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Capítulo 2 — A dor de ser descartada

Author: Eva Belmont
last update publish date: 2026-10-09 23:00:39

Elara permaneceu de joelhos sobre o mármore, tentando compreender como alguém podia continuar respirando depois de sentir uma parte de sua alma ser arrancada.

A rejeição não havia provocado apenas uma dor física. Era como se todas as lembranças que guardava de Darius tivessem sido atingidas ao mesmo tempo.

Os beijos escondidos no bosque. As promessas sussurradas durante as noites de inverno. A maneira como ele segurava seu rosto e dizia que jamais permitiria que o Conselho os separasse.

Tudo aquilo havia sido uma mentira?

Elara pressionou a mão contra o peito.

O calor que surgira sob sua pele desapareceu tão rapidamente quanto havia começado, deixando uma sensação estranha, como se alguma coisa dentro dela tivesse acordado e voltado a adormecer.

— Elara, você precisa responder.

A voz do sacerdote parecia distante.

Ela ergueu os olhos.

Darius continuava diante do altar, vestido com o manto cerimonial que ela mesma ajudara a escolher. Não havia feito qualquer movimento para ajudá-la.

Sete anos.

Elara havia dedicado sete anos de sua vida àquele homem.

Quando os guerreiros voltavam feridos das patrulhas, ela passava noites na enfermaria ajudando Agatha a cuidar deles. Quando Darius assumira o comando depois da morte do pai, fora ela quem permanecera ao seu lado durante as crises, ouvindo suas inseguranças e oferecendo apoio enquanto os conselheiros questionavam sua juventude.

Havia preparado documentos, revisado correspondências e organizado reuniões que ninguém sabia que dependiam de seu trabalho.

Nunca pedira reconhecimento.

Acreditava que estavam construindo um futuro juntos.

Agora compreendia que Darius aceitara tudo o que ela oferecera enquanto mantinha seu nome escondido.

— Levante-se — ordenou Selene Blackthorn.

Elara virou o rosto.

A mulher estava sentada entre os membros do Conselho, observando-a com evidente impaciência.

— Não prolongue esta humilhação. Aceite a rejeição e permita que a cerimônia continue.

Elara sentiu algo se romper dentro dela.

Não era mais o vínculo.

Era a última esperança de encontrar naquela família algum vestígio de compaixão.

Apoiou as duas mãos no chão e tentou se levantar.

Uma pontada atravessou seu peito, fazendo suas pernas vacilarem.

Darius deu um passo instintivo em sua direção.

Elara ergueu a mão.

— Não me toque.

Ele parou.

O salão mergulhou em silêncio.

Ela respirou profundamente, lutando contra as lágrimas que ainda escorriam por seu rosto.

— Você perdeu esse direito no momento em que decidiu me humilhar diante de todos.

Darius apertou a mandíbula.

— Elara, não torne a situação mais difícil.

Ela soltou uma risada incrédula.

— Mais difícil para quem? Para você, que já escolheu outra mulher? Ou para mim, que descobri diante de centenas de pessoas que o homem com quem pretendia me casar passou semanas preparando minha substituição?

Alguns convidados trocaram olhares.

Seraphine avançou um passo.

— Ninguém preparou uma substituição. Darius apenas compreendeu que precisava de uma companheira adequada.

Elara voltou-se para ela.

— Há quanto tempo?

Seraphine franziu a testa.

— O quê?

— Há quanto tempo vocês estão juntos?

A pergunta fez Darius endurecer.

— Isso não importa.

— Importa para mim.

Elara sentiu as mãos tremerem.

Não sabia se conseguiria suportar a resposta, mas precisava ouvi-la.

— Você ainda dormia comigo quando decidiu entregar meu lugar a ela?

Um murmúrio atravessou o salão.

Darius lançou um olhar furioso aos presentes.

— Estamos diante do Conselho, Elara. Controle suas palavras.

