INICIAR SESIÓNA Fazenda Villagran surgiu depois de uma curva longa, cercada por neblina e árvores antigas.
Helena esperava encontrar uma propriedade rural.
Encontrou uma fronteira.
O portão de ferro erguia-se entre duas colunas de pedra escurecidas pelo tempo. No centro, letras metálicas formavam um nome que parecia mais antigo do que qualquer pessoa que ainda vivesse ali:
FAZENDA VILLAGRAN
Rafael diminuiu a velocidade.
O portão começou a se abrir antes que o carro parasse.
— Estavam esperando — disse Helena.
— Sabiam que chegaríamos.
— Isso não torna menos estranho.
Rafael lançou-lhe um breve olhar pelo retrovisor.
— A senhora ainda não entrou e já está desconfiada do portão.
— Portões que se abrem sozinhos merecem alguma desconfiança.
— Há um funcionário na guarita.
Helena olhou melhor.
Havia mesmo.
— Isso estragou um pouco a dramaticidade.
Rafael quase sorriu.
O carro avançou.
Depois do portão, a estrada seguia entre campos extensos, cercas bem conservadas e árvores que formavam corredores de sombra. Ao longe, Helena viu galpões, um estábulo, depósitos e trabalhadores conduzindo animais.
Alguns interromperam o que faziam para observar o veículo passar.
— Eles sabem quem sou? — perguntou.
— Sabem que Augusto contratou uma nova enfermeira.
— Quantas houve antes de mim?
— Já conversamos sobre isso.
— O senhor evitou responder.
— Continuo considerando uma estratégia eficiente.
Helena virou o rosto para a janela.
— Imagino que seu trabalho dependa disso.
— Em grande parte.
Ela pensou nas mensagens recebidas durante o caminho.
Rafael anotara o número e enviara os dados para alguém de sua equipe. Helena não gostava da ideia de entregar problemas pessoais a pessoas que não conhecia, mas gostava ainda menos de saber que Octávio — ou alguém a serviço dele — acompanhava seus passos.
Villagran ficava longe da cidade.
A ameaça conseguira chegar primeiro.
— A mensagem muda alguma coisa? — perguntou.
— Muda o cuidado que teremos.
— “Teremos”?
— A senhora trabalha para meu cliente. Uma ameaça contra você dentro da propriedade passa a ser preocupação dele também.
— Ainda não trabalho para ninguém.
— Tecnicamente, não.
— Gosto dessa palavra.
— Técnicos e advogados sobrevivem graças a ela.
A casa surgiu no fim da estrada.
Helena ficou em silêncio.
Era maior do que imaginara, mas não ostentava a riqueza vulgar que esperaria de alguém como Octávio. A construção tinha dois andares, paredes claras, telhado escuro e uma varanda extensa sustentada por colunas de pedra. Janelas altas refletiam o céu cinzento.
Tudo parecia muito bem conservado.
Bem demais.
Os arbustos estavam aparados na mesma altura. As pedras do caminho não apresentavam ervas entre as frestas. Os vasos da entrada estavam alinhados com precisão.
Havia flores.
Poucas.
E nenhuma parecia ter crescido sem autorização.
— Bonita — disse Rafael.
— Organizada.
— Não é a mesma coisa?
— Não.
O carro parou junto à varanda.
Antes que Rafael saísse, a porta principal se abriu.
Uma mulher apareceu.
Era alta, esguia e muito pálida. Os cabelos castanho-claros caíam até os ombros, e os olhos azuis tinham uma frieza que poderia ser confundida com arrogância por qualquer pessoa que não percebesse o tédio por trás dela.
Vestia-se bem.
Não como Leonor, que se arrumava para resistir à pobreza, mas como alguém que passara a vida aprendendo que aparência também podia ser uma forma de defesa.
Rafael desceu.
— Cecília.
— Você demorou.
— Houve trânsito.
— Na estrada?
— Existem caminhões fora das cidades.
— Que inconveniente.
O olhar de Cecília passou por ele e encontrou Helena.
Demorou-se primeiro no curativo da mão.
Depois na mala.
Por fim, em seu rosto.
— Essa é a enfermeira?
