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AS CINZAS FALAM

last update Data de publicação: 2026-09-10 05:31:49

Dois dias depois do incêndio, o amanhecer chegou à Luzes da Aurora trazendo um silêncio que Íris ainda não reconhecia.

Não era a quietude tranquila das manhãs em que acordava antes dos peões e escutava, da varanda, o mugido distante do gado misturado ao canto dos pássaros.

Havia sons, mas todos pareciam diferentes.

Martelos batiam onde antes cavalos relinchavam, uma motosserra trabalhava na retirada de madeira comprometida, caminhões descarregavam mourões novos e, de tempos em tempos, o ronc
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  • QUANDO O PASSADO BATE A PORTA - O Preço de Um Legado    AS CINZAS FALAM 2

    O mourão novo permaneceu de pé no meio da terra escurecida como uma pequena afronta a tudo o que acontecera naquela noite. Íris ficou algum tempo observando Miguel e Anselmo compactarem a terra ao redor da madeira enquanto outros homens esticavam o primeiro fio da nova cerca. Havia algo profundamente simbólico naquele trabalho simples. O fogo precisou de poucas horas para destruir o que levou anos para ser construído, mas a Luzes da Aurora não esperou sequer as cinzas esfriarem completamente para começar de novo. Ao lado dela, Enzo também acompanhava a movimentação em silêncio, uma das mãos descansando sobre o curativo do braço, até que uma tosse curta o fez desviar o rosto. Íris imediatamente virou-se para ele, e a expressão de resignação que apareceu no rosto do marido demonstrou que já sabia o que viria.— Nem começa. Murmurou.— Eu não disse nada.— Seu olhar disse.— Meu olhar está perguntando se você tomou a medicação no horário.Enzo retirou o celular do bolso, mostrou a t

  • QUANDO O PASSADO BATE A PORTA - O Preço de Um Legado    AS CINZAS FALAM

    Dois dias depois do incêndio, o amanhecer chegou à Luzes da Aurora trazendo um silêncio que Íris ainda não reconhecia. Não era a quietude tranquila das manhãs em que acordava antes dos peões e escutava, da varanda, o mugido distante do gado misturado ao canto dos pássaros. Havia sons, mas todos pareciam diferentes. Martelos batiam onde antes cavalos relinchavam, uma motosserra trabalhava na retirada de madeira comprometida, caminhões descarregavam mourões novos e, de tempos em tempos, o ronco pesado de um trator atravessava o campo queimado. O cheiro de fumaça continuava preso à terra e às paredes, embora Dona Cida tivesse aberto todas as janelas da sede desde a madrugada. Íris permaneceu alguns minutos parada diante dos degraus da varanda, segurando a caneca de café entre as mãos, enquanto observava a faixa negra que começava além dos currais. O incêndio deixara cicatrizes profundas. Parte do haras precisaria ser reconstruída, quilômetros de cercas haviam sido comprometidos, p

  • QUANDO O PASSADO BATE A PORTA - O Preço de Um Legado    O FOGO NÃO COMEÇOU SOZINHO 2

    Augusto permaneceu recostado na cadeira durante alguns segundos, observando Ricardo com a paciência desconfiada de quem aprendera a procurar interesse por trás de cada aproximação. O escritório da Vale Dourado estava mergulhado numa penumbra confortável apesar do sol forte do lado de fora. As cortinas pesadas filtravam a claridade, o cheiro de couro dos móveis misturava-se ao café recém-servido, e sobre a mesa havia documentos cuidadosamente empilhados que Ricardo não tentou examinar. Era justamente aquela aparente falta de curiosidade que incomodava Augusto. Um homem que chegava fazendo perguntas demais podia ser facilmente compreendido. Um homem que parecia disposto apenas a ouvir era muito mais difícil de medir.— Você sempre gostou de escolher palavras com cuidado. Comentou Augusto, girando lentamente a xícara entre os dedos. — Mas entrar na minha propriedade depois de tudo o que aconteceu e dizer que veio conversar sobre a Luzes da Aurora não é exatamente um gesto discreto.

  • QUANDO O PASSADO BATE A PORTA - O Preço de Um Legado    O FOGO NÃO COMEÇOU SOZINHO 2

    Íris quase sorriu.— Idiota.— Você já mencionou.O abraço durou pouco porque Enzo viu o campo queimado por cima do ombro dela. Seu corpo ficou rígido.Íris percebeu.— A perícia está trabalhando.Ele se afastou lentamente.— Quero ver.— Daqui.— Íris...— Daqui, Enzo. Você acabou de sair do hospital e a área está isolada.Por alguns segundos, ele pareceu disposto a argumentar. Depois assentiu.Caminharam até o limite permitido. Sob a luz do dia, Enzo finalmente enxergou tudo aquilo que a fumaça escondera durante a madrugada. Parte do haras estava destruída, uma extensão considerável de pastagem havia sido queimada, cercas precisariam ser reconstruídas e algumas instalações secundárias estavam comprometidas. Ele ficou muito tempo sem dizer nada.— Os animais? Perguntou por fim.— Todos vivos.Enzo fechou os olhos.Íris observou a emoção atravessar seu rosto.— Todos?— Todos. Trovão ainda inspira cuidado por causa da fumaça, mas está reagindo. Ventania melhorou. Temos queimaduras

  • QUANDO O PASSADO BATE A PORTA - O Preço de Um Legado    O FOGO NÃO COMEÇOU SOZINHO

    A fita de isolamento estendida no campo transformou uma parte da Fazenda Luzes da Aurora em território proibido, e Íris descobriu que poucas coisas eram tão estranhas quanto ser impedida de caminhar livremente pela terra onde crescera. Durante toda a manhã, policiais, bombeiros e peritos entraram e saíram da propriedade, fotografando o solo, marcando pontos, recolhendo amostras e fazendo perguntas que pareciam repetidas até que uma palavra diferente pudesse revelar alguma contradição. Íris respondeu a todas. Informou horários aproximados, explicou onde Joca estava quando sentira o cheiro de queimado, indicou a posição dos animais, descreveu a direção inicial do vento e entregou as mensagens, fotografias e registros relacionados aos acontecimentos anteriores. Quando terminou, já não conseguia enxergar aquelas ocorrências como episódios independentes. A fotografia dela e Enzo de mãos dadas parecia diferente agora. A frase mandando proteger aquilo que amava já não soava apenas como

  • QUANDO O PASSADO BATE A PORTA - O Preço de Um Legado    ENQUANTO VOCÊ RESPIRAR 2

    Íris permaneceu alguns segundos em silêncio depois daquela constatação, observando Enzo como se procurasse em seu rosto uma resposta capaz de diminuir a gravidade do que acabara de dizer. Não encontrou. O homem deitado diante dela ainda estava abatido pela fumaça, com o antebraço coberto pelo curativo e os olhos avermelhados pela irritação, mas havia recuperado aquela expressão concentrada que ela conhecia tão bem, a mesma que surgia quando analisava uma conta que não fechava, um problema no rebanho ou qualquer ameaça à Luzes da Aurora. A diferença era que, dessa vez, nenhum dos dois estava diante de uma disputa comercial ou de uma provocação jurídica. Alguém poderia ter atravessado os limites da propriedade durante a noite, escolhido um ponto vulnerável e iniciado um incêndio sabendo que homens e animais dormiam a poucos metros dali.— Não quero que você comece a juntar nomes antes de termos provas. Disse Íris, passando lentamente o polegar sobre os dedos dele. — Eu sei em quem

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