Home / Romance / Rendida ao Magnata italiano / Capítulo 4 - A falsa liberdade

Share

Capítulo 4 - A falsa liberdade

last update publish date: 2025-04-08 04:20:47

A luz filtrava-se pelas frestas das cortinas pesadas quando o abrir de porta me despertou. Ainda tonta pelo sono entrecortado e pelos sonhos confusos que me assombraram durante a madrugada, sentei-me lentamente na cama. O calor da lareira já não aquecia o quarto como antes, e meus pés tocaram o chão frio com um leve arrepio.

&nbspDiante da cama estava a mulher de meia-idade de antes, carregando uma bandeja de prata com café da manhã. Usava um vestido preto simples, avental branco e um coque firme no alto da cabeça. Mantinha as feições sérias, mas olhos gentis. A governanta.

— Bom dia, senhorita Ribeiro — disse ela, com um leve aceno de cabeça. — O senhor Morelli pediu que lhe fosse servido o desjejum.

Eu pisquei, surpresa. Sentia-me ainda enredada nas memórias da noite anterior — a tensão do jantar, o piano, o calor da presença dele. Meu coração ainda carregava ecos dos sussurros perigosos de Dante. Mas, no presente, era apenas a mulher diante de mim, oferecendo croissants quentes, geleias caseiras e uma xícara fumegante de café.

— Obrigada... — murmurei, pegando a xícara.

Ela assentiu e arrumou os talheres com gestos metódicos.

— E também tenho que informá-la de que, a partir de hoje, a senhorita tem permissão para circular pela casa.

Meus olhos se arregalaram.

— Como assim? — perguntei, ainda sem entender.

— Todos os cômodos que estiverem com as portas destrancadas estão liberados para sua presença. O restante permanecerá inacessível por segurança. Mas dentro desses limites, está livre para se mover.

— E Dante... quero dizer, o senhor Morelli... ele está ciente disso? — questionei, ainda desconfiada.

— Essas foram ordens dele. — A mulher deu um pequeno sorriso, como se soubesse mais do que dizia. — Ele disse que seria... bom para a senhorita conhecer seu novo lar.

Novo lar.

As palavras pesaram como pedras no meu estômago. Não era meu lar. Nunca seria. E ainda assim, algo em mim — talvez a parte que já desistia de resistir tanto — queria sair daquele quarto. Ver algo além das quatro paredes que me sufocavam.

— Qual seu nome? — perguntei antes que ela saísse.

— Rosetta, senhorita.

Rosetta. Um nome delicado para alguém que parecia feita de ferro e sem  compaixão alguma.

— Obrigada, Rosetta.

Ela assentiu, saiu em silêncio, e a maçaneta fez um leve clique ao fechar.

Comi lentamente. Não havia veneno no café, não havia algemas escondidas nos pães. Era apenas comida. Boa comida, inclusive. E aquilo só tornava tudo mais estranho. Porque quanto mais Dante me oferecia conforto, mais nítido ficava o contraste da prisão invisível que me envolvia.

Depois de tomar banho e vestir um suéter branco macio com uma calça justa, respirei fundo e abri a porta do quarto. O corredor estava vazio, iluminado por vitrais coloridos que pintavam o chão com luzes difusas. Meu coração batia acelerado. Como se a qualquer momento alguém fosse surgir e me arrastar de volta.

Mas ninguém veio.

Caminhei devagar, passando por quadros que pareciam custar mais do que minha vida inteira. As molduras douradas, os tapetes espessos, o silêncio solene. Aquela casa era um palácio de sombras. Imponente, rica, mas cheia de uma tensão latente. Como se cada parede guardasse segredos que eu não estava pronta para conhecer.

O primeiro cômodo destrancado que encontrei era uma pequena sala com lareira e sofás de couro. Não me detive. Segui até o próximo.

Foi ao passar por uma porta de madeira entalhada, aberta apenas o suficiente, que ouvi a lembrança das teclas do piano ecoarem em minha mente. Era o mesmo lugar da noite anterior. O piano branco ainda estava lá, reluzente sob a claridade do dia. As plantas altas nas laterais da estufa davam um toque etéreo ao ambiente. Mas eu não entrei. Não podia. Não ainda.

Continuei andando até que, ao virar o corredor à direita, vi algo que me fez parar.

A biblioteca.

A porta estava escancarada como se me convidasse a entrar. E, pela primeira vez desde que fui sequestrada, senti um impulso genuíno de atravessar aquele limite.