— Você não pensou no Conselho quando me procurou há quatro noites e disse que me amava.

A expressão dele mudou.

Seraphine ficou imóvel.

Elara percebeu a confirmação antes mesmo que alguém respondesse.

— Meu Deus... — murmurou.

Levou a mão à boca.

Não era apenas a rejeição que a destruía.

Era compreender que Darius a beijara sabendo que a abandonaria.

Ele permitira que ela escolhesse o vestido, preparasse os aposentos que dividiriam e sonhasse com filhos que nunca pretendia ter com ela.

Darius aproximou-se.

— Eu não queria que você descobrisse dessa maneira.

Elara ergueu os olhos, atônita.

— Mas foi exatamente assim que planejou me contar.

Ele não respondeu.

— Você me trouxe até este altar sabendo o que faria. Poderia ter conversado comigo ontem. Poderia ter me procurado semanas atrás, quando decidiu escolher Seraphine. Mas preferiu esperar até que todos estivessem reunidos.

A voz dela falhou.

— Você queria que eu não tivesse para onde fugir.

Darius desviou o olhar.

Aquele gesto confirmou mais do que qualquer confissão.

Elara sentiu uma náusea violenta.

Durante alguns segundos, precisou se apoiar no altar.

O sacerdote tentou segurá-la, mas ela recusou a ajuda com um movimento delicado.

— Estou bem.

Não estava.

Seu corpo doía, a visão estava turva e cada respiração parecia arranhar o interior do peito.

Mas permaneceria de pé.

Não daria a Darius a satisfação de vê-la implorar.

— Elara — disse o sacerdote, com cautela —, o Alfa pronunciou a rejeição. Para que o vínculo seja completamente encerrado, você precisa declarar sua aceitação.

Ela olhou para Darius.

Uma parte dolorosamente humana de seu coração ainda desejava que ele se arrependesse.

Que atravessasse a distância entre os dois, a abraçasse e dissesse que havia cometido um erro terrível.

O pensamento a envergonhou.

Depois de tudo, ainda desejava ser escolhida.

Elara baixou os olhos, incapaz de conter um soluço.

Por alguns instantes, chorou diante de todos.

Não tentou esconder o rosto.

Havia amado aquele homem sinceramente. Perdera o futuro que imaginara para si e não precisava fingir que a destruição daquele sonho era insignificante.

Quando conseguiu recuperar a respiração, enxugou as lágrimas com as costas da mão.

— Preciso fazer uma pergunta antes de responder.

O sacerdote assentiu.

Elara encarou Darius.

— Você já sabia quem eram meus pais quando decidiu me rejeitar?

Selene levantou-se imediatamente.

— A origem dessa mulher não deve ser discutida aqui.

— Minha origem? — Elara voltou-se para ela. — Você está falando da minha mãe, uma mulher que desapareceu tentando salvar a própria filha, ou do meu pai, que morreu durante uma guerra?

Selene ficou em silêncio.

— Durante toda a minha vida, vocês permitiram que eu fosse tratada como uma loba defeituosa. Sabiam que eu não tinha família para me defender e usaram isso contra mim.

Darius tentou interrompê-la.

— Elara, existem assuntos políticos que você não compreende.

Ela voltou-se para ele.

— Então me explique. Explique por que sua família procurava por mim quando eu era recém-nascida. Explique por que sua mãe investigou meus registros depois que nosso vínculo despertou.

Darius empalideceu discretamente.

— Quem lhe contou isso?

Elara percebeu a ameaça escondida na pergunta.

Não mencionaria Agatha.

— Você não negou.

Seraphine se aproximou do Alfa e segurou seu braço.

A intimidade daquele gesto atravessou Elara como uma nova traição.

Era um movimento natural, familiar.

Quantas vezes Seraphine havia tocado Darius daquela maneira enquanto Elara acreditava que ele lhe pertencia?

