Compartir

Quando parei de esperar você
Quando parei de esperar você
Autor: Ell Marioti

🍒Prólogo

Autor: Ell Marioti
last update Fecha de publicación: 2026-07-22 07:01:36

— Assina aqui.

Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia.

Gabriel olhou para os papéis sobre a mesa de vidro.

Durante alguns segundos, apenas observou as folhas sem tocá-las.

Era engraçado.

Passei anos imaginando esse homem me olhando.

Me enxergando.

Me escolhendo.

E agora que finalmente seus olhos estavam voltados para mim, eu não sentia nada além de cansaço.

Um cansaço tão profundo que parecia ter se instalado nos meus ossos.

— Tem certeza? — ele perguntou.

Eu quase ri.

Quase.

Depois de tudo, aquela era a pergunta que ele fazia?

Não "como você está?".

Não "você ainda me ama?".

Não "vamos tentar outra vez?".

Apenas:

— Tem certeza?

Como se estivéssemos cancelando uma assinatura de revista.

Como se meu coração não tivesse sido destruído e reconstruído tantas vezes que eu já não soubesse qual era sua forma original.

— Tenho.

Ele assentiu.

Sem drama.

Sem discussão.

Sem insistência.

Sem lutar por mim.

Como sempre.

Pegou a caneta.

Assinou.

E naquele instante eu soube que os últimos quatro anos da minha vida tinham acabado.

Era simples assim.

Uma assinatura.

Um rabisco de tinta.

Fim.

Eu deveria ter chorado.

Mas as lágrimas tinham acabado muito antes daquele dia.

Muito antes do acidente.

Muito antes de ele acordar no hospital procurando outra mulher.

Muito antes de eu entender que não importa o quanto você ame alguém.

Você não pode obrigar essa pessoa a amar você de volta.

Gabriel empurrou os documentos para mim.

— Pronto.

Pronto.

Uma palavra tão pequena para algo tão grande.

Meu coração apertou.

Porque, apesar de tudo, existia uma parte estúpida dentro de mim.

Uma parte que ainda esperava.

Sempre esperava.

Esperava que ele me impedisse.

Esperava que dissesse meu nome.

Esperava que finalmente me escolhesse.

Mas ele não fez nada.

Nunca fez.

Peguei os papéis.

Levantei.

E fui embora.

Sem olhar para trás.

Sem perceber que aquela seria a última vez que o veria por muito tempo.

Dois meses depois.

Eu estava parada no aeroporto segurando uma passagem só de ida.

Nova York.

A cidade que eu sonhava conhecer desde os dezesseis anos.

A cidade onde ficava uma das maiores empresas de design do mundo.

A cidade onde ninguém me conhecia.

Onde ninguém sabia quem eu tinha sido.

Ou quem eu tinha amado.

Minha mala estava pesada.

Mas não tanto quanto meu peito.

Meu celular vibrou.

Uma mensagem da minha mãe.

"Tem certeza que quer ir tão longe?"

Sorri.

Engraçado.

Todo mundo parecia preocupado com a distância.

Mas ninguém entendia que eu já estava longe havia anos.

Longe de mim mesma.

Longe dos meus sonhos.

Longe da garota que eu costumava ser.

Antes de Gabriel.

Antes do casamento.

Antes de tudo.

Fechei os olhos por um instante.

E, contra minha vontade, uma lembrança surgiu.

Eu tinha seis anos.

Estava sentada no chão da escola chorando porque um menino mais velho tinha rasgado meu desenho.

Lembro do papel amassado.

Das lágrimas.

Da sensação horrível de que meu trabalho não valia nada.

Então alguém sentou ao meu lado.

Um garoto magro.

Com os joelhos ralados.

E um sorriso torto.

Ele não disse nada.

Apenas colocou um pacote de biscoitos na minha frente.

— Você pode ficar com o meu.

Eu funguei.

— Por quê?

— Porque você parece triste.

Simples assim.

