INICIAR SESIÓNExiste uma diferença enorme entre achar alguém bonito e começar a procurar essa pessoa em todos os lugares.
Eu descobri isso da pior forma possível. No começo, Gabriel Castellan era apenas um rosto bonito no campus. Um rosto muito bonito. Mas ainda assim apenas um rosto. Ou pelo menos era isso que eu tentava dizer a mim mesma. O problema era que meu cérebro parecia ter planos completamente diferentes. Duas semanas depois da festa dos calouros, eu já sabia exatamente quais eram os horários mais comuns dele. Não porque estivesse seguindo Gabriel. Claro que não. Eu só... Bem. Talvez eu estivesse prestando atenção demais. Mas existe uma diferença. Eu acho. Ou pelo menos achava naquela época. — Você está fazendo de novo. Levantei a cabeça do meu caderno. — Fazendo o quê? Sofia apontou discretamente para o outro lado do pátio. Nem precisei olhar para saber quem estava lá. Porque eu já tinha visto. Cinco segundos antes. — Nada. — Helena. — Nada. — Você olhou três vezes em menos de um minuto. — Isso é mentira. — Foram quatro. Bufei. Ela riu. — Você está apaixonada. — Não estou. — Está sim. — Eu nem conheço ele. — Isso nunca impediu ninguém. Infelizmente ela tinha razão. Porque quanto mais eu observava Gabriel, mais difícil ficava ignorá-lo. Não era apenas a aparência. Se fosse só isso, provavelmente já teria passado. O problema eram as pequenas coisas. Os detalhes. As coisas que ninguém prestava atenção. Ou pelo menos eu achava que ninguém prestava. Uma tarde vi Gabriel ajudar um professor a carregar uma pilha enorme de livros. Em outra ocasião ele ficou quase vinte minutos conversando com um funcionário da manutenção. Sem pressa. Sem arrogância. Como se realmente estivesse interessado no que o homem dizia. Outro dia encontrei uma garota chorando perto do prédio de Administração. Mais tarde descobri que ela havia perdido uma bolsa de estudos. Gabriel ficou sentado ao lado dela por quase uma hora. Apenas ouvindo. Quem faz isso? Quem para a própria rotina para ouvir alguém que nem conhece? Cada nova descoberta alimentava alguma coisa dentro de mim. Uma esperança perigosa. A ideia de que ele era tão bom quanto parecia. Talvez melhor. E isso era um problema. Porque pessoas perfeitas não existem. Mas eu estava começando a construir uma versão perfeita de Gabriel dentro da minha cabeça. Uma versão que provavelmente nem era real. Numa manhã de outubro, cheguei cedo à universidade. Tão cedo que o campus ainda estava quase vazio. Eu tinha uma apresentação importante e queria revisar algumas coisas antes da aula. Escolhi uma mesa próxima aos jardins. Abri meu notebook. Peguei meus materiais. Respirei fundo. E imediatamente derrubei meu café. — Não. Olhei horrorizada para o líquido escorrendo sobre minhas folhas impressas. — Não, não, não... Comecei a recolher tudo às pressas. Guardanapos. Papel. Desespero. Muito desespero. — Você precisa de ajuda? Congelei. A voz veio atrás de mim. Uma voz masculina. Familiar. Meu coração quase saiu pela boca. Lentamente ergui a cabeça. Gabriel. Gabriel Castellan estava parado na minha frente. Segurando alguns livros. E olhando para a bagunça que eu tinha acabado de criar. Durante alguns segundos fiquei muda. Completamente muda. — Eu... Excelente resposta, Helena. Muito inteligente. — Acho que sim. Ele sorriu. E, sinceramente, aquele deveria ser um crime. Porque ninguém deveria ter autorização para sorrir daquele jeito às sete e meia da manhã. Gabriel pegou alguns guardanapos da cafeteria próxima. Sem pedir permissão. Sem parecer incomodado. Apenas ajudou. Em menos de dois minutos a situação estava sob controle. — Obrigada. — Sem problemas. Olhei para as folhas. Algumas estavam manchadas. Mas ainda legíveis. Sobreviviam. Diferente da minha dignidade. — Foi uma apresentação importante? — É. Quer dizer... Era. Talvez ainda seja. Ele soltou uma risada. Uma risada baixa. Suave. E aquilo fez coisas perigosas com meu coração. — Vai dar certo. — Espero