LOGINEstela Camacho tem milhões na conta, estádios lotados e uma carreira que começou quando ela ainda era adolescente. O que ela não tem é uma música nova. Aos vinte e sete anos, esgotada, pressionada pela gravadora e incapaz de sentir no palco o que um dia a fez viver, a maior rockstar do país foge para o interior de Goiás em busca de silêncio. Em vez disso, encontra Matias Cruz. Fazendeiro, teimoso e brutalmente sincero, Matias não se impressiona com fama, dinheiro ou o temperamento da mulher que chegou à região fazendo barulho. Os dois mal conseguem conversar sem discutir. Até a noite em que Estela bebe demais, tenta subir numa motocicleta e Matias a impede de pilotar. Dentro da caminhonete, ela o beija. E alguém fotografa tudo. Na manhã seguinte, Estela é acusada de ter recaído nas drogas, Matias é transformado pela imprensa no homem responsável por sua queda e o escândalo começa a atingir funcionários, compradores e a própria fazenda. A gravadora enxerga uma solução perfeita: transformar os dois no casal que o país já acredita que eles são. Trinta dias. Um namoro de fachada. Aparições públicas. Regras claras. Nenhuma câmera entrando onde não foi autorizada. Só existe um problema. O primeiro beijo nunca foi fingimento. E quanto mais Estela e Matias tentam proteger a própria vida da história que inventaram para eles, mais difícil fica descobrir onde termina o contrato e começa aquilo que nenhum dos dois estava preparado para sentir.
View MoreO público ainda gritava meu nome quando percebi que alguma coisa dentro de mim tinha ficado em silêncio.
Quarenta mil pessoas. Luzes vermelhas atravessando o estádio. O chão vibrando sob minhas botas. Clara ergueu a mão da lateral do palco, avisando que ainda faltava uma música, e eu sorri como sempre fazia: largo, insolente, treinado para parecer natural.
Ninguém ali precisava saber que eu contava os segundos para ir embora.
A Laurão pesava contra meu quadril. A Stratocaster vermelha tinha sido do meu pai antes de ser minha e conservava duas marcas perto da ponte, lembranças da época em que ele ainda insistia que sabia tocar como Keith Richards. Passei o polegar sobre uma delas e ataquei o primeiro acorde.
Meu corpo conhecia o show melhor do que eu.
A banda entrou no tempo certo. O telão devolveu meu rosto multiplicado em vinte metros de altura, cabelo grudado na testa, maquiagem borrada no canto do olho e aquela expressão feroz que as meninas copiavam nas fotos. Cantei o refrão, ouvi o estádio cantar comigo e não senti absolutamente nada.
Nem alegria. Nem medo. Nem aquela descarga que costumava atravessar meu corpo quando milhares de desconhecidos transformavam uma música minha em memória própria.
Só cansaço.
Terminei a apresentação, ergui a guitarra e agradeci. A Estela Camacho que existia para o público fez tudo certo. Mandou beijo, chamou as pessoas de família, prometeu voltar. A outra saiu do palco e quase esbarrou num roadie porque já não prestava atenção em nada.
Clara me esperava com uma toalha e uma garrafa de água.
— Você pulou oito compassos da ponte.
Tomei metade da água de uma vez.
— Ninguém percebeu.
— Eu percebi.
— Você é paga para perceber.
Ela me acompanhou até o camarim. Clara me conhecia desde antes das capas de revista e era uma das poucas pessoas que não confundiam meu mau humor com mistério artístico.
— Ele está lá dentro — avisou.
Parei com a mão na maçaneta.
— Quem?
— Seu carrasco de terno italiano.
Heitor Valença estava sentado no meu sofá, relógio caro, paletó impecável e a irritante habilidade de falar sobre música sem parecer gostar de nenhuma.
— Belo show — disse.
Joguei a toalha sobre uma cadeira.
— Quando você começa elogiando, eu verifico se ainda estou com a carteira.
Ele não sorriu.
— A gravadora precisa do single até o fim do mês.
— A gravadora me deu um ano para o álbum.
— Precisamos de uma faixa para iniciar a campanha.
Clara fechou a porta atrás de nós.
— Ela está trabalhando.
Heitor olhou para mim.
— Está?
Eu poderia ter mentido. Fazia isso bem. Minha carreira inteira dependia de transformar medo em segurança antes que alguém apontasse uma câmera.
— Não saiu nada que preste.
— Então faça sair.
Ri sem humor.
— Excelente direção artística. Quer produzir o disco também?
— Quero que se lembre de que a Aurora investe na Estela Camacho desde que ela tinha quinze anos.
— E recuperou cada centavo antes de eu completar dezessete.
