LOGINLena não dormiu.
Como poderia dormir sabendo a data exata em que o mundo acabaria? 9 de agosto de 2026. Três anos, dois meses e vinte e oito dias a partir daquele dia. Contou o tempo cem vezes, olhando para o teto. Três anos para se preparar. Três anos para se tornar alguém que não morreria naquela ponte. A manchete ainda brilhava no ecrã do telemóvel, na escuridão. FEBRE MISTERIOSA DETECTADA NO QUEENS — MÉDICOS PERPLEXOS — TRÊS CASOS EM ISOLAMENTO. Na vida anterior, ela simplesmente passou pela notícia. Até brincou com a colega de apartamento, Maya, sobre o assunto. Era apenas uma gripe. O governo dizia para manterem a calma. Maya morreu durante a segunda onda, sufocando com sangue na cozinha enquanto Lena a segurava, impotente. Lena levantou-se. As pernas tremiam, mas a sua mente estava afiada como uma lâmina. Era a mente de uma sobrevivente, conquistada após três anos de inferno. A primeira regra que aprendera durante o apocalipse era simples: ninguém te salvará, a não ser tu mesma. Ela pegou num caderno da faculdade, abriu numa página em branco e escreveu em letras maiúsculas: PLANO DE RENASCIMENTO — ANTES DO APOCALIPSE. Desenhou três colunas. DINHEIRO. SUPRIMENTOS. ETHAN. Dinheiro. Na vida anterior, era pobre. Trabalhava como designer freelancer, ganhando três mil dólares por mês, dos quais dois mil iam para a renda. Não tinha poupanças. Durante o apocalipse, o dinheiro tornou-se papel inútil a arder nas ruas. Antes do apocalipse, porém, dinheiro significava poder. Podia comprar armas, comida, um bunker e terrenos. Ela conhecia acontecimentos do futuro. Sabia quais ações entrariam em colapso em 2024. Sabia quais empresas farmacêuticas fracassariam. Sabia que o Bitcoin dispararia em 2024 e depois cairia em 2025. Nunca prestara atenção à lotaria, mas sabia o suficiente para lucrar, se fosse cuidadosa. Abriu o portátil de ecrã rachado. Iniciou sessão no banco, com os dedos a tremer. Saldo: 842,16 dólares. Não era suficiente para sobreviver ao fim do mundo. Nem sequer dava para comprar uma boa arma. Precisava de começar aos poucos. Vender tudo o que não fosse necessário. Olhou ao redor do apartamento. Roupas, uma câmara antiga que valia duzentos dólares, uma guitarra que nunca aprendera a tocar e malas de marca compradas em promoção na tentativa de se sentir rica. Venderia tudo. Tornar-se-ia minimalista. Para sobreviver, precisava apenas do essencial. A segunda coluna. SUPRIMENTOS. Escreveu depressa, com uma letra desordenada, urgente e quase ilegível. Filtros de água, comida enlatada para cinco anos, arroz, antibióticos, armas, munições, painéis solares, máscaras de gás, kits de primeiros socorros, vitaminas, sementes, facas, mochilas, roupas térmicas, combustível, baterias, rádio e reservatórios de água. E precisava de um lugar. Não podia ficar em Manhattan. Manhattan transformar-se-ia numa armadilha mortal. Os militares explodiriam as pontes para impedir a propagação do vírus. Os túneis do metro ficariam inundados de infectados. As ruas seriam tomadas por incêndios e saqueadores. Precisava de terras no norte do estado de Nova Iorque. Longe da cidade. Num terreno elevado, com água de poço e floresta. Lembrou-se de um lugar que Ethan mencionara certa vez: um alojamento de caça da família, nas montanhas Catskills. Estava abandonado havia anos. Tinha paredes de pedra. Era seguro e escondido do resto do mundo. Ela encontraria aquele lugar. Se fosse possível, comprá-lo-ia. A terceira coluna. ETHAN. A caneta parou sobre o nome. A tinta espalhou-se pelo papel. Ethan Cross. CEO da Cross Industries. Trinta e dois anos. Bilionário. Estrela