LOGINKarina
O som insistente de notificação do celular parecia perfurar meu cérebro. Rolei para o lado na cama, tateando o lençol até encontrar o aparelho. Sentei-me, esfregando os olhos e piscando contra a claridade da tela. Minhas tão sonhadas, suadas e merecidas férias tinham começado há exatamente doze horas, e a única coisa que eu planejava fazer naquele sábado era hibernar. Mas o nome de Juliana brilhava no visor com um direct de urgência médica. “Amiga, acorda!!! Você não vai acreditar. O Richard descobriu que é pai. Uma bebê recém-nascida, a Sofie. Ele está tendo um colapso nervoso no meio da sala, quase desmaiou limpando uma fralda. Pensei em você na hora. Socorro, você precisa ajudar ele!” Li e reli a mensagem, congelada no lugar. O choque foi tão grande que o resto do meu sono evaporou instantaneamente. — Não é possível... — sussurrei para o quarto vazio, sentindo uma risada incrédula escapar pela minha garganta. — Aquele traste é pai? E de uma menina?! O universo definitivamente tinha um senso de humor muito distorcido. Richard, o homem cujo ego mal cabia nos corredores do hospital, o solteirão convicto que trocava de acompanhante como quem trocava de plantão, agora tinha uma vida minúscula dependendo exclusivamente dele. A imagem mental dele em pânico com um pedaço de algodão na mão era quase terapêutica. Digitei de volta num piscar de olhos: “Como assim, pai?! Ju, eu não estou acreditando nisso. Mas amiga, como eu vou ajudar? Você sabe muito bem que a gente não se dá bem. Se eu ficar trancada no mesmo espaço que o Richard por mais de dez minutos, ou eu mato ele, ou ele me demite.” A resposta de Juliana veio quase no mesmo segundo, como se ela estivesse com o celular colado na testa: “É só por um tempo, Ka! Ele está desesperado, de verdade. Aproveita a grana extra, ele vai te pagar o que você pedir. Mas ó, tem um problema... o desespero é real e ele precisa de ajuda 24 horas. Ele quer alguém para morar lá nesses primeiros meses.” Deixei o celular cair no meu colo, olhando para o teto. Pronto, perdi minhas férias. Adeus maratona de séries, adeus acordar às duas da tarde, adeus paz de espírito. Meu celular vibrou de novo. Outra mensagem da Ju: “Pensa bem... Ele é seu chefe no hospital. Se você salvar a vida dele agora — e a sanidade mental da filhinha dele —, ele vai ficar te devendo o maior favor do mundo. Você pode negociar mais alguns dias de férias acumuladas para depois, ou aquela escala dos seus sonhos. J**a o seu charme profissional, Karina. Ele aceitou implorando para eu te ligar!” Bufei, jogando o edredom para o lado e saltando da cama. Olhei para a bagunça do meu quarto e depois para a tela, onde Juliana já mandava o endereço do apartamento dele. Richard na minha mão, em dívida perpétua comigo, e eu ainda sendo paga para ver o grande e imponente Dr. Richard perder o controle por causa de uma fralda cheia? “Estou levantando da cama agora”, respondi, com um sorriso de canto que eu não consegui disfarçar. “Diz para o seu amigo bilionário preparar a carteira e o psicológico, porque a encantadora de bebês está chegando.” A ideia de ver o Richard em pânico era o único incentivo necessário para me fazer sair da cama, mas eu não seria a Karina se não mantivesse a minha pose. Entrei no chuveiro e deixei a água quente relaxar os músculos, mas minha mente já estava traçando estratégias. Se eu ia sacrificar minhas férias, eu ia garantir que esse sacrifício valesse cada centavo — e cada oportunidade de provocá-lo. Nada de correr. O desespero era dele, não meu. Fui para a cozinha com calma, preparei um café passado bem forte, daqueles que a gente precisa para enfrentar um plantão dobrado, e cortei uma fatia generosa do bolo de chocolate que eu tinha feito antes de começar as férias. Sentei-me à mesa, saboreando cada pedaço, enquanto visualizava o caos que deveria estar instalado na cobertura dele. — Aproveita bem o seu café, Karina — murmurei para mim mesma, dando uma garfada lenta. — Porque a partir de