ログインO grande salão do palácio de Blackthorn transbordava opulência e tensão. Longas mesas de carvalho estavam cobertas por banquetes fartos, taças de prata cheias de vinho e candelabros de ouro que projetavam sombras dançantes pelas paredes de pedra gótica. Nobres de várias alcateias aliadas vestiam suas melhores sedas e peles, rindo e conversando alto.
No entanto, por trás da música e da celebração, o ar estava impregnado pelo cheiro forte de testosterona e ambição. Todos os Alfas presentes queriam a atenção do Rei.No topo do estrado, Kael Blackthorn estava sentado em seu trono de pedra escura. Ele vestia uma túnica preta com detalhes dourados que acentuavam seus ombros largos e sua postura imponente. Seus cabelos escuros caíam desalinhados sobre a testa, contrastando com o maxilar rígido e os olhos sombrios que inspecionavam o salão com frieza calculista. Ao seu lado esquerdo, a Rainha-Mãe, Evelyn, sorria falsamente para os convidados, enquanto o Sumo Sacerdote Malakor observava tudo de longe, como um corvo esperando o momento de agir.Kael mal tocara em sua taça. Desde que entrara no salão, seu lobo interior andava de um lado para o outro em sua mente, arranhando suas barreiras mentais. O aroma de lavanda e camomila que ele sentira mais cedo na janela havia sumido temporariamente, abafado pelos perfumes caros e pelo cheiro de suor dos guerreiros, mas a inquietação em seu peito apenas crescia. Na base do salão, misturando-se entre os servos, Lyra Ashbourne tentava passar despercebida. Seguindo o conselho desesperado de seu pai, ela vestia um vestido simples de tecido escuro e havia jogado seus volumosos cabelos cacheados para a frente, cobrindo completamente os ombros e a nuca. Ela segurava uma pesada bandeja de prata com jarras de vinho, movendo-se com cuidado entre as mesas dos guerreiros. Lyra tentava não olhar para o trono, mas seus olhos dourados, brilhando como âmbar sob a luz das velas, pareciam magneticamente atraídos para o homem sentado no topo do estrado. Kael era ainda mais intimidante de perto. Havia uma aura de poder puro e perigo ao redor dele que fazia o estômago de Lyra revirar. O mais estranho, porém, era a queimação em sua nuca. A marca da lua crescente ardia tanto que parecia uma lâmina em brasa cortando sua pele. — Mais vinho aqui, ômega! — um beta robusto ordenou, batendo a taça vazia na mesa perto de Lyra.Ela engoliu em seco, aproximando-se para servir o guerreiro. Suas mãos tremeram levemente, mas ela manteve a cabeça baixa, focada em não derramar uma única gota.Neste exato momento, um Alfa de uma alcateia vizinha levantou-se abruptamente para saudar o Rei, esbarrando violentamente no ombro de Lyra. A bandeja de prata escorregou de suas mãos. O som do metal batendo contra o chão de pedra ecoou pelo salão, interrompendo momentaneamente a música dos menestréis. O vinho tinto espalhou-se como sangue pelo chão. Em um reflexo puramente defensivo para limpar a própria saia, Lyra jogou a cabeça para o lado, e o movimento repentino fez com que seus cachos escuros escorregassem para a frente, expondo completamente as costas de seu pescoço.No topo do estrado, Kael congelou.O aroma de lavanda e camomila explodiu no ar com uma força avassaladora, atingindo os sentidos do Rei Alfa como um soco. Nas profundezas de sua alma, o lobo de Kael soltou um uivo ensurdecedor que fez o próprio Rei arfar, segurando as laterais do trono de pedra com tanta força que suas garras rasgaram o material. As pupilas de Kael dilataram-se instantaneamente, assumindo um brilho azul-escuro mortal. Ele se levantou do trono em um único movimento tenso, atraindo os olhares surpresos de sua mãe e de todo o salão. Seus olhos varreram a multidão como um predador em busca de sua presa, até que pararam na jovem ômega ajoelhada no chão, tentando recolher os pedaços da bandeja. O tempo pareceu parar. Uma onda de choque elétrico invisível cruzou a distância entre eles, fazendo a pele de ambos formigar. O vínculo de companheiros destinados havia despertado. Não era um sussurro; era um clamor divino. A Deusa da Lua havia falado, unindo o Rei Alfa mais poderoso dos Sete Reinos à ômega mais humilde de