LOGINNa noite em que deveria ser apresentada como a futura Luna da Matilha Lua de Ferro, Elara Valemont foi rejeitada diante de todos pelo homem que amava. O Alfa Darius Blackthorn não apenas rompeu o vínculo que os unia. Ele escolheu outra mulher, acusou Elara de carregar sangue amaldiçoado e ordenou que fosse expulsa antes do amanhecer. Ferida, humilhada e abandonada pela própria família, Elara atravessou a fronteira proibida, onde nenhum lobo sobrevivia. Mas, em vez da morte, encontrou um homem de olhos dourados, cuja presença fazia até as criaturas mais antigas se ajoelharem. Kael Drakhar, o temido Rei dos Dragões. Durante séculos, Kael governou um reino condenado por uma maldição que consumia lentamente sua espécie. Ele havia desistido de encontrar a mulher anunciada por uma profecia esquecida. Até que uma loba rejeitada apareceu em suas terras e despertou o fogo adormecido em seu sangue. Agora, o Alfa que a desprezou deseja recuperá-la. Uma falsa herdeira pretende tomar seu lugar. E os dragões começam a reconhecer em Elara uma autoridade que nem mesmo o rei consegue explicar. O que ninguém imagina é que a mulher considerada fraca possui o único poder capaz de salvar dois reinos ou reduzi-los a cinzas. O Alfa a rejeitou por acreditar que ela não tinha valor. O Rei dos Dragões a escolheu quando ela não possuía nada. Mas quando a verdadeira identidade de Elara vier à tona, será ela quem decidirá se algum dos dois reinos merece sua lealdade.
View MoreHá quatrocentos e oitenta e sete anos, quando os dragões ainda dominavam os céus e os lobos governavam as florestas sob a bênção da Lua, uma mulher entrou no Santuário das Duas Chamas carregando uma criança que não deveria existir.
A guerra havia devastado os dois reinos.
As montanhas de Drakhar estavam cobertas pelas cinzas de dragões mortos, enquanto as florestas lunares ardiam com o fogo dos exércitos. Durante décadas, lobos e dragões haviam lutado por territórios, poder e uma supremacia que nenhum dos povos conseguira conquistar.
Mas aquela guerra escondia um segredo muito mais antigo.
Um segredo que poderia condenar ambas as espécies.
Morgana Valemont atravessou o corredor do santuário com o vestido manchado de sangue. Seus cabelos escuros estavam presos de qualquer maneira, e uma ferida profunda atravessava seu ombro.
Nos braços, envolvida em uma manta branca, a pequena menina dormia tranquilamente.
A criança tinha apenas algumas horas de vida.
E já havia sido condenada à morte.
— Você não deveria ter vindo.
A voz grave ecoou entre as colunas de pedra.
Morgana ergueu os olhos.
Diante do altar encontrava-se Eryndor, o último dos dragões ancestrais. Sua forma humana conservava os sinais dos séculos: cabelos prateados, olhos dourados e marcas escuras que percorriam seu pescoço como escamas.
— Não havia outro lugar — respondeu ela.
Eryndor aproximou-se lentamente.
Quando seus olhos encontraram a criança, a expressão severa desapareceu.
— Então é verdade.
Morgana apertou a menina contra o peito.
— Ela nasceu esta noite.
— A marca?
Sem responder, Morgana afastou delicadamente a manta.
Sobre o pequeno peito da criança havia um símbolo luminoso: uma lua crescente envolvendo uma chama dourada.
O dragão ancestral recuou.
Por séculos, aquela marca existira apenas nas escrituras proibidas. Um símbolo associado às guardiãs que, muito antes da guerra, haviam mantido o equilíbrio entre os povos.
— O Fogo Lunar... — murmurou Eryndor.
— Minha filha não é uma arma.
— Não foi isso que eu disse.
— Mas será o que todos pensarão quando descobrirem.
Eryndor permaneceu em silêncio.
Morgana conhecia aquele silêncio. Era a mesma reação dos sacerdotes lunares quando haviam percebido o poder que crescia em seu ventre. A mesma expressão dos conselheiros que, semanas antes, haviam sugerido que a criança fosse sacrificada para impedir o cumprimento da profecia.
— O Conselho dos Lobos sabe que ela nasceu — continuou Morgana. — E alguém informou aos dragões.
— Quem?
— Não sei. Mas meus perseguidores chegaram antes que eu pudesse deixar as Terras Lunares.
Eryndor olhou para a entrada do santuário.
— Você foi seguida?
— Consegui despistá-los.
— Morgana, se descobrirem que trouxe a menina para cá, poderão interpretar isso como uma declaração de guerra.
Ela soltou uma risada amarga.
— Eles já querem uma guerra. Minha filha é apenas a desculpa que encontraram.
