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Capítulo 2: O Peso da Coroa

last update publish date: 2026-07-24 09:32:49

O som dos tambores de couro de mamute ecoava pelas paredes de pedra do palácio, mas para Kael Blackthorn, aquele barulho era apenas o ruído de fundo de uma vida inteira dedicada à guerra. Ele desmontou de seu enorme cavalo preto, entregando as rédeas a um guarda sem desviar o olhar do horizonte. Aos vinte e nove anos, o Rei Alfa de Blackthorn carregava nos ombros a responsabilidade de ser o escudo protetor dos Sete Reinos, uma missão que ele cumpria com uma frieza cirúrgica.

Sua armadura de couro escuro e metal estava impregnada com o cheiro de poeira e sangue seco das fronteiras. Ele passara os últimos meses caçando rebeldes e inspecionando guarnições, mas a verdadeira batalha nunca estava nos campos externos. Estava ali, dentro de sua própria casa.

— Você demorou mais do que o previsto, meu filho — a voz fria e polida da Rainha-Mãe, Evelyn Blackthorn, cortou o ar do grande salão de entrada.

Ela o esperava de pé, vestida com trajes de veludo azul-escuro adornados com o emblema do Conselho da Lua. Ao lado dela, mantendo-se estrategicamente nas sombras, estava o Sumo Sacerdote Malakor, um homem magro cujos olhos astutos pareciam ler os segredos mais profundos de qualquer um.

— As patrulhas do norte foram atacadas, mãe. Tive que reforçar as linhas de defesa pessoalmente — Kael respondeu, tirando as luvas de combate e caminhando em direção ao trono de pedra. — O que há de tão urgente para que o Conselho envie um emissário até as minhas terras?

Malakor deu um passo à frente, suas vestes cinzentas arrastando-se pelo chão polido. Ele segurava um pergaminho antigo com o selo de cera quebrado.

— A ameaça não está apenas nas fronteiras físicas, Majestade — disse o sacerdote, a voz mansa, mas carregada de veneno. — Nossos espiões interceptaram mensagens. A profecia maldita está prestes a se cumprir. A falsa herdeira, aquela que nascerá para quebrar a linhagem dos Reis Alfas e arrastar nossa espécie para a ruína, está despertando. O Conselho exige que você limpe seu território de qualquer ômega ou dissidente suspeito.

Kael sentiu seu lobo interior rosnar em descontentamento. Ele fora criado sob o dogma rígido do Conselho da Lua. Aprendera desde menino que a herdeira da profecia era uma abominação que precisava ser eliminada para manter a paz. Ainda assim, a ideia de caçar inocentes dentro de suas próprias fronteiras deixava um gosto amargo em sua boca.

— Minha alcateia é leal, Malakor. Não há traidores entre os meus — Kael declarou, sua aura de Alfa dominante se expandindo pelo salão, fazendo os guardas ao redor baixarem os olhos em submissão.

— Uma negligência que pode custar sua coroa, Kael — Evelyn interveio, aproximando-se com passos firmes. — Você tem vinte e nove anos e ainda não escolheu uma Luna. O reino precisa de estabilidade. O Conselho está pressionando para que você selecione uma das filhas dos Alfas aliados no banquete de hoje à noite. Uma guerreira de sangue puro. Precisamos de herdeiros fortes para a guerra que está por vir, não de hesitação.

Kael apertou os maxilares. O dever sempre estivera acima de seus próprios sentimentos. Ele sabia que a política exigia um casamento estratégico, mas o pensamento de se unir a alguém apenas por conveniência política parecia uma prisão. A Deusa da Lua criara o vínculo de companheiros destinados para ser algo sagrado, embora o Conselho insistisse que reis não podiam se dar ao luxo de esperar por contos de fadas.

— O banquete será realizado — Kael disse, a voz cortante como gelo. — Usarei a celebração para avaliar nossos aliados e descobrir se há alguma verdade nas palavras de seus espiões. Se houver uma ameaça em Blackthorn, eu mesmo a esmagarei.

Malakor curvou-se levemente, um sorriso cínico desenhando-se em seus lábios finos.

— Sábia decisão, meu Rei. Que a Deusa guie suas garras.

Os dois conselheiros se retiraram, deixando Kael sozinho no imenso salão. O silêncio que se seguiu foi quase sufocante. O Rei caminhou até a grande janela que dava para o vilarejo da alcateia. Lá embaixo, fogueiras eram acesas e os plebeus se preparavam para a festa. Ele deveria se sentir em casa, vitorioso após mais uma campanha militar bem-sucedida. Em vez disso, uma inquietação inexplicável corroía seu peito.Ele fechou os olhos por um breve momento, respirando fundo para afastar a tensão. Foi quando aconteceu.

O vento que soprava da floresta trouxe um aroma sutil, quase imperceptível para um humano, mas avassalador para os sentidos apurados de um Alfa. Era o cheiro de lavanda fresca, camomila e algo profundamente selvagem, antigo e magnético. Nas profundezas de sua mente, o lobo de Kael, que passara anos em silêncio absoluto focado apenas na liderança e na caça, ergueu a cabeça e soltou um uivo que ecoou na alma do Rei. Um uivo de reconhecimento. Uma urgência primitiva que Kael nunca havia experimentado antes tomou conta de seus músculos, fazendo seu sangue ferver.

"Ela está aqui." — a voz de seu lobo ecoou, faminta, possessiva e urgente.

Kael abriu os olhos abruptamente. Suas pupilas dilataram-se, assumindo o brilho azul-escuro de seu status de Rei Alfa. Suas garras arranharam levemente o parapeito de pedra da janela. A sensação era avassaladora, como se um fio invisível estivesse amarrado ao seu coração, puxando-o em direção a algum lugar no vilarejo abaixo.

Ele tentou racionalizar. O Conselho estava exigindo uma aliança política para esmagar uma profecia de destruição. Sua mãe exigia uma guerreira de sangue puro para gerar soldados. Mas o destino, com sua ironia cruel, parecia ter outros planos. Sua companheira destinada — a mulher escolhida pela própria Deusa da Lua para governar ao seu lado — estava em suas terras. E o vínculo acabara de despertar.

Kael olhou para o vilarejo, sabendo que todos estariam presentes no salão principal dali a poucas horas. Quem quer que fosse a dona daquele aroma, ela estaria lá. Ele a encontraria, não importava quem fosse.

O que o Rei Alfa de Blackthorn não imaginava era que a mesma mulher que fazia seu lobo clamar por posse era a peça central da profecia que ele jurara destruir.

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