INICIAR SESIÓNDepois do incidente dos papéis e da descoberta de que Gabriel lembrava meu nome, minha vida entrou numa fase perigosa.
A fase da esperança. E esperança, quando colocada na pessoa errada, pode ser uma coisa extremamente cruel. Porque ela faz você acreditar que pequenos gestos significam mais do que realmente significam. Um sorriso vira um sinal. Uma conversa vira uma possibilidade. Uma coincidência vira destino. Eu ainda não sabia disso. Então continuei alimentando cada migalha que recebia. Outubro chegou trazendo uma avalanche de trabalhos. O curso de Design parecia ter decidido testar os limites da sanidade humana. Minha mesa do dormitório estava coberta de esboços. Meu notebook vivia aberto. E eu sobrevivia à base de café, ansiedade e negação. Principalmente negação. — Você precisa dormir — disse Sofia. — Eu dormi. — Três horas não contam. — Contam se eu acreditar muito. Ela me lançou um olhar. — É exatamente esse tipo de pensamento que preocupa os médicos. Ignorei. Porque estava ocupada demais tentando terminar um projeto que deveria ter sido entregue dali a dois dias. Ou melhor... Dali a um dia. Ou talvez algumas horas. Eu já não sabia mais. Na sexta-feira, fui para a biblioteca logo depois do almoço. Precisava terminar algumas ilustrações. Precisava de silêncio. Precisava desesperadamente me concentrar. Escolhi uma mesa no canto. Espalhei meus materiais. Coloquei os fones de ouvido. E comecei a trabalhar. Durante quase uma hora, tudo correu bem. Até meu computador travar. Congelei. Olhei para a tela. Nada. Cliquei. Nada. Tentei novamente. Nada. Meu coração começou a acelerar. Não. Não. Não. Por favor, não. Meu projeto inteiro estava ali. Dias de trabalho. Dias. Apertei algumas teclas. Tentei reiniciar. Tentei respirar. Nenhuma das três coisas funcionou. — Problemas? Levantei a cabeça. Gabriel. Claro. Porque aparentemente o universo tinha decidido colocá-lo em todos os momentos importantes da minha vida. — Acho que meu computador morreu. Ele observou a tela. — Posso ver? Assenti. Gabriel puxou a cadeira ao lado. E sentou. Muito perto. Perto o suficiente para eu perceber o perfume dele. Perto o suficiente para esquecer momentaneamente como funcionava a respiração. Excelente. Enquanto isso, ele analisava o notebook. — Calma. — Eu estou calma. — Você parece prestes a chorar. — Eu não vou chorar. — Ótimo. — Talvez. Ele sorriu. Então começou a mexer em algumas configurações. Eu não fazia ideia do que estava fazendo. Mas parecia saber. Depois de alguns minutos, a tela voltou. Meu projeto reapareceu. Intacto. Quase abracei o computador. — Você salvou minha vida. — Acho que foi só um notebook. — Não. Foi definitivamente minha vida. Gabriel riu. E eu senti aquele aperto familiar no peito. O mesmo que aparecia toda vez que ele fazia alguma coisa simples. Porque eu sempre transformava coisas simples em algo maior. — Você deveria fazer backup dos seus arquivos. — Eu sei. — Claramente não sabe. — Eu sei teoricamente. — Isso explica muita coisa. Soltei uma risada. E, pela primeira vez, a conversa não pareceu estranha. Não pareceu forçada. Não pareceu algo que eu tivesse ensaiado mentalmente cem vezes. Pareceu apenas... Natural. Acabamos conversando por quase meia hora. Sobre a universidade. Sobre professores. Sobre trabalhos. Sobre o caos que era a vida acadêmica. Descobri que Gabriel estava no terceiro ano de Administração. Que gostava de xadrez. Que odiava matemática financeira, o que achei profundamente injusto porque ele tirava notas excelentes nela. Também descobri que ele tinha um senso de humor muito melhor do que eu imaginava. E isso foi um problema. Porque quanto mais eu conhecia Gabriel... Mais gostava dele. E quanto mais gostava dele... Mais esquecia que ele tinha namorada. Foi só quando uma voz feminina surgiu atrás de nós que me lembrei. — Então é aqui que você está. Meu estômago afundou imediatamente. Eu conhecia aquela voz. Ou pelo menos reconhecia. Beatriz. Levantei os olhos. Ela estava parada ao lado da mesa. Bonita como sempre. Elegante como sempre. Perfeita como sempre. Gabriel sorriu ao vê-la. Aquele sorriso. O sorriso que eu nunca conseguia ignorar. — Oi. — Estou te procurando há quase vinte minutos. — Desculpa. Eu estava