FAZER LOGINDepois daquela noite, eu tentei fazer uma coisa muito simples.
Parar de pensar em Gabriel Castellan. Parece fácil quando você escreve assim. Na prática, é ridiculamente impossível. Principalmente quando a sua mente decidiu transformar um estranho bonito em um tipo de referência emocional que você não pediu. Eu comecei o capítulo da minha vida chamada “ignorá-lo”. Falhei no primeiro dia. No segundo também. No terceiro eu já estava tentando racionalizar o motivo de continuar pensando nele. Spoiler: não tinha motivo. Só tinha eu sendo eu mesma. — Você está mais quieta que o normal — disse Sofia, enquanto caminhávamos pelo campus. — Estou normal. — Você está no modo “pensando nele”. — Não existe esse modo. — Existe sim. Você fica com essa cara de quem está em outro planeta. Bufei. — Eu não estou pensando em ninguém. Ela me olhou com aquela expressão que dizia claramente “eu não acredito em você, mas vou te deixar mentir em paz”. — Tudo bem — disse ela. — Mas se você quiser mesmo esquecer alguém, precisa parar de procurar por ele. Eu parei de andar por meio segundo. — Eu não procuro. — Procura sim. — Não procuro. — Helena. — Sofia. Ela suspirou. — Você já sabe qual prédio ele estuda. Já sabe o café que ele gosta. Já sabe até o horário que ele sai das aulas. Fiquei em silêncio. Porque ela estava certa. E isso era irritante. — Isso não é procurar — murmurei. — É só... perceber. — Perceber demais. Eu não respondi. Porque não tinha resposta boa para aquilo. Naquela semana, vi Gabriel três vezes. Não porque eu quisesse. Claro que não. Mas porque o campus era grande demais para evitar alguém que parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Ou talvez ele só fosse mais visível do que o resto das pessoas. Na primeira vez, ele estava saindo da biblioteca. Na segunda, sentado com alguns colegas perto do jardim. Na terceira, conversando com um professor. Sempre rodeado. Sempre calmo. Sempre… ele. E sempre com aquela sensação irritante de que ele pertencia exatamente ao lugar onde estava. Enquanto eu ainda me sentia deslocada. Foi numa quinta-feira que tudo mudou um pouco. Não de forma dramática. Nada na minha vida era dramático daquele jeito. Mas foi um daqueles dias que ficam na memória sem pedir permissão. Eu estava atrasada para uma aula. Muito atrasada. O tipo de atraso que faz você correr pelos corredores tentando parecer que não está correndo. Foi quando esbarrei em alguém. Literalmente. Meu caderno caiu no chão. Meus papéis voaram. E minha dignidade, mais uma vez, foi para o espaço. — Desculpa — falei rápido, abaixando para pegar tudo. — Tudo bem. A voz era calma. Demais. Olhei para cima. Gabriel. De novo. Eu deveria começar a cobrar aluguel emocional dele. Ele se abaixou também e começou a me ajudar a juntar os papéis. — Você sempre está em situações assim? — ele perguntou. — Assim como? — Caóticas. Pensei por um segundo. — Não. — Não? — Só às vezes. Ele sorriu de leve. — Então hoje foi um desses dias. — Hoje está sendo um desses anos. Ele riu. E eu odiei o fato de gostar daquele som. Quando terminamos, ele me entregou os papéis organizados. — Obrigada — falei. — De novo. — De novo? — Já é a segunda vez. — Você está contando? — Eu tenho boa memória. Engoli em seco. Ele se lembrava. De novo. Era perigoso. Muito perigoso. