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O sangue de Helena caiu sobre a samambaia que Leonor tentava manter viva havia quase cinco anos.
O vaso tombara durante a confusão e agora repousava de lado no corredor, com a terra úmida espalhada pelo chão e duas folhas esmagadas sob o salto de Octávio Ferraz. A planta sobrevivera à falta de dinheiro, a três mudanças de lugar dentro da casa e aos cuidados excessivos de Leonor. Talvez não sobrevivesse àquela manhã.
Helena ainda segurava o gargalo quebrado de uma garrafa.
A palma de sua mão ardia. Um corte atravessava a pele abaixo do polegar, e o sangue escorria lentamente pelo pulso. Diante dela, Octávio apertava o próprio antebraço, onde o vidro abrira um ferimento superficial, embora ele se comportasse como um homem que acabara de escapar de uma execução.
— Assassina! — gritou.
Gabriel estava junto à mesa, pálido de raiva. Leonor permanecia sentada no sofá, as duas mãos apertadas sobre a bolsa como se aquele objeto pudesse protegê-la de tudo o que acontecia ao redor.
Ninguém perguntou por que Helena estivera trancada com Octávio dentro do pequeno escritório.
Era curioso como certas perguntas se tornavam inconvenientes quando a resposta ameaçava a pessoa que possuía a casa, o dinheiro e a voz mais alta.
Uma hora antes, Helena ainda acreditava que o pior acontecimento daquele dia seria não conseguir um emprego.
Naquela manhã, estivera diante do espelho rachado do corredor prendendo os cabelos quando Leonor apareceu atrás dela.
— Vai sair sem falar comigo?
Helena ajeitou uma mecha rebelde.
Vestia uma blusa clara, calça escura e o único par de sapatos que ainda podia ser chamado de apresentável sem exigir muita imaginação.
— Tenho uma entrevista no hospital.
— Para a vaga de enfermagem?
— Sim.
— E se não conseguir?
Helena fechou a pasta onde carregava certificados, comprovantes de estágio e documentos pessoais.
— Procuro outra.
— Com que dinheiro?
Ela se virou.
Leonor estava impecável, apesar de a família dever dois meses de aluguel. Os cabelos castanho-avermelhados tinham sido cuidadosamente presos, e a blusa apresentava uma gola bordada que já passara por tantas reformas que devia conhecer melhor aquela casa do que qualquer um deles.
— Eu sei da situação — respondeu Helena.
— Sabe?
— O aluguel está atrasado. A farmácia ainda não foi paga. A conta de luz vence na próxima semana.
— E a mensalidade do curso de Gabriel.
O rapaz, sentado à mesa com um caderno aberto, ergueu a cabeça.
— Não precisa falar de mim como se eu não estivesse aqui.
— Então faça alguma coisa que me permita esquecer que está — retrucou Leonor.
Gabriel fechou o caderno.
— Vou arrumar trabalho.
— Como o último?
— Saí porque o homem não pagou o combinado.
— Todos nesta família parecem ter uma explicação para continuar sem dinheiro.
Helena respirou devagar.
— Chega.
Leonor voltou-se para ela.
— Você pode dizer “chega” quantas vezes quiser. Não fará as contas desaparecerem.
— Também não fará dinheiro aparecer humilhando Gabriel.
— Eu não o estou humilhando. Estou lembrando a realidade.
— A senhora gosta muito da realidade quando ela serve para ferir alguém.
O silêncio que se seguiu não foi confortável.
Leonor apertou os lábios.
— Talvez você não encontre esta casa quando voltar.
Helena pegou a bolsa.
— Octávio não pode nos expulsar de uma hora para outra.
— Você estudou enfermagem, não direito.
— Eu li o contrato.
— Então leia também a vida.
Helena segurou a maçaneta.
— Volto depois da entrevista.
Saiu antes que a tia encontrasse outra maneira de transformar preocupação em culpa.