das capas de revistas. Dominante, implacável, intocável e frio com todos. Na linha temporal anterior, só o conhecera quando o mundo acabou. Em 2023, ele estivera numa gala de caridade onde ela trabalhara como empregada de mesa para ganhar dinheiro extra. Ele nem sequer olhara para ela. Passara por ela como se fosse invisível. Nesta linha temporal, ela conhecia detalhes íntimos da vida dele. O aniversário, a 7 de abril. A alergia a amendoins. A cicatriz no ombro esquerdo, causada por um acidente de carro quando tinha doze anos. A morte da mãe por cancro, quando ele tinha quinze anos. O ódio pelo pai, que traíra a mãe. Aprendera tudo isso durante os três anos que passaram juntos, deitados à noite numa cama improvisada dentro de um bunker, sussurrando histórias para continuarem a sentir-se humanos enquanto o mundo lá fora estava morto. Mas agora, para ele, ela não era ninguém. A rapariga de um pequeno apartamento com 842 dólares na conta. Como faria um bilionário apaixonar-se por ela antes de o mundo acabar, para que acreditasse que o apocalipse estava a chegar? Como? Precisava de se tornar alguém digna de estar ao lado dele. Não a Lena fraca que chorava por causa da renda. Uma Lena forte. Corajosa. Uma Lena que sobrevivera a três anos de apocalipse e matara infectados com as próprias mãos para o proteger. O telemóvel tocou. O som alto fê-la saltar, deixando a caneta cair no chão. Número desconhecido. Código de Nova Iorque. Ela atendeu, com a voz rouca. — Estou a falar com Lena Carter? — perguntou um homem, com uma voz profissional e firme. — Sim, sou eu. — Falo da equipa de recrutamento da Cross Industries. Candidatou-se a uma vaga de designer júnior há três semanas, através do nosso site. O gabinete do senhor Cross gostaria de convidá-la para uma entrevista amanhã, às nove da manhã, na Cross Tower, no quadragésimo segundo andar. Traga o seu portefólio. Lena ficou imóvel. O coração parou por um instante e depois começou a bater descontroladamente. Ela candidatara-se? Sim. Três semanas antes. Na vida anterior. Esquecera-se completamente. Candidatara-se a centenas de empregos, desesperada por conseguir trabalho. Cross Industries. O império de Ethan. Amanhã. Às nove da manhã. Veria Ethan no dia seguinte. Três anos antes do que acontecera na vida anterior. Vivo. Vestido com um fato caro. Não coberto de sangue e cinzas, morrendo numa ponte. As mãos tremiam tanto que quase deixou o telemóvel cair. — Está aí, senhorita Carter? Ainda está na linha? Deseja confirmar a entrevista? Temos muitos candidatos. — Sim — respondeu num sussurro. Depois, forçou-se a falar com firmeza, usando a voz que aprendera a desenvolver durante o apocalipse. — Sim, estarei lá às nove da manhã. Muito obrigada pela chamada. Desligou. O telemóvel caiu sobre a secretária com um ruído seco. Olhou para o próprio reflexo na janela escura. Cabelos desarrumados, olhos vermelhos e uma camisola velha manchada à frente. Não. Não podia aparecer assim. Não se quisesse que ele a notasse, que realmente a visse. Precisava de se transformar em alguém diferente em apenas doze horas. Uma transformação completa. Abriu o guarda-roupa e retirou o único blazer que possuía. Preto. Barato, mas limpo. Era a única peça de roupa decente que tinha. Tomaria banho e lavaria o cabelo. Pediria maquilhagem emprestada a Maya, a vizinha do apartamento ao lado. Passaria o blazer a ferro até ficar impecável. Pareceria uma mulher que conhecia o futuro e não tinha medo de enfrentar o fim do mundo. Amanhã, entraria na Cross Tower, olharia Ethan Cross nos olhos e faria com que a sua alma a