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Capítulo 5 — O preço da proteção

last update publish date: 2026-07-23 05:45:28

Marta chegou à Fazenda Villagran às oito em ponto.

Augusto já estava na sala de exercícios.

Helena percebeu isso antes mesmo de entrar, porque encontrou a porta aberta e ouviu o atrito das rodas sobre o piso emborrachado. No dia anterior, ele cancelara a sessão com a segurança de quem acreditava que bastava pronunciar uma decisão para que o mundo se reorganizasse ao redor dela.

Naquela manhã, estava vestido para fisioterapia.

Nenhum dos dois comentou a contradição.

Certas concessões sobreviviam melhor quando ninguém exigia que fossem confessadas.

Marta deixou a bolsa junto à parede.

— Bom dia.

— Não exagere — respondeu Augusto.

— Já começou melhor que ontem.

Ele lançou-lhe um olhar.

— Não comecei nada.

Marta ignorou.

— Como está o ombro?

— Bem.

— Dor durante a noite?

— Não.

Helena, que permanecia junto à porta com a pasta clínica, ergueu os olhos.

Augusto percebeu.

— Algum comentário?

— Nenhum.

— Está com essa expressão.

— Minha expressão não é da sua conta.

Marta soltou uma risada.

Augusto voltou-se para Helena.

— Isso foi uma provocação?

— Foi uma observação profissional.

— Sobre meu próprio argumento.

— É um argumento bastante versátil.

Marta bateu duas vezes na barra de apoio.

— Se terminarem o casamento verbal, podemos começar a fisioterapia.

Helena quase respondeu.

Augusto foi mais rápido.

— Não há casamento algum.

A frase saiu seca.

Curiosamente, pareceu incomodá-lo mais do que deveria.

Helena decidiu não perguntar por quê.

Marta posicionou a cadeira diante do banco.

— Hoje vamos trabalhar transferência e estabilidade de tronco. Sem heroísmo.

— Não pratico heroísmo.

— Chamar teimosia de outra coisa não muda o movimento.

Augusto apoiou as mãos nos braços da cadeira.

Helena acompanhou cada etapa sem se aproximar.

Ele inclinou o tronco, firmou os braços e começou a transferência. Os músculos dos ombros ficaram tensos. O movimento era controlado, mas havia uma pressa escondida nele, como se terminar antes pudesse diminuir o fato de precisar executar aquilo.

— Devagar — orientou Marta.

— Estou devagar.

— Está tentando acabar.

Augusto completou a transferência.

Por alguns segundos, permaneceu apoiado no banco, respirando fundo.

Marta verificou sua postura.

— Ombro direito mais rígido.

— Está normal.

— Não está.

— Eu conheço meu corpo.

Helena fechou a pasta.

— Essa frase parece ser o equivalente médico de “eu faço o que quero”.

Augusto virou o rosto.

— Você foi chamada para registrar a sessão, não para participar.

— Estou registrando.

— Então escreva.

Helena escreveu.

— “Paciente irritado.”

Marta mordeu o lábio para não rir.

— Não escreva isso.

— Não escrevi.

— Helena.

Ela mostrou a folha.

Havia apenas os horários, a duração e as observações clínicas.

Augusto olhou para ela por alguns segundos.

— Você gosta de me provocar.

— Ainda não decidi.

— Sobre isso também?

— Estou em período de avaliação.

Marta retomou os exercícios.

Dessa vez, Augusto realizou as repetições sem interromper antes do tempo. Quando os braços começaram a tremer, diminuiu o ritmo em vez de tentar compensar com força.

Helena percebeu.

Marta também.

Nenhuma das duas comentou.

Ao final dos quinze minutos, ele retornou à cadeira.

A respiração estava acelerada, mas a transferência foi mais segura que no dia anterior.

— Amanhã repetimos — disse Marta.

— Depois de amanhã.

— Amanhã faço apenas mobilidade.

— Então não é a mesma coisa.

— Estou aprendendo a negociar com você.

Augusto pegou a toalha.

— Não se acostume.

Marta passou por Helena antes de sair.

— Ele fez mais do que costuma fazer quando está irritado.

— Talvez estivesse tentando provar alguma coisa.

— Provavelmente.

Augusto ouviu.

— Continuo na sala.

— Nós sabemos — respondeu Marta.

Quando ficaram sozinhos, Helena entregou-lhe um copo de água.

Ele aceitou.

— Não preciso de plateia durante as sessões.

— Então posso acompanhar da porta.

— Não foi o que quis dizer.

— Eu sei.

Augusto bebeu.

Helena esperou até que recuperasse o fôlego antes de perguntar:

— A dor piorou?

— Não.

— Resposta verdadeira?

— Você pretende perguntar duas vezes sempre que não gostar da primeira?

— Apenas quando a primeira não combinar com o que estou vendo.

Ele pousou o copo.

