ログインEstela Camacho tem tudo o que uma mulher poderia desejar: milhões na conta, shows lotados e uma legião de fãs. Aos vinte e sete anos, porém, a estrela do rock que conquistou o Brasil ainda adolescente não consegue mais sentir prazer na própria música, muito menos compor o próximo sucesso. Em busca de inspiração, ela aceita passar uma semana na fazenda da mãe, no interior de Goiás. Estela esperava encontrar silêncio, lembranças do pai e alguns dias longe da pressão da gravadora. Não esperava encontrar Matias Cruz. Dono de uma das maiores fazendas da região, Matias é respeitado, teimoso e brutalmente sincero. Ele não tem paciência para gente mimada da cidade, principalmente para uma cantora famosa que bebe demais, desafia sua autoridade e pretende desaparecer em poucos dias. Mas, depois que Matias impede Estela de cometer uma loucura, um beijo inesperado transforma a implicância entre os dois em um desejo impossível de ignorar. Estela só queria uma aventura antes de voltar para São Paulo. Matias, entretanto, não aceita ser a distração de uma mulher que já decidiu partir. Ela tem sete dias para tirá-lo da cabeça. Ele tem sete dias para convencê-la de que algumas raízes são mais fortes do que os holofotes.
もっと見るEstela Camacho
O público ainda gritava meu nome quando percebi que alguma coisa dentro de mim tinha ficado em silêncio.
Quarenta mil pessoas. Luzes vermelhas atravessando o estádio. O chão vibrando sob minhas botas. Clara ergueu a mão da lateral do palco, avisando que ainda faltava uma música, e eu sorri como sempre fazia: o sorriso largo, insolente, de quem parecia ter nascido diante de uma plateia.
Ninguém ali precisava saber que eu contava os segundos para ir embora.
A Laurão pesava contra meu quadril. A Stratocaster vermelha tinha sido do meu pai antes de ser minha e conservava duas marcas perto da ponte, lembranças da época em que ele ainda insistia que sabia tocar como Keith Richards. Eu passei o polegar sobre uma delas e ataquei o primeiro acorde.
Meu corpo conhecia o show melhor do que eu.
Dei três passos até o microfone. A banda entrou no tempo certo. O telão devolveu meu rosto multiplicado em vinte metros de altura, cabelo grudado na testa, maquiagem borrada no canto do olho e aquela expressão feroz que as meninas copiavam nas fotos. Cantei o refrão, ouvi o estádio cantar comigo e não senti absolutamente nada.
Nem alegria. Nem medo. Nem aquela descarga que costumava percorrer meu corpo quando milhares de desconhecidos transformavam uma música minha em memória própria.
Só cansaço.
Terminei a apresentação, ergui a guitarra e agradeci. A Estela Camacho que existia para o público fez tudo certo. Mandou beijo, chamou as pessoas de família, prometeu voltar. A outra saiu do palco e quase esbarrou num roadie porque já não prestava atenção em nada.
Clara me esperava com uma toalha e uma garrafa de água.
— Você pulou oito compassos da ponte.
Tomei metade da água de uma vez.
— Ninguém percebeu.
— Eu percebi.
— Você é paga para perceber.
Ela me acompanhou pelo corredor improvisado até o camarim. Clara me conhecia desde o colégio, antes dos cabelos coloridos, das capas de revista e da primeira música em novela. Era uma das poucas pessoas que não confundiam meu mau humor com mistério artístico.
— Ele está lá dentro — avisou.
Parei com a mão na maçaneta.
— Quem?
— Seu carrasco de terno italiano.
Heitor Valença estava sentado no meu sofá, examinando o camarim como se procurasse irregularidades. Diretor artístico da Aurora, quarenta e poucos anos, relógio caro e a irritante habilidade de falar sobre música sem parecer gostar de nenhuma.
— Belo show — disse.
Joguei a toalha sobre uma cadeira.
— Quando você começa elogiando, eu verifico se ainda estou com a carteira.
Ele não sorriu.
— A gravadora precisa do single até o fim do mês.
— A gravadora me deu um ano para o álbum.
— O mercado não trabalha com a sua interpretação afetiva dos prazos. Precisamos de uma faixa para iniciar a campanha.
Clara fechou a porta atrás de nós e ficou de pé ao meu lado. Não era apenas minha produtora. Era a pessoa que sabia quantas noites eu havia passado no estúdio tentando fazer uma música nascer por força bruta.
— Ela está trabalhando — disse.
Heitor olhou para mim.
— Está?
Eu poderia ter mentido. Fazia isso bem. Minha carreira inteira dependia de transformar medo em segurança antes que alguém apontasse uma câmera.
— Não saiu nada que preste.