No hospital, a entrevista durou quatorze minutos.
Helena contou.
A responsável pelo setor examinou seus documentos, perguntou sobre os estágios supervisionados e deteve-se no certificado definitivo, ainda em processo de emissão.
— A senhorita já trabalhou formalmente como enfermeira?
— Ainda não. Concluí a formação prática e os estágios obrigatórios.
— Nunca assumiu um setor sozinha.
— Não.
— Já lidou com pacientes de longa permanência?
— Durante os estágios, sim.
A mulher assentiu, sem entusiasmo.
— Entraremos em contato.
Era uma frase extraordinariamente eficiente. Conseguia dispensar alguém sem assumir que o estava dispensando.
Helena sorriu por educação.
— Obrigada pela oportunidade.
Saiu do hospital com a pasta contra o peito e a sensação desagradável de que competência, quando acompanhada de necessidade, tinha o péssimo hábito de parecer insuficiente.
Quando chegou à rua de casa, percebeu a porta aberta.
Apressou o passo.
Octávio Ferraz estava na sala.
Era um homem corpulento, de cabelos grisalhos ralos e bigode cuidadosamente aparado. Vestia roupas caras demais para aquele bairro e carregava uma pasta de couro debaixo do braço.
Observava os móveis da família como se já tivesse decidido quais poderiam ser vendidos.
— O senhor não pode entrar sem autorização — disse Helena.
Octávio voltou-se para ela.
— A casa é minha.
— Os nossos pertences não.
Ele sorriu.
— Continua bonita quando está irritada.
O estômago de Helena se contraiu.
Gabriel levantou-se imediatamente.
— Fale do aluguel.
— Estou falando.
— Não parece.
Octávio ignorou o rapaz.
— Senhorita Helena, precisamos encontrar uma solução.
— Podemos falar sobre um prazo.
— Não foi exatamente nisso que pensei.
Leonor abaixou os olhos.
Foi um movimento pequeno, mas Helena percebeu.
— Que solução? — perguntou.
Octávio aproximou-se.
— Existem maneiras diferentes de acertar uma dívida.
— Dinheiro é uma delas.
— Nem sempre precisa ser dinheiro.
Gabriel se colocou entre os dois.
— Saia.
Octávio soltou uma risada curta.
— Você deveria aprender a respeitar quem mantém um teto sobre sua cabeça.
— O senhor cobra aluguel. Não sustenta esta família.
O sorriso desapareceu.
Octávio olhou outra vez para Helena.
— Seu irmão é impulsivo.
— Meu irmão está certo.
— Você, pelo menos, parece inteligente.
— Inteligência suficiente para saber quando uma conversa terminou.
Ela apontou para a porta.
— Saia.
Octávio segurou seu braço.
O gesto foi rápido.
Forte o bastante para machucar.
— Cuidado — murmurou. — Você não está em posição de recusar favores.
Helena tentou soltar-se.
— Tire a mão de mim.
— Não faça escândalo.
— Tire a mão.
Leonor se levantou.
— Octávio...
Ele nem sequer olhou para ela.
— Quero conversar com Helena em particular.
— Não — disse Gabriel.
Octávio puxou Helena pelo braço na direção do escritório.
Ela tentou resistir.
— Solte-me.
— Pare de agir como uma menina histérica.
— Eu disse para me soltar.
Ele a empurrou para dentro do pequeno cômodo e fechou a porta.
A chave girou.
O medo entrou antes que Helena pudesse impedi-lo.
O escritório possuía uma mesa estreita, duas estantes e uma janela que mal abria. Sobre um móvel lateral havia uma garrafa de vidro pela metade.
Helena encarou a porta.
— Abra.
Octávio colocou a chave no bolso.
— Você precisa aprender a conversar.
— Isto não é uma conversa.
— Sua família deve meses de aluguel.
— Isso não lhe dá direito de me trancar.