reconhecesse, mesmo que a sua mente não se lembrasse dela. Porque já morrera nos braços dele uma vez. Já o vira morrer com ela naquela ponte. E recusava-se a permitir que aquilo voltasse a acontecer. Nunca mais. Em nenhuma vida. Pegou novamente na caneta e escreveu uma frase por baixo do nome ETHAN, pressionando tanto que quase rasgou o papel. Faz com que ele acredite em mim. Faz com que ele volte a amar-me. Salva-o desta vez, custe o que custar. Lá fora, ouviam-se sirenes ao longe, na direção do Queens. As primeiras vítimas da febre estavam a ser levadas rapidamente para os hospitais em ambulâncias. Ninguém sabia ainda o que aquilo significava. Mas Lena sabia. Lembrava-se de cada sirene que soara antes de tudo chegar ao fim. Três anos. Restavam apenas três anos. O relógio começara a contar, e ela não desperdiçaria mais um único segundo daquela vida. Fechou o caderno com firmeza. A sua decisão era definitiva. Transformaria as pequenas poupanças numa fortaleza. Faria Ethan Cross reparar nela durante a entrevista da manhã seguinte. E reescreveria completamente o destino dos dois. Nunca mais morreria sozinha, cercada por cinzas frias e medo interminável. Desta vez, lutariam. Viveriam. E voltariam a amar-se. Juntos, para sempre. Desta vez, ela garantiria que ele estivesse sempre ao seu lado, vivo e protegido. Continua...As luzes morreram.Não piscaram. Morreram.Num segundo a câmara estava branca e a zumbir, cheia de luz, no segundo seguinte foi engolida por completo. Engolida.Ninguém se mexeu. Ninguém respirou.Tudo o que Lena conseguia ouvir era a própria respiração — demasiado rápida, demasiado alta, a serrar-lhe a garganta. Como se estivesse a correr sem sair do sítio.Um.Dois.Três.As luzes de emergência dispararam de volta, pintando tudo de vermelho-sangue. Vermelho de alarme.Daniel tinha desaparecido.Lena ficou só a olhar para o vão vazio da porta onde ele tinha estado. A mão dela ainda estava meio levantada no ar, como se pudesse puxá-lo de volta. Agarrá-lo."Ele estava ali," sussurrou ela. A voz partiu-se ao meio. "Ele estava ali mesmo à minha frente."Ethan colocou-se à frente dela instantaneamente, os ombros a bloquear a passagem. Protetor. Tenso. Todo o corpo dele era um escudo à frente dela."Eu sei," disse ele baixo, duro. "Eu também o vi."Os olhos de Sarah estavam presos na sétim
Escuridão.Não aquele tipo de escuridão que só esconde as coisas. O tipo que as engole inteiras. Que as apaga.Lena não conseguia ver nada. Não via o Ethan. Não via a Sarah. Não via o Adrian.Mas a mão do Ethan ainda estava na dela. Suada. A tremer. Real.Agarrou com mais força. Como se fosse a única coisa que a prendia ao mundo.Algo se moveu debaixo dos pés deles. Não eram passos. Era mais pesado. Maior. O chão inteiro estremeceu, vibrou."Não te mexas," Ethan sussurrou-lhe ao ouvido. Tão perto que ela conseguia sentir o medo dele na respiração.Lena tentou respirar. Não conseguiu. O peito estava demasiado apertado. O ar não entrava.E depois ouviu."Lena..."O próprio nome dela. Com a própria voz dela.Mas ela não tinha dito nada. A boca estava seca. Colada."Ouviste isso?" sussurrou ela, em pânico.Ninguém respondeu.Uma luz de emergência fraca zumbiu e piscou por cima deles. Durante meio segundo, Lena viu a escadaria — de betão, húmida, sem fim, a descer para o abismo.Depois, de
