INICIAR SESIĂN
â Assina aqui.
Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia. Gabriel olhou para os papĂ©is sobre a mesa de vidro. Durante alguns segundos, apenas observou as folhas sem tocĂĄ-las. Era engraçado. Passei anos imaginando esse homem me olhando. Me enxergando. Me escolhendo. E agora que finalmente seus olhos estavam voltados para mim, eu nĂŁo sentia nada alĂ©m de cansaço. Um cansaço tĂŁo profundo que parecia ter se instalado nos meus ossos. â Tem certeza? â ele perguntou. Eu quase ri. Quase. Depois de tudo, aquela era a pergunta que ele fazia? NĂŁo "como vocĂȘ estĂĄ?". NĂŁo "vocĂȘ ainda me ama?". NĂŁo "vamos tentar outra vez?". Apenas: â Tem certeza? Como se estivĂ©ssemos cancelando uma assinatura de revista. Como se meu coração nĂŁo tivesse sido destruĂdo e reconstruĂdo tantas vezes que eu jĂĄ nĂŁo soubesse qual era sua forma original. â Tenho. Ele assentiu. Sem drama. Sem discussĂŁo. Sem insistĂȘncia. Sem lutar por mim. Como sempre. Pegou a caneta. Assinou. E naquele instante eu soube que os Ășltimos quatro anos da minha vida tinham acabado. Era simples assim. Uma assinatura. Um rabisco de tinta. Fim. Eu deveria ter chorado. Mas as lĂĄgrimas tinham acabado muito antes daquele dia. Muito antes do acidente. Muito antes de ele acordar no hospital procurando outra mulher. Muito antes de eu entender que nĂŁo importa o quanto vocĂȘ ame alguĂ©m. VocĂȘ nĂŁo pode obrigar essa pessoa a amar vocĂȘ de volta. Gabriel empurrou os documentos para mim. â Pronto. Pronto. Uma palavra tĂŁo pequena para algo tĂŁo grande. Meu coração apertou. Porque, apesar de tudo, existia uma parte estĂșpida dentro de mim. Uma parte que ainda esperava. Sempre esperava. Esperava que ele me impedisse. Esperava que dissesse meu nome. Esperava que finalmente me escolhesse. Mas ele nĂŁo fez nada. Nunca fez. Peguei os papĂ©is. Levantei. E fui embora. Sem olhar para trĂĄs. Sem perceber que aquela seria a Ășltima vez que o veria por muito tempo. Dois meses depois. Eu estava parada no aeroporto segurando uma passagem sĂł de ida. Nova York. A cidade que eu sonhava conhecer desde os dezesseis anos. A cidade onde ficava uma das maiores empresas de design do mundo. A cidade onde ninguĂ©m me conhecia. Onde ninguĂ©m sabia quem eu tinha sido. Ou quem eu tinha amado. Minha mala estava pesada. Mas nĂŁo tanto quanto meu peito. Meu celular vibrou. Uma mensagem da minha mĂŁe. "Tem certeza que quer ir tĂŁo longe?" Sorri. Engraçado. Todo mundo parecia preocupado com a distĂąncia. Mas ninguĂ©m entendia que eu jĂĄ estava longe havia anos. Longe de mim mesma. Longe dos meus sonhos. Longe da garota que eu costumava ser. Antes de Gabriel. Antes do casamento. Antes de tudo. Fechei os olhos por um instante. E, contra minha vontade, uma lembrança surgiu. Eu tinha seis anos. Estava sentada no chĂŁo da escola chorando porque um menino mais velho tinha rasgado meu desenho. Lembro do papel amassado. Das lĂĄgrimas. Da sensação horrĂvel de que meu trabalho nĂŁo valia nada. EntĂŁo alguĂ©m sentou ao meu lado. Um garoto magro. Com os joelhos ralados. E um sorriso torto. Ele nĂŁo disse nada. Apenas colocou um pacote de biscoitos na minha frente. â VocĂȘ pode ficar com o meu. Eu funguei. â Por quĂȘ? â Porque vocĂȘ parece triste. Simples assim. Como se fosse motivo suficiente. Como se minha tristeza importasse. Lembro dele pegando o desenho rasgado. Lembro dele