O maxilar dele se moveu.
— Trinta dias. Depois disso, discutiremos as cláusulas de inatividade.
Heitor se levantou e saiu. O camarim pareceu maior quando a porta fechou. Também pareceu mais frio.
Sentei diante do espelho. Meu rosto ainda brilhava de suor. Eu parecia viva.
Esse era o problema.
Eu tinha feito vinte e sete anos no mês anterior. Estava longe das drogas havia tempo suficiente para não contar os dias, com vinho demais em algumas sextas e cigarros sempre que o mundo apertava. Milionária, sem dívidas, com público fiel e uma carreira que deveria me fazer feliz.
Morta por dentro era uma expressão dramática.
Também era a mais próxima da verdade.
— Vamos para o estúdio — falei.
Duas horas depois, eu ainda dedilhava a mesma sequência na Laurão. Troquei o tom, mudei o andamento e xinguei a guitarra como se a culpa fosse dela.
Clara olhou para mim por cima do celular.
— Já pensou em fazer qualquer coisa que não seja torturar quatro acordes?
— Tipo?
— Comer. Dormir. Visitar sua mãe.
Ergui os olhos.
— Isso foi específico.
— Dona Maria me mandou mensagem ontem perguntando se você estava viva.
Meu telefone tocou sobre a mesa antes que eu respondesse. A foto da minha mãe apareceu no visor.
— Oi, mãe. Eu estava pensando na senhora agora.
Era mentira, mas uma mentira carinhosa.
— Estava nada. Quando vem me visitar?
— Tenho música para compor e...
— Compõe aqui.
— Aí?
— Aqui tem cadeira, tomada e silêncio. A guitarra funciona em Goiás.
Olhei a Laurão.
Meu pai e eu havíamos tocado juntos pela última vez poucos meses antes de ele morrer. Depois do câncer, eu passei a evitar tudo o que me aproximasse demais dele.
Inclusive minha mãe.
Maria vivia numa pequena propriedade perto de Anápolis. Eu não a visitava havia um ano e meio.
Em São Paulo, eu conseguia escolher quando sentir saudade. Em Goiás, suspeitava que a saudade escolheria por mim.
— A senhora quer mesmo que eu vá?
— Quero.
Abri o aplicativo da companhia aérea. Havia um voo para Goiânia naquela madrugada.
— Está bem. Acabei de comprar a passagem.
— Acho bom. Traga casaco.
Quando ela desligou, Clara apontou para a tela.
— Por quanto tempo?
— Uma semana.
— E o single?
Coloquei a Laurão no estojo.
— Se eu não encontrar uma música em sete dias, talvez ela não queira ser encontrada.
Naquela madrugada, embarquei com uma mala pronta de uma viagem cancelada, um violão como bagagem especial e a guitarra do meu pai apertada contra o peito.
Às sete da manhã, saí do aeroporto de Goiânia numa big trail alugada porque, aparentemente, crise criativa também prejudicava julgamento logístico.
Foi quando vi o carro cinza.
Estava parado perto da saída do estacionamento. Um homem apoiava uma câmera de lente comprida na janela. Quando olhei diretamente para ele, baixou o equipamento e fingiu conferir o celular.
Imprensa me reconhecendo não era novidade. O estranho era alguém saber de uma viagem que eu decidira poucas horas antes.
Pensei em ligar para Clara.
Não liguei.
Eu tinha vindo justamente para passar uma semana sem alguém administrando cada risco antes que ele existisse.
A estrada ficou mais estreita depois de Anápolis. Terra vermelha, pasto, cerca, placas que meu aplicativo tratava como sugestões. Numa curva, a roda traseira escapou num trecho fofo e corrigi tarde demais.
Uma caminhonete vermelha vinha no sentido contrário.
O motorista freou. Eu também, com entusiasmo excessivo. A motocicleta inclinou, minha bota afundou na terra e consegui segurá-la por puro orgulho.
O homem desceu da caminhonete.
Alto. Largo. Barba curta. Chapéu escuro e uma expressão que não demonstrava qualquer admiração pela minha entrada.
— Freio da frente na terra solta é convite para cair.
— Bom dia para você também.
Ele olhou para a moto, depois para mim.
— Se continuar desse jeito, chega na casa de dona Maria deitada.
Meu corpo ficou alerta.
— Como sabe para onde estou indo?
O homem apontou com o queixo para uma placa meio escondida atrás de mim.
SÍTIO CAMACHO.
Eu havia passado direto por ela.
— Observação avançada — falei.
— Na roça ajuda.
Ele voltou para a caminhonete.
— E você sempre dá aula para desconhecida na estrada?
Abriu a porta.
