MasukTARYN
Chegamos ao salão principal, amplo e iluminado pelos candelabros de cristal que lançavam reflexos suaves sobre o piso de madeira polida. A mesa de jantar estava posta para poucos convidados: membros do conselho e representantes das outras duas famílias fundadoras, os Lockhart e Fenwick, todos amigos próximos da família. O murmúrio de conversas contidas preenchia o espaço, mas parecia distante comparado ao turbilhão em meu peito.
Kalinda me conduziu diretamente até nosso pai, e eu senti Caius nos seguindo silenciosamente atrás, sempre presente, sempre atento. Meu pai conversava com um homem que eu só poderia descrever como um comerciante do mar. Suas vestes não eram simples, mas refletiam a praticidade de quem lidava com negócios. Tecido resistente, porém bem cuidado. O rosto estava marcado pelo sol, escurecido na testa e no nariz, criando uma estranha dominância de duas cores, ainda assim, ele não parecia tão velho. Seus cabelos longos até os ombros e a barba volumosa contrastavam com Caius, que sempre preferia o rosto limpo.
Pisquei, tentando afastar a comparação. Mas não foi fácil.
O homem me fitou, descendo o olhar lentamente pelo meu corpo. Seus olhos estreitaram ao alcançar meu busto, o vestido, levemente mais decotado nesta noite, era um conselho de Kalinda, que me dissera que “os alfas gostam de observar antes de provar”. Um calor incômodo subiu às minhas bochechas, e baixei os olhos, sentindo-me completamente exposta sob sua avaliação silenciosa.
Tentei lembrar a mim mesma que aquele homem era apenas meu noivo, que não havia espaço para pensamentos proibidos. Mas Caius estava ali, presente e silencioso, e a lembrança do que eu realmente desejava queimava ainda mais dentro do meu peito.
Meu pai interrompeu meus pensamentos com um gesto, apresentando-me formalmente.
— Taryn, deixe-me apresentar — disse meu pai, gesticulando para o homem à minha frente. — Este é seu noivo, Demetrius Cornel.
O comerciante sorriu levemente, estendendo a mão, e eu a apertei com delicadeza, mantendo a postura esperada de uma jovem da alta sociedade. Mas a sensação de estranheza e desconforto não desapareceu; ele exalava autoridade e interesse, mas não havia nada no coração dele que chamasse o meu.
Enquanto isso, Caius permanecia ao fundo, observando cada movimento meu, silencioso, protetor, mas distante e isso doía mais do que qualquer confronto direto poderia doer.
Logo, todos começaram a se dispersar, e ficamos a sós. Demetrius começou a falar sem parar, divagando sobre suas posses, suas aquisições e feitos comerciais. Eu apenas acenei e sorri, concordando com cada palavra, enquanto tentava não demonstrar tédio.
— Nunca saiu da ilha, não é? — perguntou de repente, fixando-me com curiosidade.
— Não… — admiti, mantendo a voz baixa e firme — Mas fico imaginando o que existe além do mar.
Uma mentira; jamais desejei sair antes do casamento da minha, a ilha era meu lar. Mas era melhor não ir contra ele, e dizer o que ele queria ouvir.
Enquanto ele falava, minha atenção se perdeu por um instante, e inevitavelmente meu olhar se voltou para Caius. Estava ao fundo, conversando som seu primo Ronan. Era quase como se eu fosse puxada por uma corda invisível, uma sensação perturbadora que fazia meu coração disparar e minhas bochechas esquentarem.
Uma das empregadas aproximou-se com uma bandeja, oferecendo uma taça de vinho. Peguei delicadamente, mas antes que pudesse beber, Demetrius franziu a testa.
— Não deveria beber. — O tom era firme, quase autoritário — Isso pode atrapalhar na concepção de filhos.
Quase engasguei, surpresa com a menção direta. Ele inclinou-se levemente, olhando-me com cautela.
— Sua saúde está boa, não é? Seu pai jurou que sim. Mesmo que seja jovem, não quero uma esposa doente e fraca.
Pisquei, sem acreditar que ele já falava de filhos antes mesmo do casamento. Com um sorriso contido, pedi licença.
— Preciso me limpar. — Afastei-me discretamente, tentando recuperar a compostura.
Demetrius ergueu uma sobrancelha, observando o vestido agora manchado pelo vinho que derramara.
— Sempre tão desastrada? — perguntou, com um toque de ironia na voz.