agora, a sua vida vai ser um caos de fraldas e ordens de um "pai de primeira viagem" mimado. Comi sem pressa, tomei o café até a última gota e só então me vesti. Nada de roupas de hospital, afinal, eu estava de folga. Optei por algo prático, mas que passasse uma imagem de quem estava no comando. Quando finalmente saí pela porta da frente, o sol de sábado estava radiante. Caminhei até a esquina, já preparando o meu cartão de transporte para pegar o ônibus. No entanto, antes mesmo de chegar ao ponto, um carro preto, com vidros escuros e um brilho impecável, estava parado exatamente em frente à minha calçada, bloqueando o caminho. O vidro do passageiro desceu silenciosamente. Um motorista de semblante sério, vestindo um terno impecavelmente alinhado, me encarou. — Senhorita Karina? — ele perguntou, com uma voz educada e cortês. Parece que o Dr. Richard não estava brincando quando disse que estava desesperado. Eu ajeitei a bolsa no ombro, mantendo a postura altiva, e soltei um risinho interno. — Sim, sou eu — respondi, arqueando uma sobrancelha. O motorista abriu a porta traseira com um gesto elegante, como se eu fosse uma convidada de honra. — O Doutor Richard pediu para vir te buscar. Ele disse que o tempo é essencial. Olhei para o carro, depois para a rua, e cruzei os braços, sentindo o gostinho da vitória antes mesmo da batalha começar. Richard era um homem que não gostava de esperar por nada, e o fato de ele ter enviado um carro particular mostrava que ele sabia exatamente quem estava no controle agora. — Ele pediu, é? — indaguei, mantendo o tom de voz bem audível para o motorista, que apenas manteve a expressão profissional. — Bom, já que o senhor "Doutor" está tão apressado, seria uma grosseria da minha parte fazer ele esperar mais, não é? Entrei no carro, sentindo o estofado de couro luxuoso, e relaxei as costas. — Pode seguir — falei, olhando pela janela com um sorriso vitorioso. — Vamos ver como o meu chefe se sai quando o assunto não é cirurgia, mas sim uma recém-nascida chorando.Karina — Deita aqui, querida, deixa eu te ajudar — disse o Richard, ajeitando-me com todo o cuidado no sofá da sala, enquanto a respiração dele já estava curta de tanta adrenalina. Enquanto isso, Bernadete, percebendo que a situação exigia foco total, agiu rápido e subiu para o quarto com a Sofie, mantendo a mais velha protegida e longe daquela correria. Com as mãos trêmulas de nervosismo e carinho, Richard me ajudou a ajeitar a roupa. Logo em seguida, Miranda já estava a postos com suas luvas e a maleta, posicionando-se para o exame com rapidez e precisão. Ao terminar o toque, ela levantou o olhar para mim com os olhos arregalados e um sorriso misturado de surpresa e urgência. — Amiga, não vai dar tempo de chegar no hospital — sentenciou ela, num tom que fez o ar sumir dos meus pulmões. — Então me leva pro quarto! — implorei, sentindo o desespero bater. — Amiga, não vai dar tempo de chegar nem no quarto! — Miranda respondeu, já abrindo os materiais. — A bebê está
KarinaEntrar no quarto da Karoline era como caminhar por um conto de fadas: os tons pastores, o berço impecável com dossel, os detalhes em dourado e o cheirinho de talco que impregnava o ar transformavam o espaço em um verdadeiro reino de princesa.Aos nove meses gestação, eu já não cabia em mim mesma — literalmente. Cada movimento exigia um suspiro, e o peso da barriga me lembrava a todo instante que a reta final havia chegado. Eu só aguardava a pequena decidir que era hora de conhecer o mundo.Naquela tarde, Richard estava no hospital — uma cirurgia de emergência o havia chamado às pressas logo cedo —, enquanto eu ficara em casa na companhia de Bernadete e da pequena Sofie. A nossa mais velha estava numa fase curiosa, correndo pela sala com seus passinhos firmes, encantada com a ideia de que logo teria uma irmãzinha para dividir os brinquedos.Sentada no sofá, tentando achar uma posição minimamente confortável entre uma almofada e outra, senti a primeira onda.Não era uma dor lan