A criança se mexeu.
Morgana abaixou o rosto e beijou sua testa.
— Elara — sussurrou.
O nome pareceu despertar alguma coisa nas pedras antigas.
Uma chama dourada surgiu sobre o altar, seguida por uma luz prateada que percorreu as inscrições do chão.
Eryndor ficou imóvel.
— O santuário a reconheceu.
Morgana ergueu a cabeça.
— Então você precisa ajudá-la.
— Existe uma maneira de esconder o poder dela. Mas o preço será alto.
— Quanto?
O dragão hesitou.
— Teremos de selar seu sangue. A marca desaparecerá, sua energia ficará adormecida e, enquanto o selo permanecer intacto, ela não conseguirá despertar sua natureza lupina.
Morgana encarou a filha.
Uma loba incapaz de se transformar.
Nas Terras Lunares, aquilo significava fraqueza, humilhação e desprezo.
— Ela será tratada como uma inferior — murmurou.
— Mas estará viva.
A resposta atravessou Morgana como uma lâmina.
Viva.
Era tudo o que podia oferecer à menina naquele momento.
O chão tremeu.
Ao longe, um rugido atravessou as montanhas.
Eryndor ergueu a cabeça imediatamente.
— Os portões externos foram violados.
Morgana se virou para a entrada.
Um segundo estrondo sacudiu o santuário, fazendo pequenas pedras despencarem do teto.
— Eles me encontraram.
— Não temos tempo.
Eryndor aproximou-se do altar e estendeu a mão.
As inscrições antigas começaram a brilhar.
— Coloque a criança aqui.
Morgana recuou instintivamente.
— Você prometeu protegê-la.
— E vou cumprir minha palavra. Mas precisa confiar em mim.
Do lado de fora, vozes começaram a ecoar.
Homens gritavam ordens.
O som de espadas sendo desembainhadas chegou pelo corredor.
Morgana fechou os olhos por um instante.
Depois, com as mãos trêmulas, deitou Elara sobre a pedra.
A menina abriu os olhos.
Eryndor interrompeu o movimento.
Eles não eram azuis, como os de seu pai.
Nem prateados, como os das antigas guardiãs.
Eram violetas, atravessados por pequenos reflexos dourados.
A chama sobre o altar se inclinou em direção à criança.
— Pelos deuses antigos... — sussurrou o dragão.
— O que foi?
— Ela não carrega apenas o poder das guardiãs.
Morgana sentiu o sangue gelar.
— O que está dizendo?
Eryndor passou a mão sobre as inscrições.
— Ela nasceu com a capacidade de responder às duas fontes de magia. O Fogo Lunar não está apenas em seu sangue. Ele é parte da própria essência dela.
Um terceiro estrondo interrompeu a conversa.
Dessa vez, as portas externas cederam.
Eryndor não hesitou.
Pronunciou palavras em uma língua que Morgana desconhecia, e uma corrente luminosa se ergueu ao redor da criança.
Elara começou a chorar.
Morgana tentou alcançá-la, mas o dragão segurou seu braço.
— Não interrompa o ritual!
As chamas douradas envolveram o altar.
A marca no peito de Elara brilhou intensamente antes de desaparecer sob sua pele.
O choro cessou.
A luz se apagou.
E a criança voltou a dormir.
Eryndor apoiou uma das mãos na pedra, visivelmente enfraquecido.
— Está feito.
Morgana correu até a filha.
Examinou seu peito, seus braços e seu rosto.
A marca havia desaparecido.
— Ela está bem?
— Está. O selo permanecerá até que uma força suficiente desperte o sangue adormecido.
— Que força?
Eryndor olhou para a menina.
— Ainda não sei.
Passos apressados se aproximavam pelo corredor.
O dragão ancestral ergueu a mão e abriu uma passagem estreita na parede atrás do altar.
— Esse caminho leva às terras humanas. Tenho uma pessoa de confiança esperando além das montanhas. Ela poderá criar Elara longe dos reinos.
Morgana encarou a passagem.
— E você?
— Preciso impedir que descubram o que fizemos.
Ela abraçou a filha.
Queria acreditar que poderia atravessar aquela passagem, acompanhar seu crescimento, ouvir suas risadas, ensinar-lhe a controlar a magia quando chegasse o momento.
Mas conhecia os homens que a perseguiam.
Eles não parariam enquanto Morgana estivesse livre.
E, se permanecesse ao lado da filha, acabaria conduzindo os inimigos até ela.
— Vou ficar — decidiu.
Eryndor franziu a testa.
— Morgana...
— Eles estão atrás de mim. Se acreditarem que a criança morreu, não continuarão procurando.
— Você sabe o que farão quando a encontrarem?
— Sei.
A mulher respirou profundamente.
— Mas minha filha viverá.
