LOGINSe alguém me perguntasse quando minha vida começou a sair dos trilhos, eu diria que foi numa terça-feira ensolarada.
Não no dia do meu casamento. Não no dia do acidente. Muito menos no dia em que entreguei os papéis do divórcio. Tudo começou numa simples terça-feira. Durante a semana de integração da universidade. O campus inteiro estava lotado. Alunos carregavam mapas, mochilas novas e copos de café enquanto tentavam descobrir onde ficavam as salas. Havia barracas espalhadas pelos jardins. Música tocando perto do centro acadêmico. Veteranos distribuindo panfletos. E centenas de jovens acreditando que o futuro estava prestes a começar. Eu estava entre eles. Com uma pasta apertada contra o peito. E nervosa como nunca. Conseguir aquela bolsa parcial para cursar Design tinha sido uma das maiores conquistas da minha vida. Eu havia estudado durante anos para aquilo. Mas naquele momento só conseguia pensar que não conhecia absolutamente ninguém. — Você parece que está indo para uma execução — comentou Sofia. Nós nos conhecemos naquela mesma manhã. Mesmo assim ela já parecia me conhecer melhor do que eu gostaria. Soltei uma risada nervosa. — É quase isso. — Relaxa. Ninguém sabe o que está fazendo. — E você sabe? — Nem um pouco. Nós duas rimos. E, pela primeira vez naquele dia, senti meus ombros relaxarem um pouco. Talvez tudo desse certo. Talvez eu realmente pertencesse àquele lugar. Foi então que ouvi algumas garotas atrás de nós. — Meu Deus... — É ele. — Eu juro que ele é ainda mais bonito pessoalmente. — Para de olhar! — Você está olhando também! Revirei os olhos. Universidade. Primeiro dia. E as pessoas já estavam surtando por alguém. Virei o rosto apenas por curiosidade. E foi aí que tudo começou. Ridículo. Completamente ridículo. Mas eu estaria mentindo se dissesse que aconteceu de outro jeito. Um rapaz caminhava pelo gramado cercado por alguns amigos. Era alto. Tinha os cabelos escuros. Uma postura confiante. O tipo de pessoa que chamava atenção sem precisar fazer absolutamente nada. Ele usava uma camisa preta simples. Nada extravagante. Mesmo assim parecia alguém que pertencia à capa de uma revista. Ou a um filme. Ou a qualquer lugar que não fosse o mundo real. Fiquei olhando por tempo demais. Porque quando ele sorriu para alguma coisa que um amigo disse... Bem. Foi impossível não olhar. — Ah, não — disse Sofia ao meu lado. — O quê? — Você também. — Também o quê? — Está olhando. Desviei os olhos imediatamente. — Não estou. — Está sim. — Eu só... — Claro. Ela cruzou os braços. — Bem-vinda ao clube. — Que clube? — Das garotas que acabaram de descobrir que Gabriel Castellan existe. Gabriel Castellan. Foi a primeira vez que ouvi aquele nome. E, infelizmente, não seria a última. Senti alguma coisa estranha no peito. Pequena. Idiota. Daquelas sensações que deveriam ser ignoradas. Mas eu não ignorei. — Quem é ele? — Administração. Rico. Bonito. Inteligente. Popular. Basicamente tudo que irrita o resto da população. Soltei uma risada. Mas, contra minha vontade, olhei novamente. Gabriel estava se afastando. E por um segundo... Apenas um segundo... Os olhos dele passaram pela minha direção. Não foi exatamente um olhar. Ele nem me viu de verdade. Mas meu coração acelerou mesmo assim. Ridículo. Absolutamente ridículo. Nos dias seguintes tentei não pensar nisso. Tentei focar nas aulas. Nos trabalhos. Nas novas amizades. Na adaptação à rotina universitária. Mas Gabriel parecia estar em todos os lugares. Eu o via atravessando o campus. Sentado nos jardins. Conversando com colegas. Participando de eventos estudantis. Sempre rodeado de pessoas. Sempre parecendo confortável. Como se tivesse nascido para estar ali. Enquanto isso, eu ainda me perdia procurando salas. Na quinta-feira encontrei Gabriel na biblioteca. Estava procurando um livro quando o vi algumas estantes à frente. Ele usava óculos. Óculos. Aquilo deveria ser proibido por lei. Porque, de alguma forma absurda, o deixava ainda mais bonito. Desviei imediatamente. Fingindo procurar alguma coisa. Qualquer coisa. Um minuto depois percebi que estava segurando um livro sobre arquitetura medieval. Eu cursava Design. Nem sequer gostava de arquitetura. — Excelente trabalho, Helena — murmurei para mim mesma. Na semana