Helena desceu sozinha.
— Helena de Alencar.
— Cecília Villagran.
A mulher inclinou ligeiramente a cabeça.
— Você parece jovem.
— Tenho vinte e quatro anos.
— Eu não perguntei a idade.
— Imaginei que ajudaria na avaliação.
Cecília ergueu uma sobrancelha.
Rafael fechou a porta do carro com um cuidado que lembrava resignação.
— Augusto está esperando — disse.
— Naturalmente — respondeu Cecília. — Augusto considera esperar três minutos uma injustiça pessoal.
Helena pegou a mala.
Rafael tentou tomá-la.
— Eu levo.
— Consigo carregar.
— Não duvido.
Ele soltou a alça imediatamente.
Helena percebeu.
Uma pequena coisa, mas importante.
Naquela manhã, muitas pessoas haviam decidido coisas por ela. O fato de alguém aceitar um não sem transformá-lo em discussão quase parecia educação excepcional.
Cecília abriu passagem.
O interior da casa era amplo e frio.
O piso de madeira escura refletia a luz das janelas. Quadros antigos ocupavam as paredes, acompanhados por fotografias de cavalos, colheitas e homens com sobrenomes que provavelmente tinham sido importantes por tempo suficiente para que ninguém mais precisasse explicar por quê.
Helena percorreu o corredor com os olhos.
Uma mesa estreita dificultava a passagem próxima à sala.
Um tapete grosso apresentava uma das pontas ligeiramente levantada.
Ela parou.
— Isso precisa sair.
Cecília virou-se.
— O quê?
Helena apontou para o tapete.
— Está levantado.
— E?
— É um risco.
— Para quem?
Helena olhou para ela.
Cecília compreendeu.
— Augusto conhece a própria casa.
— Quedas costumam acontecer em lugares que as pessoas conhecem.
— Você chegou há dois minutos.
— Foram suficientes para ver o tapete.
Um som discreto veio do fim do corredor.
Rodas sobre madeira.
Helena voltou-se.
Augusto Villagran surgiu na entrada da sala.
A primeira coisa que percebeu não foi a cadeira.
Foram os olhos.
Cinza-escuros, atentos e pouco hospitaleiros.
Ele tinha cabelos negros levemente ondulados, ombros largos e o corpo forte de alguém que aprendera a depender dos braços mais do que gostaria. Uma cicatriz discreta acompanhava parte do maxilar.
Vestia uma camisa escura de mangas dobradas até os antebraços.
Sua cadeira de rodas não parecia um elemento acrescentado a ele.
Parecia uma ferramenta.
Augusto movia-se com precisão, controlando a direção sem hesitação.
Parou diante deles.
Olhou para Rafael.
— Está atrasado.
Helena consultou o relógio da parede.
Rafael abriu a boca.
Ela falou primeiro.
— Disseram que eu chegaria durante a tarde.
Augusto voltou os olhos para ela.
— Eu estava falando com meu advogado.
— Então peço desculpas por ter respondido a uma acusação que ouvi.
— Não era uma acusação.
— Pareceu.
Cecília encostou-se na parede.
Rafael olhou para o teto.
Provavelmente procurava paciência em lugares altos.
Augusto examinou Helena.
Não de maneira vulgar.
Talvez fosse pior.
Parecia avaliá-la.
— A mão.
— O que tem?
— Está ferida.
— Está.
— Rafael disse que houve um incidente.
Helena apertou a alça da mala.
— Houve.
— Com seu antigo proprietário.
— Sim.
— Ele afirma que você tentou matá-lo.
— Ele também afirmou que eu deveria pagar aluguel de maneiras que não envolviam dinheiro.
O rosto de Augusto não mudou.
Mas Cecília deixou de parecer entediada.
— E então? — perguntou Augusto.
— Então eu me defendi.
— Com uma garrafa.
— Era o que estava ao alcance.
— Costuma reagir assim quando é contrariada?
Helena sustentou seu olhar.
— Apenas quando sou trancada em um cômodo e tocada contra a minha vontade.
O silêncio que se formou não precisava de tradução.
Augusto desviou os olhos primeiro.
— Entendido.