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele olhou o relógio. — Preciso ir. — Claro. Ele deu dois passos, depois parou. Virou para mim. — Helena, não é? Meu coração errou uma batida. — É. Ele assentiu. — Boa sorte na aula. E foi embora. Simples assim. Mas eu fiquei parada ali por muito tempo. Repetindo mentalmente meu nome saindo da boca dele. Helena. Como se aquilo significasse alguma coisa. Como se eu significasse alguma coisa. Naquela noite, Sofia me encontrou na cantina do dormitório. — Você está sorrindo. Eu parei. — Não estou. — Está sim. — Eu não estou sorrindo. Ela sentou na minha frente. — O que aconteceu? — Nada. — Helena. Suspirei. — Ele lembrou do meu nome. Silêncio. — Quem? — Gabriel. Mais silêncio. Então ela apoiou o rosto na mão. — Você está perdida. — Eu não estou perdida. — Está sim. — Eu só… Parei. Porque não sabia terminar a frase. Eu só gosto dele? Eu só estou curiosa? Eu só estou inventando sentimentos? Nada parecia suficiente. Sofia me observou por alguns segundos. — Só toma cuidado. — Com o quê? — Com a ideia dele. — Que ideia? — A que você criou na sua cabeça. Fiquei quieta. Porque aquela frase parecia familiar demais. Como se alguém já tivesse me dito aquilo antes. Mais tarde, deitada na cama, pensei em Gabriel pela milésima vez. Mas, pela primeira vez, tentei pensar nele como uma pessoa real. Não como uma história. Não como um sonho. Não como algo perfeito. E foi aí que percebi uma coisa estranha. Eu não sabia quase nada sobre ele de verdade. Só o que eu via. Só o que eu imaginava. Só o que eu queria que ele fosse. E mesmo assim… Mesmo assim… Eu já estava me apaixonando. Isso deveria ter sido o suficiente para eu parar. Mas não foi. Porque algumas quedas não começam com um salto. Elas começam com um passo pequeno. Quase imperceptível. E quando você percebe… Já está no meio do caminho.Saí da empresa mais tarde do que pretendia. O dia tinha sido longo. Reuniões, documentos, telefonemas. Tudo parecia exigir minha atenção ao mesmo tempo. Entrei no carro e afrouxei a gravata enquanto saía do estacionamento. Eu só queria chegar em casa. Mas, ao passar por uma das avenidas mais antigas da cidade, alguma coisa me fez diminuir a velocidade. A praça. Eu conhecia aquele lugar. Não sabia exatamente de onde. Mas conhecia. Talvez fosse apenas uma sensação. Passei os olhos pela calçada. E então a vi. Helena. Meu coração simplesmente parou. Ela estava sentada em um banco. Sorrindo. Ao lado de um homem. Um homem que eu não conhecia. Parei o carro alguns metros adiante. Não pensei. Apenas parei. Fiquei olhando através do para-brisa. Helena parecia diferente. Mais leve. Mais feliz. O homem disse alguma coisa. Ela riu. Depois ele segurou a mão dela. Meu peito apertou. Por algum motivo, aquilo doeu. Muito. Então ele s
Eu não sabia exatamente por que tinha decidido fazer aquilo. Talvez porque estivesse de volta. Talvez porque, depois de tantos anos, precisasse descobrir se aqueles lugares ainda tinham o mesmo poder sobre mim. Ou talvez simplesmente porque queria mostrar a Lucas uma parte da minha história. — Tem certeza que quer ir? — ele perguntou enquanto caminhávamos pela calçada. Olhei para ele. — Tenho. — Então eu vou com você. Sorri. Era exatamente isso que eu precisava. Não que ele me dissesse para esquecer. Não que tentasse me proteger das lembranças. Apenas que estivesse comigo. O primeiro lugar foi uma pequena praça. Eu parei diante do portão. — Foi aqui. Lucas olhou ao redor. — Aqui o quê? — Nós brincávamos. Ele me olhou, confuso. — Nós? — Você, eu e mais algumas crianças. Ele sorriu. — Eu lembro. Entramos. A praça parecia menor do que eu lembrava. Muito menor. As árvores ainda estavam ali. O banco de madeira também. E o antigo parquinho. — Eu lembro desse e