— Só para as que quase entram debaixo do meu carro.
A caminhonete arrancou, deixando uma nuvem de poeira e minha irritação perfeitamente acordada.
Eu ainda não sabia o nome dele.
Só sabia que Goiás tinha me recebido com uma câmera, uma estrada ruim e um homem que já me irritava antes do café.
Matias CruzMeu pai dizia que favor vinha com corda.Não porque toda ajuda fosse ruim. Porque homem desesperado só enxergava a ponta oferecida e esquecia de perguntar quem segurava o outro lado.Levei a proposta do show à cooperativa com essa frase ocupando minha cabeça. Estela não foi. Disse que a presença dela faria alguns votarem para agradar e outros recusarem por raiva. Pela primeira vez desde que chegara, ficou longe de uma decisão que podia usar sua fama.Isso contou mais do que eu gostaria.— Quem administra o dinheiro? — seu Anselmo perguntou.— A cooperativa.— E a gravadora?— Não entra sem contrato aprovado por nós.Davi folheou a proposta simples que Clara preparara.— Custos de palco, segurança, energia, banheiro. Isso não se paga sozinho.— Lorena traz patrocínio de duas marcas. Estela cobre a própria equipe artística.— Isso é dinheiro dela — Davi disse.— É custo do trabalho dela, não do nosso.A distinção tinha sido explicada por Estela num áudio de quatro minutos. E
Estela CamachoTransformei ciúme em quatro acordes e odiei todos.O estúdio improvisado da escola rural tinha uma mesa antiga, seis placas de espuma emprestadas e um cheiro permanente de giz. Clara instalou a interface. Lorena chegou de Goiânia com dois microfones, uma caixa de cabos e a falta de delicadeza que eu precisava.— Então a ex é bonita, competente e sabe usar bota — resumiu.— Eu não disse bonita.— Disse “precisa”. Na sua língua, é pior.Liguei a Laurão.— Podemos trabalhar?— Podemos, mas você vai tocar cada acorde como se quisesse arrancar o coque dela.Clara ajustou o ganho.— Usa isso.— Usar ciúme é conselho artístico irresponsável.— Você usou raiva em três álbuns.— Com excelentes resultados — Lorena completou.Toquei a sequência do celeiro. A nota de Matias permanecia ali, abrindo espaço. Cantei a frase que nascera depois da conversa sobre meu pai. Lorena entrou com uma harmonia baixa. Na segunda passagem, a música ganhou estrada, poeira e uma mulher que não sabia
Matias Cruz A reunião da cooperativa começou com trinta e uma cadeiras, quarenta e três pessoas e nenhuma confiança sobrando. Produtor não precisava de convite para discutir água. Alguns ficaram de pé no fundo do galpão. Outros trouxeram pastas, contas e fotografias de reservatórios baixos. Bianca montou a apresentação sem equipe de filmagem ou logomarca maior do que o assunto. Ela sabia entrar num lugar. Estela sentou ao lado de Clara na última fileira. Tinha pedido para assistir porque a campanha citava a cooperativa. Perguntou antes. Eu disse sim. Bianca mostrou projeções de chuva, vazão e custo. A captação do rio exigia licença, tubulação e uma estação de tratamento pequena. Sozinhos, levaríamos dois anos para juntar o dinheiro. A AgroVale prometia concluir em seis meses. — E em troca? — Davi perguntou. — Gestão técnica da distribuição por dez anos, preferência de compra sobre a produção e servidão de passagem nas propriedades participantes. O galpão encheu de vozes. — Ser
Estela Camacho O lado vazio da cama conseguiu dizer cinco coisas antes que eu me sentasse. Arrependimento. Erro. Pressa. São Paulo. Trinta dias. Meu corpo ainda guardava o peso de Matias, mas a cabeça já produzia uma versão em que ele vestira a roupa no escuro para não precisar me encarar. Encontrei minha camiseta no chão e o jeans dobrado sobre uma cadeira. Dobrado. Aquilo piorava tudo. Homem que dobrava roupa depois do sexo era capaz de organizar uma fuga em planilha. Vesti-me, lavei o rosto na pia estreita e abri a porta. O celeiro estava vazio. Do lado de fora, o trabalho seguia sem respeitar crise emocional: motor ligado, homens descarregando ração, uma caminhonete entrando pela porteira. Voltei para a casa de hóspedes sem perguntar por ele. Clara ligou assim que fechei a porta. — Heitor está furioso. — Entre na fila. — A equipe confirmou que você mandou desligar. Beatriz diz que vocês estavam dentro do acordo. — Milagre jurídico. — Aconteceu mais alguma coisa? Olhei












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