Morgana retirou do pescoço um pequeno medalhão de prata. Nele havia o desenho de uma lua crescente.
Colocou-o junto à manta.
— Quando ela crescer, diga que foi amada.
Sua voz falhou.
— Diga que ninguém a abandonou por não ser suficiente.
Eryndor recebeu a menina com cuidado.
Morgana acariciou os cabelos escuros de Elara.
— Você não nasceu para carregar a culpa dos nossos erros, minha pequena. Não permita que decidam quem você deve ser.
Lágrimas escorreram por seu rosto.
— E, se um dia alguém disser que você não merece ser amada, espero que encontre forças para ir embora.
Ela beijou a testa da filha.
Depois recuou.
Eryndor atravessou a passagem.
A parede começou a se fechar.
Morgana acompanhou o movimento até que a última abertura desaparecesse.
Então se virou para os homens que invadiam o santuário.
À frente dos soldados estava uma figura encapuzada.
— Onde está a criança? — exigiu o desconhecido.
Morgana ergueu o queixo.
— Morta.
O homem parou.
— Está mentindo.
— O ritual consumiu sua vida. Vocês chegaram tarde demais.
Ele examinou o altar apagado.
Depois avançou até Morgana e segurou seu rosto com violência.
— Acredita que isso encerra a profecia?
Morgana sustentou seu olhar.
— Acredito que vocês têm medo de uma criança porque sabem que o poder de seus tronos foi construído sobre mentiras.
O homem a soltou.
— Levem-na.
Dois soldados prenderam seus braços.
Morgana não resistiu.
Enquanto era arrastada para fora do santuário, voltou os olhos para as inscrições no altar.
A lua e a chama haviam desaparecido.
Sua filha estava escondida.
Por enquanto, bastava.
Séculos depois, no Palácio de Obsidiana, Kael Drakhar despertou com o coração acelerado.
O Rei dos Dragões estava acostumado a sonhos sobre a guerra.
Via frequentemente os campos devastados, os corpos de seus soldados e as chamas que haviam consumido sua família.
Mas naquela noite havia sonhado com uma mulher desconhecida.
Uma jovem de cabelos escuros e olhos violetas.
Ela estava ajoelhada sobre a neve, cercada por lobos que observavam seu sofrimento sem ajudá-la.
Um homem de olhos azuis permanecia diante dela.
— Eu rejeito você como minha companheira.
A jovem ergueu o rosto.
Havia lágrimas em suas bochechas, mas nenhuma súplica em seus olhos.
Então a neve ao seu redor começou a derreter.
Uma chama prateada surgiu entre seus dedos.
E, atrás dela, uma voz feminina pronunciou palavras que Kael não escutava desde os dias da Guerra das Cinzas.
Quando a Lua rejeitar sua própria filha, o Fogo reconhecerá aquela que não possui coroa.
Kael se levantou da cama.
Do lado de fora, os dragões que guardavam as torres começaram a rugir.
Um após o outro.
A montanha inteira pareceu despertar.
Ele caminhou até a varanda e encontrou o céu atravessado por relâmpagos dourados.
Havia algo errado.
Sentia uma presença distante, muito além das fronteiras de Drakhar.
Uma energia que deveria ter desaparecido havia séculos.
Atrás dele, a porta se abriu.
Tharion entrou sem anunciar sua presença.
— Irmão, precisamos conversar.
Kael não desviou os olhos do horizonte.
— O que aconteceu?
— As chamas do santuário antigo voltaram a arder.
O rei permaneceu imóvel.
— Isso é impossível.
— Eu também pensei. Mas os guardiões confirmaram. As inscrições despertaram sozinhas e o símbolo das duas chamas apareceu novamente.
Kael fechou as mãos sobre o parapeito.
A imagem da jovem desconhecida ainda queimava em sua memória.
— Onde?
Tharion hesitou.
— No Vale de Aethra. Perto da fronteira dos lobos.
Uma rajada de vento atravessou a varanda.
Kael sentiu sua essência dracônica se agitar dentro do peito.
Durante séculos, acreditara que a última guardiã havia desaparecido.
Agora, porém, alguma coisa chamava por seu fogo.
— Prepare meus homens — ordenou.
— Para uma batalha?
Kael voltou o rosto para o irmão.
Seus olhos haviam adquirido o brilho dourado da forma dracônica.
— Ainda não sei.
Olhou novamente para as montanhas.
— Mas alguém despertou uma magia que o mundo inteiro tentou destruir.
Muito distante dali, na Matilha Lua de Ferro, Elara Valemont dormia sem saber que seu destino estava prestes a mudar.
Na manhã seguinte, ela escolheria o vestido que usaria na cerimônia de união com o homem que amava.
Acreditaria nas promessas que ouvira durante sete anos.
