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Entre dúvidas e culpa

Penulis: Maria eufrasio
last update Tanggal publikasi: 2026-10-02 08:36:52

CALEB

Assim que vi a silhueta de Maya desaparecer pelas portas do salão sob a tempestade, xinguei-me mentalmente com toda a fúria que queimava em minhas entranhas.

​O meu coração e o meu corpo recusavam-se a aceitar que aquela garota pura pudesse ter se tornado uma golpista. O meu lobo arranhava o meu peito, rosnando em protesto, exigindo a nossa fêmea de volta. Tanto que, quando a agarrei ali na presença de todos, exposta à luz dos candelabros e diante dos olhos compridos da nobreza e da minha noiva Vivian, quase perdi o controle.

​A verdade é que a humilhação do meu orgulho ferido e a pressão dos meus pais falaram mais alto.

​A festa continuou como uma tortura sufocante. Vivian grudava no meu braço como um carrapato, com aquela expressão de vitória, mas a imagem de Maya caindo no chão com a marca dos meus dedos no rosto não saía da minha cabeça e como eu fui capaz de quase matá-la.

​Só agora me dei conta que eu nem sequer lhe dei o benefício da dúvida, nem sequer deixei ela se defender.

​A verdade é que eu nunca desejei a Vivian e ela nunca despertou em mim a chama que Maya despertava só com o olhar.

​O meu casamento com a Vivian não passava de um acordo feito entre meus pais e meus tios porque quem eu queria mesmo era a Maya.

​Não importa se ela é uma golpista, se me drogou ou não, eu só sei que cheguei ao extremo de bater nela, de agredir porque fui envenenado pelos meus pais, pela Vivian, que me fizeram a odiar, mas eu ainda a amo e é por isso que preciso dela.

​Eram quase quatro da manhã quando não aguentei mais. Tomado por uma urgência febril, saí escondido pelos fundos da mansão. Caminhei a passos largos sob a chuva fina que começava a engrossar, indo direto na direção do alojamento humilde dos empregados, onde Maya vivia em uma pequena casa de madeira.

​A minha intenção era turva e egoísta: eu usaria do meu poder de Alfa para forçá-la a me dar explicações. Eu a trancaria ali se fosse preciso, mas não a deixaria ir embora da minha vida.

​Quando cheguei à casinha, empurrei a porta com brutalidade.

​— Maya! — chamei, a voz dura, tentando disfarçar a ansiedade.

​O silêncio ensurdecedor da casa foi a única resposta.

​Caminhei até o pequeno quarto. A cama simples estava desarrumada e fria. As portas do armário continuavam escancaradas e as poucas gavetas de madeira estavam completamente vazias. Ela tinha ido embora. Não havia cartas, não havia rastros, apenas a escuridão e o aroma residual do seu perfume de baunilha flutuando no ar gelado.

​Um nó cego apertou minha garganta. Ela tinha ido embora de verdade.

​Saí em disparada para fora da casa. Corri no meio do lamaçal e da tempestade em direção à floresta, tentando acompanhar o rastro fraco do cheiro dela. Passei pelas árvores rasgando minhas roupas na vegetação, gritando o nome dela até minha garganta arranhar.

​— MAYA!

​Nenhum eco voltou. Quanto mais eu avançava em direção à fronteira do território da Matilha Eclipse Negro, mais a chuva forte apagava qualquer vestígio do seu cheiro.

​Cheguei ao limite das terras sem encontrar absolutamente nada. Nenhuma pista, nenhum pano, nenhuma marca no chão. A floresta escura e silenciosa tinha engolido Maya por inteiro.

​Caí de joelhos sobre a lama encharcada sob a tempestade. O meu lobo soltou um uivo contido e agoniado no fundo da minha mente. Eu a tinha humilhado, esbofeteado e expulso para a escuridão da noite. E agora, ela tinha desaparecido no mundo sem deixar rastros, levando consigo a dúvida que me destruiria para sempre.

​Quando derrotado, com as roupas encharcadas, voltei para meu quarto, encontrei Vivian com uma lingerie sexy deitada em minha cama. Antes do meu caso com Maya, eu e a Vivian tínhamos transado algumas vezes, mas não fui o primeiro dela e na verdade nem me importei com isso porque eu nunca amei a Vivian e com ela nunca passou de sexo, já com a Maya era mais do que isso: eu era viciado nela.

​— Vai ficar parado aí fingindo que não estou aqui, meu Alfa?

​De repente a voz de Vivian me trouxe ao presente.

​— Por favor, Vivian, vá para seu quarto. Eu hoje não estou no menor clima e além disso faz tempo que não transamos, desde que...

​— Desde que você me substituiu por aquela vagabunda que armou para subir na vida nas suas costas? — Vivian me interrompeu.

​— Eu não quero falar sobre isso. Apenas saia.

​— Não acredito que está mesmo apaixonado por aquela vadia! Eu sempre pensei que ela era apenas uma distração.

​— O que eu sinto ou deixo de sentir não é da sua conta. Agora saia! Não quer que eu chame seus pais e os meus aqui e eles descubram que você não é mais a princesinha pura que eles pensam, quer?

​Bastou isso para Vivian me olhar furiosa, se levantar da cama e vestir o robe às pressas para sair do meu quarto. Mas antes de sair, com um sorriso vil e cruel, ela se virou para mim e disse:

​— Pois trate de esquecer sua querida Maya, porque a essa hora ela já deve estar morta.

​— O quê? Como assim? Do que está falando? — disse eu, indo até ela e sacudindo seus ombros.

​— Você acha mesmo que uma ômega fraca como ela iria sobreviver à floresta cheia de renegados?

​Assim que disse isso, ela saiu em seguida e eu desabei sentado na cama. Se o pior realmente tivesse acontecido a Maya naquela noite de tempestade, o único assassino culpado por sua morte era eu.

​E essa culpa seria o meu próprio inferno pelos anos que viriam.

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