seguinte aconteceu de novo. Dessa vez no café do campus. Eu estava esperando meu pedido quando Gabriel entrou acompanhado de alguns amigos. As atendentes sorriram. As garotas sorriram. Até um professor pareceu sorrir. Aquilo era absurdo. — O mundo inteiro gosta dele? — perguntei para Sofia. — Basicamente. — Por quê? — Você está perguntando sério? Bufei. — Além da aparência. — Ah. Ela pensou por alguns segundos. — Porque ele é educado. Nunca ouvi ninguém falar mal dele. Não se mete em confusão. Tem notas excelentes. Faz trabalho voluntário. Ajuda em eventos. E ainda parece um modelo. Injusto, eu sei. Observei Gabriel receber o café. Antes de sair, ele agradeceu à atendente. Um gesto simples. Pequeno. Mas eu percebi. Porque estava prestando atenção demais. Muito mais do que deveria. As semanas viraram meses. E os encontros casuais continuaram. Sempre à distância. Eu sabia qual era o prédio dele. Sabia quais eventos costumava frequentar. Sabia até qual café ele pedia. O problema era que Gabriel provavelmente nem sabia que eu existia. E aquilo deveria ter sido suficiente para me fazer desistir. Mas não foi. Porque, às vezes, o coração é uma coisa estúpida. Às vezes ele escolhe alguém antes mesmo de pedir sua opinião. Numa noite de sexta-feira aconteceu o evento de recepção dos calouros. O salão principal estava lotado. Música. Luzes. Conversas. Risadas. Eu estava perto de uma das mesas quando vi Gabriel entrar. Como sempre, chamou atenção imediatamente. Mas dessa vez havia alguém ao lado dele. Uma garota linda. Loira. Elegante. Confiante. Ela segurava a mão dele. E Gabriel sorria para ela de um jeito que eu nunca tinha visto. Um sorriso diferente. Mais suave. Mais verdadeiro. Meu estômago afundou. — Quem é ela? — perguntei. Sofia seguiu meu olhar. — Beatriz Vasconcelos. Namorada dele. Alguma coisa dentro de mim desabou. Estranho. Eu nem conhecia Gabriel. Nunca tinha conversado com ele. Mesmo assim aquilo doeu. Talvez porque destruiu uma fantasia antes mesmo que ela tivesse a chance de existir. Observei os dois seguirem para a pista de dança. Gabriel passou o braço pela cintura dela. E desapareceram no meio da multidão. Desviei os olhos. Tentando ignorar o aperto no peito. Tentando convencer a mim mesma de que aquilo não importava. Mas, naquela noite, enquanto caminhava de volta para o dormitório, percebi uma verdade simples. Eu estava em perigo. Porque pela primeira vez em muitos anos... Gostava de alguém. E tinha a estranha sensação de que esquecer Gabriel Castellan seria muito mais difícil do que me apaixonar por ele.Na sexta-feira, cheguei ao apartamento de Lucas com uma bolsa no ombro, uma pasta de desenhos debaixo do braço e a intenção de passar apenas algumas horas com ele. Pelo menos, era esse o plano. Na prática, eu já tinha avisado que dormiria ali, separado roupas para o fim de semana e colocado na bolsa o livro que estava tentando terminar havia quase duas semanas. Ainda assim, quando ele abriu a porta e olhou para tudo o que eu carregava, não conseguiu esconder o sorriso. — Você está vindo passar o fim de semana ou pretende se mudar definitivamente? Entrei, desviando dele para deixar a bolsa sobre o sofá. — Depende. Você tem alguma objeção à minha presença? — Nenhuma. Só estou tentando entender por que trouxe material de trabalho se prometeu que não passaria o sábado inteiro revisando o projeto. Olhei para a pasta em meus braços. — Isso é diferente. Lucas cruzou os braços. — Claro. Imagino que a pasta tenha vindo espontaneamente, sem qualquer participação sua. — Ela precisava
Naquela noite, pedimos comida e abrimos uma garrafa de suco que eu havia comprado durante a viagem. Lucas insistiu em colocar a mesa como se estivéssemos recebendo convidados importantes, embora fôssemos apenas nós dois, sentados no apartamento, ainda usando roupas de trabalho. — Você sabe que não precisa fazer tudo isso, não sabe? — perguntei enquanto ele ajeitava os pratos. — Sei. Mas quero. Ele puxou a cadeira para mim. — Além disso, uma mulher que acabou de conquistar uma nova responsabilidade profissional merece uma celebração adequada. Sentei-me, sorrindo. — Você está levando isso muito a sério. — Estou levando você a sério. A resposta me fez parar por um instante. Lucas percebeu, mas não tentou preencher o silêncio. Apenas se sentou à minha frente e começou a servir a comida. Jantamos conversando sobre o projeto, sobre as possíveis dificuldades e sobre as coisas que eu gostaria de aprender naquela nova etapa. Ele fez perguntas, ouviu minhas respostas e, quando não co