— Então faça sair.
Ri sem humor.
— Excelente direção artística. Quer produzir o disco também?
— Quero que se lembre de que a Aurora investe na Estela Camacho desde que ela tinha quinze anos.
— E recuperou cada centavo antes de eu completar dezessete.
O maxilar dele se moveu. Pequeno. Quase elegante.
— Trinta dias. Depois disso, discutiremos as cláusulas de inatividade.
Heitor se levantou, ajeitou o paletó e saiu sem se despedir. O camarim pareceu maior quando a porta fechou. Também pareceu mais frio.
Sentei diante do espelho. Havia flores, maquiagem, roupas espalhadas e uma bandeja de frutas que ninguém tocara. Meu rosto ainda brilhava de suor. Eu parecia viva.
Esse era o problema.
Eu tinha feito vinte e sete anos no mês anterior. Quando apaguei as velas, pensei em todos os músicos que não chegaram aos vinte e oito. Eu tinha chegado. Longe das drogas havia tempo suficiente para não contar os dias, com vinho demais nas sextas e cigarros sempre que o mundo apertava. Milionária, sem dívidas, com público fiel e uma carreira que muita gente mataria para ter.
Morta por dentro era uma expressão dramática.
Também era a mais próxima da verdade.
— Vamos para o estúdio — falei.
Clara soltou o ar pelo nariz.
— Você acabou de sair de um palco.
— E tenho trinta dias.
Duas horas depois, eu estava sentada no sofá do estúdio, dedilhando a mesma sequência na Laurão. Troquei o tom. Mudei o andamento. Liguei um pedal, desliguei, xinguei a guitarra como se a culpa fosse dela.
Clara observava o celular com um sorriso suspeito.
— Vai ficar nessa até quando, Estela?
— Até funcionar.
— Já pensou em fazer qualquer coisa que não seja torturar quatro acordes?
— Tipo?
— Dar uma volta. Comer. Dormir. Visitar sua mãe.
Ergui os olhos.
— Isso foi específico.
— Dona Maria me mandou mensagem ontem perguntando se você estava viva.
Antes que eu respondesse, meu telefone tocou sobre a mesa. A foto da minha mãe apareceu no visor. Clara abriu os braços como uma vidente satisfeita.
Atendi.
— Oi, mãe. Eu estava pensando na senhora agora.
Era mentira, mas uma mentira carinhosa.
— Estava nada. Quando vem me visitar?
Maria Camacho raramente começava uma conversa sem perguntar se eu havia comido. Endireitei a postura.
— Tenho música para compor e...
— Compõe aqui.
— Aí?
— Aqui tem cadeira, tomada e silêncio. A guitarra funciona em Goiás.
Clara tapou a boca para não rir.
Olhei a Laurão. Meu pai e eu havíamos tocado juntos pela última vez poucos meses antes de ele morrer. Depois do câncer, da voz enfraquecida e da casa perdendo aos poucos o cheiro de Marlboro vermelho, eu passei a evitar tudo o que me aproximasse demais dele.
Inclusive minha mãe.
Ela vivia numa pequena propriedade perto de Anápolis, cercada pela família e pela terra que sempre quis. Eu não a visitava havia um ano e meio.
Um ano e meio era tempo demais para qualquer desculpa continuar parecendo trabalho.
Eu sempre dizia que a distância era agenda. No fundo, era covardia. Na casa da minha mãe, meu pai continuava vivo nos modos dela, nas fotografias e até na forma como alguém pronunciava meu sobrenome. Em São Paulo, eu conseguia escolher quando sentir saudade. Em Goiás, suspeitava que a saudade escolheria por mim.
— A senhora quer mesmo que eu vá, né?
— Quero.
Abri o aplicativo da companhia aérea. Havia um voo para Goiânia naquela madrugada.
— Está bem. Acabei de comprar a passagem.
— Acho bom. Traga casaco.
Ela desligou.
Fiquei olhando para a tela, ainda na confirmação da compra.
— Por quanto tempo? — Clara perguntou.
— Uma semana.
— E o single?
Coloquei a Laurão no estojo.
— Se eu não encontrar uma música em sete dias, talvez ela não queira ser encontrada.
Clara perdeu o sorriso.
No caminho para casa, o celular vibrou com uma mensagem de Heitor: Trinta dias, Estela. Não me obrigue a lembrá-la de quem construiu essa carreira.
Li duas vezes.
Depois apaguei sem responder.
Naquela madrugada, embarquei para Goiás com uma mala que ainda estava pronta de uma viagem cancelada, um violão como bagagem especial e a guitarra do meu pai apertada contra o peito.
Eu procurava uma música.