— Um pouco.

Helena assentiu.

Não disse “eu sabia”.

A ausência da frase pareceu surpreendê-lo.

— Só isso? — perguntou.

— O quê?

— Não vai comemorar?

— Dor no seu ombro não é uma vitória minha.

Augusto desviou os olhos.

Helena fechou a pasta.

Talvez aquele fosse um detalhe insignificante.

Mas Augusto parecia conhecer tão bem a expectativa de humilhação que chegava a prepará-la antes que alguém tentasse oferecê-la.

No almoço, a mesa da varanda reuniu quase todos.

Amália serviu carne ensopada, arroz e legumes. Clara colocava água nos copos. Bento tinha uma prancheta ao lado do prato e lia anotações entre uma garfada e outra.

Davi tentava esconder pão no bolso.

Helena viu.

— Vai guardar para depois?

O menino cobriu o bolso com a mão.

— Não.

— Então seu casaco desenvolveu fome.

Davi olhou para baixo.

Um pedaço de pão aparecia pela abertura.

— É para mais tarde.

Amália suspirou.

— Ele faz isso sempre.

— Uma vez encontrei pão dentro de uma bota — contou Bento.

Davi se defendeu:

— Eu não estava usando a bota.

— Esse é exatamente o problema — respondeu Amália.

Clara riu.

Até Augusto desviou o rosto por um instante.

A tranquilidade durou pouco.

Cecília chegou com uma pasta de documentos e colocou-a diante do irmão.

— Preciso que assine.

Augusto continuou comendo.

— Deixe no escritório.

— Preciso hoje.

— Então estará assinada hoje.

— Antes das quatro.

— Cecília.

— O banco pediu a atualização dos documentos da minha parte.

Augusto parou.

Bento abaixou a prancheta.

Amália deixou de servir.

— Já conversamos sobre isso — disse Augusto.

— Você conversou. Eu ouvi.

— A divisão não será feita agora.

— Minha parte da herança não depende da sua vontade.

— Depende da situação financeira da propriedade.

— Sempre depende de alguma coisa que só você pode avaliar.

— Porque sou responsável pela administração.

— Porque decidiu ser.

O tom de Cecília ainda era controlado, mas a raiva já havia passado do ponto em que poderia fingir educação.

— Meu nome também está no inventário.

— E continuará.

— Um nome não paga nada.

Augusto apoiou os talheres.

— Você quer vender sua parte?

— Quero poder decidir.

— Para quê?

Cecília riu sem humor.

— Aí está.

— O quê?

— Você precisa saber o que farei para decidir se tenho direito ao que é meu.

— Preciso saber se uma decisão sua colocará trabalhadores e contratos em risco.

— Você transforma tudo em responsabilidade.

— Porque alguém precisa ser responsável.

O olhar dela mudou.

— E alguém precisa ser livre.

O silêncio tornou-se desconfortável.

Helena conhecia aquele tipo de discussão.

Mudavam os móveis, o dinheiro e os sobrenomes, mas famílias costumavam descobrir maneiras semelhantes de transformar cuidado em dívida.

Cecília voltou-se para ela.

— Cuidado.

Helena franziu a testa.

— Com o quê?

— Ele também chama controle de proteção quando está convencido de que sabe o que é melhor para alguém.

Augusto fechou a expressão.

— Não envolva Helena.

— Por que não? Ela mora aqui agora.

— Trabalha aqui.

Cecília levantou-se.

— Ainda.

Saiu sem levar a pasta.

Augusto empurrou-a para o lado.

Ninguém retomou imediatamente a refeição.

Davi retirou o pão do bolso e começou a comer.

Era uma estratégia respeitável para atravessar conflitos adultos.

Depois do almoço, Helena recebeu uma ligação de Rafael.

Atendeu no corredor.

— Alguma novidade?

— Octávio apresentou uma testemunha.

O pouco alívio que conseguira reunir desapareceu.

— Quem?

— Um homem chamado Álvaro Mendes. Afirma ter ouvido a senhora ameaçar Octávio antes da agressão.

— Isso é impossível.

— Onde ele diz que estava?

— No corredor próximo ao escritório.

— Não havia ninguém.

— Eu sei.

— Como sabe?

— Porque já colhi os depoimentos das pessoas presentes.

Helena apoiou a mão na parede.

— Então ele está mentindo.

— Provavelmente.

— “Provavelmente”?

— Eu não estava lá.

A resposta irritou Helena.

Também era a resposta correta.

— Gabriel ainda precisa depor?

— Amanhã cedo.

— Vou à cidade.

Rafael ficou em silêncio por um instante.

— Posso buscá-la.

— Não precisa.

— Precisa, sim. Ainda há ameaça vinculada a Octávio, e prefiro que não viaje sozinha até esclarecermos de onde vieram as mensagens.

— Eu não vou ficar escondida numa fazenda.