O lugar era... imenso. Estantes altíssimas que iam até o teto. Uma escada móvel corria de um lado ao outro, como em filmes antigos. O cheiro de couro, papel antigo e verniz tomou conta dos meus sentidos. Um aroma familiar, reconfortante. Como voltar no tempo.

A luz do sol atravessava as janelas altas com delicadeza, criando faixas douradas que iluminavam trechos aleatórios dos livros. Era um paraíso literário. E eu, filha de uma mãe professora e estudante voraz por vocação, me vi sorrindo pela primeira vez em dias.

— Meu Deus... — sussurrei, deslizando os dedos pela lombada de um volume de capa marrom. — Tem mais livros aqui do que na biblioteca da minha universidade.

Não era exagero.

Havia edições raras. Obras em latim. Livros de filosofia, arte, psicologia, literatura clássica. Traduções de poetas russos. Tratados sobre guerras antigas. Romances franceses. Eu me sentia uma criança em uma loja de brinquedos.

Afastei a escada com cuidado e subi dois degraus, puxando um volume de Dostoiévski. Abri na primeira página. O livro exalava o perfume agridoce do tempo. Sentei-me em uma poltrona próxima à janela e comecei a ler. Sem pressa. Sem medo, por alguns minutos. Como se o mundo lá fora não existisse. Como se eu não fosse uma prisioneira.

Li por tempo indeterminado. A paz silenciosa da biblioteca me envolveu como um abraço antigo. Era como se os livros sussurrassem: "Você ainda é você, Alina. Mesmo aqui. Mesmo agora."

As palavras se emaranhavam com meus pensamentos. Eu não conseguia evitar que a imagem dele — Dante — surgisse em minha mente. O modo como me observava. A intensidade dos seus olhos. O calor que seu corpo irradiava mesmo quando não me tocava. Era errado. Tóxico. E, ainda assim, estava ali, alojado em mim.

Fechei o livro com firmeza. Não podia me perder naquilo. Não podia permitir que essa casa dourada e esse homem enigmático me enredassem. Precisava manter minha sanidade, minha identidade. E talvez, apenas talvez, esses livros fossem minha arma silenciosa.

Levantei-me, escolhi mais dois volumes e os levei comigo até a poltrona. Enrosquei as pernas e voltei à leitura, tentando ignorar a palpitação incômoda no meu peito. Como se, a qualquer momento, ele pudesse entrar por aquela porta.

Mas ele não entrou.

E eu passei o resto da manhã ali, entre palavras, pensamentos e a luta silenciosa para lembrar quem eu era... antes dele.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Rendida ao Magnata italiano   31. Presságio

    As luzes do cassino ardiam com um brilho quase insuportável, e o som incessante de fichas e moedas reverberava como uma batida frenética em meus ouvidos. Eu estava ali, sentada à mesa onde Dante me deixara, tentando fingir que aquele ambiente me era familiar. Tentando parecer confortável, natural, segura. Mas tudo dentro de mim gritava o contrário.O vestido colava no meu corpo, mais apertado do que me lembrava, como se quisesse me lembrar de que aquele mundo não me pertencia. Ainda assim, mantive o queixo erguido, os olhos fixos no baralho sobre a mesa, observando os jogadores, o dealer, tudo ao meu redor com atenção. Era o que Dante esperava de mim - presença, discrição, elegância.Segurei uma taça de champanhe sem intenção de beber. A bebida escorria lentamente pelas laterais do cristal, mas eu apenas girava a taça, distraída. Estava tão perdida em pensamentos que só percebi a aproximação de alguém quando um vulto projetou sombra sobre a mesa.Me virei devagar. Um homem alto, ombro

  • Rendida ao Magnata italiano   30. Ivan

    (Dante)O vapor subia preguiçoso da água quente, envolvendo nossos corpos em uma névoa íntima. Alina estava sentada à minha frente, as costas encostadas no meu peito, e eu deslizava o sabão lentamente por seus ombros com movimentos suaves, quase reverentes. Seu corpo relaxado sob minhas mãos me deixava em transe, e o cheiro doce de sua pele misturado ao aroma floral do sabonete deixava o ar mais denso, mais carregado de desejo e calma.Meus dedos traçavam linhas invisíveis em sua pele úmida, contornando seus ombros, descendo pelos braços. A luz suave das velas ao redor da banheira criava reflexos dançantes sobre a água e sobre os contornos delicados do corpo dela, me hipnotizando. Alina suspirou baixo, a cabeça encostando levemente no meu ombro, como se aquele momento pudesse durar para sempre.Mas eu já não tinha esse luxo.De repente, como se um peso invisível tivesse pousado sobre meus ombros, soltei o sabonete na água e me ergui, derrubando um pouco da água morna para fora da banh

