LOGINNa penumbra do grande salão de pedras da Mansão Vance, Philip sentia o próprio sangue pulsar com uma força violenta e desordenada. As palavras de sua irmã, Katherine, continuavam a ecoar em sua mente como um tambor de guerra. Guardiões das Cinzas. Linhagem real ancestral. Cada sílaba parecia arranhar o seu orgulho, transformando o arrependimento que ele tentara sufocar durante doze meses em uma obsessão avassaladora. Ele caminhou até a grande mesa de carvalho do escritório, afastando com um braço os mapas territoriais que Fiona tanto exigia que ele assinasse.
Sua loba interna arranhava as paredes de sua consciência, um rosnado confuso que misturava a ganância pelo poder com uma súbita e doentia necessidade de possessão. — Se ela estiver viva... — Philip sussurrou para as paredes vazias, os olhos fixos na lareira cujas chamas começavam a morrer. — Se aquela garota fraca carregava o sangue dos reis originais, o poder dela pertence a mim por direito de primazia. Fui eu quem a acolheu. Fui eu quem deu a ela um teto quando ela não passava de uma serva sem nome. Seus pensamentos começaram a tecer cálculos frios e matemáticos. Se ele enviasse os guerreiros da Alcateia das Sombras, Fiona descobriria o segredo e entregaria Lyra ao pai dela, esmagando o resto de autoridade que Philip ainda possuía sobre a Lua de Sangue. Não. A captura de Lyra precisava ser um movimento cirúrgico, oculto e puramente seu. Com o poder ancestral dos Guardiões das Cinzas ao seu lado, ele não precisaria mais se curvar diante das exigências de Fiona ou das ameaças militares de sua família. Ele poderia finalmente se erguer como o governante supremo das Grandes Terras, subjugando todos os bandos vizinhos. A porta do escritório abriu-se sem um aviso prévio, e Marcus, o rastreador-chefe de sua guarda pessoal de maior confiança, entrou com passos silenciosos, curvando a cabeça. — Meu Alfa — Marcus pronunciou-se, a voz baixa e áspera. — Os guerreiros da senhora Fiona estão patrulhando o pátio externo. O senhor pediu discrição. Philip adiantou-se, agarrando o colarinho de couro da armadura de Marcus com uma força que demonstrava todo o seu desespero e obsessão. Seu rosto estava a poucos centímetros do subordinado, os olhos brilhando com uma intensidade doentia. — Pegue os quatro melhores farejadores do meu sangue. Não use nenhum guerreiro das Sombras. Cruze a fronteira do mundo humano imediatamente. Lyra Frostwood não morreu nas Terras Exiladas, eu sinto isso no meu peito. Encontre o rastro daquela garota de cabelos brancos. Vasculhe cada cidade, cada vilarejo humano além do vale. — E se ela resistir, senhor? — Marcus questionou, mantendo a postura rígida apesar da pressão. — Traga-a de volta viva. Quebre as pernas dela se for necessário, mas traga-a para mim — Philip sibilou, os dentes trincados de pura possessividade. — Ela achou que poderia fugir da minha alcateia, mas ela vai descobrir que algumas conexões nunca podem ser desfeitas. Vá. E se Fiona descobrir uma única palavra sobre esta missão, sua cabeça será jogada aos renegados antes do amanhecer. Enquanto as garras de Philip se estendiam em direção ao mundo humano, a centenas de quilômetros dali, a livraria Páginas de Outono parecia ter se transformado em uma câmara de tortura sensorial para Lyra Frostwood. O despertar de sua loba ancestral não trouxera apenas uma voz mística em sua mente; trouxera uma enxurrada de estímulos que seu cérebro humano lutava desesperadamente para processar. Sentada atrás do balcão de madeira, Lyra pressionava as palmas das mãos contra as têmporas, tentando bloquear o ruído ensurdecedor do mundo ao seu redor. A audição apurada fazia com que o virar de páginas de um cliente no corredor de trás soasse como palmas violentas. Ela conseguia escutar o tique-taque do relógio de pulso de Clara a cinco metros de distância, misturado ao zumbido elétrico e irritante das lâmpadas fluorescentes do teto. Mas o pior era o olfato. O cheiro de tinta fresca dos jornais empilhados na entrada misturava-se ao odor forte de suor, fumaça de cigarro e perfumes artificiais baratos dos pedestres que passavam pela calçada externa. Sua loba interna andava de um lado para o outro na arena de sua consciência, soltando pequenos rosnados de desconforto. “Calma... por favor, fique calma”, Lyra suplicou mentalmente à criatura, fechando os olhos verdes esmeralda com força. — Bom dia, querida! Trouxe o seu chá de camomila — a voz da senhora Evelyn, uma cliente idosa e assídua da livraria, soou perto demais. Lyra deu um leve sobressalto, os olhos abrindo-se abruptamente. Ela focou o olhar na simpática senhora de cabelos brancos curtos, que segurava uma xícara fumegante. No entanto, os novos sentidos de Lyra não viram apenas uma idosa; ela conseguiu ouvir a