer movimento pudesse desfazer aquele instante.Meus dedos deslizaram devagar por uma mecha do seu cabelo, afastando-a de sua face. Era impossível não sorrir — não um sorriso de desejo, mas de gratidão.Olhei para trás, para tudo que vivi, para o homem que eu fui.Jamais imaginei que encontraria paz. Muito menos uma felicidade tão inteira, tão viva, a ponto de doer no peito de tão intensa. Aurora foi um pulo no escuro. Tínhamos um laço, é verdade… mas laços não vêm com garantias.Houve um tempo em que eu acreditava que momento assim não eram feitos para mim.Passamos por tempestades que quase nos afogaram. Feridas que pareciam profundas demais para cicatrizar. Escolhas difíceis — algu

  • Protegida pelo Alfa   34 — RENDIÇÃO

    AURORAJoyce e Suelen comemoraram meu retorno à alcateia como se eu tivesse voltado de uma guerra.Suelen precisou sair para trabalhar, mas Joyce assumiu a missão de me mimar. Enchia meu prato sem piedade, repetindo que grávida não podia passar fome — como se aquela fosse a lei mais sagrada do mundo.Passei o dia entre risadas, histórias acumuladas e aquela sensação rara de pertencimento. Era reconfortante recuperar uma parte da minha vida que parecia ter ficado suspensa por semanas.Eu sabia que Killiam havia me machucado.Talvez eu o tivesse perdoado rápido demais.Mas eu acreditava no arrependimento dele — caso contrário, não estaria tentando da forma como vinha tentando.Não queria gastar energia remoendo a dor. Preferia reconstruir o que nos foi roubado… tudo aquilo que aquela cadela — agora apodrecendo no inferno — tentou destruir.Imaginei que ele tentaria algo mais íntimo naquela noite.Mas Killiam me surpreendeu.Era carinhoso. Cuidadoso. Respeitoso ao extremo. Limitava-se a

  • Protegida pelo Alfa   33 — ENTRELINHAS

    KILLIAMAquela desgraçada havia armado tudo.Meu lobo rugiu, tomado por uma fúria tardia. Nayara já não estava mais ali — e não existia vingança possível contra os mortos. Restava-me apenas focar no presente — e o presente era reconquistar minha mulher.Eu sabia que não podíamos continuar adiando certas verdades.Peguei a xícara, mas o café esfriava entre meus dedos.— Eu errei. Errei ao permitir que tudo chegasse a esse ponto, ao não impedir que você fosse magoada, ao deixar que essa situação nos afastasse… — respirei fundo. — Mas não errei sobre o que Nayara fez você acreditar.Os olhos de Aurora não vacilaram.— Então me explique… por que você a trouxe para dentro de nossa casa?A pergunta não carregava gritos. E isso doía mais.— Naquela época, Nayara ameaçou ir embora. Disse que levaria o bebê com ela. — Minha mandíbula travou. — E eu acreditava que ele era meu. Eu não podia correr esse risco. Aurora apertou a xícara com força; os dedos ficaram esbranquiçados.— Então você pref

  • Protegida pelo Alfa   32 — RETORNO

    AURORAJá fazia duas semanas que Killiam estava em Bloodhowl. Kael tocara no assunto algumas vezes, mas, na última conversa, fora direto — a situação havia se tornado insustentável.Killiam não saíra do quarto nem uma única vez. Manter outro alfa ali por tanto tempo poderia gerar interpretações perigosas dentro da alcateia.— Ele ainda tem espaço no seu coração? — Alana perguntou, com uma calma que feria mais do que qualquer acusação.A pergunta reverberou dentro de mim.Por mais que Killiam tivesse me magoado, meus sentimentos não haviam simplesmente desaparecido. Minha loba deixava isso claro a cada silêncio pesado, em cada batida inquieta no peito.Eu sabia que ele errara. Sabia que me ferira.Mas também sabia que ele permanecia ali — suportando o constrangimento, o peso de estar sob o teto de outro alfa… apenas por mim.Eu precisava ir até ele. Encarar o homem que me destruíra — e que, ainda assim, fazia meu coração perder o compasso — já não era uma escolha. Era inevitável. Ass

  • Protegida pelo Alfa   31 — EXÍLIO

    KILLIAMNunca me senti tão perto de perder o controle.Minha pele queimava como se algo tentasse rasgá-la de dentro para fora. Os músculos permaneciam tensos, vibrando sob a pressão da fúria contida, e meus olhos ardiam, alimentados por uma raiva que eu já não sabia conter.Meus punhos estavam cerrados. Se eu afrouxasse o domínio por um único segundo, esmagaria qualquer coisa que estivesse diante de mim.Duas semanas.Duas malditas semanas desde que Aurora partiu.Eu tentava — incessantemente — alcançá-la pelo nosso elo mental. Forçava minha mente contra a dela, chamando-a no silêncio. E todas as vezes… era repelido.Rejeitado.Meu lobo arranhava minha consciência, uivando pela ausência dela. Pela ausência do que era nosso. Pela ausência de nossa metade.A transformação veio sem aviso.Num instante eu ainda lutava contra o impulso. No seguinte, corria pela floresta, consumido pela fera. Galhos se partiam sob meu peso, troncos eram marcados pelas minhas garras. Um rastro de destruição

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