— Posso facilitar as coisas para vocês.
Ele se aproximou.
Helena recuou.
— Não quero nenhuma facilidade que exija uma porta trancada.
Octávio sorriu.
— Você sabe perfeitamente o que estou oferecendo.
— Sei.
— Então pare de fingir indignação.
Helena sentiu as costas tocarem a mesa.
— Abra a porta.
— Uma noite comigo e podemos esquecer parte da dívida.
Por um instante, ela não disse nada.
Não porque estivesse em dúvida.
Porque algumas coisas são tão repulsivas que o corpo precisa de alguns segundos para acreditar que realmente foram pronunciadas.
— Abra a porta.
Octávio avançou.
— Não seja tola. Você precisa desta casa.
— Preciso de um lugar seguro.
— E acha que vai encontrar outro?
Ele segurou os dois braços dela.
Helena tentou empurrá-lo.
— Solte-me.
— Depois de tudo o que fiz por vocês—
— O senhor alugou uma casa!
A mão dele subiu por seu braço.
O medo cresceu.
Mas o medo, quando encurralado, às vezes descobria que tinha dentes.
Helena tateou a mesa atrás de si.
Seus dedos encontraram a garrafa.
Ela a agarrou e golpeou contra o braço de Octávio.
O vidro se partiu.
Ele gritou.
Um fragmento cortou a palma de Helena, mas ela quase não percebeu.
Octávio a soltou.
Helena alcançou a porta, arrancou a chave do bolso do paletó dele durante a confusão e abriu.
Correu para o corredor.
— Assassina! — ele berrou atrás dela.
Gabriel avançou.
— O que você fez com ela?
— Fique longe! — ordenou Helena.
Não queria que o irmão lhe desse exatamente aquilo que Octávio precisaria para construir outra acusação.
Octávio apareceu segurando o braço ensanguentado.
— Ela tentou me matar!
— Você a trancou lá dentro! — gritou Gabriel.
— Ela me atacou!
Helena pressionou a mão ferida contra a própria blusa.
— Ele não queria falar sobre o aluguel.
Leonor estava branca.
— Helena...
— Não.
A palavra saiu sem força, mas definitiva.
— Não diga que eu deveria ter suportado.
Leonor fechou a boca.
Os policiais chegaram pouco depois.
Octávio falou primeiro.
Naturalmente.
Homens como ele raramente desperdiçavam a vantagem de contar uma história enquanto os outros ainda tentavam sobreviver a ela.
— Ela entrou no escritório alterada — afirmou. — Começou a me ameaçar e quebrou uma garrafa contra mim.
— Ele me levou para dentro e trancou a porta — disse Helena.
Um dos policiais anotou.
— Houve discussão por causa do aluguel?
— Sim.
— A senhora ameaçou o senhor Ferraz?
— Pedi várias vezes que me soltasse.
— Isso não foi o que perguntei.
Helena olhou diretamente para ele.
— Não ameacei matá-lo. Defendi-me.
O policial observou o corte em sua mão.
— Isso aconteceu durante a agressão?
— Quando a garrafa quebrou.
— Há testemunhas do que aconteceu dentro do escritório?
Helena olhou para a porta.
— Não.
Octávio sorriu.
Foi apenas um movimento no canto da boca.
Mas bastou.
Ele sabia.
A verdade existia.
O problema era prová-la.
Antes de ser levado para atendimento médico, Octávio passou por Helena.
— Você acabou com a própria vida — murmurou.
Gabriel ouviu.
— Repete isso.
Helena segurou o braço do irmão.
— Não.
Octávio saiu.
Quando os policiais também partiram, levando os primeiros depoimentos e orientando que todos comparecessem formalmente à delegacia, a casa pareceu maior.
Ou talvez apenas mais vazia.
Leonor foi a primeira a falar.
— Você destruiu tudo.
Gabriel virou-se para ela.