Não houve pena.
Helena percebeu isso imediatamente.
Também não houve aquela curiosidade desagradável que geralmente seguia histórias de violência, como se a vítima adquirisse obrigação de fornecer detalhes para satisfazer os outros.
Ele apenas aceitou a informação.
Por enquanto, aquilo bastava.
— Podemos conversar na sala — disse Augusto.
Helena deixou a mala junto à parede.
— Antes, o tapete.
Ele olhou para o chão.
— O que há com ele?
— Uma ponta está levantada.
— Está assim há semanas.
— Então o risco existe há semanas.
Augusto voltou o olhar para ela.
— Nunca caí por causa desse tapete.
— Ainda.
Cecília levou a mão aos lábios.
Helena percebeu que escondia um sorriso.
— Não altero a disposição da casa por causa de hipóteses — disse Augusto.
— Prevenção trabalha principalmente com hipóteses.
— A senhora sempre contradiz quem a contrata?
— Ainda não fui contratada.
Augusto permaneceu imóvel.
— Rafael.
— Sim.
— Retire o tapete.
Cecília riu.
Dessa vez, não tentou esconder.
— Isso foi rápido.
Augusto lançou-lhe um olhar.
— Você não tem alguma coisa para fazer?
— Tenho várias. Nenhuma me diverte tanto.
Ela se afastou pelo corredor.
Rafael enrolou o tapete e o colocou junto à parede.
Helena acompanhou Augusto até a sala.
Havia uma grande mesa próxima à janela, estantes cheias de livros e uma lareira apagada. A passagem entre os móveis era ampla o bastante para a cadeira.
Nada ali estava fora do lugar.
Talvez porque Augusto não permitisse que as coisas tivessem essa liberdade.
— Sente-se — disse ele.
Helena escolheu uma poltrona diante da mesa.
Augusto permaneceu do outro lado.
— Rafael já explicou a função?
— Acompanhamento de medicação, rotina clínica, prevenção de complicações e apoio durante tratamentos.
— Também haverá fisioterapia.
— Com profissional especializado?
— Marta Vasconcelos. Três vezes por semana.
— Preciso consultar os relatórios anteriores.
— Não.
Helena franziu a testa.
— Como pretende que eu acompanhe sua condição sem histórico?
— Receberá as informações necessárias.
— Quem decide o que é necessário?
— Eu.
— Então começamos mal.
Augusto recostou-se.
— Senhorita Alencar, não preciso que reorganize minha vida.
— Ótimo. Não vim fazer isso.
— Preciso que administre medicamentos, acompanhe alterações clínicas e esteja disponível quando necessário.
— E preciso conhecer seu histórico, suas limitações funcionais, episódios anteriores, medicamentos já utilizados e possíveis complicações.
— Não gosto de perguntas pessoais.
— Seu estado de saúde não é uma conversa pessoal enquanto eu estiver responsável por acompanhá-lo.
— Responsável?
— Profissionalmente.
— Não confunda responsabilidade com autoridade.
Helena inclinou ligeiramente a cabeça.
— O senhor também não.
Algo mudou na expressão dele.
Não simpatia.
Ainda não.
Talvez curiosidade.
Talvez irritação suficientemente nova para ser interessante.
— Minha rotina começa às seis — disse Augusto. — Café às seis e meia. Trabalho administrativo durante a manhã. Fisioterapia conforme o cronograma. Não tolero atrasos.
— Eu também não gosto.
— Não permito visitas sem aviso.
— Isso se aplica a mim?
— Enquanto estiver trabalhando, sim.
— Não vou receber visitas durante o expediente.
— E não alterará móveis ou horários sem minha autorização.
Helena olhou para o corredor.
— Já alterei um móvel.
— Um tapete.
— Então existe margem para negociação.
— Não interprete uma exceção como liberdade.
Ela respirou fundo.
— Vou precisar dizer uma coisa antes de continuar.
Augusto esperou.
— Não estou aqui para sentir pena do senhor.
O rosto dele endureceu.
— Ótimo.
— Também não estou aqui para obedecer ordens que coloquem sua saúde em risco apenas porque esta casa pertence ao senhor.