Meu primeiro dia de volta para casa começou de um jeito que eu não esperava. Com café. Muito café. E minha mãe falando sem parar. — Você está comendo direito? — Estou. — Está dormindo? — Sim. — Trabalhando demais? — Às vezes. — E o Lucas? Olhei para ela. — Mãe... Ela riu. — O que foi? Só estou perguntando. Lucas, sentado do outro lado da mesa, segurou o riso. — Ela faz isso desde que eu conheço. Márcia apontou para ele. — Viu? Ele me entende. — Não dê confiança — falei. Os dois riram. Eu fiquei observando aquela cena. Minha mãe e Lucas conversando como se ele nunca tivesse passado anos longe. E aquilo me trouxe lembranças antigas. Antes de Lucas ir embora, ele praticamente fazia parte da nossa casa. Entrava sem bater. Almoçava conosco. Passava tardes inteiras comigo. Minha mãe sabia de todas as nossas brigas. E ele sabia exatamente onde ficavam os biscoitos. Talvez fosse por isso que vê-los juntos novamente parecesse tão natural. No começo da tarde, meu
O aeroporto estava cheio. Pessoas correndo de um lado para o outro, malas sendo arrastadas, anúncios de embarque ecoando pelos corredores. Eu segurava o passaporte em uma mão e a mão de Lucas na outra. E, apesar de estar acostumada com aeroportos, naquela manhã parecia que eu estava prestes a fazer a viagem mais importante da minha vida. — Está nervosa? — Lucas perguntou. Olhei para ele. — Um pouco. — Só um pouco? Suspirei. — Muito. Ele sorriu. — Quer desistir? — Não. — Então está tudo bem. Apertei sua mão. — É estranho. — O quê? — Voltar. Ele ficou em silêncio, esperando que eu continuasse. — Eu passei trinta anos naquela cidade. Olhei para o painel de embarque. — Minha infância. Minha adolescência. Faculdade. Meu casamento... Parei. — Tudo aconteceu lá. Lucas passou o polegar sobre minha mão. — E agora você vai voltar sendo outra pessoa. Olhei para ele. — Exatamente. Quando entramos no avião, sentei perto da janela. Lucas ficou ao meu lado. Assim que o
A passagem estava aberta sobre a mesa. Eu já tinha conferido umas cinco vezes. Data. Horário. Portão. Bagagem. Tudo certo. Mesmo assim, continuei olhando para ela. — Você sabe que ela não vai mudar de horário só porque você está olhando, não sabe? Levantei os olhos. Lucas estava encostado no batente da porta, segurando duas xícaras de café. — Eu sei. — Então por que está olhando para a passagem há dez minutos? — Porque estou nervosa. Ele entregou uma das xícaras para mim. — Você? — Eu. — Não acredito. Revirei os olhos. — Muito engraçado. Ele se sentou ao meu lado. — Nervosa com a viagem? — Com tudo. — Sua mãe? — Também. — Sofia? — Principalmente Sofia. Lucas riu. — Ela vai gostar de mim. — Ela já gosta. — Então qual é o problema? Olhei para ele. — Dessa vez é diferente. Ele entendeu imediatamente. — Porque agora sou seu namorado. Assenti. — Exatamente. A palavra ainda provocava uma sensação estranha. Namorado. Lucas. Meu namorado. Sorri sem pe
Na manhã seguinte, acordei antes de Lucas. Por alguns segundos, fiquei imóvel. O quarto estava silencioso. A luz suave do começo da manhã entrava pelas cortinas. Lucas dormia ao meu lado. E eu sorri. Não porque alguma coisa extraordinária tivesse acontecido. Mas porque, pela primeira vez, acordar ao lado de alguém não me dava vontade de fugir. Fiquei observando-o por alguns instantes. O cabelo bagunçado. A expressão tranquila. A respiração calma. Era o mesmo Lucas que eu conhecia desde criança. Mas, ao mesmo tempo, parecia completamente diferente. Talvez porque agora eu soubesse o que sentia por ele. Ou talvez porque finalmente tivesse coragem de admitir. Ele se mexeu. Abriu os olhos devagar. — Bom dia. Sorri. — Bom dia. Ele me puxou para mais perto. — Dormiu bem? — Muito. Lucas beijou minha testa. — Eu também. Ficamos alguns minutos abraçados, sem dizer nada. E eu percebi que estava feliz. Muito feliz. Naquela manhã, fizemos café juntos. Lucas ficou resp