Blackthorn. "Minha." — o lobo de Kael rugiu em sua mente com uma possessividade violenta, tentando assumir o controle. Ele queria descer do estrado, afastar todos os guerreiros com os dentes e reivindicar aquela mulher de cabelos cacheados e olhos de âmbar diante de toda a corte.No entanto, quando Kael deu o primeiro passo à frente, sua mãe, Evelyn, segurou firmemente o seu pulso. Ela olhava para Lyra lá embaixo com uma expressão de puro horror e nojo. O salão inteiro começou a sussurrar, percebendo a reação mística do Rei e a comoção ao redor da serva. — Kael, controle-se — Evelyn sibilou, a voz baixa e urgente. — Uma ômega comum? A Deusa só pode estar testando sua liderança. Os outros seis reinos estão nos portões esperando um sinal de fraqueza. Você não pode aceitar uma serva sem linhagem, sem poder político e sem uma loba dominante como sua Luna. Isso seria a ruína do nosso nome! Ao lado dela, o Sumo Sacerdote Malakor aproximou-se, estreitando os olhos astutos para a jovem no chão. Seu olhar fixou-se na nuca exposta de Lyra, onde uma marca escura em forma de lua crescente cortava a pele. Para Malakor, aquilo não passava de uma deformidade. — Uma criatura defeituosa, Majestade — Malakor murmurou, destilando seu preconceito aristocrático. — Veja aquela cicatriz de nascença horrorosa em seu pescoço. Ela é fraca, comum e indigna de gerar os herdeiros de Blackthorn. Diante da ameaça de guerra que descobrimos na fronteira, o Conselho da Lua jamais reconhecerá uma união que enfraqueça o trono. O dever exige um sacrifício. Kael parou no meio do degrau, a respiração arfante. Um conflito brutal desfigurou suas feições perfeitas. De um lado, o chamado selvagem de seu lobo implorando para que ele protegesse sua companheira. Do outro, o orgulho de um monarca, as manipulações de sua mãe e a doutrina cega do Conselho da Lua que ele defendera por toda a vida. Ele acreditava piamente que, se demonstrasse fraqueza escolhendo o amor em vez do poder político, colocaria a segurança de todo o seu povo em risco. Lá embaixo, Lyra estava caída de joelhos, o coração batendo descompassado contra as costelas. Ela sentia o choque místico do vínculo queimar em suas veias, mas, ao erguer os olhos dourados, não viu o acolhimento nos olhos azuis-escuros de Kael. Viu apenas a frieza calculista de um governante que colocava a coroa acima da alma. O medo deu lugar a uma terrível premonição: a humilhação estava apenas começando.Três anos haviam se passado desde a noite em que as antigas estruturas do Conselho Superior ruíram sob as muralhas de Blackthorn. O inverno ainda cobria as montanhas do norte com seu manto branco, mas a neve já não carregava o mesmo significado de antes. Naquela manhã, o pátio central do Palácio de Cristal estava cheio de vozes, risadas e passos pequenos correndo sobre a pedra aquecida pelas fogueiras. Os antigos símbolos cinzentos haviam desaparecido completamente. Em seu lugar, grandes estandartes negros e prateados tremulavam ao vento, carregando o símbolo da nova soberania. Lyra observava tudo da varanda superior. Aos vinte e cinco anos, ela já não carregava nos ombros o peso da jovem fugitiva que havia chegado àquele território tentando sobreviver. Vestia uma túnica longa de tecido escuro, bordada com fios prateados, e os cabelos cacheados caíam livres pelas costas. A marca de Kael permanecia visível em seu pescoço. Não como uma lembrança de posse. Mas como a escolha
O inverno havia dado lugar à primavera. A neve que durante meses cobrira as montanhas começava a desaparecer, revelando os primeiros sinais de verde entre as pedras. Os rios voltavam a correr pelas encostas, as estradas comerciais estavam abertas novamente e, pela primeira vez em muitos anos, as caravanas atravessavam o norte sem escoltas de guerra. Blackthorn havia mudado. Os antigos símbolos do Conselho tinham desaparecido das paredes. No lugar deles, estandartes negros e prateados tremulavam sobre as torres. As leis de Lyra haviam sido copiadas e distribuídas pelas províncias. Os impostos abusivos haviam sido abolidos. Os antigos contratos de casamento político deixaram de possuir validade. E os clãs que antes viviam separados pelo medo agora negociavam diretamente com a nova coroa. Mas havia uma mudança que todos esperavam com ainda mais ansiedade. O nascimento do herdeiro. Lyra caminhava lentamente pelos jardins internos do palácio. Uma das mãos repousava sobre o ven