— Ele tentou abusar dela.
— Eu sei o que ele tentou!
— Então por que está culpando Helena?
Leonor levantou-se.
— Porque agora temos uma denúncia, uma dívida e nenhuma casa!
Helena apertou o pano contra a mão.
— A senhora queria que eu fizesse o quê?
Leonor não respondeu.
Helena continuou:
— Que deixasse?
— Eu queria que pensasse em nós!
A frase foi pior que um grito.
Helena ficou imóvel.
— Eu pensei.
— Não parece.
— Pensei em mim também.
Leonor a encarou.
Talvez esse fosse o verdadeiro problema.
Helena passara tantos anos cuidando dos outros que qualquer tentativa de se proteger parecia egoísmo.
— Quem contratará uma enfermeira acusada de atacar o proprietário da própria casa? — perguntou Leonor.
— Eu não sei.
— E onde vamos morar?
— Eu não sei.
— E o que vamos fazer?
Helena fechou os olhos por um instante.
— Eu não sei.
Um carro preto parou diante da casa.
Os três olharam para a janela.
Um homem alto desceu segurando um guarda-chuva. Tinha os cabelos negros cuidadosamente penteados, usava um terno escuro impecável e caminhava com a tranquilidade irritante de quem nunca precisara decidir entre pagar aluguel e comprar remédios.
Bateu à porta.
Gabriel não se moveu.
Helena abriu.
O homem observou rapidamente o corredor, o vaso quebrado, a mão ferida e as marcas vermelhas no braço dela.
— Senhorita Helena de Alencar?
— Quem é o senhor?
— Rafael Montenegro.
— Isso deveria significar alguma coisa?
— Sou advogado.
Helena quase riu.
— Se veio por causa de Octávio, chegou tarde.
— Não trabalho para Octávio Ferraz.
— Então por que está aqui?
Rafael fechou o guarda-chuva.
— Vim falar sobre uma proposta de trabalho.
Helena o encarou.
— Hoje?
— A proposta já existia antes de hoje.
— E o senhor decidiu aparecer depois de a polícia sair?
— Decidi aparecer porque as circunstâncias mudaram.
— Como sabe o que aconteceu?
Rafael hesitou por uma fração de segundo.
— Octávio entrou em contato com pessoas ligadas ao meu cliente pouco depois da ocorrência. O assunto chegou até mim.
— Seu cliente conhece Octávio?
— Conhece o suficiente.
Aquilo não era resposta.
Helena começava a suspeitar que Rafael Montenegro tinha o hábito profissional de dizer a verdade apenas nas partes que lhe eram convenientes.
— Quem é seu cliente?
— Augusto Villagran.
Gabriel franziu a testa.
O nome era conhecido mesmo por quem nunca pisara na propriedade.
— O dono da fazenda? — perguntou.
— Sim.
Rafael voltou-se para Helena.
— O senhor Villagran procura uma enfermeira para acompanhamento particular. A vaga inclui salário, acomodação e alimentação na propriedade.
Helena olhou para a própria mão.
— Estou sendo acusada de tentativa de homicídio.
— Ainda não existe condenação alguma.
— Isso não parece incomodá-lo?
— Meu cliente não é conhecido por se impressionar facilmente com acusações.
— E por que eu?
Rafael sustentou seu olhar.
— Porque seu nome já estava entre os indicados antes de hoje.
Era uma explicação incompleta.
Mas, naquele momento, Helena possuía muitas perguntas e poucas coisas que ainda pudesse perder.
— Onde fica a fazenda?
— A pouco mais de duas horas daqui.
— Quando seria o início?
Rafael abriu a porta traseira do carro.
— Hoje, se aceitar.
Helena virou-se.
Gabriel estava no corredor, preocupado.
Leonor continuava junto ao sofá, ainda agarrada à bolsa.
A samambaia permanecia caída entre eles.
