LOGINO despertar da lua era uma das tradições mais importantes de toda alcateia. Também era uma das poucas ocasiões em que os membros da nobreza se reuniam com representantes de outras alcateias.
Por isso, tudo precisava estar impecável. Passei boa parte da manhã limpando o salão principal. Organizei as mesas, troquei os arranjos de flores e poli os candelabros até que refletissem a luz das janelas. Quando terminei, percebi que ainda havia algumas marcas no piso de mármore. Ajoelhei-me para removê-las. — Maíra? Isadora Kalycan estava parada à entrada do salão. A Luna vestia um elegante conjunto azul-claro, e seus cabelos castanhos estavam presos em um penteado delicado. Dois colares de prata adornavam seu pescoço, e sua postura era tão impecável quanto sempre. — Minha Luna. Levantei-me imediatamente e fiz uma reverência. — O salão está quase pronto — informei. Isadora observou o ambiente. — Está muito bonito. As flores ficaram excelentes. — Obrigada, minha Luna. Ela caminhou entre as mesas, examinando os arranjos. Isadora era uma mulher admirada por toda a alcateia. Filha de uma família nobre, havia sido educada desde a infância para se tornar Luna. Aprendera diplomacia, administração, etiqueta e estratégia política. Quando Zayan assumira o posto de Alfa, ela já possuía a formação e a influência necessárias para governar ao lado dele. Os dois estavam juntos havia mais de dois anos. Isadora não era sua companheira destinada, mas havia sido escolhida por ele. Eu conhecia as leis sobre os vínculos. Sabia que a Deusa da Lua podia unir duas almas destinadas, mas que esse vínculo poderia ser rompido mediante um ritual doloroso. Também sabia que aqueles que rompiam um vínculo destinado podiam escolher outro companheiro. Contudo, o novo laço precisava ser sustentado por um amor suficientemente profundo. Caso contrário, transformava-se em uma maldição Isadora havia rompido seu próprio vínculo destinado antes de se unir a Zayan. Não sabia exatamente como aquilo havia acontecido. Apenas ouvira que ela havia feito sua escolha e que o Alfa a aceitara como sua Luna. Para mim, aquilo parecia uma decisão distante da realidade que conhecia. — Você também participará da cerimônia hoje, não é? — perguntou Isadora. — Sim, minha Luna. Completo vinte anos Ela sorriu. — Então espero que tenha uma noite especial. — Obrigada, minha Luna.. — Seu trabalho está excelente, Maíra. Helena comentou que você tem ajudado bastante na organização. Senti minhas bochechas aquecerem. — Apenas fiz o que precisava ser feito. — Ainda assim, é bom saber que posso contar com empregados dedicados. Inclinei a cabeça. — Fico feliz em ser útil de alguma forma Luna. Isadora assentiu e seguiu em direção à escadaria e eu voltei a me ajoelhar para terminar de limpar o piso. Não havia nada de extraordinário naquela conversa. Isadora sempre fora educada comigo. Não éramos próximas, mas também nunca havia me perseguido ou me tratado de maneira particularmente cruel.Para ela, eu era apenas uma serva competente. E estava perfeitamente satisfeita em continuar sendo assim. Pouco antes do meio-dia, Zayan retornou de uma reunião com o conselho. O Alfa entrou na mansão acompanhado de dois guardas. Sua presença sempre alterava o ambiente. Os empregados endireitavam a postura, os visitantes se curvavam e até as conversas mais animadas diminuíam de intensidade. Zayan Kalycan era um homem que impunha respeito. Alto, de ombros largos e cabelos escuros, possuía olhos dourados que pareciam observar tudo ao redor. Seu rosto tinha traços marcantes, e sua expressão raramente revelava o que realmente estava pensando. Ele assumira o posto de Alfa alguns anos antes e, desde então, havia fortalecido a alcateia e ampliado sua influência política. Não era um governante que tolerava desordem. — Meu Alfa — cumprimentei, inclinando a cabeça quando ele passou pelo salão. Zayan interrompeu os passos. — Maíra. Ergui os olhos, surpresa por ele ter se dirigido diretamente a mim. — Sim, meu Alfa? Ele observou o salão. — A preparação está