Richard— As duas estão ótimas — respondi, dando um sorriso bobo ao lembrar das minhas meninas. — A Karina passou o dia cuidando da Sofie lá em casa, brincando com a baixinha enquanto eu trazia o Kelvin para cáA Ju abriu um sorriso radiante e, na mesma hora, bateu as mãos uma na outra, já fazendo planos.— Ah, não acredito! Então vocês dois não vão embora agora. Liga para a Karina agora mesmo e chama ela e a Sofie para virem almoçar aqui com a gente! Vou pedir para prepararem algo leve que meu estômago aceite, e a gente aproveita para matar a saudade e comemorar o novo emprego do Kelvin.Eu bem que queria, e a ideia de passar o dia reunido com eles era tentadora, mas olhei para o relógio de pulso e balancei a cabeça negativamente, fazendo uma careta de quem estava com o tempo contado.— Queria muito, mas hoje vai ficar para a próxima — expliquei, ajeitando a gola da minha camisa. — Eu não posso ficar para o almoço porque daqui a pouco eu entro no plantão. Preciso voltar para casa
RichardO sol da manhã de Londres cortava a neblina lá fora, refletindo nas janelas dos prédios enquanto eu dirigia rumo ao bairro onde o Léo morava. O Kelvin vinha no banco do passageiro, ajeitando o colarinho da camisa social pela milésima vez, visivelmente tenso com o compromisso. Era compreensível: depois de tudo o que ele havia enfrentado no Brasil, aquela era a chance real de virar a página.— Respira, cunhado — falei, dando uma olhada rápida para ele antes de voltar os olhos para a pista. — O Léo é meu melhor amigo de longa data, um cara super tranquilo. Relaxa que vai dar tudo certo.Ele soltou um suspiro longo, tentando afastar a ansiedade, e deu um sorriso fraco.— Fácil para você falar, Richard. Chegar em um país novo já é um baque, agora imagina ir direto apresentar currículo para o dono de uma multinacional que é amigo do meu novo cunhado? Minhas mãos estão geladas.Dei uma risada curta, entendendo perfeitamente o nervosismo dele, mas mantendo a firmeza para passar co
RichardO elevador subiu em silêncio até o andar onde ficava o nosso apartamento, mas o clima dentro da cabine já deixava claro que a minha discussão brincalhona com a Karina na sala do Kelvin ainda renderia. Assim que destranquei a porta e entramos, antes mesmo de eu conseguir tirar o paletó, a Karina já cruzou os braços, virando-se para mim com aquela expressão de quem ia me dar uma bronca daquelas.— Você não tem jeito mesmo, né, Richard? — ela disparou, erguendo uma sobrancelha, embora houvesse um sorriso disfarçado no canto da boca dela que ela tentava esconder a todo custo. — Ficar pilhando o meu irmão desse jeito logo no primeiro dia? O garoto acabou de sair de um voo longo, tá com a cabeça cheia de fuso horário e você já quer virar o cupido de boate em Londres?Fechei a porta com o pé, soltei as chaves no aparador da entrada e abri um sorriso largo, dando dois passos para me aproximar dela.— Ué, amor, eu só tô olhando pelo bem dele! — defendi-me, levantando as mãos em sin
KarinaChegamos ao prédio e a viagem do aeroporto pareceu passar voando. Assim que o Richard estacionou o carro na garagem, eu mal esperei que ele pegasse as malas para já puxar o Kelvin pelo armário da entrada até o elevador. Subimos direto para o segundo andar.Quando paramos em frente à porta do apartamento e eu tirei a chave do bolso, minhas mãos até tremiam de animação. Girei a chave na fechadura e empurrei a porta, dando passagem para o meu irmão.— Seja bem-vindo à sua nova casa, mano! — falei, abrindo o sorriso mais largo da minha vida.O Kelvin deu os primeiros passos para dentro e parou na mesma hora. Ele foi andado devagar pela sala espaçosa, admirando a luz natural que entrava pelas janelas amplas, a decoração moderna que preparamos e o acabamento impecável de cada canto. A reação dele compensou cada segundo do meu cansaço do dia anterior.— Gente... isso aqui é grande demais! É muito espaço para mim sozinho — ele falou, boquiaberto, olhando em volta com os olhos brilh







