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Rejeitada pelo alfa
Rejeitada pelo alfa
Author: Lyra

Capítulo 9. - O SANTUÁRIO SOB A TEMPESTADE

Author: Lyra
last update publish date: 2026-10-22 07:33:04

O primeiro trovão sacudiu as vidraças do pequeno apartamento com a violência de uma explosão. Lá fora, o céu sobre a cidade humana havia desabado em uma cortina de água escura e impiedosa, mas, para Lyra Frostwood, o verdadeiro cataclismo estava acontecendo dentro de suas próprias veias. Deitada no chão de madeira, encolhida perto da lateral da cama, ela pressionava as palmas das mãos contra os ouvidos em uma tentativa desesperada de silenciar o mundo. Cada raio que cortava as nuvens ecoava em sua mente como um canhão; a audição ancestral, recém-desperta e sem qualquer controle, amplificava o som do vento batendo nos telhados até transformá-lo em um rugido insuportável.

Mas o pior não eram os barulhos externos. Sua loba interna estava em pânico. A criatura, que passara a vida inteira trancada e faminta, reagia à eletricidade da tempestade arranhando as paredes da consciência de Lyra, exigindo assumir o controle, uivar para o céu e correr em direção às montanhas. O calor que emanava de seu peito era sufocante. Sua pele ardia, e o vestido simples que usava parecia apertado demais.

Lyra soltou um soluço doloroso, as lágrimas cortando o suor frio de seu rosto angelical enquanto seus olhos verdes esmeralda brilhavam involuntariamente na penumbra do quarto.

“Por favor... pare... eu não consigo aguentar”, ela suplicou mentalmente à própria fera, sentindo que sua sanidade humana estava prestes a se estilhaçar sob o peso daquela força bruta.

Foi quando o aroma de ozônio da tempestade foi cortado. Um cheiro denso, magnético e inconfundível de pinho e floresta molhada invadiu o quarto, preenchendo o ar rarefeito.

O som do clique da tranca da janela foi abafado por mais um trovão, mas Lyra sentiu a mudança na pressão do ar imediatamente. Ela ergueu os olhos trêmulos e deparou-se com a silhueta imensa e imponente de Kaelen parada contra a cortina que balançava com a lufada de vento e chuva. Ele não usava a jaqueta de couro; vestia apenas uma camisa escura que delineava os músculos rígidos de seus ombros. Seus olhos dourados brilhavam como duas brasas na escuridão, focando instantaneamente na fragilidade da jovem caídas no chão. Kaelen sabia, através do laço invisível que os unia, que a tempestade levaria a loba ancestral de Lyra ao limite, e que apenas a presença de seu igual poderia acalmá-la.

Kaelen moveu-se com uma rapidez mística, fechando a janela com um baque surdo antes de se ajoelhar no chão, bem diante dela. Ele não hesitou. Suas mãos grandes e calejadas seguraram os pulsos trêmulos de Lyra, afastando-os delicadamente de suas orelhas.

— Olhe para mim, Lyra — a voz dele ecoou, um barítono tão profundo, rouco e carregado de autoridade que fez a loba dentro dela congelar instantaneamente, parando de lutar. — Respire comigo. Foque apenas no meu som. Esqueça a tempestade lá fora.

O toque das mãos dele enviou uma onda de eletricidade totalmente diferente pelo corpo de Lyra. Não era a queimação dolorosa do pânico, mas um calor reconfortante, avassalador e purificador. Ela fixou os olhos verdes esmeralda nos dourados dele, as respirações curtas e ofegantes colidindo no espaço milimétrico que os separava. A proximidade física com aquele homem intimidador, que ela tentara repelir com tanta cautela na clareira, quebrou a última de suas defesas. Ver o Alfa Supremo ali, invadindo seu santuário apenas para impedi-la de desabar, acendeu um sentimento totalmente novo no peito de Lyra — algo que ela nunca sentira por Philip; um misto de segurança absoluta, desejo e uma devoção selvagem.

O clima entre os dois esquentou em questão de segundos. A tensão dramática do sofrimento deu lugar a uma eletricidade magnética que puxava seus corpos um contra o outro. Kaelen soltou os pulsos dela, mas suas mãos subiram lentamente, os polegares acariciando as maçãs do rosto de Lyra, limpando o rastro das lágrimas. O olhar dele desceu para os lábios trêmulos dela, e o autocontrole gélido do Alfa Supremo finalmente rachou diante da intensidade do laço.