Por muitos anos, Helena acreditara que aquela casa era pobre, apertada e imperfeita, mas ainda assim era sua.
Agora compreendia que jamais fora.
O teto pertencia a Octávio.
Os móveis poderiam ser retirados.
As paredes tinham dono.
Talvez até a segurança que sentira ali não passasse de uma concessão que alguém decidira revogar.
Helena pegou a pasta com seus documentos.
— Preciso levar algumas coisas.
Rafael assentiu.
— Naturalmente.
Gabriel se aproximou.
— Você vai?
Helena olhou para a casa.
Depois para o sangue seco em sua mão.
— Vou.
— Assim?
— Se eu ficar, Octávio continuará decidindo o que acontece conosco.
— E você sabe quem é Augusto Villagran?
— Não.
— Então como sabe que será melhor?
Helena respirou fundo.
— Não sei.
E aquela talvez fosse a primeira resposta completamente honesta que dera naquele dia.
Do lado de fora, a chuva começou outra vez.
Helena observou o carro negro parado diante da casa e sentiu uma certeza desagradável instalar-se dentro dela.
Não estava escolhendo um emprego.
Estava escolhendo para onde fugir.
E pessoas que fogem raramente têm o privilégio de perguntar o que as espera quando chegam.
No primeiro inverno em que a casa era deles, Helena descobriu flores junto ao muro.Não muitas.Quatro, talvez cinco, escondidas entre folhas que ela passara quase um ano ignorando porque o arbusto parecia empenhado em ser apenas verde.Saiu para o quintal às seis e quarenta da manhã com uma caneca de café, viu as pequenas flores rosadas cobertas por gotas de orvalho e ficou parada.O frio era leve, desses que faziam as pessoas da região vestir casaco pela manhã e carregá-lo no braço antes do meio-dia. Ainda assim, a grama estava úmida, o ar tinha uma nitidez diferente e Helena precisou esfregar o pé descalço sobre o outro para aquecê-lo.Augusto apareceu na porta da cozinha.— Você vai ficar aí sem sapato?Helena não virou.— Vem ver.— O quê?— Flores.Silêncio.— Helena, existe vegetação no quintal há bastante tempo.Ela olhou por cima do ombro.— Vem.Ele veio.Não porque estivesse impressionado com a botânica.Porque ela pediu.Augusto parou ao lado dela e observou o arbusto.— A
Quase um ano depois de terem recebido as chaves da casa alugada, Helena recebeu um e-mail de Eduardo Ferraz enquanto comia uma banana entre duas reuniões.Leu o assunto.Imóvel — proposta aos atuais locatáriosParou de mastigar.Abriu.Eduardo escrevia com a objetividade de quem sabia que qualquer tentativa de delicadeza podia tornar uma questão imobiliária mais assustadora do que precisava ser. Por razões pessoais e reorganização patrimonial, pretendia vender a casa nos meses seguintes. Antes de anunciar ao mercado, queria oferecer aos dois a oportunidade de compra. Não havia obrigação, nem necessidade de resposta imediata. O contrato de locação seria respeitado integralmente se recusassem, e eventual comprador teria de assumir a locação vigente.Helena leu duas vezes.Depois uma terceira.A banana continuou na mão.Clara entrou na copa e parou.— Você está encarando fruta.Helena levantou os olhos.— O dono vai vender a casa.Clara ficou séria.— A casa de vocês?— A casa que a gent
