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Capítulo 2 — A estrada para Villagran

last update Fecha de publicación: 2026-07-23 05:37:09

Helena descobriu que abandonar uma casa era mais difícil quando se percebia, tarde demais, que ela nunca lhe pertencera.

Na manhã seguinte, os móveis continuavam nos mesmos lugares, as xícaras ainda ocupavam o armário e o relógio da sala insistia em marcar as horas com a tranquilidade ofensiva dos objetos que não precisavam se preocupar com despejos.

Ainda assim, alguma coisa havia desaparecido.

Talvez fosse a sensação de abrigo.

A porta do escritório permanecia fechada. Helena não entrara ali desde a noite anterior. Não precisava. O corte na palma da mão e as marcas arroxeadas no braço eram lembranças suficientemente eficientes.

Junto ao corredor, a samambaia havia sido recolocada em um vaso menor.

Leonor tentara salvar o que sobrara dela.

Havia alguma ironia nisso.

— Não cabe tudo — disse Gabriel.

Estava ajoelhado diante de uma caixa, tentando acomodar livros, roupas e uma velha fotografia dos pais.

— Então deixe os livros maiores comigo — respondeu Helena.

— Você vai para uma fazenda. Não precisa carregar metade da nossa vida.

— São meus livros de enfermagem.

— Justamente.

Helena pegou dois volumes e colocou-os na mala.

— Preciso deles para trabalhar.

Gabriel soltou o ar pelo nariz.

— Você nem sabe exatamente o que vai fazer lá.

— Cuidar de Augusto Villagran.

— Isso é o que o advogado disse.

— E o que mais eu deveria fazer?

— Não sei. É esse o problema.

Helena fechou a mala.

Na mesa da sala, havia uma notificação entregue naquela manhã por um funcionário de Octávio. O documento exigia a desocupação do imóvel e anunciava medidas judiciais para cobrança dos valores atrasados.

A legalidade da pressa era discutível.

A intenção, nem tanto.

Octávio queria que soubessem que aquela casa não seria mais um lugar seguro, mesmo que ainda conseguissem permanecer nela por alguns dias.

Leonor entrou carregando uma pilha de roupas.

— Você deveria levar o vestido azul.

Helena ergueu os olhos.

— Para trabalhar como enfermeira?

— Nunca se sabe quem frequenta uma casa daquela importância.

— Espero que pessoas doentes. Facilitaria bastante a justificativa da minha presença.

Leonor deixou as roupas sobre a cama.

— Não precisa transformar tudo em ironia.

— Não transformo tudo.

— Desde ontem, parece que sim.

Helena fechou a mala com mais força do que pretendia.

— Desde ontem, estou tentando não transformar tudo em outra coisa.

Leonor ficou em silêncio.

Gabriel levantou-se.

— Vou procurar emprego assim que resolvermos a questão da delegacia.

Helena se virou.

— Primeiro você resolve a delegacia.

— Eu sei.

— Depois procura trabalho.

— Eu sei.

— E não aceita qualquer coisa só porque pagam no mesmo dia.

Gabriel cruzou os braços.

— Você ainda nem foi embora e já está tentando administrar minha vida de outra cidade.

— Duas horas de distância não me impedem de saber quando você está prestes a fazer alguma coisa idiota.

— Eu não faço tantas coisas idiotas assim.

Helena e Leonor olharam para ele ao mesmo tempo.

Gabriel desistiu da defesa.

— Está bem. Algumas.

Bateram à porta.

Os três ficaram imóveis.

Era impressionante como um simples ruído podia mudar de significado depois que alguém usava uma chave para trancar uma mulher contra a vontade.

Gabriel foi o primeiro a se mover.

— Eu abro.

Rafael Montenegro aguardava do lado de fora.

Sem guarda-chuva dessa vez, continuava vestido com um terno impecável e carregava uma pasta fina sob o braço.

— Bom dia.

Gabriel não abriu completamente a porta.

— Para quem?

Rafael o observou.

— Imagino que ainda estejamos decidindo.

Helena apareceu no corredor.

— Entre.

— Não pretendo demorar.

— Melhor.

O advogado entrou e examinou as caixas espalhadas.

— Receberam a notificação?

Helena apontou para a mesa.

— Se veio perguntar se Octávio conseguiu ser desagradável por escrito, conseguiu.

Rafael pegou o documento e leu rapidamente.

— Isso não produz uma retirada imediata.

— Diga isso aos homens dele quando aparecerem para trocar a fechadura.

— Se fizerem isso sem ordem adequada, teremos mais um problema para acrescentar ao processo.

Leonor se aproximou.

— “Teremos”?

Rafael voltou os olhos para ela.

— O senhor Villagran autorizou que eu acompanhasse provisoriamente a situação jurídica da família.

Helena franziu a testa.

— Eu não pedi isso.

— Não.

— E não assinei contrato algum.

— Também não.

— Então por que ele está fazendo?

Rafael dobrou a notificação.

— Porque será difícil para a senhora trabalhar na fazenda se passar o dia imaginando sua família dormindo na rua.

— Isso parece menos generosidade e mais conveniência.

