FAZER LOGINLarissa
A chuva chegou na manhã do enterro. Não a chuva de temporal, aquela que desconta no mundo tudo de uma vez. A chuva de garoa fina e constante, do tipo que não encharca mas também não para, que envolve tudo numa umidade suave e deixa as superfícies com um brilho melancólico. Como se o céu soubesse exatamente a medida certa de luto que aquele dia pedia — não o exagero, não a performance, mas a presença discreta e constante de algo que chora junto sem fazer barulho. Acordamos sem ter dormido de verdade. Tomamos um café da manhã que ninguém terminou. Minha mãe ficava olhando pra xícara sem beber, com aquele olhar perdido em distâncias que não existiam na cozinha. Minha avó materna — que tinha chegado de madrugada com o meu avô — insistia em colocar pão na frente de todo mundo como se comida pudesse resolver alguma coisa. Não podia. Mas o gesto de colocar era uma forma de fazer alguma coisa útil, e todo mundo precisava disso. Descansamos pouco — o corpo exige, mesmo quando a mente não permite, mesmo quando deitar na cama com o teto acima parece absurdo quando se está no meio de um dia como aquele. No início da tarde, saímos. Minha mãe foi com a tia Lúcia, meus primos e o marido da tia. Eu fui no carro com Diogo e os pais dele — o Sr. Olavo dirigindo, a Sra. Lídia no banco da frente, eu e Diogo no banco de trás. O Sr. Olavo não falou durante o trajeto. A Sra. Lídia ficou com a mão sobre a mão do marido. Diogo ficou com a mão sobre a minha. O cemitério de Serra ficava numa encosta suave, cercado de árvores que ficavam verdes o ano todo. Tinha aquela serenidade específica que os cemitérios de cidade pequena têm — sem o isolamento frio dos cemitérios grandes, sem aquela sensação de que a vida ficou do lado de fora do portão. Em Serra, os vivos e os mortos pareciam ocupar o mesmo tecido de memória. Muita gente que estava enterrada ali tinha visto as mesmas ruas que eu andava, ou seja, pouca coisa mudava ali. Na hora de fechar o caixão, pedi um momento. A tia Lúcia entendeu antes que eu precisasse explicar. Falou com as pessoas em voz baixa, pedindo que dessem espaço. Minha mãe hesitou — a dor dela queria ficar, queria mais tempo, queria que o tempo parasse completamente — mas a tia Lúcia pôs uma mão no ombro dela com uma firmeza gentil, e elas foram. Fiquei sozinha com o meu pai pela última vez. Olhei para o rosto dele por um tempo longo. Era o mesmo rosto que eu conhecia — as mesmas linhas, o mesmo cabelo branco. Mas havia alguma coisa ausente que não era só o movimento, não era só a respiração. Era alguma coisa que eu não sabia nomear e que só conseguia perceber por contraste, pela falta. — Vai com Deus, paizinho. — A voz saiu mais firme do que esperava. — Descansa. — Uma pausa. — Eu não tenho o que te perdoar — a mim e à mãe você não fez nada. Quando aconteceu o que aconteceu, eu não existia, e a mãe você ainda não conhecia. Mas tem alguém que deveria receber esse pedido de desculpas pessoalmente, e agora não vai ser possível. Uma lágrima desceu pelo meu rosto. Deixei. — Eu adoraria ter um irmão, pai. Mesmo que fosse meio irmão, mesmo que fosse um estranho no começo. Não sei se algum dia vou conseguir encontrá-lo — faz trinta anos desde aquela noite, e o mundo é grande, e as informações que tenho são poucas. Mas posso te prometer que não vou descartar a possibilidade. Não vou jogar fora a caixa. Não vou agir como se ele não existisse. Respirei fundo. — Não vou te julgar pelo que você fez. Você era jovem e assustado e estava prestes a perder a mulher que amava. Não vou condenar — seria fácil condenar, mas fácil não é a mesma coisa que justo. Só espero que Deus te receba com misericórdia, que te perdoe os erros que você não conseguiu consertar