— Não pedi isso.

— Parece.

— Estou pedindo cautela, Helena. Não permissão para Augusto controlar seus passos.

Ela ficou quieta.

Rafael aprendera rapidamente onde a resistência estava.

— Que horas?

— Sete.

— Estarei pronta.

Quando desligou, Augusto estava no fim do corredor.

Helena não sabia há quanto tempo.

— Rafael? — perguntou.

— Sim.

— O que aconteceu?

— Octávio encontrou uma testemunha.

A expressão dele endureceu.

— Verdadeira?

— Não.

— Você tem certeza?

Helena encarou-o.

— Eu estava lá.

— Não quis dizer isso.

— Então formule melhor.

Augusto aproximou a cadeira.

— Quero dizer: existe alguma possibilidade de alguém ter ouvido uma parte da discussão e interpretado como ameaça?

Helena pensou.

— Eu disse para ele me soltar. Disse que sairia daquela casa. Gabriel mandou que ele fosse embora.

— Isso pode ser distorcido.

— Tudo pode.

— Rafael sabe lidar com isso.

— E se não souber?

— Ele saberá.

A confiança de Augusto era irritante.

Talvez porque Helena desejasse poder compartilhá-la.

— Gabriel está com medo — disse.

— Imagino.

— Não quero que ele pague por algo que Octávio fez comigo.

— Não pagará.

— O senhor não pode garantir.

Augusto permaneceu em silêncio.

Depois perguntou:

— Você vai à cidade amanhã?

— Vou.

— Rafael a levará.

Não era pergunta.

Helena respirou fundo.

— Ele se ofereceu.

— Ótimo.

— Eu não pedi sua autorização.

— Nem neguei.

— Augusto—

— Helena.

Os dois pararam.

Ele falou primeiro:

— Não estou tentando impedir que vá.

Ela cruzou os braços.

— Parece estar tentando controlar como vou.

— Recebeu uma ameaça ontem.

— Eu sei.

— Então aceitar companhia não significa perder liberdade.

— Dependendo de quem escolhe a companhia, pode significar.

Augusto a observou.

— Escolha outra pessoa.

A resposta a surpreendeu.

— O quê?

— Se não quer Rafael, Bento pode levá-la. Ou Amália pode acompanhar.

— Não preciso—

— Não estou dizendo que precisa. Estou oferecendo possibilidades.

Helena demorou a responder.

Aquilo parecia diferente.

Ainda havia controle nas bordas.

Mas, pela primeira vez, ele deixara alguma coisa no centro que se parecia com escolha.

— Rafael está bem — disse.

Augusto assentiu.

— Volte quando terminar.

Ela o encarou.

— Isso é uma ordem?

— Não.

— Então o que é?

Augusto desviou os olhos para a varanda.

— Um pedido.

A palavra saiu como se não estivesse acostumada a ser usada.

Helena sentiu alguma coisa dentro de si hesitar.

— Pretendo voltar — respondeu.

Não era promessa.

Também não era obediência.

Naquela casa, talvez precisassem aprender a diferença.

No fim da tarde, Rafael voltou a ligar.

Dessa vez, sua voz estava mais tensa.

— Helena, preciso que preste atenção.

— O que aconteceu?

— Gabriel não está na pensão.

O coração dela acelerou.

— Onde ele está?

— Leonor diz que saiu há algumas horas.

— Para quê?

— Aceitou um trabalho.

Helena fechou os olhos.

A conversa da manhã voltou inteira à memória.

Não aceita qualquer coisa só porque pagam no mesmo dia.

— Que trabalho?

— Uma entrega.

— Para quem?

— Um homem chamado Sérgio.

Helena apertou o telefone.

— Rafael, encontre meu irmão.

— Já estamos procurando.

— Ele está com qual veículo?

Houve uma pausa.

Pequena demais para ser tranquilizadora.

— Uma van de carga.

Helena foi até a janela.

O céu escurecia sobre os campos.

— Ele sabe dirigir.

— Eu sei.

— Então por que sua voz está assim?

Rafael demorou um segundo.

— Porque ninguém na empresa consegue confirmar quem autorizou a saída do veículo.

Helena sentiu o frio antes mesmo de compreender inteiramente a frase.

— E Sérgio?

— Não atende.

Ela olhou para a estrada que desaparecia além dos portões da Fazenda Villagran.

Pela primeira vez desde que chegara ali, não quis discutir com Augusto, fugir da propriedade ou provar que conseguia resolver alguma coisa sozinha.

Quis apenas que o telefone tocasse.

E que Gabriel estivesse do outro lado.

Não tocou.

Longe dali, numa estrada molhada que Helena ainda não podia ver, uma van avançava depressa demais em direção a uma curva.

E Gabriel de Alencar só descobriria que o pedal do freio não respondia quando já não houvesse estrada suficiente para parar.

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