Suspirei suavemente, apenas sorrindo e fazendo uma reverência contida.
— Peço licença, senhor.
E, enquanto me afastava, não pude deixar de lançar outro olhar furtivo para Caius, desejando que ele pudesse me resgatar. Caminhei até o banheiro improvisado na cozinha, tentando, com cuidado, remover a mancha. Esfregava delicadamente, mas quanto mais tentava, pior parecia ficar. Um suspiro frustrado escapou dos meus lábios. Não adiantaria, o vestido já estava arruinado.
Decidi então subir de volta ao meu quarto, desejando apenas me recompor e me afastar daquele noivo irritante. Ao passar pelo corredor, porém, sons discretos me fizeram parar. Vozes. Uma delas parecia exatamente a de Kalinda.
Curiosa e preocupada, aproximei-me da porta do antigo quarto da minha irmã, levantando a mão para bater, mas então ouvi outra voz, masculina. Instintivamente congelei. Caius? pensei, o corpo tenso. Não, não podia ser. Eu não suportaria flagrar minha irmã com ele em um momento íntimo; seria como ver meu próprio coração quebrar em mil pedaços.
Recuei, tentando ignorar o que acabara de ouvir. Mas então, a voz masculina se fez clara:
— Podemos fugir esta noite.
Meu corpo inteiro estremeceu. A voz não era de Caius. Eu conhecia bem aquele timbre arrogante e sedutor… era Ronan, o primo de Caius.
Meu coração disparou. Hesitei, mas a curiosidade e a necessidade de confirmar minha pior suspeita foram mais fortes. Encostei o ouvido à porta, imóvel, tentando ouvir sem ser notada.
O que ouvi me deixou sem fôlego. Kalinda estava tendo um caso com Ronan, o próprio primo de meu cunhado, que, para piorar, também era casado e cuja esposa acabara de perder o bebê. A traição, a audácia, a frieza deles me deixaram paralisada.
Como podiam? Como ela, minha irmã perfeita, podia cometer tal traição? E como ele, que deveria ser leal a Caius, ousava conspirar assim, pisando na confiança de todos?
Senti uma mistura de raiva, incredulidade e um peso sufocante no peito. Minha irmã estava traindo seu marido, nosso alfa, meu melhor amigo e eu, não podia permitir.
TARYNUm mês.Fazia exatamente um mês desde que deixamos as ilhas para trás.Às vezes ainda parecia impossível.Eu havia passado dezenove anos acreditando que aquele lugar era o meu mundo. Conhecia cada rua de pedra, cada casa, cada jardim cercado por grades de ferro. Sabia quais famílias se cumprimentavam apenas por obrigação e quais sussurravam umas sobre as outras atrás das portas.Conhecia o cheiro das manhãs frias.O som das carruagens.As badaladas do sino.Conhecia até os olhares, principalmente os olhares.Durante muito tempo, achei que precisava aprender a suportá-los.Hoje percebo que nunca deveria ter precisado.Aproximei-me da janela do quarto e afastei um pouco a cortina.Eu não queria voltar para a ilha onde cresci.Não depois de tudo.Aquelas pessoas haviam me julgado, humilhado e desejado minha morte. Mesmo depois de tudo que acontecera, eu sabia que jamais conseguiria chamar aquele lugar de lar novamente.Caius percebeu antes mesmo que eu dissesse.Ele simplesmente ab
TARYNDepois de tudo o que havia acontecido naquela noite, permanecer naquela ilha parecia impossível. Caius caminhava ao meu lado, ainda segurando minha mão, enquanto Lydia seguia conosco. Ela parecia exausta, mas havia algo diferente em seu rosto agora. Estávamos chegando ao cais quando avistei duas figuras mais adiante.Parei.Kalinda.E Noelia.As duas estavam próximas a uma pequena embarcação. Havia uma enorme bolsa aos pés delas, tão cheia que parecia prestes a arrebentar. Noelia segurava uma das alças enquanto Kalinda verificava alguma coisa dentro dela.Então Noelia ergueu o rosto.Kalinda segurou sua cintura.E as duas se beijaram.Fiquei completamente imóvel.Por alguns segundos, apenas observei.Tudo pareceu se encaixar de uma vez.As palavras de Kalinda.Seu desprezo pelo casamento.A maneira como sempre falava dos homens como se nenhum deles pudesse lhe oferecer aquilo que realmente desejava. A forma como tratava a ideia de se casar como uma condenação, mesmo quando faz