Ainda não sabia que encontraria um homem disposto a arrancar de mim tudo o que eu usava para me esconder.
Estela CamachoHeitor me ligou quarenta e três segundos depois que encerrei a transmissão.O tempo exato de perceber que eu o havia desobedecido diante de um milhão de pessoas.Não atendi.Ligou outra vez. Recusei. Na terceira, desliguei o celular e o coloquei virado para baixo sobre a mesa da varanda.Minha mãe me entregou uma xícara de café.— Você falou bem.— Ele vai me matar.— Quem?— Meu chefe.— Você não é milionária?— Sou.— Então compra outro chefe.Olhei para ela. Maria bebeu o próprio café como se tivesse resolvido uma questão simples.— Não funciona assim.— Quase nada funciona até alguém com dinheiro e raiva decidir que funciona.Vó Rosa riu da cozinha. Lúcia continuava atualizando as redes, os olhos arregalados.— Um milhão e trezentas mil pessoas viram ao vivo. Estão chamando o Matias de cowboy protetor.— Ele vai odiar.— Estão fazendo edição com vocês.— Ele vai odiar mais.Liguei o telefone novamente. Havia vinte e duas chamadas, mensagens da assessoria e um comuni
Matias CruzO primeiro carro chegou antes das duas da tarde.O segundo estacionou na entrada vinte minutos depois. Às três, havia seis pessoas diante da porteira, duas câmeras, um drone e uma mulher de salto tentando convencer Joel de que tinha autorização para entrar.Antes disso, a manhã tinha sido normal. Eu conferira o resfriamento, discutira preço de ração e ajudara a empurrar uma caminhonete atolada. Era o tipo de dia que se media por tarefas concluídas. Bastou uma fotografia para o trabalho perder o próprio nome. De repente, todo telefonema começava com Estela, e ninguém perguntava da chuva.Minha mãe recebeu mensagens de parentes que não falavam com ela havia meses. Joel descobriu que a filha adolescente seguia Estela e agora queria saber se a cantora estava escondida na casa principal. Dois funcionários pediram para tirar foto caso ela voltasse.Eu não estava irritado porque Estela era famosa.Estava irritado porque fama parecia uma cerca que só funcionava de um lado. Todo mu
Estela CamachoEm menos de uma hora, Matias deixou de ser um homem e virou categoria.E eu virei novamente um erro público.Cowboy misterioso. Caipira gato. Fazendeiro desconhecido. Novo vício de Estela Camacho.Rolei a tela com o polegar enquanto cada legenda piorava. Um portal resgatou fotografias minhas aos dezenove anos, magra demais e saindo de uma clínica. Outro publicou um vídeo antigo em que eu mal conseguia atravessar a porta de uma festa. A foto do beijo era atual. O resto construía a história que vendia melhor.Eu havia recaído. Eu estava descontrolada. Eu abandonara o estúdio para me esconder no interior com um homem bruto.O detalhe de que eu não usava drogas havia anos ocupava duas linhas no fim de uma matéria.O corpo reagiu antes da razão. Minha nuca esfriou. A saliva adquiriu um gosto metálico, e por um segundo eu não estava no or
Estela CamachoAcordei com a boca seca, a cabeça latejando e a lembrança da mão de Matias na minha coxa.Não nessa ordem.Fiquei deitada, olhando para o teto de madeira, enquanto a noite voltava em partes: o karaokê, Lorena rindo, a moto inclinando, a caminhonete, a bronca. Depois a boca dele. O gosto de pinga e palheiro. A barba raspando meu rosto. O instante em que ele me beijou como se tivesse passado horas tentando não fazer aquilo.E a frase final.Você bebeu.Virei de lado e enfiei o rosto no travesseiro.Era irritante que o homem tivesse razão. Eu sabia o que queria, mas estava bêbada. Ele interromper antes que avançássemos era a atitude correta. Ainda assim, a parte mais infantil do meu cérebro traduzia responsabilidade como rejeição.O celular marcava nove e meia. Havia mensagens de Lorena, duas chamadas de Clara e um á


















Bem-vindo ao Goodnovel mundo de ficção. Se você gosta desta novela, ou você é um idealista que espera explorar um mundo perfeito, e também quer se tornar um autor de novela original online para aumentar a renda, você pode se juntar à nossa família para ler ou criar vários tipos de livros, como romance, leitura épica, novela de lobisomem, novela de fantasia, história e assim por diante. Se você é um leitor, novelas de alta qualidade podem ser selecionados aqui. Se você é um autor, pode obter mais inspiração de outras pessoas para criar obras mais brilhantes, além disso, suas obras em nossa plataforma chamarão mais atenção e conquistarão mais admiração dos leitores.