— Minha saúde também me pertence.
— Exatamente. E qualquer procedimento dependerá do seu consentimento. Mas, se decidir ignorar uma recomendação médica, eu registrarei que foi sua escolha.
Ele a observou em silêncio.
— Você pretende documentar nossas discussões?
— Se envolverem seu tratamento, sim.
— Parece cansativo.
— Podemos evitar algumas.
Rafael tossiu.
Dessa vez, provavelmente não escondia riso.
Augusto voltou-se para ele.
— O contrato.
Rafael retirou uma pasta da bolsa e entregou a Helena.
— Leia antes de assinar.
— Pretendo.
— Há acomodação, alimentação e salário mensal. O vínculo inicial é de três meses, com possibilidade de renovação.
Helena folheou as páginas.
— Não assinarei hoje.
Augusto respondeu imediatamente:
— Não pedi que assinasse.
Ela ergueu os olhos.
— Posso passar a noite aqui sem contrato?
— Pode.
— E se eu decidir ir embora amanhã?
— Rafael a levará à cidade.
Helena ficou quieta.
— Simples assim?
— O que esperava?
Ela pensou na pensão paga para Leonor e Gabriel.
Na equipe jurídica.
Na ameaça recebida durante o caminho.
— Que existisse alguma condição.
Augusto apoiou as mãos nos aros da cadeira.
— Sua família ficará hospedada pelos dias já reservados. Isso não depende de você aceitar o emprego.
A resposta desarmou uma suspeita e criou outra.
— Por quê?
— Porque retirar o teto de alguém para forçá-la a trabalhar seria uma forma desagradável de começar uma relação profissional.
Helena sustentou seu olhar.
Havia alguma coisa naquela frase.
Não bondade.
Talvez conhecimento.
— Concordamos nisso — respondeu.
Rafael indicou a escada.
— Seu quarto fica no segundo andar.
Helena levantou-se.
Augusto moveu a cadeira alguns centímetros para o lado.
Foi então que ela percebeu.
Quando girou o tronco para alcançar um documento sobre a mesa lateral, compensou o movimento inclinando o corpo para a esquerda. A mão direita apertou o aro.
— Está com dor.
Augusto parou.
— Não.
— Está evitando apoiar o lado direito.
— Você me conhece há quinze minutos.
— Não preciso conhecer uma pessoa há anos para observar postura.
— Não me examine sem autorização.
— Não examinei.
— Acabou de diagnosticar uma dor.
— Não. Observei um comportamento.
Augusto endireitou o corpo.
— E concluiu.
— Perguntei.
— Não pareceu uma pergunta.
Helena pegou a mala.
— Então amanhã posso formular melhor.
— Amanhã?
Ela olhou para ele.
— Disse que eu poderia decidir depois de passar a noite.
— Disse.
— Ainda não decidi ir embora.
Augusto assentiu lentamente.
— Às seis.
— Às seis.
Helena seguiu Rafael até a escada.
Subiu alguns degraus antes de ouvir Augusto:
— Senhorita Alencar.
Virou-se.
— Não gosto que mexam nas coisas desta casa sem pedir.
Ela olhou para o tapete enrolado junto à parede.
— Então amanhã começaremos discutindo por que ele não voltará para o corredor.
Cecília, que reaparecera no andar superior, soltou uma gargalhada.
Augusto fechou os olhos por um instante.
— Seis horas — repetiu.
Helena continuou subindo.
O quarto ficava no fim do corredor.
Era simples em comparação com o restante da casa: cama, armário, escrivaninha e uma janela ampla voltada para os campos.
Rafael deixou a pasta sobre a mesa.
— Recomendo que leia tudo.
— Há alguma coisa que deveria me preocupar?
— Em contratos?
— Neste.
Ele pensou por um momento.
— Não há cláusula que a obrigue a permanecer.
Helena percebeu a precisão da resposta.
— Não foi exatamente o que perguntei.
— Eu sei.
Rafael saiu.
Helena abriu a janela.
O ar frio entrou no quarto.
Lá embaixo, a propriedade se estendia até onde seus olhos alcançavam. Homens conduziam animais para o estábulo. Uma caminhonete avançava por uma estrada lateral. Ao longe, as árvores formavam uma linha escura contra o céu.