Como se fosse motivo suficiente.

Como se minha tristeza importasse.

Lembro dele pegando o desenho rasgado.

Lembro dele juntando os pedaços.

Lembro dele dizendo:

— Ainda está bonito.

Na época eu acreditei.

Porque crianças acreditam em milagres.

E naquele dia aquele menino tinha sido um.

Lucas.

Esse era o nome dele.

Não pensava nele havia anos.

Talvez mais de uma década.

A vida tinha acontecido.

Mudanças.

Escolas diferentes.

Faculdade.

Casamento.

Fracassos.

E as pessoas acabavam ficando para trás.

Abri os olhos.

O embarque estava sendo chamado.

Respirei fundo.

Era hora de seguir em frente.

Era hora de começar outra vida.

Sem Gabriel.

Sem expectativas.

Sem esperar ser escolhida.

Pela primeira vez, eu escolheria a mim mesma.

Peguei minha mala.

Dei o primeiro passo.

E não fazia ideia de que, do outro lado do oceano, o destino estava prestes a me apresentar novamente ao garoto que um dia juntou os pedaços de um desenho rasgado.

E, anos depois, ajudaria a juntar os pedaços do meu coração.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Quando parei de esperar você    Capítulo 87

    Na sexta-feira, cheguei ao apartamento de Lucas com uma bolsa no ombro, uma pasta de desenhos debaixo do braço e a intenção de passar apenas algumas horas com ele. Pelo menos, era esse o plano. Na prática, eu já tinha avisado que dormiria ali, separado roupas para o fim de semana e colocado na bolsa o livro que estava tentando terminar havia quase duas semanas. Ainda assim, quando ele abriu a porta e olhou para tudo o que eu carregava, não conseguiu esconder o sorriso. — Você está vindo passar o fim de semana ou pretende se mudar definitivamente? Entrei, desviando dele para deixar a bolsa sobre o sofá. — Depende. Você tem alguma objeção à minha presença? — Nenhuma. Só estou tentando entender por que trouxe material de trabalho se prometeu que não passaria o sábado inteiro revisando o projeto. Olhei para a pasta em meus braços. — Isso é diferente. Lucas cruzou os braços. — Claro. Imagino que a pasta tenha vindo espontaneamente, sem qualquer participação sua. — Ela precisava

  • Quando parei de esperar você    capítulo 86

    Naquela noite, pedimos comida e abrimos uma garrafa de suco que eu havia comprado durante a viagem. Lucas insistiu em colocar a mesa como se estivéssemos recebendo convidados importantes, embora fôssemos apenas nós dois, sentados no apartamento, ainda usando roupas de trabalho. — Você sabe que não precisa fazer tudo isso, não sabe? — perguntei enquanto ele ajeitava os pratos. — Sei. Mas quero. Ele puxou a cadeira para mim. — Além disso, uma mulher que acabou de conquistar uma nova responsabilidade profissional merece uma celebração adequada. Sentei-me, sorrindo. — Você está levando isso muito a sério. — Estou levando você a sério. A resposta me fez parar por um instante. Lucas percebeu, mas não tentou preencher o silêncio. Apenas se sentou à minha frente e começou a servir a comida. Jantamos conversando sobre o projeto, sobre as possíveis dificuldades e sobre as coisas que eu gostaria de aprender naquela nova etapa. Ele fez perguntas, ouviu minhas respostas e, quando não co

  • Quando parei de esperar você    Capítulo 85

    Na quarta-feira, percebi que tinha cometido um erro ao acreditar que conseguiria terminar a revisão do projeto até o fim da semana sem levar trabalho para casa. Não era falta de organização. Eu tinha um planejamento, uma lista de prioridades e até horários reservados para revisar cada etapa. O problema era que, quanto mais eu analisava as alternativas, mais possibilidades encontrava. E eu queria explorar todas elas. — Você está encarando essa tela há vinte minutos — Maya comentou, parando ao lado da minha mesa. — Ou está trabalhando em uma solução brilhante ou está tentando hipnotizar o computador. Afastei os olhos do monitor. — Estou tentando descobrir como reduzir o custo de um mecanismo sem comprometer a funcionalidade do móvel. Ela puxou uma cadeira e se sentou. — E qual é o problema? Girei o monitor na direção dela e mostrei as duas versões que estava comparando. — A primeira é mais barata, mas limita os movimentos. A segunda funciona melhor, só que aumenta o custo de p