adiantada. — Sim, senhor. Estamos terminando os últimos detalhes. — Isadora está satisfeita com seu trabalho. Senti uma pequena satisfação ao ouvir aquilo. — Fico feliz em saber, meu Alfa. Zayan assentiu e continuou caminhando. Foi uma conversa breve, como tantas outras que eu tivera com ele ao longo dos anos. O Alfa sabia quem eu era. Conhecia minha condição eu fui trazida ainda criança e ele já era adolescente. Entretanto, raramente se envolvia em minhas atividades. Eu era uma das servas da mansão, e ele tinha uma alcateia inteira para governar. Não esperava mais do que aquilo. Quando Zayan desapareceu no corredor, voltei ao trabalho. Naquela noite, eu seria apresentada à Deusa da Lua. Talvez despertasse meu lobo. Talvez não. Independentemente do resultado, no dia seguinte eu voltaria a limpar os corredores, preparar as refeições e organizar os aposentos. Minha vida não mudaria. Pelo menos, era nisso que eu acreditava. O sol já havia desaparecido quando comecei a me preparar para a cerimônia. Helena havia separado um vestido branco para mim. Era simples, feito de um tecido leve, com mangas compridas e uma pequena faixa prateada na cintura. As outras jovens da alcateia usariam vestidos semelhantes, embora muitos fossem mais elaborados, com bordados e adornos. Vesti-me rapidamente e prendi os cabelos em uma trança. Quando saí do alojamento, encontrei Clara esperando por mim. — Está bonita, menina. — Obrigada. Ela ajeitou uma mecha que havia escapado da trança. — Não fique nervosa. — Não estou nervosa. Clara ergueu uma sobrancelha. — Suas mãos estão tremendo. Olhei para meus dedos. Era verdade. — Só estou um pouco ansiosa. — É normal. Todas as jovens ficam assim antes da cerimônia. Ela segurou minhas mãos por um instante. — Seja qual for o resultado, você continuará sendo a Maíra que conhecemos. Sorri. — Obrigada, Clara. Seguimos juntas até o salão principal. A mansão estava iluminada por centenas de velas. Flores brancas e prateadas decoravam as colunas, enquanto a luz da lua cheia atravessava a claraboia central. Os convidados já estavam reunidos. A nobreza ocupava as mesas próximas ao altar, enquanto os empregados permaneciam nas laterais, prontos para servir.POV: Maíra O silêncio que se seguiu após a discussão entre Zayan e Isadora durou três dias. Três dias em que o Alfa não voltou a me chamar de companheira destinada. Três dias em que não apareceu na cozinha quando eu levava as refeições, não perguntou sobre meus ferimentos e sequer olhou em minha direção quando cruzávamos os corredores. No início, pensei que estivesse ocupado com os assuntos da alcateia. Zayan sempre tinha reuniões, relatórios para analisar e decisões que exigiam sua atenção. Mas, no quarto dia, quando o vi passar por mim no pátio e desviar o olhar deliberadamente, compreendi que alguma coisa havia mudado. Não era indiferença. Era esforço. Eu conhecia o suficiente sobre o vínculo para reconhecer os sinais. O lobo dele ainda me procurava. Às vezes, eu sentia o puxão no peito quando estávamos próximos, uma espécie de saudade que não me pertencia inteiramente. Em outras ocasiões, quando ele se afastava, uma dor profunda se espalhava pelo meu corpo, como se algo dent
A voz dela ecoou pelo corredor. Os guardas abaixaram a cabeça. Eu permaneci imóvel, desejando desaparecer. Zayan apertou os punhos. — Não faça isso novamente. Isadora ficou pálida. — Está me dando ordens por causa dela? — Estou deixando claro que não permitirei que o vínculo seja usado para prejudicar minha companheira. Isadora soltou uma risada incrédula. — Sua companheira? O Alfa ficou em silêncio. Ela deu um passo em sua direção. — Você passou semanas afirmando que não a queria. Que pretendia romper o vínculo e permanecer ao meu lado. Mas agora a chama de sua companheira diante dos guardas? Zayan não respondeu. Isadora olhou para mim. E, naquele instante, percebi que alguma coisa havia se quebrado entre nós. A mulher que antes me tratava com formalidade agora me observava como se eu tivesse roubado algo que lhe pertencia. — Saia daqui, Maíra — ordenou ela. Zayan virou-se imediatamente. — Isadora… — Eu disse para ela sair! O Alfa ficou imóvel. Olhei para ele. E