— As duas coisas não são incompatíveis.

— Para Augusto Villagran?

Rafael não respondeu imediatamente.

— A senhora terá muitas oportunidades para formar sua própria opinião.

Aquilo não tranquilizou Helena.

Homens que respondiam perguntas sobre caráter oferecendo tempo geralmente sabiam que o tempo não seria gentil.

— Onde eles vão ficar? — perguntou, indicando Leonor e Gabriel.

— Reservei dois quartos em uma pensão próxima ao centro por alguns dias. Não é uma solução permanente. Apenas evita que vocês tenham de resolver tudo hoje.

Leonor endireitou os ombros.

— Não aceitamos caridade.

Rafael lançou-lhe um olhar breve.

— Então considere uma antecipação de despesas vinculadas à contratação de Helena.

— E será descontado do salário dela? — perguntou Gabriel.

— Não.

— Então é caridade.

— Não necessariamente.

Helena observou o advogado.

— Nada com vocês parece ter um nome simples.

— Nomes simples costumam gerar contratos complicados.

— E contratos simples?

— Quase nunca existem.

Gabriel não pareceu gostar da resposta.

— Eu vou com Helena.

— Não — disse Rafael.

— Não perguntei.

— Ainda assim, não.

Gabriel deu um passo à frente.

— Há espaço no carro.

— O problema não é espaço. O delegado solicitou que você permaneça disponível para complementar o depoimento sobre o ocorrido com Octávio.

Helena se virou para o irmão.

— Você não me disse isso.

— Ligaram há pouco.

— E você achou que era uma informação dispensável?

— Você já está preocupada.

— Esconder problemas não costuma diminuí-los.

— Aprendi com você.

Helena ficou sem resposta por um instante.

Aquilo foi irritante principalmente porque continha alguma verdade.

Rafael consultou o relógio.

— Se sairmos nos próximos vinte minutos, chegaremos à fazenda no início da tarde.

Helena olhou para as malas.

— Eu não gosto de deixar Gabriel aqui com esse processo.

— Ele não ficará sozinho.

— Leonor não é advogada.

A tia pareceu ofendida.

— Também não sou inútil.

Helena a encarou.

— Eu não disse isso.

— Mas pensa.

— Não. Penso que o senhor Montenegro conhece o processo e a senhora não.

Rafael interveio antes que uma nova dívida emocional fosse aberta.

— Estarei na cidade amanhã e poderei acompanhar Gabriel pessoalmente, caso o delegado marque qualquer novo procedimento.

Helena cruzou os braços.

— E enquanto isso?

— Minha equipe verificará a notificação de despejo e registrará formalmente a versão da senhora sobre a agressão.

— Minha versão?

— A verdade precisa ser documentada antes que Octávio consiga cercá-la de versões melhores financiadas.

Helena não gostou da frase.

Gostou ainda menos de saber que ele tinha razão.

Gabriel aproximou-se.

— Você não precisa ir hoje.

— Preciso.

— Por quê?

Helena olhou ao redor.

A fotografia dos pais estava embrulhada em uma toalha. Os livros haviam sido divididos entre caixas. A casa parecia já pertencer ao passado antes mesmo que eles saíssem.

— Porque precisamos de dinheiro.

— Eu posso conseguir.

— Depois de resolver seus problemas.

— São problemas nossos.

— Não.

Gabriel franziu a testa.

— Como assim?

— O que Octávio fez comigo é meu problema. A dívida da casa é da família. O que você fizer daqui para frente será responsabilidade sua.

Ele ficou quieto.

Helena suavizou a voz.

— Eu não posso continuar vivendo como se precisasse impedir cada erro antes que aconteça.

— Mas vai continuar tentando.

— Provavelmente.

— Então qual é a diferença?

Ela tocou o rosto dele.

— Talvez eu aprenda.

Gabriel segurou seu pulso com cuidado, evitando o ferimento.

— Se esse Augusto fizer alguma coisa—

— Você vai fazer o quê? Percorrer duas horas a pé e socá-lo?

— Posso pegar um ônibus.

Helena quase sorriu.

— Isso melhora bastante o plano.

Leonor permanecia junto à janela.

Quando Rafael começou a levar as malas para o carro, ela chamou:

— Helena.

A jovem se aproximou.

A tia olhou para o curativo em sua mão.

— Deixe-me ver.

— Está bem.

— Eu não perguntei.

Helena hesitou antes de estender a mão.

Leonor examinou o curativo, ajeitou uma das pontas e depois segurou o pulso da sobrinha.

— Não confie em homens que oferecem proteção antes de dizer o preço.

Helena levantou os olhos.

— A senhora deveria ter me dito isso antes de Octávio entrar naquela casa.

Leonor soltou sua mão.

A acusação encontrou o lugar exato.

— Eu estava com medo.

Helena esperara uma justificativa.

Recebeu uma confissão.

Isso era pior.

— Eu também estava.

Leonor abaixou os olhos.

— Eu sei.

Pela primeira vez desde o confronto, nenhuma das duas tentou vencer a conversa.

Rafael colocou a última mala no porta-malas.

Helena abraçou Gabriel.