— Basta! — Selene elevou a voz. — Esta cerimônia não será transformada em um interrogatório. O Alfa exerceu seu direito de rejeição. Aceite e retire-se.

Elara olhou para a mulher.

Depois para Darius.

Ele poderia defendê-la.

Poderia ao menos impedir que sua mãe continuasse a tratá-la como uma criminosa.

Mas permaneceu calado.

Naquele instante, Elara compreendeu que não havia apenas perdido seu companheiro.

Havia passado anos amando uma versão de Darius que existia somente quando ninguém estava olhando.

O homem diante dela era o verdadeiro Alfa Blackthorn.

Ambicioso.

Covarde diante da própria família.

Disposto a sacrificar a mulher que afirmava amar para preservar sua posição.

Elara endireitou os ombros.

— Não vou aceitar a rejeição nesta noite.

O sacerdote arregalou os olhos.

Darius avançou um passo.

— Você não pode se recusar.

— Posso.

— Elara, se acredita que isso me obrigará a reconsiderar...

— Não quero que reconsidere.

A firmeza da resposta pareceu surpreendê-lo.

Elara sentiu outra pontada no peito, mas continuou:

— Passei sete anos acreditando que precisava ser digna de você. Aceitei esconder nosso relacionamento, suportei os insultos da sua mãe e permiti que sua família me tratasse como alguém inferior porque você prometia que tudo mudaria depois do casamento.

Uma lágrima escorreu por seu rosto.

— Eu teria enfrentado qualquer dificuldade ao seu lado, Darius. Teria vivido em uma casa pequena, longe desta fortaleza, se você tivesse decidido abandonar o título de Alfa. Nunca amei seu poder.

Ele abriu a boca, mas ela prosseguiu:

— E essa é a parte mais humilhante. Eu teria escolhido você mesmo sem uma coroa. Mas você não consegue me escolher sem a aprovação de pessoas que sempre me desprezaram.

O silêncio tornou-se absoluto.

Darius desviou o rosto.

Elara sentiu o próprio coração se partir diante daquela indiferença.

Ainda assim, continuou:

— Não vou aceitar a rejeição enquanto vocês esconderem documentos sobre minha família. Não vou permitir que encerrem nosso vínculo e depois me façam desaparecer como se eu nunca tivesse existido.

Selene se aproximou do altar.

— Está ameaçando o Conselho?

— Estou exigindo meus direitos.

A mulher soltou uma risada desdenhosa.

— Uma loba incapaz de se transformar não possui autoridade para fazer exigências.

Elara ergueu o queixo.

— Então será necessário convocar o Tribunal Lunar. O vínculo foi criado pela Deusa da Lua. Se existe uma lei para proteger Alfas, também deve existir uma lei para proteger suas companheiras.

O sacerdote pareceu desconfortável.

Darius olhou para ele.

— Isso é possível?

O homem hesitou antes de responder.

— A legislação antiga prevê uma audiência quando uma rejeição envolve suspeita de coerção, ocultação de linhagem ou abuso de autoridade. Mas esse procedimento não é realizado há muitas gerações.

Elara percebeu o olhar alarmado de Selene.

Havia encontrado algo que a família Blackthorn não esperava.

Darius aproximou-se novamente.

Dessa vez, falou baixo:

— Você está cometendo um erro. Não sabe o que acontecerá se obrigar o Conselho a investigar sua origem.

Ela sustentou seu olhar.

— Então talvez seja hora de descobrir.

Por um instante, a expressão dele pareceu suavizar.

— Elara, eu não quero machucar você mais do que já machuquei.

Ela sentiu a garganta apertar.

A facilidade com que ele pronunciava aquelas palavras quase a fez chorar novamente.

— Você já me machucou o suficiente.

Darius estendeu a mão.

Ela recuou.

— Não faça isso.

— Podemos conversar em particular depois da cerimônia.

— Para quê? Para você me oferecer um quarto escondido na fortaleza enquanto Seraphine ocupa meu lugar?

