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Capítulo 4 — As regras da casa

last update Data de publicação: 2026-07-23 05:40:32

Às cinco e quarenta da manhã, Helena descobriu que a Fazenda Villagran possuía regras para quase tudo.

Havia horário para abrir as cortinas, horário para servir o café, portas que deveriam permanecer fechadas e objetos que, aparentemente, haviam conquistado o direito de nunca mudar de lugar.

Não encontrou nenhuma regra explicando por que alguém precisava estar acordado vinte minutos antes do combinado.

Bateram à porta.

— Senhorita Helena?

A voz feminina era desconhecida.

Helena afastou o cobertor, verificou o relógio e abriu.

Uma jovem estava no corredor. Era baixa, delicada, de cabelos castanho-claros presos em uma trança. Sardas atravessavam-lhe o nariz, e as mãos ainda carregavam pequenas marcas de farinha.

— Desculpe acordá-la.

— Eu já estava acordada.

Não estava.

Algumas mentiras eram suficientemente pequenas para não merecer culpa.

— O senhor Augusto pediu que descesse.

Helena olhou novamente para o relógio.

— Agora?

A jovem pareceu constrangida.

— Ele costuma começar cedo.

— Percebi.

Helena vestiu-se rapidamente, prendeu os cabelos e guardou o contrato dentro da gaveta antes de sair.

Ainda não o assinara.

Passara parte da noite lendo cada página, procurando alguma cláusula escondida entre palavras jurídicas que transformasse hospedagem em dependência ou salário em dívida.

Não encontrara nenhuma.

O que não significava que tivesse encontrado confiança.

Na cozinha, o cheiro de café recém-passado finalmente oferecia àquela casa alguma coisa semelhante a acolhimento.

Uma mulher robusta retirava pães do forno. Tinha cabelos grisalhos presos em coque, braços fortes e um avental que parecia ter participado de muitas batalhas culinárias e vencido quase todas.

— Então você é Helena.

— Sou.

— Amália Nogueira.

A mulher colocou uma xícara diante dela.

— Beba antes que Augusto descubra algum problema que precise existir antes do amanhecer.

Helena segurou a xícara.

— Ele sempre acorda assim?

— Augusto não acorda mal-humorado.

Helena esperou.

Amália completou:

— Precisa dormir para isso.

A jovem da porta tentou esconder um sorriso.

— Esta é Clara — disse Amália. — Minha afilhada.

— Nós já nos conhecemos no corredor — respondeu Helena.

Clara assentiu.

— Só não sabia se podia me apresentar.

— Por quê?

Clara olhou para Amália antes de responder.

— Aqui cada pessoa tem uma função.

— E se apresentar não faz parte da sua?

Amália colocou um prato de pão sobre a mesa.

— Clara ainda está aprendendo que trabalhar numa casa não significa desaparecer dentro dela.

A jovem corou.

Antes que Helena respondesse, a porta dos fundos abriu-se.

Um homem alto entrou carregando uma prancheta. Tinha pele bronzeada, cabelos negros encaracolados e botas cobertas de lama.

— O cavalo do pasto sul decidiu que não gosta mais de mim.

— Uma excelente demonstração de discernimento — respondeu Amália.

— Ele tentou me morder.

— Talvez esteja formando opinião própria.

O homem colocou a prancheta sobre o balcão e olhou para Helena.

— Bento Ribeiro.

— Helena de Alencar.

— A nova enfermeira.

— Em período de avaliação.

Bento olhou para Amália.

— De quem?

— De ambos — respondeu Helena.

Isso pareceu diverti-lo.

O som das rodas sobre o piso anunciou Augusto antes que ele entrasse.

Eram seis e vinte e sete.

Helena conferiu discretamente o relógio.

Augusto percebeu.

— Algum problema?

— Nenhum. Estou apenas aprendendo os horários.

Ele aproximou-se da mesa.

— O café é servido às seis e meia.

Amália colocou uma xícara diante dele.

— Então ainda tenho três minutos para me arrepender de ter servido.

Augusto olhou para a bebida.

— Eu pedi às seis e meia.

— E eu preparei antes para que estivesse pronta às seis e meia.

— São seis e vinte e sete.

— Não beba até lá.

Bento examinou a prancheta com súbito interesse.

Clara mordeu o lábio.

Helena tomou um gole do próprio café.

Augusto voltou-se para ela.

— Você deveria estar pronta às seis.

— Estou pronta.

— Pedi que descesse antes.

— Mandou alguém me chamar às cinco e quarenta.

— E você desceu.

— Porque imaginei que houvesse alguma urgência.

— Não havia.

Helena pousou a xícara.

— Então amanhã descerei às seis.

— Quando eu pedir que venha antes—

— Se houver necessidade clínica, venho. Se for apenas para testar se obedeço, prefiro dormir os vinte minutos.

O silêncio da cozinha chegou com admirável pontualidade.

