เข้าสู่ระบบLeonor terminou seis meses de trabalho numa quinta-feira às quatro e vinte da tarde diante de uma pasta que não continha nada especialmente importante.Era justamente isso que a incomodava.A pasta cinza trazia recibos de manutenção de um prédio municipal demolido havia doze anos, três memorandos sobre troca de lâmpadas, uma ordem de serviço para conserto de calha e uma sequência de comunicações internas sobre cupins numa sala que já não existia.No canto superior, alguém escrevera em caneta azul:VER SE PODE DESCARTAR.Leonor leu outra vez.Márcia Helena Duarte surgiu do outro lado da mesa.— Você está olhando para isso há cinco minutos.— Estou decidindo.— Sobre cupins mortos há quinze anos?— Sobre classificação.Márcia puxou uma cadeira.— Qual é a dúvida?Leonor apontou para o último documento.— Esse memorando referencia um processo de reforma que ainda está no acervo permanente.— Então mantém vínculo.— É.— Pronto.— Pronto.Márcia ficou olhando.— Você sabe que o projeto ac
Davi chegou para passar uma noite com uma mala que sugeria mudança definitiva.Augusto abriu o portão no sábado às quatro e encontrou Elisa tirando do porta-malas uma mochila, uma bolsa esportiva, um travesseiro, o estojo do telescópio e uma sacola que parecia conter comida suficiente para uma expedição.— Ele vai embora amanhã? — perguntou.Elisa entregou a mochila.— Em teoria.Davi saiu do carro carregando a almofada azul que já morava na casa havia semanas.— Eu trouxe minhas coisas.Augusto olhou para a quantidade.— Isso não são coisas. Isso é inventário.— Tem pouca coisa.Helena apareceu na porta e começou a rir.— O travesseiro é necessário?Davi ficou ofendido.— Eu durmo melhor com ele.— Justo.— E trouxe roupa extra.— Por quê?— Vai que suja.— Quantas vezes você pretende se sujar em dezoito horas?Davi pensou.— Não sei.Boa resposta.Daniel estava no banco do passageiro.Saiu depois, carregando o telescópio.Augusto apontou imediatamente.— Isso volta hoje.Davi fechou
Na primeira segunda-feira em que a casa era oficialmente a residência dos dois, Helena acordou sozinha.Por alguns segundos, não soube onde estava.A luz entrava pela lateral da cortina nova, ainda curta demais. A parede em frente não era a do apartamento. O ruído distante de um caminhão vinha da avenida. Havia uma caixa fechada perto do armário e, sobre ela, um abajur que continuava esperando o criado-mudo escolhido em conjunto e atrasado pela loja.Então lembrou.Casa.Virou para o lado de Augusto.Vazio.Olhou o relógio.Seis e quarenta e oito.No criado-mudo provisório — outra caixa — havia um papel.Fui cedo para a fazenda. Reunião com Bento às 7h30. Café pronto. Volto antes das 18h.Embaixo:Não coloquei toalha na cama.Helena ficou olhando.Depois começou a rir sozinha.Era uma sensação nova: acordar numa casa compartilhada sem que a outra pessoa estivesse ali e ainda assim não se sentir abandonada nem visitante.Levantou.Na cozinha, o café estava realmente pronto.Ao lado da
Helena recebeu a chave da casa às dez e quarenta e seis de uma quinta-feira.Não houve música.Nenhuma fotografia oficial.Nenhum corretor pedindo que os dois segurassem uma placa com NOVO LAR.Denise entregou um envelope pardo depois de uma vistoria de uma hora e vinte minutos em que Helena registrou uma pequena mancha perto da área de serviço, Augusto testou três portas e Camila Salles, por chamada de vídeo durante nove minutos, confirmou que o aditivo das adaptações estava anexado corretamente.No fim, Denise colocou o envelope sobre a bancada da cozinha.— Duas cópias da chave principal, duas do portão e uma da entrada lateral. Eduardo manda a segunda cópia da lateral amanhã porque o chaveiro esqueceu.Helena olhou para o envelope.Augusto também.Denise percebeu.— Querem que eu faça discurso?— Não — responderam juntos.— Ótimo. Eu também não tenho.Empurrou o envelope.Helena pegou primeiro.Foi tão simples que demorou um pouco para parecer real.Lúcia e Álvaro já tinham ido em
Augusto publicou Ainda numa quarta-feira às nove e sete da manhã porque, às nove e seis, continuava encontrando motivos para não publicar.O arquivo estava pronto havia meses.Masterizado.Ficha técnica revisada.Direitos organizados.Capa escolhida.Distribuição configurada.Nada dependia de estúdio, músico, advogado, plataforma ou autorização.Dependia dele.Isso era pior.No notebook, a página mostrava:DATA DE LANÇAMENTOAbaixo, opções.Ele poderia programar.Uma semana.Um mês.Três meses.Poderia inventar estratégia.Criar expectativa.Pedir a alguém que escrevesse um texto sobre o retorno à música depois do acidente, possibilidade que já recusara três vezes.Ou podia simplesmente colocar a faixa no mundo.Lúcia estava em chamada de vídeo no canto da tela.— Você está lendo a mesma página há quanto tempo?— Pouco.— Onze minutos.— Você está cronometrando?— Comecei depois do quinto.Augusto olhou para ela.— Tenho motivos.— Quais?Ele respirou.— Nenhum novo.— Excelente.— Is
Cecília soube que podia sair de Recife numa segunda-feira às onze e quarenta da manhã.O problema foi não sentir alívio imediato.Sentada diante de Otávio Lacerda, diretor regional responsável pela estrutura em que Henrique trabalhava, ela não estava presente, naturalmente. A notícia chegou por mensagem às onze e cinquenta e três.Tem possibilidade real. Te ligo depois.Cecília leu no escritório da Casa do Pomar.Márcia estava diante dela discutindo a substituição de duas mesas externas que começavam a empenar com umidade.Cecília leu a mensagem outra vez.— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Márcia.— Não.Márcia esperou.Cecília largou o telefone.— Henrique pode talvez mudar a base de trabalho.— Ah.— Isso não foi um “ah” neutro.— Eu não tenho “ah” neutro.— Justo.Márcia olhou para as fotografias das mesas.— É bom?Cecília abriu a boca.Parou.— Eu achei que ia saber responder imediatamente.— E não sabe.— Não.— Então talvez seja melhor comprar mesa antes de mudar de cidade.