em vida. E que de onde você estiver, consiga olhar pelos dois — por mim e pelo menino que você nunca conheceu. Fiz uma pausa. — A gente vai ficar bem — eu e a mãe. Pode confiar em nós. Beijei a testa dele. O frio da pele me pegou de surpresa mesmo sabendo que era o que ia encontrar. Chamei os outros. Minha mãe voltou e agarrou minha mão com uma força que doeu um pouco. Fiquei do lado dela enquanto o caixão foi descendo, enquanto as primeiras paladas de terra foram jogadas, enquanto as orações foram ditas com as vozes daquelas pessoas que conheciam meu pai há décadas e que sentiriam falta da maneira quieta e duradoura que é a saudade das cidades pequenas. De volta em casa, depois que todos foram embora e a sala ficou quieta com a ausência pesada de quem não vai mais voltar, fui pro meu quarto. Tranquei a porta. Peguei a caixa do fundo do armário. Abri a certidão de nascimento. O nome do pai: ausente. O sobrenome que deveria estar depois do nome do menino: ausente. A linha estava lá — um espaço em branco onde o meu sobrenome poderia ter estado, onde o nome do meu pai poderia ter sido inscrito na vida daquele menino de uma forma oficial, permanente, irreversível. O espaço em branco dizia mais do que qualquer palavra que estivesse escrita. Fechei a certidão. Guardei de volta. E aprendi, naquela noite, que algumas perdas são duplas — você perde a pessoa, e ao mesmo tempo descobre tudo que a pessoa perdeu antes de você. E não sabe ao certo por qual das duas perdas está chorando mais.LarissaParte 3 — Café da Manhã e PromessasAcordei com o sol entrando forte pela janela, o som das ondas quebrando lá fora criando a trilha sonora mais gostosa que eu já tinha ouvido em uma manhã.— Bom dia, esposa. — Sussurrou Gustavo, a voz ainda rouca de sono, os lábios beijando meu ombro nu.— Bom dia. — Respondi, virando-me nos braços dele, o sorriso brotando automático ao ver o rosto dele tão perto do meu, o cabelo bagunçado de um jeito que eu achava irresistível. —— Dormiu bem? — Perguntou, afastando uma mecha de cabelo do meu rosto com carinho.— Melhor que nunca. — Confirmei, esticando-me preguiçosa sob os lençóis. — Acho que nunca me senti tão descansada e tão cansada ao mesmo tempo.Ele riu, um som baixo e satisfeito, puxando-me para mais perto até nossos corpos se encaixarem completamente.— Eu te amo, sabia? — Disse, sério de repente, os olhos carregados de uma sinceridade que eu sentia até os ossos. — Cada dia mais.— Eu também te amo. — Respondi, tocando o rosto dele.
LarissaParte 2 - Cuidados e PromessasA água quente batendo na minha pele absurdamente sensível foi como um choque elétrico de vida. Aos poucos, a dormência pesada ia descendo pelo ralo.Eu tava totalmente encostada no peito do Gustavo, sentindo o compasso do coração dele bater forte e constante nas minhas costas nuas.O contraste era uma loucura. O mesmo cara que há pouco me levava ao limite da dor, do choro e do gozo, agora era o meu porto seguro absoluto.Ele pegou o sabonete líquido que tinha trazido do Brasil. O cheiro amadeirado, forte e limpo que eu amava preencheu o vapor do banheiro na hora.As mãos imensas dele, que antes me apertavam com força bruta até deixar marca, começaram a ensaboar os meus ombros com movimentos lentos e circulares.Cada toque carregava um cuidado visceral. Uma devoção calada que contrastava violentamente com a agressividade animalesca de horas atrás.Ele esfregava a espuma grossa nas marcas vermelhas dos meus braços com a ponta dos dedos, limpando