O silêncio dele foi revelador.

Elara sentiu o estômago afundar.

— Era isso que pretendia?

Darius respirou profundamente.

— Eu havia considerado permitir que continuasse na matilha sob minha proteção.

Elara o encarou sem conseguir acreditar.

— Sob sua proteção?

— Você não tem recursos próprios nem uma família que possa recebê-la. Seria perigoso expulsá-la imediatamente.

Ela soltou uma risada amarga.

— Que generoso da sua parte. Depois de me rejeitar diante de todos, ainda estava disposto a me manter por perto, desde que eu aceitasse viver escondida.

— Não foi isso que eu disse.

— Mas foi exatamente isso que ofereceu.

Elara retirou do pescoço uma corrente fina de ouro.

Na ponta estava um pequeno anel que Darius lhe dera quando completara dezoito anos.

Naquela noite, ele prometera que um dia colocaria uma aliança verdadeira em seu dedo.

Ela segurou a joia por alguns segundos.

Recordou o sorriso dele, a emoção daquele momento e a felicidade que sentira ao acreditar que havia encontrado alguém disposto a amá-la apesar das limitações que todos lhe apontavam.

Então abriu a mão diante dele.

— Pegue.

Darius olhou para o anel.

— Elara...

— Não quero carregar nada que me faça esquecer o que aconteceu aqui.

Ele recebeu a corrente sem dizer uma palavra.

Elara sentiu um vazio imenso.

Era como se estivesse enterrando a mulher que fora durante aqueles sete anos.

A jovem que esperava pacientemente.

Que aceitava migalhas de atenção.

Que acreditava que o amor precisava ser conquistado através do sacrifício.

Ela não sabia quem se tornaria depois daquela noite.

Mas sabia quem não queria continuar sendo.


Quando Elara deixou o altar, uma onda de tontura a obrigou a diminuir o passo.

O vínculo rejeitado permanecia aberto, e a energia lunar que os unia parecia se contorcer dentro de seu corpo.

A cada movimento, sentia uma pressão entre as costelas.

Algumas pessoas desviaram o olhar quando ela passou.

Outras cochicharam sem qualquer preocupação em serem ouvidas.

— Ela realmente acreditou que seria Luna?

— Uma mulher sem loba jamais poderia dar herdeiros fortes ao Alfa.

— Dizem que o sangue dela é contaminado.

Elara apertou as mãos.

Durante anos, suportara comentários semelhantes.

Naquela noite, porém, compreendeu quanto havia permitido que aquelas palavras definissem a maneira como enxergava a si mesma.

Não possuía uma loba desperta.

Não conhecia toda a própria história.

Mas havia trabalhado, amado e cuidado de pessoas que agora assistiam à sua humilhação como se ela não fosse digna de respeito.

Ao alcançar a saída, encontrou Agatha discutindo com dois guardas.

— Sou responsável pela saúde dela! — protestava a curandeira. — Vocês não podem me impedir de atendê-la!

— Ordens do Conselho — respondeu um deles.

Elara aproximou-se.

— Deixem-na passar.

O guarda hesitou.

— Senhorita Valemont, recebemos instruções...

— Ela é minha curandeira. Se pretendem me impedir de receber atendimento depois de uma rejeição pública, terão de assumir essa decisão diante de todos.

O homem olhou para o companheiro.

Depois recuou.

Agatha correu até ela.

— Meu Deus, Elara. Você está gelada.

— Preciso sair daqui.

A curandeira passou um braço ao redor de sua cintura.

Caminharam juntas pelos corredores da fortaleza.

Quando chegaram à enfermaria, Elara já tinha dificuldade para respirar.

Agatha a ajudou a sentar-se sobre uma maca e começou a examinar seus sinais vitais.

— Seu vínculo ainda está ativo — constatou.

— Eu sei.

— A rejeição unilateral provoca uma ruptura incompleta. O corpo tenta preservar uma ligação que a mente já sabe que foi destruída.