que sim. — Vai. Confia. Confia. Uma palavra simples. Mas estranhamente reconfortante. Antes que eu pudesse pensar em qualquer outra coisa, um dos amigos dele apareceu. — Gabriel! Ele se virou. — Já vou. Então voltou a me olhar. — Boa sorte na apresentação. — Obrigada. E foi embora. Simples assim. Menos de três minutos. Provavelmente insignificantes para ele. Mas eu fiquei parada olhando enquanto ele se afastava. Tentando ignorar o sorriso idiota que ameaçava aparecer no meu rosto. — Não acredito. Virei. Sofia estava parada alguns metros atrás. Com os braços cruzados. — Você viu? — Vi. — Ele falou comigo. — Eu também vi isso. — E me ajudou. — Sim. — E me desejou boa sorte. Sofia apertou os olhos. — Você percebe que está agindo como uma adolescente de quatorze anos? — Eu sei. — Isso é preocupante. — Eu sei. — Você vai sofrer. Meu sorriso desapareceu. Porque, por mais que eu não quisesse admitir... Eu sabia disso também. Naquela noite liguei para minha mãe. Conversamos sobre as aulas. Os trabalhos. As provas. As contas. Coisas normais. Então ela perguntou: — Você fez amigos? — Fiz. — E tem algum garoto bonito por aí? Revirei os olhos. — Mãe. — O quê? Sou sua mãe. É minha obrigação perguntar. Sorri. E pela primeira vez contei sobre Gabriel. Não tudo. Só um pouco. O suficiente. Quando terminei, ela ficou em silêncio por alguns segundos. — Helena. — Hum? — Só toma cuidado. — Com o quê? — Às vezes a gente se apaixona pela ideia de uma pessoa. Não pela pessoa de verdade. Na época achei que ela estava exagerando. Porque o que minha mãe podia saber? Eu tinha dezenove anos. Achava que entendia tudo. Achava que sabia exatamente o que estava sentindo. Hoje eu daria qualquer coisa para ter escutado aquele conselho com mais atenção. Porque, naquela fase da minha vida, eu ainda não estava apaixonada por Gabriel Castellan. Não de verdade. Eu estava apaixonada pela versão dele que existia dentro da minha cabeça. E essa versão perfeita... Nunca existiu.Na sexta-feira, cheguei ao apartamento de Lucas com uma bolsa no ombro, uma pasta de desenhos debaixo do braço e a intenção de passar apenas algumas horas com ele. Pelo menos, era esse o plano. Na prática, eu já tinha avisado que dormiria ali, separado roupas para o fim de semana e colocado na bolsa o livro que estava tentando terminar havia quase duas semanas. Ainda assim, quando ele abriu a porta e olhou para tudo o que eu carregava, não conseguiu esconder o sorriso. — Você está vindo passar o fim de semana ou pretende se mudar definitivamente? Entrei, desviando dele para deixar a bolsa sobre o sofá. — Depende. Você tem alguma objeção à minha presença? — Nenhuma. Só estou tentando entender por que trouxe material de trabalho se prometeu que não passaria o sábado inteiro revisando o projeto. Olhei para a pasta em meus braços. — Isso é diferente. Lucas cruzou os braços. — Claro. Imagino que a pasta tenha vindo espontaneamente, sem qualquer participação sua. — Ela precisava
Naquela noite, pedimos comida e abrimos uma garrafa de suco que eu havia comprado durante a viagem. Lucas insistiu em colocar a mesa como se estivéssemos recebendo convidados importantes, embora fôssemos apenas nós dois, sentados no apartamento, ainda usando roupas de trabalho. — Você sabe que não precisa fazer tudo isso, não sabe? — perguntei enquanto ele ajeitava os pratos. — Sei. Mas quero. Ele puxou a cadeira para mim. — Além disso, uma mulher que acabou de conquistar uma nova responsabilidade profissional merece uma celebração adequada. Sentei-me, sorrindo. — Você está levando isso muito a sério. — Estou levando você a sério. A resposta me fez parar por um instante. Lucas percebeu, mas não tentou preencher o silêncio. Apenas se sentou à minha frente e começou a servir a comida. Jantamos conversando sobre o projeto, sobre as possíveis dificuldades e sobre as coisas que eu gostaria de aprender naquela nova etapa. Ele fez perguntas, ouviu minhas respostas e, quando não co