Lyra inclinou-se para a frente, rendendo-se ao magnetismo, e Kaelen quebrou a distância.

O primeiro beijo deles foi quente e avassalador. Não houve hesitação ou delicadeza tímida; foi o encontro de duas naturezas ancestrais que se buscavam no escuro. Os lábios de Kaelen pressionaram os dela com uma posse faminta, despertando um arrepio que viajou da espinha de Lyra até a ponta de seus dedos. Ela enroscou as mãos nos cabelos escuros dele, puxando-o para mais perto, enquanto o barítono profundo dele se transformava em um gemido baixo contra a sua boca. A loba interna de Lyra uivou de puro triunfo, acalmando-se completamente ao ser reivindicada pelo toque de seu par. Era um beijo que carregava a promessa de proteção, a cura de todas as humilhações do passado e a promessa de um futuro de poder.

O clímax do momento estava no auge, o calor entre os dois corpos ameaçando quebrar qualquer barreira de sanidade, mas, mesmo com a respiração pesada e os instintos de seu lobo exigindo mais, Kaelen afastou os lábios lentamente. Ele apoiou a testa contra a dela, os olhos dourados brilhando na penumbra, focados no rosto angelical de Lyra que agora exalava uma entrega total. O respeito que ele sentia por ela e pelo trauma que ela carregava era maior do que qualquer impulso primitivo. Ele não se aproveitaria da vulnerabilidade daquela noite.

— Calma... — ele sussurrou, a voz extremamente rouca, as mãos ainda moldando o rosto dela com uma ternura surpreendente para um predador tão temido. — Você precisa descansar, pequena loba. O seu corpo passou por coisas demais hoje.

Com uma facilidade impressionante, Kaelen passou os braços por baixo dos joelhos e das costas de Lyra, erguendo-a do chão como se ela não pesasse nada. Ele a deitou com cuidado na cama de solteiro, puxando o cobertor gasta até os ombros dela. Lyra tentou segurar a mão dele, com medo de que ele sumisse na tempestade outra vez, mas Kaelen apenas sentou-se na borda do colchão, mantendo os dedos entrelaçados aos dela.

— Eu não vou a lugar nenhum — ele prometeu, a voz gélida de Alfa transformando-se em um manto de paciência.

Durante o resto daquela noite interminável, enquanto os relâmpagos continuavam a rasgar o céu humano, Kaelen permaneceu ali. Ele cuidou dela com uma dedicação cirúrgica, trocando uma toalha úmida em sua testa quando o calor do despertar subia, sussurrando palavras antigas de conforto no dialeto dos Lobos Ancestrais sempre que ela se agitava com os resquícios de seus pesadelos. Sob a vigília dele, a tempestade lá fora perdeu a força, transformando-se em uma chuva mansa e rítmica que embalou o sono de Lyra. Em algum momento da madrugada, exausto pela contenção de sua própria fera, Kaelen deitou-se ao lado dela, puxando o corpo frágil para junto de seu peito maciço.

Quando os primeiros raios suaves da manhã filtraram pela cortina úmida da janela, Lyra abriu os olhos lentamente. A sobrecarga sensorial havia sumido, substituída por uma sensação de leveza e força que ela nunca experimentara em dezenove anos de vida.

Ela tentou se mover, mas percebeu que estava completamente envolvida. Seu corpo estava aninhado dentro do abraço firme e protetor de Kaelen. O braço pesado dele cruzava sua cintura, mantendo-a colada ao peito rígido que subia e descia em uma respiração calma e profunda. O aroma de pinho e ozônio a envolvia como um santuário. Lyra ergueu os olhos verdes esmeralda e deparou-se com o rosto dele a poucos centímetros do seu, as feições severas finalmente relaxadas pelo sono. A loba interna dela ronronou de satisfação em sua mente, e Lyra, pela primeira vez desde que fora expulsa da alcateia de Philip, sorriu com a certeza absoluta de que o escuro nunca mais conseguiria alcançá-la sozinha.

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