Na quarta-feira, percebi que tinha cometido um erro ao acreditar que conseguiria terminar a revisão do projeto até o fim da semana sem levar trabalho para casa. Não era falta de organização. Eu tinha um planejamento, uma lista de prioridades e até horários reservados para revisar cada etapa. O problema era que, quanto mais eu analisava as alternativas, mais possibilidades encontrava. E eu queria explorar todas elas. — Você está encarando essa tela há vinte minutos — Maya comentou, parando ao lado da minha mesa. — Ou está trabalhando em uma solução brilhante ou está tentando hipnotizar o computador. Afastei os olhos do monitor. — Estou tentando descobrir como reduzir o custo de um mecanismo sem comprometer a funcionalidade do móvel. Ela puxou uma cadeira e se sentou. — E qual é o problema? Girei o monitor na direção dela e mostrei as duas versões que estava comparando. — A primeira é mais barata, mas limita os movimentos. A segunda funciona melhor, só que aumenta o custo de p
Perto do meio-dia, meu celular vibrou.Era uma mensagem de Lucas.Como está sendo o retorno da nossa designer favorita?Respondi enquanto caminhava até a copa.Até agora, ninguém me demitiu. Considero um bom começo.A resposta chegou quase imediatamente.Ótimo. Eu estava pensando em comemorar seu primeiro dia de volta.Sorri.Com jantar sofisticado ou comida pronta?Estou disposto a negociar.Então compre comida pronta.Eu sabia que você tinha bom gosto.Guardei o celular e preparei mais café.Quando voltei para minha mesa, encontrei uma nova mensagem, dessa vez de Sofia.Ela tinha enviado uma fotografia de um documento aberto sobre a mesa, acompanhado de uma xícara de café.Sofia: Adivinha quem marcou uma entrevista para aquela vaga em São Paulo?Meu sorriso aumentou.Eu: VOCÊ!Sofia: Eu mesma. Ainda estou com medo, mas decidi que pelo menos vou ouvir o que eles têm a oferecer.Eu: Estou orgulhosa de você.Ela demorou alguns segundos para responder.Sofia: Você acha mesmo que eu cons
Na segunda-feira, acordei com o despertador tocando pela terceira vez e a nítida impressão de que o fim de semana tinha durado apenas quinze minutos.Estiquei o braço para desligá-lo, mas encontrei o celular longe demais do alcance. Antes que eu conseguisse me levantar, Lucas apareceu na porta do quarto, já vestido para o trabalho, segurando duas xícaras de café.— Bom dia, bela adormecida.Abri um dos olhos.— Se você veio me dizer que está na hora de levantar, pode ir embora.Ele entrou, colocou uma das xícaras sobre o criado-mudo e se sentou na beirada da cama.— Eu vim trazer café. A parte de levantar é uma consequência inevitável da vida adulta.— A vida adulta é uma fraude.— Concordo. Principalmente quando exige que a gente trabalhe numa segunda-feira.Peguei a xícara e me sentei, apoiando as costas nos travesseiros. Lucas me observou enquanto eu tomava o primeiro gole.— Dormiu bem?— Dormi. Só não estou preparada para voltar à rotina.— Você estava animada para rever seus pro
Quando chegamos a Nova York, a cidade nos recebeu com seu habitual movimento. Carros passando, pessoas apressadas, anúncios luminosos e aquela mistura de sons que, meses antes, me parecia intimidadora. Agora, tudo aquilo me era familiar. Enquanto esperávamos nossas malas, Lucas me observava com um sorriso discreto. — O que foi? — perguntei. — Nada. — Você está olhando para mim. — Posso fazer isso. É uma das vantagens de namorar você. Revirei os olhos. — Acho que vou começar a cobrar. — Pode mandar a fatura para o meu escritório. Peguei minha mala e comecei a caminhar. — Você é muito convencido, sabia? — Você já mencionou isso algumas vezes. Lucas pegou a outra mala e me acompanhou até a saída. O ar estava mais frio do que no Brasil, e eu estremeci assim que atravessamos as portas. Ele percebeu e tirou o próprio casaco, colocando-o sobre meus ombros. — Obrigada. — De nada. Ajeitei o tecido e olhei para a cidade. Eu tinha voltado. A mulher que deixara aquele aeropor