Elara fechou os olhos.

— Quanto tempo vai doer?

Agatha hesitou.

— Não posso prometer que desaparecerá rapidamente. Algumas rejeições deixam marcas durante meses, especialmente quando a companheira possui dificuldades para regular sua energia lunar.

Elara sentiu novas lágrimas escorrerem.

— Eu o amava tanto...

A frase saiu quase inaudível.

Agatha interrompeu o exame.

Elara cobriu o rosto.

— Eu teria feito qualquer coisa por ele. Quando todos diziam que eu não era suficiente, ele afirmava que me amava. Eu me agarrava àquelas palavras porque precisava acreditar que alguém me escolheria.

Seu corpo começou a tremer.

— E ele sabia, Agatha. Sabia quanto aquilo significava para mim.

A curandeira sentou-se ao seu lado.

Não tentou oferecer justificativas.

Apenas a abraçou.

Elara chorou contra seu ombro até a respiração ficar dolorida.

Chorou pela cerimônia destruída, pelos anos perdidos e pelos filhos que imaginara ter com um homem que agora parecia desconhecido.

Chorou também pela menina que crescera sem saber quem eram seus pais, convencida de que precisava aceitar qualquer migalha de afeto para não ser abandonada novamente.

Quando finalmente se afastou, seus olhos estavam inchados.

— Existe alguma coisa errada comigo? — perguntou.

Agatha segurou seu rosto.

— Existe alguma coisa muito errada com a maneira como trataram você. Isso não significa que exista algo errado com quem você é.

Elara tentou sorrir, mas não conseguiu.

A curandeira entregou-lhe um copo de água.

— Preciso preparar uma infusão para estabilizar sua energia. Depois vamos conversar sobre como sair daqui.

Elara ergueu os olhos.

— Sair?

— Selene não permitirá que permaneça na fortaleza depois do que aconteceu.

Elara pensou na carta de Morgana.

No nome de Aurelian Veyr.

No pequeno medalhão que guardava junto ao peito.

— Então quero encontrar o lugar onde meus pais viveram.

Agatha ficou imóvel.

— O Vale de Aethra é perigoso.

— É o único lugar onde talvez existam respostas.

— Os caminhos estão fechados há séculos. Há criaturas corrompidas, ruínas instáveis e patrulhas dos dois reinos.

Elara respirou profundamente.

— Não estou dizendo que partirei esta noite. Mas não vou passar o resto da vida escondida porque Darius tem medo do meu sangue.

Agatha apertou sua mão.

— Sua mãe queria que você tivesse uma vida longe dessa guerra.

— E eu quero descobrir por que precisou abrir mão de me criar.

Antes que a curandeira respondesse, ouviram passos apressados no corredor.

A porta da enfermaria se abriu.

Dois guardas da Casa Blackthorn entraram.

O mais velho carregava um pergaminho selado.

— Elara Valemont, por ordem do Conselho da Lua de Ferro, você está convocada a comparecer diante dos anciãos ao amanhecer.

Agatha levantou-se imediatamente.

— Ela acabou de sofrer uma rejeição. Precisa de repouso.

O guarda ignorou a reclamação.

— O Conselho recebeu uma denúncia formal sobre sua linhagem.

Elara sentiu o sangue gelar.

— Que denúncia?

O homem abriu o documento.

— Há suspeitas de que você descenda de uma união proibida entre uma guardiã lunar e um dragão da Casa Veyr. Segundo as leis de segurança das matilhas, qualquer indivíduo que possua sangue dracônico não declarado deverá ser submetido a uma investigação.

Elara olhou para Agatha.

A carta.

Os documentos.

Darius sabia.

E agora usariam a verdade sobre seus pais para destruí-la.

— O que acontecerá se eu me recusar? — perguntou.

O guarda dobrou o pergaminho.

— Será considerada uma ameaça à segurança da matilha.

