MasukA chuva gelada lavava as lágrimas quentes que queimavam minha pele e o sangue espesso que ainda escorria do meu lábio cortado, resultado do tapa brutal de Caleb. A água da tempestade misturava-se ao suor frio do medo, mas não conseguia esfriar a agonia que queimava dentro do meu peito. Meus pés descalços, feridos pelas pedras e rasgados por espinhos, afundavam na lama escura a cada passo vacilante, enquanto eu me enfiava cada vez mais fundo nas entranhas da floresta densa. Instintivamente, enrosquei meus braços ao redor da minha barriga, num abraço desesperado para proteger o pequeno segredo que começava a germinar em mim.
— Vamos ficar bem, meu pequeno... — sussurrei com a voz embargada pelo choro e cortada pelo vento uivante, tentando encontrar forças na própria fraqueza. — A mamãe vai dar um jeito... Não precisamos dele, de nenhum deles. Nunca mais. Era só pensar em Caleb , no seu falso amor e na humilhação que me fez passar que eu ganhava forças para continuar comandando e bastava olhar para minha barriga ainda plana e pensar no meu filhote que era mais um motivo que me mantinha de pé. De repente, o estalo seco de um galho quebrando-se às minhas costas cortou o ruído da tempestade. Parei no mesmo instante. O ar congelou em meus pulmões e meu coração disparou contra as costelas num ritmo desordenado. Antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, três sombras altas e ameaçadoras emergiram de trás das árvores, cercando-me num triângulo perfeito do qual não havia fuga. Reconheci imediatamente os rostos sob os capuzes molhados: eram guardas da escolta pessoal da família real. — O Alfa Caleb já me baniu... só me deixem em paz! — pedi, recuando a passos curtos até sentir a casca áspera e úmida do tronco de um carvalho secular colar-se às minhas costas. Minha voz saiu trêmula, pequena diante da ameaça. O beta que liderava o grupo — o mesmo que tantas vezes riu abertamente das humilhações que Vivian me impunha na mansão — deu um passo à frente. Um sorriso cruel e sádico curvou seus lábios. — O Alfa mudou de ideia sobre o seu destino, vadia — rosnou ele, a voz impregnada de um veneno arrastado. — O Alfa Caleb foi bem claro assim que o velho Kerim e Vivian contaram sobre a sua suposta gravidez: ‘Não quero meu sangue e minha linhagem nobres vinculados ao ventre de uma ômega imunda. Deem um jeito nela e no bastardo de uma vez por todas.’ As palavras caíram sobre mim com o peso de uma sentença de morte. O chão sob meus pés pareceu desabar. A imagem do homem que um dia sussurrou promessas de amor em meu ouvido desfez-se completamente, revelando o monstro por trás da coroa. Caleb não apenas me descartara; ele desejava exterminar seu próprio sangue . — Se afastem! — gritei com um sobressalto de pura fúria maternal, tentando encontrar no meu desespero a força que meu lobo covarde me negava. — Nenhum de vocês vai tocar no meu filho! Num piscar de olhos, o som aterrador de ossos estalando e tecidos rasgando ecoou na clareira. Os três homens contorceram-se em metamorfose e, em segundos, três enormes lobos cinzentos surgiram, os dentes afiados à mostra, babando sob a parca luz da lua escondida pelas nuvens. Tentei me transformar, busquei no fundo da minha essência a minha loba interior, mas o medo paralisante e o choque travaram meu corpo. Eu estava impotente. O lobo maior saltou em minha direção, as garras estendidas prontas para cortar minha garganta. Fechei os olhos com força, encolhi-me contra a lama e enrolei meu corpo sobre a minha barriga, esperando pela dor final. Mas nesse exato momento o barulho surdo de um impacto violento e um ganido agudo de dor rasgaram o ar, seguidos pelo baque pesado de um corpo caindo inerte sobre o solo encharcado. Abri os olhos devagar, com a respiração arfante. O lobo que estava prestes a me estraçalhar jazia desacordado a poucos centímetros de mim. À minha frente, erguia-se a figura imponente de um homem alto, de ombros largos, vestindo uma túnica negra de combate e empunhando uma espada ensanguentada. Atrás dele, mais de uma dúzia de guerreiros armados até os dentes cercavam os outros dois guardas reais, que recuavam em pavor absoluto. Quando o homem