Tudo parecia tranquilo.
Ela já aprendera, no entanto, que tranquilidade e segurança não eram sinônimos.
O telefone vibrou.
Gabriel.
Helena atendeu imediatamente.
— Está tudo bem?
— Estou na pensão.
— E a tia?
— Reclamando do colchão.
Helena fechou os olhos.
Aquilo era quase reconfortante.
— Falou com o delegado?
— Amanhã cedo.
— Rafael vai acompanhar.
— Eu sei.
— Não fale com Octávio.
— Eu sei.
— E—
— Helena.
Ela parou.
— Você chegou?
Olhou pela janela.
— Cheguei.
— Como é?
Helena observou a casa, os campos e, lá embaixo, Augusto atravessando sozinho o corredor até desaparecer da vista.
— Grande.
— E ele?
Ela demorou um segundo.
— Complicado.
Gabriel riu.
— Você gosta de coisas complicadas.
— Não gosto.
— Só vive cercada delas.
Helena sorriu pela primeira vez naquele dia.
— Durma.
— Você também.
Depois que desligou, sentou-se diante da escrivaninha.
Abriu o contrato.
Na primeira página, abaixo de seu nome, estava escrito:
Função: enfermeira particular e acompanhante clínica do senhor Augusto Villagran.
Helena passou os olhos pelas cláusulas.
Nenhuma dizia que precisava gostar dele.
Nenhuma exigia submissão.
Nenhuma a impedia de ir embora.
Ainda assim, ao observar pela janela o portão distante no início da propriedade, teve a impressão incômoda de que algumas prisões não precisavam de fechaduras.
Bastava haver algo importante demais do lado de dentro.
Ou nada para onde voltar do lado de fora.
O carro chegou numa quinta-feira às nove e doze da manhã.Augusto não estava lá.Essa parte lhe pareceu ofensiva.Eduardo Ramos mandou uma fotografia da oficina de adaptações: o crossover grafite estacionado sob luz branca, porta lateral aberta, plataforma recolhida, banco do motorista deslocado para trás e o sistema de comandos já instalado.Abaixo:Unidade recebida da etapa final. Vamos conferir ajustes hoje e amanhã. Não venha ainda.Augusto leu duas vezes.Depois respondeu:Por quê?Eduardo:Porque ainda não está liberado.Augusto digitou.Apagou.Digitou de novo.Entendido.Bento, do outro lado da mesa, observou.— Doeu?Augusto colocou o telefone virado para baixo.— Muito.— O carro?— Chegou.— E você não pode buscar.— Ainda não.Bento voltou ao orçamento.— Excelente.— Por que todos estão felizes com meu sofrimento?— Porque é raro ver dinheiro não resolver prazo.Na sexta-feira, Eduardo encontrou duas coisas.Uma regulagem do banco precisava de mais alguns milímetros.O po
Helena recebeu o convite para falar diante de cento e oitenta pessoas e passou os primeiros quatro minutos tentando descobrir quem poderia ir no lugar dela.Patrícia ouviu as três sugestões sem interromper.— Rute domina os indicadores melhor que eu.— Sim.— Jonas acompanhou mais municípios na implementação.— Sim.— Lívia pode apresentar a visão regional inteira.— Pode.Helena esperou.Patrícia não parecia convencida.— Então?— Então o convite continua sendo para você.Era uma quinta-feira no fim da tarde. As duas estavam numa sala da regional, cercadas por copos de café, pastas e uma televisão que mostrava o slide de abertura do Encontro Estadual de Práticas em Saúde Rural.O evento aconteceria em três semanas.Capital.Dois dias.Gestores municipais, equipes regionais, profissionais de saúde, universidades e gente suficiente para transformar qualquer corredor em oportunidade de networking, expressão que Helena ainda considerava uma forma muito elegante de dizer “conversar em pé