juntando os pedaços. Lembro dele dizendo: â Ainda estĂĄ bonito. Na Ă©poca eu acreditei. Porque crianças acreditam em milagres. E naquele dia aquele menino tinha sido um. Lucas. Esse era o nome dele. NĂŁo pensava nele havia anos. Talvez mais de uma dĂ©cada. A vida tinha acontecido. Mudanças. Escolas diferentes. Faculdade. Casamento. Fracassos. E as pessoas acabavam ficando para trĂĄs. Abri os olhos. O embarque estava sendo chamado. Respirei fundo. Era hora de seguir em frente. Era hora de começar outra vida. Sem Gabriel. Sem expectativas. Sem esperar ser escolhida. Pela primeira vez, eu escolheria a mim mesma. Peguei minha mala. Dei o primeiro passo. E nĂŁo fazia ideia de que, do outro lado do oceano, o destino estava prestes a me apresentar novamente ao garoto que um dia juntou os pedaços de um desenho rasgado. E, anos depois, ajudaria a juntar os pedaços do meu coração.SaĂ da empresa mais tarde do que pretendia. O dia tinha sido longo. ReuniĂ”es, documentos, telefonemas. Tudo parecia exigir minha atenção ao mesmo tempo. Entrei no carro e afrouxei a gravata enquanto saĂa do estacionamento. Eu sĂł queria chegar em casa. Mas, ao passar por uma das avenidas mais antigas da cidade, alguma coisa me fez diminuir a velocidade. A praça. Eu conhecia aquele lugar. NĂŁo sabia exatamente de onde. Mas conhecia. Talvez fosse apenas uma sensação. Passei os olhos pela calçada. E entĂŁo a vi. Helena. Meu coração simplesmente parou. Ela estava sentada em um banco. Sorrindo. Ao lado de um homem. Um homem que eu nĂŁo conhecia. Parei o carro alguns metros adiante. NĂŁo pensei. Apenas parei. Fiquei olhando atravĂ©s do para-brisa. Helena parecia diferente. Mais leve. Mais feliz. O homem disse alguma coisa. Ela riu. Depois ele segurou a mĂŁo dela. Meu peito apertou. Por algum motivo, aquilo doeu. Muito. EntĂŁo ele s
Eu nĂŁo sabia exatamente por que tinha decidido fazer aquilo. Talvez porque estivesse de volta. Talvez porque, depois de tantos anos, precisasse descobrir se aqueles lugares ainda tinham o mesmo poder sobre mim. Ou talvez simplesmente porque queria mostrar a Lucas uma parte da minha histĂłria. â Tem certeza que quer ir? â ele perguntou enquanto caminhĂĄvamos pela calçada. Olhei para ele. â Tenho. â EntĂŁo eu vou com vocĂȘ. Sorri. Era exatamente isso que eu precisava. NĂŁo que ele me dissesse para esquecer. NĂŁo que tentasse me proteger das lembranças. Apenas que estivesse comigo. O primeiro lugar foi uma pequena praça. Eu parei diante do portĂŁo. â Foi aqui. Lucas olhou ao redor. â Aqui o quĂȘ? â NĂłs brincĂĄvamos. Ele me olhou, confuso. â NĂłs? â VocĂȘ, eu e mais algumas crianças. Ele sorriu. â Eu lembro. Entramos. A praça parecia menor do que eu lembrava. Muito menor. As ĂĄrvores ainda estavam ali. O banco de madeira tambĂ©m. E o antigo parquinho. â Eu lembro desse e
Meu primeiro dia de volta para casa começou de um jeito que eu nĂŁo esperava. Com cafĂ©. Muito cafĂ©. E minha mĂŁe falando sem parar. â VocĂȘ estĂĄ comendo direito? â Estou. â EstĂĄ dormindo? â Sim. â Trabalhando demais? â Ăs vezes. â E o Lucas? Olhei para ela. â MĂŁe... Ela riu. â O que foi? SĂł estou perguntando. Lucas, sentado do outro lado da mesa, segurou o riso. â Ela faz isso desde que eu conheço. MĂĄrcia apontou para ele. â Viu? Ele me entende. â NĂŁo dĂȘ confiança â falei. Os dois riram. Eu fiquei observando aquela cena. Minha mĂŁe e Lucas conversando como se ele nunca tivesse passado anos longe. E aquilo me trouxe lembranças antigas. Antes de Lucas ir embora, ele praticamente fazia parte da nossa casa. Entrava sem bater. Almoçava conosco. Passava tardes inteiras comigo. Minha mĂŁe sabia de todas as nossas brigas. E ele sabia exatamente onde ficavam os biscoitos. Talvez fosse por isso que vĂȘ-los juntos novamente parecesse tĂŁo natural. No começo da tarde, meu