virou-se devagar, seus olhos de um azul glacial e cortante encararam os meus. A aura que emanava dele era esmagadora, carregada de uma autoridade sombria e perigosa. Era Alex. O Alfa da Matilha Eclipse Negro. O meio-irmão e inimigo jurado de Caleb. — Os cães de caça de Caleb tentando assassinar uma fêmea indefesa na minha fronteira? — desdenhou Alex, sua voz grave ressoando com um sarcasmo afiado. — Que atitude típica daqueles animais daquela matilha hipócrita e covarde. Com um movimento rápido e sem esforço, Alex desferiu um golpe certeiro com o cabo da espada no pescoço do segundo guarda, apagando-o na hora, e cravou o olhar sobre o último homem que permanecia de pé, imóvel de terror. — Avise seu Alfa de merda que qualquer um que pisar nas minhas terras sem autorização terá a cabeça decepada — disse ele, num tom tão frio que rivalizava com a tempestade. — Agora sumam da minha frente. O guarda não esperou por um segundo aviso: arrastou os companheiros desacordados e correu em disparada para a escuridão de onde viera. O silêncio voltou a dominar a floresta, interrompido apenas pelo som da chuva batendo nas folhas. Alex guardou a espada na bainha com calma, aproximou-se e ajoelhou-se na lama diante de mim, ignorando a sujeira que manchava suas roupas nobres. Ele estendeu uma mão grande, firme e calejada na minha direção. — Você está bem, garota? — perguntou ele. Apesar da firmeza na voz, não havia ali o desprezo ou a crueldade que eu me habituara a receber. — Aquele monstro... ele mandou matar o próprio filhote que eu carrego ... — murmurei num fio de voz, o choque fazendo minhas forças se esvaírem enquanto as lágrimas voltavam a cair incontroláveis. Alex franziu o cenho, e um brilho perigoso, uma mistura de desprezo pelo rival e o germe de uma vingança calculada, acendeu-se em seu olhar. — Caleb Crescent é um covarde que não honra o próprio sangue — declarou Alex, mantendo a mão estendida. — A partir de hoje, você e o seu filho estão sob a minha proteção. Encarei aquela mão aberta. Olhei para trás, para a escuridão da terra que um dia chamei de lar e onde fui destruída. Não havia mais ponte para voltar. Caleb matara qualquer resquício de afeto que existia em mim. Apoiando-me na mão firme de Alex, levantei-me da lama. Naquela noite, a garota ingênua e apaixonada morreu sob a tempestade... e no lugar dela, nasceu uma mulher disposta a tudo por justiça.A noite caiu densa e fria sobre o território da Matilha Eclipse Negro. No silêncio do corredor principal, caminhei a passos silenciosos até o quarto de Brian. Abri a porta devagar, com o cuidado de não fazer o menor ruído, e espiei para o interior do cômodo banhado pela iluminação suave de um abajur. Leila estava sentada na poltrona , lendo um livro e ao mesmo tempo sempre atenta , velando o sono do meu filho. Brian dormia tranquilamente na sua cama, agarrado ao urso de pelúcia, com o peito subindo e descendo num ritmo calmo e cadenciado. A respiração suave do meu pequeno me trouxe um alívio momentâneo no meio de tanta tempestade. Troquei um aceno silencioso com Leila, certificando-me de que a segurança e o conforto dele estavam garantidos, antes de fechar a porta novamente. No pátio dos fundos da mansão, os motores de vários veículos rugiam baixinho na escuridão. Os soldados de elite da Eclipse Negro se ajustavam em suas posições, armados e prontos para a missão. Alex estava para
Alex levantou-se do sofá, tirou um maço do bolso e acendeu um cigarro, soltando uma fumaça densa que subiu devagar pelo quarto. Ele começou a andar de um lado para o outro com passos firmes, refletindo em silêncio. Em seguida, guardou o maço, colocou as mãos nos bolsos da calça e parou na minha frente, encarando-me com uma expressão sombria e absolutamente determinada. — Eu vou invadir uma das principais empresas do Caleb no próprio território dele — declarou ele, a voz fria. — Vou colocar fogo em tudo o que vir pela frente. Arregalei os olhos, ajeitando-me na cama. — Alex, mas isso é muito perigoso! — alertei, preocupada. — Tem pessoas inocentes trabalhando para ele lá, tanto lobisomens , como humanos que não fazem parte do nosso meio , Lembra que combinamos de não ferir nenhum inocente no nosso acordo? — Eu não vou machucar nenhum inocente — garantiu Alex, dando uma tragada lenta antes de continuar. — Apenas os seguranças... Ou melhor, os capangas dele que certamente