As batidas pararam.Ninguém se mexeu. Ninguém respirou. Lena estava com os olhos cravados no chão de betão, a ouvir o próprio coração a bater demasiado alto.E depois, voltou._Toc._Silêncio._Toc._Outro silêncio._Toc._Três batidas. Lentas. Pacientes. Como se algo lá em baixo soubesse que estavam a ouvir.Ethan deu um passo e colocou-se à frente de Lena, instintivamente.— Seja o que for que está aí em baixo, não vamos abrir aquela porta.Adrian nem olhou para ele. Os olhos dele estavam presos no monitor.— Você não entende.— Então explica — Ethan rosnou.Adrian apontou para o ecrã com a mão trémula.— O apocalipse original não começou na superfície.Lena sentiu o sangue gelar. Olhou para o mapa. O marcador prateado por baixo do Brooklyn estava a pulsar. Vivo.— O que é que há debaixo da ponte?— Algo que a Aurora encontrou quando estavam a fazer as sondagens para a construção — respondeu Adrian, a voz baixa. — Uma estrutura. Mais antiga que a própria cidade.Sarah abanou a cabeç
Sarah.Ethan pronunciou o nome como se estivesse enterrado algures dentro dele há anos.Lena olhou fixamente para a mulher que estava debaixo da luz intermitente do túnel.Sarah.A mulher de quem Ethan só lhe tinha falado uma vez.A namorada que tivera na universidade.A mulher que, supostamente, morrera num acidente de viação em 2014.Mas ela estava ali, diante deles.Viva.Ethan deu lentamente um passo em frente.— Tu morreste.A expressão de Sarah mal se alterou.— Na tua linha temporal.Ethan parou.— O que significa isso?Sarah lançou um olhar a Adrian.— Significa que ainda não te lembraste de tudo.A marca prateada no pulso de Ethan começou subitamente a brilhar.Lena sentiu o calor espalhar-se pela palma da mão.Então, tudo desapareceu.Durante alguns segundos, Ethan viu outra memória.Chuva.Uma estrada escura.Sarah ao lado de um veículo danificado.Agentes do Projecto Aurora a chegar.Uma carrinha preta.Um laboratório por baixo de um edifício desconhecido.Depois, uma voz
As luzes vermelhas do lado de fora do armazém voltaram a piscar.Lena permaneceu completamente imóvel.Adrian Vale continuava perto da entrada, a observá-la a ela e a Ethan, como se já soubesse o que os dois estavam prestes a fazer.— Quanto tempo? — perguntou Ethan.Adrian olhou para o dispositivo que tinha na mão.— Onze meses.O estômago de Lena afundou-se.— Até ao apocalipse?— Até ao primeiro colapso.— Não foi isso que aconteceu antes.— Eu sei.Ethan aproximou-se.— Então, explique.Os olhos de Adrian deslocaram-se para a marca prateada no pulso de Ethan.— O vosso regresso alterou a sequência.Lena abanou a cabeça.— Nós não provocámos isto.— Não — respondeu Adrian. — Mas alteraram algo que nunca devia ter sido alterado.Virou o dispositivo na direcção deles.Uma linha temporal digital apareceu no ecrã.ACONTECIMENTO ORIGINAL: 9 DE AGOSTO DE 2026Depois, surgiu outra linha por baixo.PROJECÇÃO ACTUAL: 17 DE ABRIL DE 2024Lena ficou a olhar para o ecrã.— Isso é impossível.—
Olá, Lena.A voz do homem era calma.Calma demais.Lena olhou através do para-brisas.Lembrava-se daquela voz.Não da sua primeira vida.Do laboratório.Era a voz que falava dela como se fosse uma experiência.A mão de Ethan apertou o volante.— Quem é você?O homem sorriu.— Você já sabe.— Não — respondeu Lena. — Não sei.— Ainda não.Ele aproximou-se do veículo.Era mais velho do que Ethan, talvez estivesse no final dos quarenta anos. Vestia um fato escuro por baixo de um sobretudo comprido.Não havia raiva no seu rosto.Apenas certeza.E isso assustava Lena ainda mais.Ethan tentou ligar o carro novamente.Nada.O homem soltou uma gargalhada baixa.— Não perca tempo. O veículo foi desactivado.Ethan olhou para Lena.— Fica aqui dentro.Abriu a porta.O homem levantou imediatamente a mão.— Senhor Cross, eu não faria isso.Ethan parou.Vários homens à volta dos SUV apontaram as armas.O estômago de Lena contraiu-se.Ethan recuou lentamente.O homem sorriu.— Boa decisão.— Nome.—