O aeroporto estava cheio. Pessoas correndo de um lado para o outro, malas sendo arrastadas, anĂșncios de embarque ecoando pelos corredores. Eu segurava o passaporte em uma mĂŁo e a mĂŁo de Lucas na outra. E, apesar de estar acostumada com aeroportos, naquela manhĂŁ parecia que eu estava prestes a fazer a viagem mais importante da minha vida. â EstĂĄ nervosa? â Lucas perguntou. Olhei para ele. â Um pouco. â SĂł um pouco? Suspirei. â Muito. Ele sorriu. â Quer desistir? â NĂŁo. â EntĂŁo estĂĄ tudo bem. Apertei sua mĂŁo. â Ă estranho. â O quĂȘ? â Voltar. Ele ficou em silĂȘncio, esperando que eu continuasse. â Eu passei trinta anos naquela cidade. Olhei para o painel de embarque. â Minha infĂąncia. Minha adolescĂȘncia. Faculdade. Meu casamento... Parei. â Tudo aconteceu lĂĄ. Lucas passou o polegar sobre minha mĂŁo. â E agora vocĂȘ vai voltar sendo outra pessoa. Olhei para ele. â Exatamente. Quando entramos no aviĂŁo, sentei perto da janela. Lucas ficou ao meu lado. Assim que o
A passagem estava aberta sobre a mesa. Eu jĂĄ tinha conferido umas cinco vezes. Data. HorĂĄrio. PortĂŁo. Bagagem. Tudo certo. Mesmo assim, continuei olhando para ela. â VocĂȘ sabe que ela nĂŁo vai mudar de horĂĄrio sĂł porque vocĂȘ estĂĄ olhando, nĂŁo sabe? Levantei os olhos. Lucas estava encostado no batente da porta, segurando duas xĂcaras de cafĂ©. â Eu sei. â EntĂŁo por que estĂĄ olhando para a passagem hĂĄ dez minutos? â Porque estou nervosa. Ele entregou uma das xĂcaras para mim. â VocĂȘ? â Eu. â NĂŁo acredito. Revirei os olhos. â Muito engraçado. Ele se sentou ao meu lado. â Nervosa com a viagem? â Com tudo. â Sua mĂŁe? â TambĂ©m. â Sofia? â Principalmente Sofia. Lucas riu. â Ela vai gostar de mim. â Ela jĂĄ gosta. â EntĂŁo qual Ă© o problema? Olhei para ele. â Dessa vez Ă© diferente. Ele entendeu imediatamente. â Porque agora sou seu namorado. Assenti. â Exatamente. A palavra ainda provocava uma sensação estranha. Namorado. Lucas. Meu namorado. Sorri sem pe
Na manhĂŁ seguinte, acordei antes de Lucas. Por alguns segundos, fiquei imĂłvel. O quarto estava silencioso. A luz suave do começo da manhĂŁ entrava pelas cortinas. Lucas dormia ao meu lado. E eu sorri. NĂŁo porque alguma coisa extraordinĂĄria tivesse acontecido. Mas porque, pela primeira vez, acordar ao lado de alguĂ©m nĂŁo me dava vontade de fugir. Fiquei observando-o por alguns instantes. O cabelo bagunçado. A expressĂŁo tranquila. A respiração calma. Era o mesmo Lucas que eu conhecia desde criança. Mas, ao mesmo tempo, parecia completamente diferente. Talvez porque agora eu soubesse o que sentia por ele. Ou talvez porque finalmente tivesse coragem de admitir. Ele se mexeu. Abriu os olhos devagar. â Bom dia. Sorri. â Bom dia. Ele me puxou para mais perto. â Dormiu bem? â Muito. Lucas beijou minha testa. â Eu tambĂ©m. Ficamos alguns minutos abraçados, sem dizer nada. E eu percebi que estava feliz. Muito feliz. Naquela manhĂŁ, fizemos cafĂ© juntos. Lucas ficou resp