Na quarta-feira, percebi que tinha cometido um erro ao acreditar que conseguiria terminar a revisão do projeto até o fim da semana sem levar trabalho para casa. Não era falta de organização. Eu tinha um planejamento, uma lista de prioridades e até horários reservados para revisar cada etapa. O problema era que, quanto mais eu analisava as alternativas, mais possibilidades encontrava. E eu queria explorar todas elas. — Você está encarando essa tela há vinte minutos — Maya comentou, parando ao lado da minha mesa. — Ou está trabalhando em uma solução brilhante ou está tentando hipnotizar o computador. Afastei os olhos do monitor. — Estou tentando descobrir como reduzir o custo de um mecanismo sem comprometer a funcionalidade do móvel. Ela puxou uma cadeira e se sentou. — E qual é o problema? Girei o monitor na direção dela e mostrei as duas versões que estava comparando. — A primeira é mais barata, mas limita os movimentos. A segunda funciona melhor, só que aumenta o custo de p
Perto do meio-dia, meu celular vibrou.Era uma mensagem de Lucas.Como está sendo o retorno da nossa designer favorita?Respondi enquanto caminhava até a copa.Até agora, ninguém me demitiu. Considero um bom começo.A resposta chegou quase imediatamente.Ótimo. Eu estava pensando em comemorar seu primeiro dia de volta.Sorri.Com jantar sofisticado ou comida pronta?Estou disposto a negociar.Então compre comida pronta.Eu sabia que você tinha bom gosto.Guardei o celular e preparei mais café.Quando voltei para minha mesa, encontrei uma nova mensagem, dessa vez de Sofia.Ela tinha enviado uma fotografia de um documento aberto sobre a mesa, acompanhado de uma xícara de café.Sofia: Adivinha quem marcou uma entrevista para aquela vaga em São Paulo?Meu sorriso aumentou.Eu: VOCÊ!Sofia: Eu mesma. Ainda estou com medo, mas decidi que pelo menos vou ouvir o que eles têm a oferecer.Eu: Estou orgulhosa de você.Ela demorou alguns segundos para responder.Sofia: Você acha mesmo que eu cons
Na segunda-feira, acordei com o despertador tocando pela terceira vez e a nítida impressão de que o fim de semana tinha durado apenas quinze minutos.Estiquei o braço para desligá-lo, mas encontrei o celular longe demais do alcance. Antes que eu conseguisse me levantar, Lucas apareceu na porta do quarto, já vestido para o trabalho, segurando duas xícaras de café.— Bom dia, bela adormecida.Abri um dos olhos.— Se você veio me dizer que está na hora de levantar, pode ir embora.Ele entrou, colocou uma das xícaras sobre o criado-mudo e se sentou na beirada da cama.— Eu vim trazer café. A parte de levantar é uma consequência inevitável da vida adulta.— A vida adulta é uma fraude.— Concordo. Principalmente quando exige que a gente trabalhe numa segunda-feira.Peguei a xícara e me sentei, apoiando as costas nos travesseiros. Lucas me observou enquanto eu tomava o primeiro gole.— Dormiu bem?— Dormi. Só não estou preparada para voltar à rotina.— Você estava animada para rever seus pro
Quando chegamos a Nova York, a cidade nos recebeu com seu habitual movimento. Carros passando, pessoas apressadas, anúncios luminosos e aquela mistura de sons que, meses antes, me parecia intimidadora. Agora, tudo aquilo me era familiar. Enquanto esperávamos nossas malas, Lucas me observava com um sorriso discreto. — O que foi? — perguntei. — Nada. — Você está olhando para mim. — Posso fazer isso. É uma das vantagens de namorar você. Revirei os olhos. — Acho que vou começar a cobrar. — Pode mandar a fatura para o meu escritório. Peguei minha mala e comecei a caminhar. — Você é muito convencido, sabia? — Você já mencionou isso algumas vezes. Lucas pegou a outra mala e me acompanhou até a saída. O ar estava mais frio do que no Brasil, e eu estremeci assim que atravessamos as portas. Ele percebeu e tirou o próprio casaco, colocando-o sobre meus ombros. — Obrigada. — De nada. Ajeitei o tecido e olhei para a cidade. Eu tinha voltado. A mulher que deixara aquele aeropor