  • Rendida ao Magnata italiano   29. Promessa

    O silêncio depois do furacão era ensurdecedor. Eu me sentia perdida em um mar de emoções conflitantes - desejo, medo, raiva... e agora, culpa.Estávamos deitados na cama, minha cabeça encostada em seu peito, a respiração de Dante era regular, apesar do que acabara de acontecer e sob nós um lençol fino demais para esconder o tremor que tomava meu corpo. Meu olhar estava fixo na janela, mas meus pensamentos estavam a quilômetros dali.Quando Dante se virou para mim, concentrando sua atenção em mim, meu coração acelerou. Ele respirou fundo e ficou me encarando por longos segundos antes de falar.- Por que você não me contou? - a pergunta veio seca, mas havia algo mais ali. Dor. Decepção.- Eu... - minha voz falhou. - Eu não sabia como você ia reagir.Ele franze o cenho, como se estivesse avaliando a minha resposta. Seu olhar era fogo, mas também confusão. Um campo de batalha onde o controle e o desespe ro duelavam.- Você acha que eu te faria mal?Engoli em seco. - Depois do que acontec

  • Rendida ao Magnata italiano   28. Você é minha

    (Dante)O canto do quarto parecia engolir Alina, como se a própria sombra quisesse protegê-la de mim. Mas não havia abrigo seguro entre aquelas paredes. Meus olhos estavam fixos nos dela - grandes, assustados, brilhando com algo que não era apenas medo. Era fome. Era desejo. Era a maldita contradição que ela ainda tentava lutar dentro de si.O coração dela pulsava tão alto que eu podia ouvi-lo daqui. E foi então que ela falou. A voz saiu trêmula, mas cheia de uma fúria que apenas alguém verdadeiramente quebrado - ou entregue - poderia ter.- Você me sequestrou para que uma dívida seja paga... - vociferou, o peito arfando - e eu odeio mais a mim mesma por desejar que isso nunca acabe.Aquelas palavras bateram em mim como um estalo. O ar ficou mais pesado. O tempo parou.Ela não sabia o que tinha acabado de fazer. Ou talvez soubesse. Talvez quisesse mesmo me incendiar.Caminhei em sua direção, lento, firme, como o predador que já sabe que a presa não vai fugir. Ela ficou imóvel. As cost

  • Rendida ao Magnata italiano   27. Giulia

    O sol brilhava alto quando me acomodei na espreguiçadeira próxima à piscina. A água cristalina reluzia sob a luz intensa do meio-dia, e eu permitia que o calor do sol secasse lentamente minha pele ainda úmida do mergulho. Com os olhos semicerrados, eu respirava fundo, tentando absorver algum tipo de paz naquele instante. A mansão estava silenciosa, quase em um raro momento de calmaria.Com o livro apoiado no colo, meus dedos brincavam com as páginas, mas minha mente divagava. O calor, o silêncio e aquela atmosfera suspensa de tranquilidade me afastavam dos últimos dias tumultuados. Ainda assim, uma inquietação permanecia alojada em meu peito, como um sussurro incômodo de que nada daquela paz era verdadeira, apenas uma pausa antes da próxima tempestade.Foi então que ouvi passos. Olhei de relance e vi Enzo, o braço direito de Dante, saindo da mansão com as mãos nos bolsos e o olhar fixo em mim. Seu semblante era mais sério que o habitual, mas não havia ameaça em seus olhos. Apenas algo

  • Rendida ao Magnata italiano   26. Suspeitas

    (Dante)O cheiro do café recém-passado ainda pairava no ar quando empurrei a porta do escritório, mas algo parecia errado. Havia silêncio demais. Rosete, que geralmente surgia para comentar sobre o cardápio do dia ou trazer algum informe trivial, parecia ausente. E Alina... Alina estava distante.Ela andava assim. Não reclamava, não pedia, não respondia muito. Apenas pairava pelos cômodos como uma sombra delicada, com olhos distantes e um silêncio desconfortável. Era uma mudança sutil, mas para alguém como eu, que estudava cada reação dela como quem lê um mapa em uma terra estrangeira, era gritante.Fechei a pasta sobre a mesa, me levantando com decisão. Enzo não estava por perto, e Rosete não aparecia. Atravessei os corredores em direção à cozinha, onde finalmente encontrei Rosete, limpando distraidamente a bancada. Seus movimentos eram mecânicos demais, e não demorou para que eu percebesse que evitava me encarar.- Rosete - minha voz soou mais baixa do que o habitual. Mais... tensa.

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status