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Capítulo 3

Author: N.A.S.C
last update publish date: 2026-08-02 05:36:31

A chuva batia forte contra o meu corpo, despertando-me do torpor. 

Pisquei algumas vezes, tentando entender onde estava, até que a dor me atingiu em ondas avassaladoras. 

Meu corpo doía, coberto por hematomas e lama. Com um gemido baixo, me sentei devagar, sentindo minha cabeça latejar.

O peso no meu peito era insuportável. Minha loba choramingava em minha mente, encolhida, recusando-se a falar comigo. 

Eu não insisti.

Não queria conversar com ninguém, nem mesmo com ela.

Minha casa não era um lugar para onde eu queria voltar agora. Não suportaria encarar minha avó, muito menos minha mãe. 

Eu me lembrei da cabana abandonada que havia encontrado dias atrás, no meio da floresta e meus pés me guiaram até lá.

Assim que entrei, sentei-me no chão de madeira fria e deixei que as lágrimas viessem. 

Chorei por tudo. 

Pela rejeição de Lucius. Pelo desprezo da minha matilha. Pela dor da minha loba. Pela minha mãe, que a cada dia parecia mais próxima do fim. Chorei até que não restassem mais lágrimas, até que meu peito doesse de tanto soluçar.

Quando o sol começou a surgir no horizonte e a chuva cessou, fui até o rio próximo e lavei o rosto e o corpo, tentando apagar qualquer vestígio da noite anterior. 

E com passos pesados, segui para casa, tomando o cuidado de entrar antes que minha avó acordasse.

Subi direto para o meu quarto, tirando as roupas sujas e vestindo algo longo para esconder os hematomas. 

No espelho, observei as marcas roxas no meu rosto e suspirei. 

Peguei um pouco de maquiagem e as cobri o máximo que pude. Elas provavelmente sumiriam até amanhã. 

Lobos tinham cura acelerada, afinal. Pena que isso não se aplicava às feridas da alma.

Quando desci para a cozinha, encontrei minha avó preparando chá. Ela ergueu os olhos ao me ver e franziu a testa, surpresa.

— Não ouvi você chegar à noite.

— Cheguei um pouco mais tarde. — respondi, evitando seu olhar.

Ela me analisou por um instante, como se soubesse que eu estava escondendo algo, mas não insistiu.

— Como foi? — ela perguntou, servindo o chá em uma xícara. — Encontrou seu companheiro?

A pergunta me atingiu como um soco no estômago, mas engoli a dor e neguei com a cabeça, forçando minha voz a soar indiferente.

— Não. — respirei fundo. — Como a mamãe passou a noite?

Minha avó suspirou pesadamente, sentando-se à mesa comigo.

— Não sei se ela vai resistir por muito tempo. — disse, com um pesar visível nos olhos. — Nem eu sei como sobrevivi depois que perdi seu avô, mas de alguma forma consegui. Sua mãe, no entanto... — ela desviou o olhar, apertando a xícara entre as mãos trêmulas. — Júlia está abatida demais.

Fechei os olhos por um segundo, sentindo a impotência me esmagar.

— Eu sei. — murmurei, encarando o vapor que subia da xícara à minha frente. — Se não fosse por ela, eu já teria ido embora.

Minha avó me olhou com tristeza e assentiu devagar.

— Eu sei disso. — sua voz era suave, compreensiva. — E entendo. Quando sua mãe partir... você estará livre.

Eu apenas assenti, sem coragem de dizer mais nada. Porque, no fundo, sabia que ela estava certa.

Os dias passaram em um borrão monótono e silencioso. 

Depois daquela noite fatídica, eu me dediquei completamente aos meus estudos e aos cuidados com minha mãe e minha avó. 

A faculdade se tornou minha rota de fuga, um lugar onde eu poderia ser apenas mais uma estudante entre tantos outros. 

Todas as manhãs, eu acordava cedo, pegava o ônibus para a cidade vizinha e passava o dia imersa em aulas e práticas na cozinha. 

Lucius tinha ido para o exterior, para o reino do Rei dos Lobisomens, onde todos os alfas passavam dois anos treinando antes de assumir suas matilhas. 

Safira também havia partido, matriculada em uma faculdade de moda, esperando pelo retorno triunfal de Lucius. 

Esse tempo de paz, sem a presença deles, foi um alívio.

Então, dois anos depois, minha avó me chamou na cozinha com uma expressão preocupada no rosto. 

Ela preparava um chá quando olhou para mim e suspirou.

— Camila, preciso te contar algo. — Sua voz era baixa, mas carregava um peso que fez meu estômago revirar.

Coloquei a bolsa sobre a cadeira e me encostei no balcão, esperando pelo pior.

— O Rei Cedric está visitando cada matilha pessoalmente. — Ela olhou para mim, medindo minha reação. — E o Alfa me pediu para perguntar se você poderia ajudar a preparar o banquete, já que está estudando gastronomia.

Fechei os olhos por um instante, inspirando fundo. Eu não tinha opção. Um pedido do Alfa era praticamente uma ordem.

— Certo. Diga a ele que eu ajudo. — Minha voz saiu neutra, sem qualquer empolgação.

Minha avó assentiu, como se já esperasse essa resposta.

— Ele virá em dois meses. É tempo suficiente para você se preparar e planejar o menu.

— Sim. — Murmurei, perdida em pensamentos.

Seria a primeira vez em muito tempo que eu faria algo dentro da matilha.

Lucius estava pra voltar a qualquer dia e a responsabilidade de preparar um banquete para o rei aumentava ainda mais a ansiedade.

Será que eu seria capaz de ignorar o lobo que me rejeitou? 

Duas semanas se passaram em um ritmo exaustivo, divididas entre a faculdade, os cuidados com a minha mãe, que definhava acamada, e a finalização do menu do banquete para o Alfa. 

Com o coração apertado pelo medo de perdê-la na minha ausência, mas ciente de que precisava seguir em frente, fui até a casa da matilha apresentar o projeto.

Apesar dos olhares hostis e dos sussurros venenosos que me acompanharam assim que entrei no território e mantive a cabeça erguida. 

Aos vinte e um anos, a garota assustada do passado já não existia; eu era uma mulher, e o medo já não tinha espaço em mim.

Segui pelo corredor que levava ao escritório do alfa, acompanhada por um dos guardas. 

Mas então, um calafrio percorreu meu corpo quando ouvi uma voz familiar. 

Meu sangue gelou, e virei-me devagar. 

O guarda parou ao meu lado e, com respeito, inclinou a cabeça.

— Futuro Alfa Lucius. — Ele o saudou formalmente.

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