respiração ligeiramente asmática da mulher, captou o odor sutil de remédios antigos que ela usava para as articulações e, de forma assustadora, sentiu a oscilação de humor dela — um misto de solidão profunda e um afeto genuíno por Lyra. — Oh, senhora Evelyn... obrigada — Lyra disse, forçando a voz a manter o tom mansa que os humanos tanto gostavam. Ela aceitou a caneca, sentindo o calor acalmar um pouco o tremor de suas mãos. — A senhora sempre cuida muito bem de mim. A idosa sorriu, os olhos cheios de rugas de expressão brilhando com carinho. Ela esticou a mão e acariciou a trança folgada de Lyra. — Você é uma menina tão boa, Lyra. Tão jovem e sempre com esse olhar que parece carregar o peso do mundo inteiro nas costas. Sabe, o meu neto vai se formar na faculdade de direito no próximo mês... Eu estava pensando que vocês dois dariam um belo par. Ele é um rapaz de ouro, e você merece alguém que te proteja, que te dê uma vida estável e feliz. Um nó de pura angústia formou-se na garganta de Lyra. As palavras da senhora Evelyn eram cheias de amor humano, do tipo que ela nunca recebera na Lua de Sangue, onde era considerada apenas um estorvo. Mas a menção a "proteção" e "casamento" fez sua mente disparar de volta para o altar de pedra, para a rejeição cruel de Philip e para a imagem avassaladora de Kaelen, o Alfa Supremo de olhos dourados cuja energia mística continuava a puxar seu sangue à distância. O mundo humano oferecia a ela uma ilusão de paz, mas seu corpo e sua alma pertenciam a uma realidade muito mais perigosa. — A senhora é muito gentil, Evelyn, de verdade — Lyra respondeu, a voz embargada por uma emoção genuína e dolorosa. Ela apertou os dedos ao redor da cerâmica da caneca. — Mas eu... eu não acho que sirvo para esse tipo de vida tradicional. Meu passado ainda ocupa espaço demais na minha mente. A idosa suspirou, dando um tapinha suave na mão de Lyra antes de se afastar em direção à seção de biografias. Logo em seguida, o som da porta abrindo anunciou a chegada de mais clientes, e o turbilhão sensorial recomeçou. O padeiro da esquina entrou para deixar um folheto, exalando um cheiro forte de fermento e farinha; duas adolescentes conversavam na calçada externa, e Lyra conseguia ouvir cada sussurro sobre intrigas escolares como se estivessem gritando em seu ouvido. A exaustão emocional estava atingindo o limite. Ela sentia que sua máscara humana estava prestes a rachar a qualquer momento. Ao final da tarde, Thomas entrou correndo na livraria, segurando dois casacos impermeáveis. Seus olhos castanhos buscaram Lyra imediatamente, cheios de uma intensidade que ela tentava ignorar para não magoá-lo. — O tempo vai virar, Lyra. A rádio humana disse que uma tempestade pesada está descendo das montanhas esta noite — Thomas disse, aproximando-se do balcão e debruçando-se levemente. Seu cheiro de colônia barata e café fresco envolveu os sentidos dela. — Eu vim garantir que você não vai voltar andando sozinha para aquele apartamento escuro. Eu te levo de carro. E não aceite um não como resposta. Você está tremendo desde ontem, e eu não vou deixar minha melhor amiga adoecer. Lyra olhou para o rosto preocupado de Thomas, sentindo o drama de sua própria existência. A lealdade dele era real, o afeto era humano e seguro. Mas ao olhar para a janela, em direção à linha escura das árvores onde a tempestade começava a se formar, sua loba interna soltou um uivo de antecipação. Amanhã cedo ela precisava estar na clareira. Kaelen estaria esperando. E os caçadores de Philip já estavam a caminho.Kaelen virou-se e moveu-se pelas sombras da cidade humana com uma velocidade mística. Ele cruzou as ruas asfaltadas e os bairros residenciais sem ser notado por nenhum olho civil, avançando em direção à periferia, onde a montanha encontrava o vale. Sua moradia temporária — uma mansão rústica e isolada, construída com pedras escuras e vigas de madeira maciça, oculta pela densidade das árvores — surgiu diante dele como um santuário de silêncio. Ele entrou na casa sem acender as luzes. Seus olhos dourados, brilhando com uma intensidade residual na escuridão, guiaram seus passos firmes diretamente para o andar superior. O calor que emanava de seu próprio corpo era insuportável. A descarga de testosterona e a proximidade física com o quadril de Lyra haviam deixado suas veias pulsando como se estivessem cheias de fogo líquido. Kaelen despiu-se da jaqueta de couro, jogando-a sobre uma cadeira, e desfez os botões de sua camisa escura, expondo o peito largo marcado por cicatrizes antigas