— Ligue para mim depois de falar com o delegado.

— Vou ligar.

— Não discuta.

— Depende.

— Gabriel.

— Está bem.

Ela se afastou.

— E não assine nada sem ler.

— Eu sei ler.

— Não foi o que perguntei.

— Está vendo? Você já está virando advogado.

Rafael, junto ao carro, ergueu uma sobrancelha.

— Recomendo evitar esse destino.

Helena entrou.

O automóvel partiu poucos minutos depois.

Durante algum tempo, ela acompanhou a cidade desaparecer pela janela.

A padaria da esquina.

A praça.

O muro do hospital onde fizera estágio.

Ruas que conhecia desde a infância e que, de repente, pareciam pertencer a uma vida que continuaria existindo sem ela.

Quando os prédios deram lugar aos campos, Rafael quebrou o silêncio.

— Pode desistir.

Helena voltou o rosto para ele.

— Agora?

— Agora. Amanhã. Depois de conhecer Augusto.

— E voltar para onde?

O advogado manteve os olhos na estrada.

— Isso é outra questão.

— Não. É a mesma.

Rafael não respondeu.

— Se eu recusar o emprego — continuou Helena —, a pensão continua paga?

— Durante os dias que já foram reservados, sim.

— E depois?

— Sua família terá de encontrar outra solução.

— Então eu posso desistir desde que aceite as consequências.

— É assim que quase todas as escolhas funcionam.

Helena observou seu reflexo no vidro.

— Algumas pessoas têm consequências mais caras que outras.

— Sim.

A resposta direta a surpreendeu.

— O senhor não vai tentar me convencer de que Augusto é um homem bom?

— Não.

— Por quê?

— Porque seria uma argumentação difícil.

Helena o encarou.

Rafael quase sorriu.

— Ele é exigente, controlador e tem pouca paciência.

— Excelente anúncio de emprego.

— Também paga corretamente, mantém a fazenda funcionando e não suporta piedade.

— Isso deveria ser uma qualidade?

— Depende da maneira como é usada.

— E por que precisa de uma enfermeira?

Rafael levou alguns segundos para responder.

— Augusto sofreu um acidente há alguns anos. Ficou paraplégico.

Helena esperou o restante.

— Isso não explica a necessidade de acompanhamento integral.

— Ele apresenta dores recorrentes, precisa manter uma rotina de medicação, fisioterapia e prevenção de complicações. Já dispensou outros profissionais.

— Quantos?

Rafael lançou um olhar rápido pelo retrovisor.

— O suficiente.

— Porque eram incompetentes?

— Alguns.

— E os outros?

— Augusto conseguiu ser Augusto.

Helena apoiou a cabeça no banco.

— E por que ele me escolheu?

— Seu nome veio por indicação profissional. Rafael fez uma pausa. — Depois soubemos do que aconteceu com Octávio.

— “Soubemos” muito rápido.

— Octávio conhece pessoas que fazem negócios com a fazenda. Quando percebeu que a senhora estava sendo considerada para a vaga, fez questão de informar sua versão.

— Para impedir a contratação.

— Provavelmente.

— E Augusto fez o contrário por provocação?

— Também provavelmente.

Helena soltou uma risada curta.

— Estou começando a gostar menos dele antes mesmo de conhecê-lo.

— Isso pode facilitar o primeiro encontro.

O telefone de Helena vibrou dentro da bolsa.

Ela o retirou.

Número desconhecido.

Abriu a mensagem.

Você deveria ter aceitado o que Octávio ofereceu.

O ar pareceu desaparecer do carro.

Uma segunda mensagem chegou antes que ela pudesse bloquear o número.

Villagran fica longe. Não significa que seja segura.

Helena leu novamente.

— Algum problema? — perguntou Rafael.

Ela apagou a prévia da tela.

— Quem sabe que estou indo para a fazenda?

Rafael olhou pelo retrovisor.

— Augusto, minha equipe e sua família. Por quê?

— Ninguém mais?

— Não deveria.

Helena mostrou o telefone.

A expressão de Rafael mudou.

Foi pouco.

Mas o bastante.

— Não responda.

— Não pretendia.

— Vou registrar o número.

— Eu mesma posso fazer isso.

— Não disse que não pode.

— Apenas fala como se já tivesse decidido.

Rafael ficou em silêncio.

Helena bloqueou o remetente e guardou o aparelho.

À frente, a estrada começou a subir. A cidade desapareceu completamente, substituída por campos, cercas antigas e uma névoa baixa que se acumulava entre as árvores.

— Falta muito? — perguntou.

— Cerca de quarenta minutos.

Helena olhou para o caminho.

Quarenta minutos até um homem que não conhecia.

Quarenta minutos até uma casa onde nunca estivera.

Quarenta minutos para trocar uma ameaça conhecida por perigos que ainda não tinham rosto.

Atrás dela, já não havia uma casa para a qual pudesse simplesmente voltar.

À frente, a Fazenda Villagran começava onde a estrada desaparecia sob a neblina.

E Helena teve a desagradável impressão de que fugir de uma prisão não garantia que a próxima porta estivesse aberta.

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