FAZER LOGINHelena recebeu a chave da casa às dez e quarenta e seis de uma quinta-feira.Não houve música.Nenhuma fotografia oficial.Nenhum corretor pedindo que os dois segurassem uma placa com NOVO LAR.Denise entregou um envelope pardo depois de uma vistoria de uma hora e vinte minutos em que Helena registrou uma pequena mancha perto da área de serviço, Augusto testou três portas e Camila Salles, por chamada de vídeo durante nove minutos, confirmou que o aditivo das adaptações estava anexado corretamente.No fim, Denise colocou o envelope sobre a bancada da cozinha.— Duas cópias da chave principal, duas do portão e uma da entrada lateral. Eduardo manda a segunda cópia da lateral amanhã porque o chaveiro esqueceu.Helena olhou para o envelope.Augusto também.Denise percebeu.— Querem que eu faça discurso?— Não — responderam juntos.— Ótimo. Eu também não tenho.Empurrou o envelope.Helena pegou primeiro.Foi tão simples que demorou um pouco para parecer real.Lúcia e Álvaro já tinham ido em
Augusto publicou Ainda numa quarta-feira às nove e sete da manhã porque, às nove e seis, continuava encontrando motivos para não publicar.O arquivo estava pronto havia meses.Masterizado.Ficha técnica revisada.Direitos organizados.Capa escolhida.Distribuição configurada.Nada dependia de estúdio, músico, advogado, plataforma ou autorização.Dependia dele.Isso era pior.No notebook, a página mostrava:DATA DE LANÇAMENTOAbaixo, opções.Ele poderia programar.Uma semana.Um mês.Três meses.Poderia inventar estratégia.Criar expectativa.Pedir a alguém que escrevesse um texto sobre o retorno à música depois do acidente, possibilidade que já recusara três vezes.Ou podia simplesmente colocar a faixa no mundo.Lúcia estava em chamada de vídeo no canto da tela.— Você está lendo a mesma página há quanto tempo?— Pouco.— Onze minutos.— Você está cronometrando?— Comecei depois do quinto.Augusto olhou para ela.— Tenho motivos.— Quais?Ele respirou.— Nenhum novo.— Excelente.— Is
Cecília soube que podia sair de Recife numa segunda-feira às onze e quarenta da manhã.O problema foi não sentir alívio imediato.Sentada diante de Otávio Lacerda, diretor regional responsável pela estrutura em que Henrique trabalhava, ela não estava presente, naturalmente. A notícia chegou por mensagem às onze e cinquenta e três.Tem possibilidade real. Te ligo depois.Cecília leu no escritório da Casa do Pomar.Márcia estava diante dela discutindo a substituição de duas mesas externas que começavam a empenar com umidade.Cecília leu a mensagem outra vez.— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Márcia.— Não.Márcia esperou.Cecília largou o telefone.— Henrique pode talvez mudar a base de trabalho.— Ah.— Isso não foi um “ah” neutro.— Eu não tenho “ah” neutro.— Justo.Márcia olhou para as fotografias das mesas.— É bom?Cecília abriu a boca.Parou.— Eu achei que ia saber responder imediatamente.— E não sabe.— Não.— Então talvez seja melhor comprar mesa antes de mudar de cidade.
A primeira discussão sobre a mudança foi causada por um sofá que nenhum dos dois amava.Helena estava no apartamento de Augusto numa quarta-feira à noite, sessenta e dois dias antes da entrega das chaves, quando perguntou:— Você vai levar isso?Augusto olhou para o sofá.Depois para ela.— O sofá?— Sim.— Você está apontando para ele.— Eu sei.— Então por que perguntou “isso” como se fosse um animal morto?Helena sentou numa das pontas.O sofá era grande.Cinza.Confortável.Caro o suficiente para que Augusto provavelmente soubesse a marca e Helena preferisse nunca perguntar.— Ele é muito... você.— Não sei se isso é ofensa ao sofá ou a mim.— Aos dois um pouco.Augusto aproximou a cadeira.— O que exatamente há de errado?Helena olhou.— Nada.— Excelente argumento.— Esse é o problema.— O sofá não ter defeito?— Ele parece escolhido por alguém que pediu “um sofá bom” e comprou o primeiro que passou numa avaliação técnica.Augusto ficou em silêncio.Helena estreitou os olhos.—
A árvore era maior ao vivo.Helena percebeu antes de desligar o carro.O tronco grosso subia perto do muro lateral e se abria sobre boa parte do quintal da frente, lançando sombra sobre a calçada e metade do telhado. As raízes tinham levantado um trecho pequeno do piso junto ao canteiro. Não parecia elegante. Não parecia planejada.Parecia antiga.Augusto olhou pela janela.— Você vai dizer.Helena ainda segurava o volante.— Não vou.— Está pensando alto.— Não estou falando.— Seu rosto—Ele parou.Os dois ficaram em silêncio.Helena virou devagar.Augusto fechou os olhos.— Não aconteceu.— Quase.— Reflexo antigo.— Grave.Ele apontou para a casa.— Vamos entrar antes que eu perca direitos civis.Era quinta-feira.Dezoito e quatro.Tinham chegado cedo de novo.Dessa vez, Denise já os esperava junto ao portão.A corretora carregava uma pasta fina e um molho de chaves.— Boa notícia — disse assim que se aproximaram. — O proprietário autorizou as medidas completas.Helena saiu do car
Denise mandou as medidas na segunda-feira às oito e treze.Helena estava terminando café no posto quando o telefone vibrou.Porta principal: 92 cm.Portas das suítes: 82 cm.Banheiro maior: porta 86 cm, área livre lateral ao vaso aprox. 95 cm.Box tem pequeno ressalto de 2 cm.Entrada principal nivelada.Garagem com piso regular e acesso interno sem degrau.Abaixo, seis fotografias.Helena abriu.Casa térrea.Fachada simples.Telhado baixo.Um pequeno jardim na frente.Sala com duas janelas grandes.Cozinha clara, sem ilha monstruosa ocupando metade do espaço.Dois quartos maiores.Um terceiro pequeno o bastante para Davi considerar violação de direitos fundamentais.E, ao fundo, uma varanda estreita com um quintal que parecia caber dentro de uma tarde.Helena ampliou a fotografia da cozinha.Clara passou atrás.Voltou dois passos.— É casa?Helena bloqueou a tela.— Você está ficando invasiva.— Isso é sim.— É uma que a corretora vai mostrar.Clara sorriu.— Bonita?Helena ficou em