Davi decidiu que Daniel fazia parte da família numa quarta-feira às quatro e vinte da tarde e imediatamente se arrependeu de ter usado uma palavra tão grande.A culpa foi da escola.Naturalmente.A professora havia distribuído uma folha intitulada MINHA REDE DE FAMÍLIA E CUIDADO, o que parecia simples até Davi perceber que havia círculos demais e instruções insuficientes.No centro, precisava escrever o próprio nome.Ao redor, pessoas importantes em sua vida.Podiam ser parentes ou não.A professora explicara isso três vezes.Mesmo assim, Davi ficou vinte minutos olhando para um círculo vazio.Elisa percebeu da cozinha.— Travou?— Não.— Você está parado na mesma palavra desde que eu comecei a cortar cenoura.— Estou pensando.— Certo.Ela não se aproximou.Era uma habilidade aprendida.Na folha já estavam:Mãe.Pai.Tomás continuava ali sem qualquer dúvida.Depois:Tio Augusto.Tia Cecília.Davi tinha começado a escrever Helena como “tia Helena”, parado no meio e riscado.Não porque
Três semanas depois do casamento, Augusto descobriu que vinte minutos podiam ser mais assustadores que uma cerimônia inteira.No casamento, pelo menos, Helena estivera ao lado dele.No Festival Instrumental de Lago Sereno, ela estaria na terceira fileira.Diferença pequena em metros.Considerável no corpo.— Você já tocou em público — disse Helena.Estavam no quarto do hotel, duas horas antes da apresentação.Augusto ajeitava a manga da camisa pela terceira vez.— Recital pequeno.— Continua sendo público.— Era outro contexto.— Qual?Ele olhou.— Menos gente.— Quantas pessoas você acha que vão estar hoje?— Não sei.— Então está com medo de uma quantidade imaginária.— Obrigado.Helena sorriu.— Disponha.O festival ocupava um antigo centro cultural perto da praça principal de Lago Sereno.Nada enorme.Dois auditórios.Um palco externo.Oficinas durante o dia.Apresentações curtas à noite.Música instrumental suficiente para atrair gente interessada e insuficiente para transformar
Na manhã seguinte ao casamento, Helena acordou porque Augusto estava tentando alcançar o próprio telefone sem acordá-la.Falhou nas duas tarefas.Ela abriu os olhos e encontrou o braço dele estendido para o criado-mudo, a aliança nova refletindo uma faixa estreita de luz.— O que você está fazendo?Augusto parou.— Nada.— Isso claramente é alguma coisa.— Vendo as horas.— Por quê?— Para saber as horas.Helena fechou os olhos outra vez.— Casamos ontem e você continua péssimo mentindo.Ele pegou o telefone.— Oito e dezenove.— Horrível.— Temos reserva às duas.— Na serra. Uma hora e meia daqui.— Duas, com trânsito.Helena puxou o lençol.— Ainda temos quase quatro horas.— Cinco e quarenta e um minutos.Ela abriu um olho.— Se você fizer contagem regressiva da lua de mel, eu peço divórcio.Silêncio.A palavra ficou no quarto por um instante.Nenhum dos dois riu imediatamente.Helena virou o rosto.Augusto olhava para o telefone, agora sem qualquer interesse nele.— Foi ruim? — pe
Às seis e vinte da manhã do casamento, Helena percebeu que tinha cometido um erro básico de planejamento.Não havia pensado no café.Não no serviço da Casa das Janelas, que estava contratado. Nem no almoço. Nem no bolo pequeno que Cecília continuava considerando uma ofensa à instituição matrimonial.No café daquela manhã.Ela estava sentada à mesa de camiseta velha, o cabelo preso de qualquer jeito, olhando para um pacote quase vazio enquanto Augusto preparava a cafeteira.— Tem pouco.— Dá para dois.— E amanhã?Augusto virou o rosto.Helena percebeu.— Certo.— Amanhã podemos comprar.— Eu sei.— Literalmente?Ela apontou para ele.— Não começa no dia do casamento.Augusto sorriu e voltou para a cafeteira.A máquina fez o barulho habitual. O mesmo de todas as manhãs em que nada legalmente relevante acontecia.Helena gostou disso.Às onze, assinariam documentos.Antes, precisavam tomar café.Nenhum dos dois tinha planejado uma separação cerimonial na manhã.Ainda assim, ela aconteceu