Na manhã seguinte, o peso das novas tarefas tornou-se evidente. Helena tentou intervir quando viu a lista que Isadora havia preparado. — Minha Luna, essas atividades são excessivas para uma única pessoa. Isadora estava sentada à mesa do desjejum. — Maíra é uma das servas mais eficientes da mansão. — Não duvido disso, mas… — Então não vejo motivo para questionar a distribuição. Helena baixou a cabeça. — Como desejar, minha Luna. Eu permanecia próxima à porta, aguardando novas instruções. Isadora virou-se para mim. — Maíra, quero que os aposentos principais estejam limpos antes do meio-dia. A lavanderia deverá estar organizada até o fim da tarde, e o salão de recepção precisa estar pronto para a reunião desta noite. — Sim, minha Luna. — E cuide para que tudo esteja impecável. — Sim, senhora. Peguei a lista e saí. Helena me alcançou no corredor. — Não precisa aceitar tudo sem dizer nada. — Ela é a Luna, senhora. — E você não é uma máquina. Sorri discretamente. — Vou
Naquela noite, o conselho se reuniu novamente.Eu estava servindo o jantar quando percebi que Zayan parecia inquieto.Seu lobo estava agitado, e o vínculo transmitia uma sensação de desconforto que me fazia sentir o peito apertado.Tentei manter a concentração.Quando me aproximei para servir o vinho, uma pontada intensa atravessou meu corpo.A taça escorregou de minhas mãos.O vidro se chocou contra o chão, espalhando cacos sobre o mármore.O salão ficou em silêncio.— Maíra! — exclamou Helena, que estava próxima à entrada.Abaixei-me imediatamente.— Perdão, minha Luna. Meu Alfa.Zayan se levantou tão depressa que a cadeira caiu para trás.— Não toque nisso!Sua voz ecoou pelo salão.Parei, surpresa.Ele atravessou o espaço entre as mesas e segurou meu braço antes que eu pudesse recolher os cacos.— Você se machucou?Olhei para ele, confusa.— Não, meu Alfa.Zayan examinou minha mão.Um pequeno corte havia surgido próximo ao polegar.Uma gota de sangue escorreu pela pele.O Alfa ros
Não sei quanto tempo permaneci ali. A luz que entrava pelas cortinas mudou de intensidade, indicando que a manhã avançava. Isadora estava sentada em uma poltrona, em silêncio. Eu evitava olhar em sua direção. Não sabia o que dizer. Não sabia sequer se deveria estar naquele quarto. Quando Zayan finalmente despertou, a primeira coisa que fez foi procurar minha mão. Seus dedos se fecharam ao redor dos meus. — Maíra? — Estou aqui, meu Alfa. Ele abriu os olhos e me observou. Por um instante, sua expressão pareceu confusa, como se estivesse tentando reconstruir o que havia acontecido. Então olhou para Isadora. — O que houve? A Luna levantou-se. — Você teve outra crise. O curandeiro precisou ser chamado. Zayan passou a mão pelo rosto. — Lembro-me de parte disso. — Você perdeu o controle do lobo — respondeu ela. Ele olhou para mim. — E ela? — O curandeiro pediu que preparasse uma infusão — expliquei. — Eu a trouxe. Zayan ficou em silêncio. Seus olhos desceram até nossas
Maíra O primeiro sinal de que algo estava errado foi o silêncio. A mansão Kalycan costumava despertar antes do sol. Os empregados circulavam pelos corredores, a cozinha fervilhava com os preparativos do desjejum e os guardas trocavam de turno no pátio. Naquela manhã, porém, todos pareciam andar com cautela, como se temessem perturbar alguma coisa. Eu estava na cozinha, preparando uma infusão para Helena, quando Clara entrou apressada. — Você ainda não soube? Ergui os olhos. — Soube de quê? Ela se aproximou e baixou a voz. — O Alfa passou mal durante a madrugada. Chamaram o curandeiro às pressas. Minha mão parou sobre a chaleira. — De novo? Clara assentiu. — Dizem que o lobo dele está cada vez mais instável. Um dos guardas ouviu os rosnados vindos dos aposentos do Alfa. Senti o vínculo se contrair em meu peito. Uma pontada aguda me fez apoiar a mão na bancada. — Maíra? — Clara segurou meu braço. — Está sentindo alguma coisa? Respirei fundo. — Não é nada. — Você ficou b