ajudando. Ela finalmente olhou para mim. — Ah. O sorriso dela foi educado. Mas distante. — Oi. — Oi. Por algum motivo, me senti uma criança. Como se estivesse ocupando um espaço que não era meu. Como se eu tivesse sido pega fazendo alguma coisa errada. Ridículo. Mas real. — Vamos? — perguntou Beatriz. Gabriel assentiu. Antes de levantar, porém, olhou para mim. — Faz o backup. Apontei para o notebook. — Vou fazer. — Promete? — Prometo. — Ótimo. Então ele foi embora. Ao lado dela. Como sempre. Fiquei observando os dois se afastarem. E alguma coisa dentro de mim ficou estranhamente pesada. Porque aquela tinha sido a conversa mais longa que já tivemos. A mais natural. A mais próxima. E ainda assim... No final, nada havia mudado. Gabriel continuava sendo o namorado de Beatriz. E eu continuava sendo apenas uma colega da universidade. Uma colega que provavelmente pensava nele muito mais do que deveria. Muito mais do que era saudável. Naquela noite, Sofia me encontrou sentada na cama. Abraçada a um travesseiro. Olhando para o nada. — Deixa eu adivinhar. — Não. — Gabriel. Fechei os olhos. — Gabriel. Ela suspirou. — O que aconteceu agora? Contei sobre a biblioteca. A conversa. O notebook. O backup. Tudo. Quando terminei, Sofia ficou em silêncio. Um silêncio longo. Perigoso. — O quê? — perguntei. — Você percebe que está feliz porque um homem te disse para fazer backup dos arquivos? — Quando você fala assim parece ridículo. — Porque é ridículo. Joguei uma almofada nela. Ela desviou. — Estou falando sério. — Eu também. — Helena... Ela ficou mais séria. — Só não se machuca. Meu sorriso desapareceu. Porque aquela frase estava começando a aparecer com frequência demais. Minha mãe. Sofia. Até minha própria consciência. Todos pareciam preocupados com algo que eu ainda não conseguia enxergar. Algo que talvez estivesse crescendo silenciosamente dentro de mim. Uma expectativa. Uma esperança. Uma ilusão. Naquela noite, antes de dormir, peguei meu celular. Abri as redes sociais. E, pela primeira vez, procurei o perfil de Gabriel Castellan. Foi um erro. Um erro enorme. Porque a primeira foto que apareceu era dele sorrindo. Com Beatriz nos braços. Parecendo feliz. Parecendo apaixonado. Parecendo exatamente onde queria estar. Fechei o aplicativo imediatamente. Mas a imagem já tinha ficado gravada na minha cabeça. E pela primeira vez desde que o conheci... Senti medo. Porque estava começando a perceber que meu coração estava se envolvendo muito mais do que deveria. E corações envolvidos raramente terminam bem.Na sexta-feira, cheguei ao apartamento de Lucas com uma bolsa no ombro, uma pasta de desenhos debaixo do braço e a intenção de passar apenas algumas horas com ele. Pelo menos, era esse o plano. Na prática, eu já tinha avisado que dormiria ali, separado roupas para o fim de semana e colocado na bolsa o livro que estava tentando terminar havia quase duas semanas. Ainda assim, quando ele abriu a porta e olhou para tudo o que eu carregava, não conseguiu esconder o sorriso. — Você está vindo passar o fim de semana ou pretende se mudar definitivamente? Entrei, desviando dele para deixar a bolsa sobre o sofá. — Depende. Você tem alguma objeção à minha presença? — Nenhuma. Só estou tentando entender por que trouxe material de trabalho se prometeu que não passaria o sábado inteiro revisando o projeto. Olhei para a pasta em meus braços. — Isso é diferente. Lucas cruzou os braços. — Claro. Imagino que a pasta tenha vindo espontaneamente, sem qualquer participação sua. — Ela precisava
Naquela noite, pedimos comida e abrimos uma garrafa de suco que eu havia comprado durante a viagem. Lucas insistiu em colocar a mesa como se estivéssemos recebendo convidados importantes, embora fôssemos apenas nós dois, sentados no apartamento, ainda usando roupas de trabalho. — Você sabe que não precisa fazer tudo isso, não sabe? — perguntei enquanto ele ajeitava os pratos. — Sei. Mas quero. Ele puxou a cadeira para mim. — Além disso, uma mulher que acabou de conquistar uma nova responsabilidade profissional merece uma celebração adequada. Sentei-me, sorrindo. — Você está levando isso muito a sério. — Estou levando você a sério. A resposta me fez parar por um instante. Lucas percebeu, mas não tentou preencher o silêncio. Apenas se sentou à minha frente e começou a servir a comida. Jantamos conversando sobre o projeto, sobre as possíveis dificuldades e sobre as coisas que eu gostaria de aprender naquela nova etapa. Ele fez perguntas, ouviu minhas respostas e, quando não co