Augusto estreitou os olhos.

— Você fala assim com todos os pacientes?

— Apenas com os que confundem acompanhamento profissional com disponibilidade irrestrita.

— Eu não sou seu paciente.

— Ainda nem assinei o contrato. Tecnicamente, somos dois desconhecidos discutindo antes do café.

Amália virou-se para esconder a expressão.

O relógio marcou seis e meia.

Ela empurrou a xícara alguns centímetros na direção de Augusto.

— Agora pode beber.

Ele bebeu.

Talvez porque estivesse com sede.

Talvez porque discutir com Amália exigisse uma energia que nem Augusto Villagran possuía antes do café.

Depois da refeição, Helena o acompanhou até a sala de leitura.

Sobre a mesa, encontrou os medicamentos separados em pequenas caixas identificadas por horário.

Pegou a prescrição que Rafael deixara na pasta clínica.

— Quem organiza isso?

— Eu.

— Sempre?

— Sim.

Helena conferiu cada medicamento.

— Preciso dos nomes dos médicos responsáveis e da data da última avaliação.

— Está tudo na pasta.

Ela abriu.

Havia exames, prescrições e relatórios, mas alguns períodos estavam incompletos.

— Faltam informações.

— As relevantes estão aí.

— Isso é o senhor quem decidiu?

— Sim.

Helena ergueu os olhos.

— Preciso conversar com o médico que acompanha seu caso.

— Depois.

— Quando?

— Quando houver necessidade.

— Já existe.

Augusto encostou-se na cadeira.

— Você começa a trabalhar hoje e já quer convocar meus médicos?

— Quero saber quem prescreve os medicamentos que vou acompanhar.

— A prescrição está assinada.

— Não questionei a autenticidade.

— Então qual é o problema?

Helena apontou para a caixa das seis.

— Este ainda está aqui.

Augusto olhou.

— Eu tomarei.

— O horário era às seis.

— Não haverá consequência por alguns minutos.

— Talvez não. Mas se o senhor estabeleceu uma rotina tão rígida, seria interessante descobrir por que é o primeiro a ignorá-la.

— Não ignorei.

— O comprimido está olhando para nós.

Augusto permaneceu imóvel por alguns segundos.

Depois pegou o medicamento e o tomou.

— Satisfeita?

— Não se trata da minha satisfação.

Helena anotou o horário.

Foi então que percebeu o apoio lateral da cadeira.

Estava ligeiramente deslocado.

A postura de Augusto compensava o problema da mesma maneira que ela notara no dia anterior.

— O apoio precisa ser ajustado.

— Não.

— Está pressionando seu lado direito.

— Sempre ficou assim.

— Isso não significa que esteja correto.

— Você pretende questionar tudo o que uso há anos?

— Apenas o que estiver contribuindo para dor ou lesão.

Augusto levou a mão ao apoio.

— Eu mesmo ajusto.

Helena não se moveu.

Ele tentou alcançar a peça lateral. Precisou inclinar o tronco mais do que seria confortável e interrompeu o movimento antes de completar o ajuste.

Helena viu a irritação atravessar-lhe o rosto.

Não avançou.

Não tocou na cadeira.

Apenas esperou.

— Pode chamar Bento — disse Augusto.

— Posso.

— Então chame.

Helena foi até a porta.

— Ou posso ajustar, se o senhor autorizar.

Augusto olhou para ela.

Aquilo pareceu irritá-lo ainda mais do que se ela simplesmente tivesse tomado a iniciativa.

Talvez porque uma pergunta lhe deixasse a responsabilidade pela resposta.

— Ajuste.

Helena aproximou-se.

— Vou mover apenas esta peça.

— Eu sei.

— Preciso levantar um pouco o apoio.

— Helena.

Ela parou.

— O quê?

— Faça.

Ajustou a peça sem tocar nele além do necessário.

Quando terminou, Augusto reposicionou o corpo.

A diferença apareceu imediatamente.

Ele percebeu.

Não agradeceu.

Também não pediu que ela desfizesse.

Era um começo modesto, como costumam ser os começos que realmente importam.

— Melhor? — perguntou.

— Aceitável.

— Uma palavra emocionante.

Antes que ele respondesse, um menino apareceu na porta.

Tinha cabelos castanhos encaracolados, pernas finas e um pequeno cavalo de madeira preso numa das mãos.

Observou Helena antes de entrar.

— Você é a enfermeira nova?

— Sou.

— Vai ficar?

A pergunta veio depressa demais.

Helena abaixou a caneta.

— Ainda estou decidindo.

O menino pensou.

— As pessoas que demoram para decidir ficam mais.

Augusto fechou os olhos.

— Davi.

— O quê?

— Pare de incomodar.

— Eu só perguntei.

Davi voltou-se para Helena.

— Ele fala assim quando está irritado.

— Eu percebi.

— Também fala quando não está.

Augusto apontou para o corredor.

— Amália está procurando você.