O sangue de Ekran manchava seu focinho e seu peito, enquanto seus olhos verdes estavam fixos em mim. Havia algo selvagem nele, algo que fazia meu coração disparar, mas eu não senti medo.Não dele.Meu pai ainda segurava meu braço.Caius parou diante de nós e soltou um rosnado baixo.Foi o suficiente.Meu pai me soltou imediatamente.Eu senti os dedos dele se afastarem e, pela primeira vez, percebi que aquele homem que tantas vezes havia usado sua autoridade contra mim não ousava sequer sustentar o olhar de Caius.As pessoas abriram caminho.Ninguém precisou mandar.Elas simplesmente recuaram.Caius era o alfa mais forte daquele lugar. E agora todos sabiam disso.Mais do que isso, todos sabiam que ele havia recuperado aquilo que durante gerações acreditaram ser impossível.A fera.O lobo.A verdadeira natureza de um alfa.Meu companheiro.Caius parou diante de mim. Seus olhos percorreram meu rosto, meu vestido sujo, as marcas de sangue em minha pele. Por um instante, toda aquela feroci
TARYNCaius se afastou de mim.Eu o observei atravessar o pátio em direção a Ekran, e, apesar de conseguir sentir a força que havia retornado ao corpo dele, não consegui impedir o medo de apertar meu peito.Ele estava curado.Eu sabia disso.Sentia através da nossa ligação que seu coração batia forte e que a prata já não estava corroendo seus órgãos. Sentia a força percorrendo seus músculos novamente, mas ainda assim havia alguma coisa dentro de mim que gritava para que eu o impedisse de ir.Talvez fosse porque eu já o havia visto morrer uma vez naquela noite.Talvez porque, depois de descobrir que éramos companheiros, a ideia de perdê-lo tivesse se tornado ainda mais insuportável.Caius continuou caminhando.Ekran estava caído alguns metros adiante, tentando se levantar.Foi quando percebi o fogo.A tocha que ele havia deixado cair continuava queimando no chão.As chamas haviam alcançado a madeira espalhada pelo pátio e crescido rapidamente, alimentadas pelo vento. Em poucos segundos
TARYN— Não pode ser...A voz de alguém atravessou o silêncio.Um homem mais velho, que eu reconheci como um dos moradores mais antigos de Noverbrook, avançou alguns passos, olhando de mim para Caius como se estivesse tentando compreender o que acabara de testemunhar.— Eles são companheiros.As palavras provocaram uma nova onda de murmúrios.— Companheiros? — alguém repetiu.O homem assentiu lentamente.— Companheiros de alfa.— Isso não existe mais — respondeu Gerald Fenwick, com evidente desprezo.— Talvez exista, sim.O homem olhou para Caius.— Minha avó me contava histórias quando eu era menino. Dizia que, muito antes de as famílias se dividirem, existiam alfas que podiam assumir a forma de animais. Lobos que protegiam as florestas, que viviam entre os seus e que possuíam companheiras destinadas a eles.Algumas pessoas riram nervosamente.Outras fizeram o sinal de proteção que costumávamos usar diante de histórias sobre bruxaria.— São apenas lendas — alguém disse.— Talvez foss
TARYNNão tive tempo de pensar.Os guardas agarraram Caius pelos braços e o arrastaram para fora do salão. Eu ainda estava presa pelas mãos de outro homem, tentando me soltar, tentando alcançá-lo, mas cada vez que eu gritava seu nome, era como se minha voz desaparecesse no meio da confusão.— CAIUS!Ele tentou se manter de pé, mas a lança de prata havia deixado seu corpo fraco demais. Seus pés arrastavam-se pelas pedras enquanto o sangue escorria por sua barriga.Foi então que senti.Uma dor aguda atravessou meu peito.Levei a mão até o coração, assustada.Não era minha dor.Eu sabia.De alguma maneira que não conseguia explicar, eu sabia que aquela dor vinha dele.Caius também parou por um instante.Seus olhos encontraram os meus.E, mesmo de longe, vi a mesma mão que segurava seu ferimento apertar o próprio abdômen.A prata estava queimando-o por dentro.— Tirem essa coisa dele! — gritei.Ninguém me ouviu.Ou ninguém quis ouvir.As grandes portas foram abertas e fomos levados para o