GustavoParte 1 — Trazendo Você de VoltaO silêncio do quarto gigantesco só era quebrado pelo barulho do mar Egeu chocando contra as pedras lá embaixo.Faz mais de uma hora que a respiração dela estabilizou. Pesada, rítmica e profunda, o peito subindo devagar contra o meu braço dormente.Eu não dormi nem por um segundo. Era impossível apagar o cérebro depois da descarga de adrenalina bruta que a gente dividiu naquela cama.Fiquei só vigiando o sono pesado dela, sentindo o cheiro de suor, de sexo e daquela porra da cera de baunilha que ainda marcava a pele dela.Ver a Larissa assim, completamente desmontada e entregue, era um privilégio que ela não dava pra ninguém nesse mundo.A mulher delicada e mãe zelosa, tava ali. Nua, marcada e pequena no meu abraço.O corpo dela deu um sobressalto pequeno nos lençóis, um espasmo muscular involuntário de quem tava finalmente voltando pra superfície.Os cílios longos tremeram antes dos olhos escuros abrirem devagar, piscando contra a meia-luz d
LarissaParte 5 — O Pouso SeguroO mundo ao meu redor derreteu e virou uma massa cinzenta de som abafado, peso e calor espesso. Eu já não sentia o meu próprio corpo.A dor ardida nas coxas, o calor esquisito da cera no peito, a pressão fria e implacável da faixa que prendia meus pulsos. Tudo isso se fundiu num formigamento anestesiado e absurdamente distante.Era como boiar no meio de um oceano escuro e morno, sem saber onde ficava a superfície. E a melhor parte, a parte mais intensa: eu não queria descobrir onde era a saída.Não tinha mais caos mental. Não existia ali a mãe, não tinha família, não tinha a obrigação a obrigação de ser a mulher perfeita.Só tinha a escuridão confortável, o eco das batidas aceleradas do meu próprio coração, e a sensação de estar completamente vazia. Oca.Eu flutuava no que o Gustavo chamava de subspace. O colapso sensorial absoluto. O lugar pra onde eu fugia quando entregava o controle da minha vida pra ele.O impacto daquele orgasmo duplo ainda rev
GustavoParte 4 - Empurrando Para O LimiteEu tava empurrando a Larissa pro limite. Pro lugar onde a mãe cuidadosa, a mulher atenciosa morria e sobrava só a fêmea entregue, aberta e desesperada por mim.- Gustavo, por favor, eu preciso de você, eu não aguento - ela soluçava, não de tristeza, mas daquele colapso sensorial absoluto.Joguei o flogger no chão de qualquer jeito. O som surdo da madeira batendo na pedra foi a única resposta que eu dei antes de subir nela.- Eu avisei que o tempo era meu - rosnei, me posicionando entre as pernas dela de novo, segurando os quadris dela com uma força que ia deixar marca.Não teve aviso dessa vez. Eu não tava mais testando as águas. Eu entrei de uma vez só, rasgando o caminho pra dentro dela com brutalidade pura.O grito que saiu da garganta da Larissa me arrepiou dos pés à cabeça. Foi agudo, quebrado, o som de alguém que tava sendo partida ao meio e adorando cada segundo.O choque da penetração depois da tortura sensorial foi avassalador. As
Gustavo(Música - "Outta My Head (feat. Rick Jansen & Ordell)" - OMIDO)Parte 3 — A Queda LivreA expressão no rosto da Larissa valia cada segundo daquela espera. O choque, o medo misturado com o tesão absoluto, a respiração presa na garganta seca.Ela tava ali, amarrada na cama da nossa lua de mel, tremendo enquanto me via abrir o zíper daquela maleta preta.Eu não trouxe muita coisa. A gente ia passar a maior parte do tempo turistando pelas pedras de Santorini, e eu conhecia a mulher que tinha.Mas eu sabia que a nossa primeira noite oficial precisava de uma âncora. Algo que puxasse ela da realidade pesada que ela carregava o dia todo nas costas.Puxei a vela de baixa temperatura, a cera negra contrastando com a luz amarela do abajur. O cheiro de baunilha e couro tomou o quarto no segundo que acendi o pavio.O barulho do clique do isqueiro de metal ecoou alto pra caralho no quarto silencioso.— Gustavo... — Ela chamou, a voz falhando, os olhos arregalados acompanhando a chama peq