  • Quando parei de esperar você    Capítulo 84

    Perto do meio-dia, meu celular vibrou.Era uma mensagem de Lucas.Como está sendo o retorno da nossa designer favorita?Respondi enquanto caminhava até a copa.Até agora, ninguém me demitiu. Considero um bom começo.A resposta chegou quase imediatamente.Ótimo. Eu estava pensando em comemorar seu primeiro dia de volta.Sorri.Com jantar sofisticado ou comida pronta?Estou disposto a negociar.Então compre comida pronta.Eu sabia que você tinha bom gosto.Guardei o celular e preparei mais café.Quando voltei para minha mesa, encontrei uma nova mensagem, dessa vez de Sofia.Ela tinha enviado uma fotografia de um documento aberto sobre a mesa, acompanhado de uma xícara de café.Sofia: Adivinha quem marcou uma entrevista para aquela vaga em São Paulo?Meu sorriso aumentou.Eu: VOCÊ!Sofia: Eu mesma. Ainda estou com medo, mas decidi que pelo menos vou ouvir o que eles têm a oferecer.Eu: Estou orgulhosa de você.Ela demorou alguns segundos para responder.Sofia: Você acha mesmo que eu cons

  • Quando parei de esperar você    Capítulo 83

    Na segunda-feira, acordei com o despertador tocando pela terceira vez e a nítida impressão de que o fim de semana tinha durado apenas quinze minutos.Estiquei o braço para desligá-lo, mas encontrei o celular longe demais do alcance. Antes que eu conseguisse me levantar, Lucas apareceu na porta do quarto, já vestido para o trabalho, segurando duas xícaras de café.— Bom dia, bela adormecida.Abri um dos olhos.— Se você veio me dizer que está na hora de levantar, pode ir embora.Ele entrou, colocou uma das xícaras sobre o criado-mudo e se sentou na beirada da cama.— Eu vim trazer café. A parte de levantar é uma consequência inevitável da vida adulta.— A vida adulta é uma fraude.— Concordo. Principalmente quando exige que a gente trabalhe numa segunda-feira.Peguei a xícara e me sentei, apoiando as costas nos travesseiros. Lucas me observou enquanto eu tomava o primeiro gole.— Dormiu bem?— Dormi. Só não estou preparada para voltar à rotina.— Você estava animada para rever seus pro

  • Quando parei de esperar você    Capítulo 82

    Quando chegamos a Nova York, a cidade nos recebeu com seu habitual movimento. Carros passando, pessoas apressadas, anúncios luminosos e aquela mistura de sons que, meses antes, me parecia intimidadora. Agora, tudo aquilo me era familiar. Enquanto esperávamos nossas malas, Lucas me observava com um sorriso discreto. — O que foi? — perguntei. — Nada. — Você está olhando para mim. — Posso fazer isso. É uma das vantagens de namorar você. Revirei os olhos. — Acho que vou começar a cobrar. — Pode mandar a fatura para o meu escritório. Peguei minha mala e comecei a caminhar. — Você é muito convencido, sabia? — Você já mencionou isso algumas vezes. Lucas pegou a outra mala e me acompanhou até a saída. O ar estava mais frio do que no Brasil, e eu estremeci assim que atravessamos as portas. Ele percebeu e tirou o próprio casaco, colocando-o sobre meus ombros. — Obrigada. — De nada. Ajeitei o tecido e olhei para a cidade. Eu tinha voltado. A mulher que deixara aquele aeropor

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status