O amanhecer encontrou Blackthorn coberto por neve. Pela primeira vez, porém, o frio não parecia anunciar guerra. As ruas estavam tomadas por bandeiras negras e prateadas. Fogueiras queimavam diante dos portões, enquanto os clãs que haviam descido das montanhas ocupavam o grande pátio do Palácio de Cristal. Curandeiros. Guerreiros. Comerciantes. Famílias inteiras. Todos haviam vindo testemunhar o momento que encerraria oficialmente séculos de incerteza. Dentro do palácio, Lyra estava diante de um grande espelho de prata. Não usava o pesado vestido cerimonial das antigas rainhas. Escolhera uma túnica longa de tecido negro, ajustada ao corpo, com detalhes prateados bordados nas mangas. Sobre os ombros repousava um manto escuro, preso por um broche com o símbolo da Primeira Rainha. Os cabelos cacheados estavam soltos. A marca de Kael permanecia visível em seu pescoço. E uma das mãos repousava sobre o ventre. Thomas entrou no aposento. Parou ao vê-la. Por alguns segundos,
O eclipse ainda estava a dois dias de distância. Mesmo assim, Blackthorn já parecia preparado para uma guerra. As muralhas haviam sido reforçadas. As patrulhas dobradas. Os portões permaneciam sob vigilância constante, e nenhum mensageiro entrava ou saía sem ser registrado. Mas Lyra havia proibido que os soldados demonstrassem pânico. O Círculo do Véu queria exatamente isso. Medo. Desconfiança. Caos. Ela não lhes daria nada disso. Naquela noite, o Salão de Guerra estava novamente ocupado. Kael permanecia diante do grande mapa do norte, enquanto Brandon distribuía relatórios. Silas e Helena analisavam as rotas de entrada. Valen observava as fronteiras de Ironcrag. Lyra entrou por último. Todos se levantaram. — Sentem-se. Ela caminhou até a mesa. — O homem que lidera o Círculo acredita que vai entrar em Blackthorn durante o eclipse. Kael assentiu. — E nós vamos deixá-lo entrar. Silas ergueu uma sobrancelha. — Tem certeza disso? — Absoluta. Lyra apontou para o map
O retorno a Blackthorn aconteceu antes do amanhecer. As carruagens atravessaram os portões enquanto a maior parte do palácio ainda dormia. A neve cobria as pedras do pátio, abafando o som das rodas e criando uma falsa sensação de tranquilidade. Mas, dentro do Palácio de Cristal, a tensão permanecia. Os prisioneiros foram conduzidos para a ala de julgamento. Lyra chegou pouco depois. Kael caminhava ao lado dela. Silas, Helena, Valen e Brandon vinham logo atrás. Sobre a mesa do salão estavam os documentos encontrados em Silverwood. Centenas de páginas. Nomes. Contratos. Pagamentos. Juramentos secretos. Lyra passou os dedos sobre um dos pergaminhos. — Quantos nomes confirmamos? Brandon respondeu: — Trinta e dois. Helena respirou fundo. — Trinta e dois nobres. — E mais vinte e um oficiais e comerciantes — Brandon completou. Silas soltou um assobio. — É uma rede inteira. Kael observou os documentos. — Uma rede que acreditava que o povo ainda obedeceria ao Conselho.
A estrada para Silverwood estava coberta por uma camada espessa de neve quando as primeiras carruagens deixaram Blackthorn. Lyra seguia no veículo central, acompanhada por Kael. Do lado de fora, vinte soldados escolhidos por Brandon avançavam em formação silenciosa, enquanto Silas e Helena conduziam a retaguarda. Não era um exército. Era uma operação cirúrgica. A antiga estação de vigia ficava escondida entre duas encostas, parcialmente coberta pela neve. Durante anos, ninguém a utilizara. Era exatamente por isso que os conspiradores haviam escolhido aquele lugar. Quando chegaram ao topo da colina, Brandon ergueu o punho. Todos pararam. — Há movimento — ele murmurou. Kael desceu da carruagem. Lyra veio logo atrás. — Quantos? — Pelo menos quinze homens dentro da estação. Silas desembainhou a espada. — Então temos companhia. Lyra levantou uma mão. — Ninguém ataca ainda. Kael olhou para ela. — O que está pensando? — Eles acreditam que estão escondidos. Ela apontou pa