— E qual é a punição?

Ele demorou a responder.

— Exílio imediato. Se houver resistência, execução.

Agatha soltou uma exclamação horrorizada.

Elara permaneceu sentada, tentando controlar o tremor das mãos.

Horas antes, acreditava que aquela seria a noite mais feliz de sua vida.

Agora estava rejeitada, sem proteção política e ameaçada de morte por causa de uma linhagem que acabara de descobrir.

O guarda deixou o pergaminho sobre a mesa.

— Amanhã, ao nascer do sol.

Quando os homens saíram, Agatha fechou a porta.

— Precisamos preparar sua fuga.

Elara não respondeu imediatamente.

Seus olhos estavam fixos no documento.

Darius afirmara que precisava proteger a matilha.

Mas fora sua própria família que escondera os registros dos pais dela.

Seus dedos se fecharam lentamente sobre o medalhão.

— Quero saber quem entregou essa denúncia.

Agatha olhou pela janela.

— Tenho medo de já saber a resposta.

Elara também sabia.

E a certeza provocou uma dor diferente daquela causada pelo vínculo.

A rejeição havia destruído seu coração.

Mas a perseguição que começava naquele momento colocava sua vida em perigo.

Ela se levantou com dificuldade.

— Então não vou esperar até que decidam minha sentença.

Agatha abriu um armário e retirou uma bolsa de couro.

— Conheço uma passagem antiga que sai pelos fundos da enfermaria. Podemos alcançar a floresta antes da troca da guarda.

Elara olhou uma última vez para o vestido azul-prateado.

O tecido estava amassado e manchado de sangue onde suas unhas haviam ferido a própria palma durante a cerimônia.

Não queria fugir usando a roupa que escolhera para se tornar Luna.

— Preciso trocar de vestido.

Agatha assentiu.

Enquanto a curandeira procurava roupas mais adequadas para a viagem, Elara permaneceu diante da pequena janela.

Lá fora, a música da celebração continuava.

Darius e Seraphine provavelmente estavam sendo cumprimentados pelos convidados.

A matilha comemorava uma nova Luna.

E ninguém parecia se importar que a antiga companheira do Alfa estivesse prestes a ser condenada.

Elara apoiou a testa contra o vidro frio.

Ainda amava Darius.

Essa era a verdade que mais a envergonhava.

O vínculo havia sido ferido, mas os sentimentos não desapareciam simplesmente porque o outro deixara de merecê-los.

Talvez levasse muito tempo para esquecer sua voz, seu cheiro e os anos de intimidade.

Entretanto, havia uma diferença entre continuar amando alguém e permitir que esse amor a destruísse.

Ela fechou os olhos.

— Eu não vou morrer por você, Darius — sussurrou.

Naquele instante, sob sua pele, a marca da lua e da chama voltou a emitir um brilho discreto.

Elara não percebeu.

Mas, muito além da floresta, nas montanhas de Drakhar, Kael interrompeu uma reunião com seus comandantes.

Uma onda de calor percorreu seu peito.

Ele ergueu a cabeça em direção à fronteira.

Seu dragão interior, silencioso durante séculos, moveu-se com uma urgência que o rei não conseguia explicar.

Havia sofrimento naquele chamado.

Medo.

E uma força adormecida tentando sobreviver.

Kael caminhou até a varanda do palácio.

Os olhos dourados brilharam na escuridão.

— Encontrem a origem dessa energia — ordenou ao comandante que o acompanhava.

— Majestade, nossos batedores precisarão atravessar o Vale Proibido.

Kael permaneceu olhando para o horizonte.

— Então atravessem.

Porque, em algum lugar além das montanhas, uma mulher rejeitada estava prestes a atravessar uma fronteira da qual nenhum lobo retornava.

E o Rei dos Dragões não compreendia por que a possibilidade de perdê-la, antes mesmo de conhecê-la, fazia seu próprio fogo se revoltar.

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