Na quarta-feira, percebi que tinha cometido um erro ao acreditar que conseguiria terminar a revisão do projeto até o fim da semana sem levar trabalho para casa. Não era falta de organização. Eu tinha um planejamento, uma lista de prioridades e até horários reservados para revisar cada etapa. O problema era que, quanto mais eu analisava as alternativas, mais possibilidades encontrava. E eu queria explorar todas elas. — Você está encarando essa tela há vinte minutos — Maya comentou, parando ao lado da minha mesa. — Ou está trabalhando em uma solução brilhante ou está tentando hipnotizar o computador. Afastei os olhos do monitor. — Estou tentando descobrir como reduzir o custo de um mecanismo sem comprometer a funcionalidade do móvel. Ela puxou uma cadeira e se sentou. — E qual é o problema? Girei o monitor na direção dela e mostrei as duas versões que estava comparando. — A primeira é mais barata, mas limita os movimentos. A segunda funciona melhor, só que aumenta o custo de p
Perto do meio-dia, meu celular vibrou.Era uma mensagem de Lucas.Como está sendo o retorno da nossa designer favorita?Respondi enquanto caminhava até a copa.Até agora, ninguém me demitiu. Considero um bom começo.A resposta chegou quase imediatamente.Ótimo. Eu estava pensando em comemorar seu primeiro dia de volta.Sorri.Com jantar sofisticado ou comida pronta?Estou disposto a negociar.Então compre comida pronta.Eu sabia que você tinha bom gosto.Guardei o celular e preparei mais café.Quando voltei para minha mesa, encontrei uma nova mensagem, dessa vez de Sofia.Ela tinha enviado uma fotografia de um documento aberto sobre a mesa, acompanhado de uma xícara de café.Sofia: Adivinha quem marcou uma entrevista para aquela vaga em São Paulo?Meu sorriso aumentou.Eu: VOCÊ!Sofia: Eu mesma. Ainda estou com medo, mas decidi que pelo menos vou ouvir o que eles têm a oferecer.Eu: Estou orgulhosa de você.Ela demorou alguns segundos para responder.Sofia: Você acha mesmo que eu cons
Na segunda-feira, acordei com o despertador tocando pela terceira vez e a nítida impressão de que o fim de semana tinha durado apenas quinze minutos.Estiquei o braço para desligá-lo, mas encontrei o celular longe demais do alcance. Antes que eu conseguisse me levantar, Lucas apareceu na porta do quarto, já vestido para o trabalho, segurando duas xícaras de café.— Bom dia, bela adormecida.Abri um dos olhos.— Se você veio me dizer que está na hora de levantar, pode ir embora.Ele entrou, colocou uma das xícaras sobre o criado-mudo e se sentou na beirada da cama.— Eu vim trazer café. A parte de levantar é uma consequência inevitável da vida adulta.— A vida adulta é uma fraude.— Concordo. Principalmente quando exige que a gente trabalhe numa segunda-feira.Peguei a xícara e me sentei, apoiando as costas nos travesseiros. Lucas me observou enquanto eu tomava o primeiro gole.— Dormiu bem?— Dormi. Só não estou preparada para voltar à rotina.— Você estava animada para rever seus pro
Quando chegamos a Nova York, a cidade nos recebeu com seu habitual movimento. Carros passando, pessoas apressadas, anúncios luminosos e aquela mistura de sons que, meses antes, me parecia intimidadora. Agora, tudo aquilo me era familiar. Enquanto esperávamos nossas malas, Lucas me observava com um sorriso discreto. — O que foi? — perguntei. — Nada. — Você está olhando para mim. — Posso fazer isso. É uma das vantagens de namorar você. Revirei os olhos. — Acho que vou começar a cobrar. — Pode mandar a fatura para o meu escritório. Peguei minha mala e comecei a caminhar. — Você é muito convencido, sabia? — Você já mencionou isso algumas vezes. Lucas pegou a outra mala e me acompanhou até a saída. O ar estava mais frio do que no Brasil, e eu estremeci assim que atravessamos as portas. Ele percebeu e tirou o próprio casaco, colocando-o sobre meus ombros. — Obrigada. — De nada. Ajeitei o tecido e olhei para a cidade. Eu tinha voltado. A mulher que deixara aquele aeropor