MAYA Assim que Caleb e Viviam saíram portão afora, eu me permiti respirar fundo e desfazer a armadura blindada que vesti para lidar com eles , principalmente com o Caleb. O ódio queimava dentro de mim como uma brasa acesa, consumindo cada pedaço do meu peito. Aquele desgraçado me acusou de traição quando foi ele quem me traiu. Traiu o meu amor e tudo o que vivemos quando me tratou como lixo e me expulsou da sua vida e da sua matilha. Pior do que isso: ele mandou me matar sabendo que eu carregava o filho dele no ventre. Claro que na época, mesmo depois de tudo o que ele me fez, eu ainda queria acreditar que ele não sabia do bebê. Mas é claro que ele sabia. Assim como eu, o meu filho era para ele apenas um motivo de vergonha ,alguém que ele nem sequer deveria permitir nascer. — Aposto que está pensando no desgraçado do meu meio-irmão... e, mais do que isso, você está muito mexida ao revê-lo depois de tantos anos. Acertei? — perguntou Alex, adentrando o meu quarto. Na verdade, nem
—Bem , eu quero dizer ...que do jeito que ela era... uma ômega fraca que sequer conseguia se transformar, é provável que tenha morrido atacada por lobos bem mais fortes que ela naquela mesma noite e ... — Ela não morreu, Marcos! — disse, afastando-me d e soltando o colarinho dele. Caminhei até a janela quebrada, tentando domar a fúria que queimava em minhas entranhas ao lembrar que fui eu quem a jogou nos braços daquele bastardo. Eu acreditei na acusação falsa de que ela havia me drogado para me seduzir, e a expulsei da minha vida e do meu território sem piedade. — A Maya está viva. E, diga-se de passagem, muito viva... e mais linda do que nunca. E não é só isso: ela tem um filho, e eu tenho quase certeza de que ele é meu. — Como assim? — Marcos franziu o cenho, pego de surpresa. — Como uma ômega insignificante e fraca como ela sobreviveu a... Antes que ele pudesse terminar de proferir aquelas palavras, meu lobo tomou o controle. Em um fração de segundo, avancei. Minha mão
CALEB O silêncio dentro do Rolls-Royce da Matilha Lua Vermelha era sufocante. Acelerando pela rodovia privada que dividia os territórios, eu cravava as mãos no volante com tanta força que as articulações dos meus dedos permaneciam brancas. O meu peito subia e descia em arfadas descontroladas. O meu lobo interior, ensandecido de raiva, urrava por sangue, exigindo a fêmea e o filhote. Ao meu lado, Viviam tentava ajeitar o vestido amassado, com os dedos trêmulos tocando as marcas roxas que as garras de Maya haviam deixado em seu pescoço. O rosto dela estava pálido e deformado pelo ódio. — Aquela vadia desgraçada! — esganiçou-se Viviam. — Você viu o que ela fez, Caleb? Ela quase me matou! E o Alex... aquele bastardo ousou nos ameaçar ! Nós precisamos convocar o nosso exército e varrer a Eclipse Negro do mapa! Eu não disse uma única palavra. Afundei o pé no acelerador, fazendo o Rolls-Royce rasgar a noite, enquanto as palavras de Maya e o deboche de Alex ecoavam na minha
Eu a teria matado ali mesmo, se Alex não tivesse se aproximado devagar. Ele caminhou com calma, colocou a mão grande e firme sobre o meu ombro e falou com a voz suave, mas carregada de uma autoridade serena: — Não vale a pena sujar as suas mãos com um lixo como ela, minha rainha. Ao invés de morrer, ela tem que ficar viva... muito viva, para ver você cada vez mais linda, soberana e poderosa ao meu lado. As palavras dele agiram como um bálsamo na minha raiva cega. Só nessa hora é que os meus olhos, que faiscavam em um tom selvagem e perigoso, voltaram ao seu tom verde natural. Eu afrouxei o aperto e a soltei de uma vez. Viviam desabou no chão de mármore, tossindo descontroladamente, segurando a garganta marcada pelas minhas garras enquanto tentava recuperar o ar. — Você tem razão, Alex — declarei, limpando a poeira invisível dos meus vestidos com uma elegância assustadora. — Nem ela e nem o Alfa Crescent merecem que sejamos nossas mão com eles .. E eu quero muito que ela viva b