Elisa pediu que Augusto cuidasse de Davi por três noites, e ele respondeu sim rápido demais.Percebeu no mesmo instante.Ela também.Estavam na cozinha da fazenda numa segunda-feira no fim da tarde. Davi tinha desaparecido com Paçoca no quintal, deixando sobre a mesa uma folha de exercícios de matemática que certamente alegaria ter sido esquecida pelo vento.— Sim — repetiu Augusto, agora em velocidade humana.Elisa apoiou a bolsa na cadeira.— Eu ainda não expliquei tudo.— São três noites.— Terça, quarta e quinta. Eu volto sexta à tarde.— Sim.Ela estreitou os olhos.— Você já está fazendo planilha?Augusto ficou ofendido.— Não.O telefone sobre a mesa ainda mostrava o calendário aberto.Elisa olhou.— Augusto.— Eu estava conferindo compromissos.— Há vinte segundos.— Eficiência.Nair Martins, mãe de Elisa e avó materna de Davi, faria uma cirurgia de catarata na quarta-feira em uma clínica de outra cidade. Procedimento simples, segundo o oftalmologista, mas exigiria chegada ced
Gabriel passou os primeiros vinte e um anos da vida aprendendo que oportunidade era uma coisa que se agarrava antes que alguém mais rápido levasse.Por isso, quando Renata Paes colocou uma folha sobre a mesa e disse:— Seu nome entrou para a capacitação avançada do próximo ciclo.a resposta dele veio pronta.— Eu quero.Renata continuou olhando.Gabriel percebeu.— O quê?— Eu ainda não expliquei.— Mas eu quero.— É exatamente por isso que eu ainda não expliquei.Caio, sentado duas cadeiras adiante, levantou a cabeça.— Isso parece armadilha.— Volta para sua ordem de serviço — disse Renata.— Estou voltando.Não voltou.A empresa abriria oito vagas internas para uma formação complementar em diagnóstico de sistemas de refrigeração, automação e leitura avançada de falhas.Seis sábados inteiros.Dois encontros noturnos.Uma prova prática no fim.Curso pago pela empresa.Horas de formação reconhecidas internamente.Nenhuma promoção automática.Nenhum aumento garantido.Mas seria conside
Nivaldo recebeu alta para voltar ao trabalho pesado numa quarta-feira e passou a manhã inteira evitando contar a Bento.A ironia teria sido mais elegante se ele tivesse passado os últimos meses reclamando das restrições.No começo, reclamara.Do colete.Dos limites de peso.De precisar chamar outro homem para uma tarefa que fazia sozinho havia mais de vinte anos.Da palavra restrição, sobretudo, porque parecia transformar o próprio braço numa ordem escrita por outra pessoa.Depois aprendera a trabalhar de outro jeito.Não melhor.Não pior.Outro.Foi por isso que, quando saiu da consulta ocupacional com um papel dizendo que o punho estava consolidado, a força recuperada em nível satisfatório e não havia impedimento para retorno progressivo às atividades anteriores, Nivaldo dobrou o documento em quatro e colocou no bolso da camisa.Às sete e meia, Bento perguntou:— Como foi?Nivaldo respondeu:— Tudo certo.Tecnicamente, era verdade.E seguiu para verificar os registros de manutenção
Henrique soube que o apartamento estava à venda porque Dona Célia, do 402, considerava impossível uma informação imobiliária existir mais de quatro minutos sem circulação pública.Ele tinha acabado de entrar no elevador numa quarta-feira à noite, mochila no ombro, camisa ainda amarrotada de um dia de reunião e obra, quando ela apareceu antes que a porta fechasse.— Segura.Henrique segurou.Dona Célia entrou com duas sacolas e um vaso de manjericão.— O proprietário do seu apartamento vai vender.Henrique olhou.O elevador começou a subir.— Boa noite para a senhora também.— Boa noite. Vai vender.— Como sabe?Ela fez uma expressão ofendida.— Minha irmã conhece a mulher da imobiliária.Naturalmente.— E a mulher da imobiliária—— Não interessa.Henrique riu.— Certo.— Você vai comprar?A pergunta chegou antes mesmo de ele saber o preço.— Não sei.— Devia.— Por quê?— Porque você já mora aí.Lógica imobiliária de corredor.O proprietário telefonou na manhã seguinte.Dona Célia est