— Não está.

— Como sabe?

— Porque ela disse que eu podia ficar até o café acabar.

— O café acabou.

Davi olhou para a xícara de Augusto.

— O seu ainda não.

Helena teve de baixar o rosto para esconder o sorriso.

Augusto não teve a mesma dificuldade.

— Vá.

Davi deu dois passos e parou.

— A senhora vai dar injeção nele?

— Só se houver prescrição.

O menino pareceu decepcionado.

— Ele não gosta de agulha.

— Davi.

— Todo mundo sabe.

O menino desapareceu pelo corredor.

Helena voltou para a mesa.

— Ele mora aqui?

— Sim.

— Filho de quem?

Augusto pegou um documento.

— Amália cuida dele.

— Não foi o que perguntei.

— Também não é informação necessária para meu tratamento.

Helena percebeu a mudança.

A resposta fora rápida demais.

— Certo.

Não insistiu.

Algumas portas permaneciam fechadas porque alguém ainda segurava a maçaneta do outro lado. Forçá-las raramente era a melhor maneira de descobrir o que escondiam.

Pouco antes das oito, um carro estacionou diante da casa.

Uma mulher de aproximadamente quarenta anos entrou carregando uma bolsa de equipamentos. Tinha roupas práticas, cabelos presos e a tranquilidade de quem conhecia Augusto havia tempo suficiente para já não se impressionar com ele.

— Marta Vasconcelos — apresentou-se a Helena. — Fisioterapeuta.

— Helena.

Marta olhou para Augusto.

— Sala de exercícios.

— Hoje não.

— Hoje, sim.

— Não confirmei a sessão.

— Confirmou na semana passada.

— Mudei de ideia.

Marta consultou o relógio.

— Seu corpo não recebeu o aviso.

Augusto endureceu.

— Podemos fazer amanhã.

— Amanhã temos outra sessão.

— Então cancelamos esta.

Marta voltou-se para Helena.

— Isso acontece.

— Imagino.

— Com frequência.

— Marta.

A fisioterapeuta ignorou o aviso.

— Ele teve dor no ombro ontem?

Helena olhou para Augusto.

— Percebi compensação postural do lado direito.

— Não perguntei a ela — disse Augusto.

— Eu perguntei.

Marta aproximou-se da cadeira.

— Quinze minutos de avaliação. Sem exercícios de transferência hoje.

— Não.

— Dez.

— Não.

Helena fechou a pasta clínica.

— Posso fazer uma pergunta?

Augusto a encarou.

— Você já está fazendo.

— O senhor está recusando porque sente dor ou porque não quer que ninguém veja que sente?

Marta permaneceu em silêncio.

A expressão de Augusto tornou-se absolutamente imóvel.

Era impressionante como algumas pessoas utilizavam o rosto para esconder precisamente o que o silêncio acabava de revelar.

— A sessão está cancelada — disse ele.

Marta recolheu a bolsa.

— Estarei aqui amanhã às oito.

— Não precisa voltar.

— Estarei aqui amanhã às oito.

Ela se dirigiu à porta e parou diante de Helena.

— Se vai trabalhar com ele, descubra cedo uma coisa.

Augusto soltou um suspiro impaciente.

— Marta.

A fisioterapeuta continuou:

— Ajudar Augusto nem sempre significa fazer o que ele quer.

Helena olhou para o homem na cadeira.

— Já comecei a perceber.

Quando Marta saiu, Augusto conduziu a cadeira até a mesa.

— Não quero que transforme esta casa num hospital.

Helena pegou uma folha em branco.

— Nem eu.

— Então pare de reorganizar minha rotina.

— Sua rotina já existe. O problema é que o senhor só cumpre as partes das quais gosta.

Ela escreveu os horários dos medicamentos, refeições e fisioterapia.

— O que está fazendo?

— Um quadro.

— Não preciso de quadro.

— Ótimo. Então poderá ignorá-lo com conhecimento de causa.

Helena prendeu a folha num painel vazio junto à mesa.

Augusto leu.

06h00 — medicação

06h30 — café

08h00 — fisioterapia, conforme agenda

Demais horários — conferir prescrição

— Retire isso.

— Por quê?

— Porque esta é minha sala.

— Posso colocar em outro lugar.

— Eu disse para retirar.

Helena retirou.

Dobrou a folha.

Augusto pareceu surpreso.

— Não vai discutir?

— Não.

— Finalmente.

Ela colocou o papel dentro da pasta.

— Farei uma cópia menor para sua agenda.

Ele a encarou.

Helena fechou a pasta.

— O senhor disse que não queria na parede.

Augusto permaneceu em silêncio.

Então, contra toda expectativa, o canto de sua boca quase se moveu.

Quase.

Helena percebeu.

E teve a sensatez de fingir que não.

Naquela casa, algumas vitórias precisavam permanecer sem testemunhas para sobreviver até o dia seguinte.

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