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Capítulo 4. - O OLHAR DO PREDADOR SUPREMO

Author: Lyra
last update publish date: 2026-10-21 10:26:10

Kaelen Vance-Vane — um nome sussurrado com temor e reverência nos cantos mais profundos do mundo sobrenatural — não pertencia ao ecossistema de alcateias comuns como a Lua de Sangue. Ele era o Alfa Supremo da linhagem dos Lobos Ancestrais, criaturas raras, colossais e de sangue puro que os metamorfos modernos acreditavam terem sido extintas há séculos. Sua mente era uma arena dividida entre a razão do homem e os instintos brutais de sua contraparte selvagem. Normalmente, os dois lados operavam em um silêncio gélido e calculado. Mas, desde a noite do equinócio de outono, há exatamente um ano, seu lobo interno não conhecia a paz.

“Ela é nossa. Você sentiu o cheiro de cinzas e estrelas nela. Por que a deixamos andar entre os humanos fracos?”, a voz da fera ecoou na mente de Kaelen, um rosnado mental áspero que exigia possessividade e sangue.

“Porque ela foi quebrada, e uma loba quebrada não sobrevive ao peso do nosso mundo antes de curar a própria alma”, Kaelen respondeu mentalmente ao seu alter ego, mantendo os olhos fixos na vidraça iluminada da livraria Páginas de Outono.

Kaelen estava parado no topo de um antigo edifício de tijolos do outro lado da rua, camuflado pelas sombras da noite humana. Em sua forma bípede, ele era um homem de estatura intimidadora, ombros largos e cabelos escuros salpicados de fios cinzentos nas têmporas. Suas roupas eram escuras e discretas, mas seus olhos mantinham o brilho dourado e estático que Lyra Frostwood tantas vezes sentira vigiá-la.

Ele se lembrava perfeitamente da noite em que a encontrara nas Terras Exiladas. Kaelen estava rastreando renegados quando o cheiro dela atingiu suas narinas: um aroma de sangue misturado a uma energia espiritual tão antiga quanto a dele próprio, mascarada por anos de desnutrição e maus-tratos. Ele assistira, oculto pela névoa, quando o miserável Philip Vance — um Alfa menor, inflado por uma arrogância patética — a rejeitou publicamente para se deitar nos braços cheios de ouro de Fiona Nightshade.

Naquele exato instante, o lobo de Kaelen havia arranhado as paredes de sua mente, exigindo permissão para saltar sobre a clareira e rasgar a garganta de Philip até que nada restasse além de ossos. Mas Kaelen continha a fera. Ele sabia que se interferisse ali, transformaria Lyra em alvo de uma guerra de alcateias antes mesmo que ela descobrisse a força que carregava nas veias. Ele esperou que os guardas a jogassem na floresta. Quando os renegados a atacaram, Kaelen não hesitou em assumir sua forma de lobo de quatro metros de comprimento para dilacerá-los. Ele a escoltara até a fronteira humana, garantindo que ela encontrasse o caminho para a segurança.

Ela sorriu hoje”, o lobo interno comentou, o tom suavizando-se ligeiramente enquanto observava Lyra conversar com a humana chamada Clara dentro da livraria. “Aquele filhote de humano fraco com jaqueta de couro tentou tocá-la. Eu deveria ter arrancado os dedos dele.”

“Thomas é apenas um garoto de dezenove anos entregando livros, não representou perigo”, Kaelen repreendeu mentalmente, embora uma ponta de ciúme primitivo tivesse acendido em seu peito ao ver o jovem interagir com Lyra. “Os humanos estão ensinando a ela o que os lobos nunca ensinaram: o que significa ser tratada com dignidade.”

O som de passos firmes e abafados no teto de concreto o trouxe de volta à realidade. Kaelen não precisou se virar para saber quem se aproximava. O cheiro de pinho e ferro indicava a presença de seus dois homens de mais estrita confiança: Gideon, seu Beta de braço direito e estrategista militar, e Erik, o rastreador-chefe de sua guarda pessoal.

— Supremo — Gideon pronunciou-se primeiro, curvando levemente a cabeça em sinal de respeito absoluto antes de parar ao lado de Kaelen. — Os relatórios das Grandes Terras chegaram. A aliança entre a alcateia Lua de Sangue e a Alcateia das Sombras está se deteriorando mais rápido do que prevíamos. O casamento de Philip e Fiona é uma fachada de disputas territoriais e ganância. Philip está desesperado por recursos, e Fiona começou a movimentar guerreiros perto das nossas fronteiras.

Kaelen não moveu um músculo. Seus olhos continuaram cravados na silhueta de Lyra, que agora guardava sua caneca de café e começava a apagar as luzes da livraria.

— Philip Vance é um tolo que trocou uma joia rara por uma pedra decorada com ouro — Kaelen disse, sua voz um barítono profundo e rouco que carregava o peso do comando. — Ele achou que estava garantindo um exército, mas apenas colocou uma serpente em sua própria cama. Deixe que se destruam. Não moveremos uma única garra até que o momento seja propício.

Erik, o rastreador, deu um passo à frente, olhando para baixo, na direção da calçada onde Lyra acabara de sair, puxando a capa preta sobre os ombros para se proteger do vento frio da noite.

— Com todo o respeito, Alfa... Já se passou um ano — Erik ponderou, com a voz baixa. — Nossos espiões relatam que alguns anciãos da Lua de Sangue começaram a questionar o sumiço da garota Frostwood. Eles vasculharam os registros antigos do bando e descobriram que a linhagem da mãe dela não era de uma órfã comum, mas sim o último ramo sobrevivente dos guardiões das cinzas. Se Philip ou o pai dele descobrirem o que realmente rejeitaram, eles enviarão caçadores atrás dela na cidade humana.

O maxilar de Kaelen travou de forma perceptível. A menção de caçadores perto de Lyra fez sua energia de Alfa Supremo expandir-se de forma tão violenta que Gideon e Erik deram um passo involuntário para trás, sentindo a pressão esmagadora no ar.

— Se qualquer rastreador da Lua de Sangue ou das Sombras colocar as patas nesta cidade, Erik, você tem a minha permissão para não deixar corpos inteiros para trás — Kaelen ordenou, os olhos brilhando em um dourado incandescente sob a luz da lua. — Lyra está sob a minha proteção. Eles acham que ela é fraca porque a loba dela não respondeu aos rituais medíocres deles. Eles não entendem que uma loba ancestral não acorda com uivos comuns... Ela acorda com o sangue de quem a feriu.

Gideon observou a intensidade do seu Alfa e cruzou os braços, olhando para a jovem que caminhava apressada pela calçada distante.

— E quando o Senhor pretende se aproximar dela na forma humana, Kaelen? O tempo dela no mundo dos homens está criando laços que serão difíceis de quebrar mais tarde. Ela confia neles agora.

Kaelen observou Lyra parar na esquina, virar a cabeça em direção ao parque florestal onde Erik e os outros guardas mantinham o perímetro e apertar os passos, claramente ciente de que estava sendo observada. Ela estava começando a sentir a conexão magnética do laço de companheiros que o destino havia forjado.

— Amanhã — Kaelen respondeu textualmente, um sorriso de canto imperceptível surgindo em seus lábios enquanto via a garota de cabelos brancos entrar na segurança de seu prédio residencial. — Amanhã eu vou entrarquela livraria. É hora de Lyra Frostwood começar a descobrir que o universo não se esqueceu dela... e que o Alfa Supremo veio reivindicar o que o bando menor foi estúpido demais para perder.

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