A respiração de Lyra Frostwood ficou presa na garganta enquanto o peso do braço de Kaelen a mantinha colada contra o tórax maciço dele. Sentada sobre as coxas do Alfa Supremo, ela conseguia sentir cada músculo rígido daquele homem vibrar com uma energia que ela mal conseguia mensurar. O cascalho frio da clareira parecia ter desaparecido, substituído por um calor sufocante que emanava da proximidade de seus corpos. Quando ela ergueu os olhos verdes esmeralda, deparou-se com as órbitas douradas de Kaelen queimando em uma tonalidade quase escura, focadas inteiramente na vulnerabilidade de seus lábios entreabertos. Não houve tempo para que o medo do passado ou a cautela de sua mente humana erguesse uma nova barreira. O magnetismo entre os dois rompeu qualquer freio racional. Kaelen inclinou a cabeça e capturou a boca de Lyra em um beijo intensamente faminto, devastador e selvagem. Ao contrário do toque cuidadoso da noite da tempestade, este beijo carregava a urgência bruta da clareira
O sol de sábado já começava a se esconder atrás das cristas afiadas das montanhas, tingindo o céu acima da fenda de pedra com tons de um roxo profundo e melancólico. Na clareira rochosa, o som da respiração de Lyra Frostwood era o único ruído que quebrava o silêncio pesado da floresta. Suas pernas tremiam como varas ao vento, e a blusa de algodão, antes limpa, agora estava rasgada no ombro esquerdo e impregnada de terra e suor. Cada centímetro de seu corpo clamava por descanso. Suas costelas doíam pelos bloqueios defensivos, e as palmas de suas mãos ardiam onde o cascalho havia arrancado a pele. Kaelen mantinha-se a poucos metros, impecável. Ele sequer parecia ter suado. Sua postura continuava ereta, as mãos afundadas nos bolsos da calça escura e os olhos dourados brilhando com aquela mesma intensidade gélida e analítica. — Última rodada, pequena loba — a voz dele ecoou pelas paredes de rocha, o barítono arranhado carregando um tom de deboche que fez o sangue de Lyra ferver novame
O calor do abraço de Kaelen foi a última coisa que Lyra sentiu antes de a realidade do fim de semana se impor com a força de uma avalanche. Quando os primeiros raios de sol de sábado cortaram o nevoeiro que subia do asfalto úmido da cidade humana, o momento de intimidade e doçura na cama de solteiro transformou-se em uma memória distante, guardada sob chaves no peito de Lyra. O Alfa Supremo não a deixara esquecer que o tempo era um recurso escasso e que a calmaria em que ela vivera durante doze meses havia chegado ao fim. Os caçadores de Philip Vance estavam se movendo, e uma loba sem garras seria apenas um alvo fácil. Caminhando na esteira de Kaelen em direção ao coração do parque florestal — muito além de onde os humanos ousavam fazer suas trilhas de caminhada —, Lyra sentia a musculatura das pernas queimar. Ela usava calças escuras justas e uma blusa simples de algodão sob a capa preta velha, que balançava com o vento gélido da montanha. À sua frente, Kaelen marchava sem demonstr
O tecido áspero do vestido branco surrado arranhava a pele de Lyra Frostwood a cada passo que dava em direção ao centro do vilarejo. Aquela peça de roupa, gasta pelo sabão barato e pelos anos de trabalho pesado na cozinha da mansão Vance, deveria ser o seu traje de noiva. Nos ombros, ela carregava apenas uma capa preta velha, a única herança que lhe restara de pais que ela sequer se lembrava do rosto. Ser órfã na alcateia Lua de Sangue era o equivalente a ser uma sombra. Sem uma linhagem para protegê-la ou uma herança para lhe dar valor, Lyra cresceu aprendendo a andar de cabeça baixa. Mas o pior não era a falta de pais; era a sua loba interna, que parecia muda, fraca, incapaz de manifestar a força física e a agressividade que o bando tanto idolatrava. Fiona era a herdeira direta da poderosa Alcateia das Sombras, uma guerreira de elite cuja linhagem exalava ouro e poder militar. Ela vestia seda escura e sorria com um triunfo cruel, olhando para Lyra de cima a baixo com absoluto d
O tamanho da criatura diante de Lyra Frostwood desafiava qualquer lógica que ela conhecesse sobre o mundo dos metamorfos. Ela havia crescido na Mansão Vance, cercada por guerreiros imponentes, Betas de elite e pelo próprio Philip, cuja presença como Alfa costumava fazer os lobos de menor escalão se curvarem de joelhos apenas pelo peso de sua aura. Mas aquela criatura surgida da névoa espessa das Terras Exiladas não parecia pertencer à mesma espécie. Ele não era apenas um lobo; era uma lenda viva, um monumento de força bruta e realeza selvagem ancestral. Sua pelagem, cinzenta e densa como a fumaça de um incêndio florestal, misturava-se perfeitamente com a escuridão da noite. Suas patas eram massivas, deixando marcas profundas na terra úmida, e seus ombros eram tão altos que ele poderia facilmente morder o pescoço de um urso sem grande esforço. No entanto, antes que o pavor paralisante desse lugar à reverência, o arrepio de morte cortou o silêncio da clareira. Um rosnado agudo, est