E caminharia até um altar esperando receber uma declaração de amor.
Não imaginava que seria rejeitada diante de todos.
Muito menos que aquela humilhação a conduziria ao único homem capaz de enfrentar dois reinos para protegê-la.
Porque, enquanto o Alfa se preparava para descartá-la, um rei que não se ajoelhava diante de ninguém acabara de sentir o chamado de seu sangue.
E os dragões estavam despertando.
Elara encontrou Kael na biblioteca pouco antes do amanhecer.O rei estava diante de uma mesa coberta por documentos, mas fechou a pasta assim que percebeu sua presença.— Não conseguiu dormir? — perguntou.— Dormi algumas horas. Depois comecei a pensar na avaliação do Colégio de Cura.Kael ergueu uma sobrancelha.— Tem certeza de que não estava pensando em Rovan Mereth?Ela sorriu.— Também. Mas decidi que ele não merece ocupar todas as minhas manhãs.Kael estendeu a mão.Elara se aproximou e sentou-se em seu colo, passando os braços ao redor de seu pescoço.— Você deveria estar descansando — comentou.— Poderia dizer o mesmo.Ela beijou sua testa.— Então estamos precisando de alguém que nos ensine a obedecer aos próprios conselhos.Kael riu e a abraçou pela cintura.— Tenho uma proposta melhor.— Qual?— Vamos passar esta manhã juntos. A audiência de Rovan só acontecerá à tarde.Elara olhou para os documentos.— E o Conselho?— Tharion assumiu as questões administrativas urgentes. D
Elara releu a mensagem de Orven enquanto Asterion examinava os registros médicos de Aurelian.Não permitam que Aurelian recupere a lembrança da Câmara de Cinzas.— Não quero que ninguém tente provocar essas lembranças à força — declarou ela. — Meu pai passou décadas recebendo medicamentos sem uma justificativa adequada. Não vamos repetir isso com outro nome.Asterion concordou.— O tratamento será conduzido de acordo com as necessidades clínicas dele. Podemos investigar a Câmara de Cinzas sem submetê-lo a interrogatórios.Kael colocou uma mão nas costas de Elara.— E Severin?Tharion respondeu:— Está sob investigação judicial. Maelis autorizou o acesso aos registros financeiros e às comunicações da instituição. Ainda não temos autorização para tratar suas mensagens como confissão de todos os crimes.— Mas temos uma pergunta concreta — observou Elara. — Por que ele avisou Orven de que Aurelian estava recordando nomes?Vaelor abriu um relatório.— Encontramos pagamentos extraordinários
Elara acordou com o cheiro de pão quente.Abriu os olhos lentamente e encontrou Kael sentado à pequena mesa junto à janela, organizando uma bandeja de café da manhã.Ele não percebeu que ela estava acordada.Usava uma camisa branca com as mangas dobradas e parecia concentrado em distribuir frutas sobre dois pratos.Elara permaneceu observando por alguns instantes.— Devo me preocupar com o que está fazendo?Kael ergueu o rosto.— Bom dia para você também.Ela sorriu.— Bom dia. Agora responda.— Estou preparando nosso café.Elara olhou para os pães.— Você os fez?— Não. Aprendi a reconhecer meus limites.Ela começou a rir.Kael se aproximou da cama e se inclinou para beijá-la.— Dormiu bem?— Melhor do que esperava.Ele acariciou seus cabelos.— Fico feliz.Elara segurou sua mão antes que se afastasse.— Venha aqui.Kael sentou-se ao lado dela.Ela passou os braços ao redor de seu pescoço e o beijou demoradamente.Quando se separaram, ele sorriu.— Se continuar assim, nosso café vai
Elara permaneceu diante da porta do quarto por alguns segundos antes de entrar.Do outro lado estava o homem que talvez fosse Aurelian Veyr.Seu pai.Durante anos, ela imaginara como seria conhecê-lo. Agora, porém, não esperava um reencontro perfeito. Sabia que ele estava debilitado, tinha dificuldades de memória e poderia não reconhecê-la.Kael segurou sua mão.— Podemos esperar, se precisar.Elara respirou profundamente.— Não quero esperar. Só preciso saber que não vou prejudicá-lo.Asterion, que acompanharia a visita, respondeu:— A avaliação desta manhã foi satisfatória. Ele está orientado quanto ao ambiente e concordou em receber uma visitante. Vamos manter a conversa curta e interromper se houver sinais de cansaço.— Ele sabe quem sou?— Dissemos apenas que uma jovem gostaria de conhecê-lo. Não apresentamos informações sobre sua família.Elara assentiu.— Obrigada.Kael beijou seus dedos.— Estarei aqui.Ela olhou para ele.— Quero que entre comigo.O rei sorriu discretamente.






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