O Fazendeiro Bruto e a Rockstar Rebelde

O Fazendeiro Bruto e a Rockstar Rebelde

last updateLast Updated : 2026-10-20
By:  Bella PrudencioUpdated just now
Language: Portuguese
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Estela Camacho tem milhões na conta, estádios lotados e uma carreira que começou quando ela ainda era adolescente. O que ela não tem é uma música nova. Aos vinte e sete anos, esgotada, pressionada pela gravadora e incapaz de sentir no palco o que um dia a fez viver, a maior rockstar do país foge para o interior de Goiás em busca de silêncio. Em vez disso, encontra Matias Cruz. Fazendeiro, teimoso e brutalmente sincero, Matias não se impressiona com fama, dinheiro ou o temperamento da mulher que chegou à região fazendo barulho. Os dois mal conseguem conversar sem discutir. Até a noite em que Estela bebe demais, tenta subir numa motocicleta e Matias a impede de pilotar. Dentro da caminhonete, ela o beija. E alguém fotografa tudo. Na manhã seguinte, Estela é acusada de ter recaído nas drogas, Matias é transformado pela imprensa no homem responsável por sua queda e o escândalo começa a atingir funcionários, compradores e a própria fazenda. A gravadora enxerga uma solução perfeita: transformar os dois no casal que o país já acredita que eles são. Trinta dias. Um namoro de fachada. Aparições públicas. Regras claras. Nenhuma câmera entrando onde não foi autorizada. Só existe um problema. O primeiro beijo nunca foi fingimento. E quanto mais Estela e Matias tentam proteger a própria vida da história que inventaram para eles, mais difícil fica descobrir onde termina o contrato e começa aquilo que nenhum dos dois estava preparado para sentir.

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Chapter 1

Capítulo 1 — A música que morreu

O público ainda gritava meu nome quando percebi que alguma coisa dentro de mim tinha ficado em silêncio.

Quarenta mil pessoas. Luzes vermelhas atravessando o estádio. O chão vibrando sob minhas botas. Clara ergueu a mão da lateral do palco, avisando que ainda faltava uma música, e eu sorri como sempre fazia: largo, insolente, treinado para parecer natural.

Ninguém ali precisava saber que eu contava os segundos para ir embora.

A Laurão pesava contra meu quadril. A Stratocaster vermelha tinha sido do meu pai antes de ser minha e conservava duas marcas perto da ponte, lembranças da época em que ele ainda insistia que sabia tocar como Keith Richards. Passei o polegar sobre uma delas e ataquei o primeiro acorde.

Meu corpo conhecia o show melhor do que eu.

A banda entrou no tempo certo. O telão devolveu meu rosto multiplicado em vinte metros de altura, cabelo grudado na testa, maquiagem borrada no canto do olho e aquela expressão feroz que as meninas copiavam nas fotos. Cantei o refrão, ouvi o estádio cantar comigo e não senti absolutamente nada.

Nem alegria. Nem medo. Nem aquela descarga que costumava atravessar meu corpo quando milhares de desconhecidos transformavam uma música minha em memória própria.

Só cansaço.

Terminei a apresentação, ergui a guitarra e agradeci. A Estela Camacho que existia para o público fez tudo certo. Mandou beijo, chamou as pessoas de família, prometeu voltar. A outra saiu do palco e quase esbarrou num roadie porque já não prestava atenção em nada.

Clara me esperava com uma toalha e uma garrafa de água.

— Você pulou oito compassos da ponte.

Tomei metade da água de uma vez.

— Ninguém percebeu.

— Eu percebi.

— Você é paga para perceber.

Ela me acompanhou até o camarim. Clara me conhecia desde antes das capas de revista e era uma das poucas pessoas que não confundiam meu mau humor com mistério artístico.

— Ele está lá dentro — avisou.

Parei com a mão na maçaneta.

— Quem?

— Seu carrasco de terno italiano.

Heitor Valença estava sentado no meu sofá, relógio caro, paletó impecável e a irritante habilidade de falar sobre música sem parecer gostar de nenhuma.

— Belo show — disse.

Joguei a toalha sobre uma cadeira.

— Quando você começa elogiando, eu verifico se ainda estou com a carteira.

Ele não sorriu.

— A gravadora precisa do single até o fim do mês.

— A gravadora me deu um ano para o álbum.

— Precisamos de uma faixa para iniciar a campanha.

Clara fechou a porta atrás de nós.

— Ela está trabalhando.

Heitor olhou para mim.

— Está?

Eu poderia ter mentido. Fazia isso bem. Minha carreira inteira dependia de transformar medo em segurança antes que alguém apontasse uma câmera.

— Não saiu nada que preste.

— Então faça sair.

Ri sem humor.

— Excelente direção artística. Quer produzir o disco também?

— Quero que se lembre de que a Aurora investe na Estela Camacho desde que ela tinha quinze anos.

— E recuperou cada centavo antes de eu completar dezessete.

O maxilar dele se moveu.

— Trinta dias. Depois disso, discutiremos as cláusulas de inatividade.

Heitor se levantou e saiu. O camarim pareceu maior quando a porta fechou. Também pareceu mais frio.

Sentei diante do espelho. Meu rosto ainda brilhava de suor. Eu parecia viva.

Esse era o problema.

Eu tinha feito vinte e sete anos no mês anterior. Estava longe das drogas havia tempo suficiente para não contar os dias, com vinho demais em algumas sextas e cigarros sempre que o mundo apertava. Milionária, sem dívidas, com público fiel e uma carreira que deveria me fazer feliz.

Morta por dentro era uma expressão dramática.

Também era a mais próxima da verdade.

— Vamos para o estúdio — falei.

Duas horas depois, eu ainda dedilhava a mesma sequência na Laurão. Troquei o tom, mudei o andamento e xinguei a guitarra como se a culpa fosse dela.

Clara olhou para mim por cima do celular.

— Já pensou em fazer qualquer coisa que não seja torturar quatro acordes?

— Tipo?

— Comer. Dormir. Visitar sua mãe.

Ergui os olhos.

— Isso foi específico.

— Dona Maria me mandou mensagem ontem perguntando se você estava viva.

Meu telefone tocou sobre a mesa antes que eu respondesse. A foto da minha mãe apareceu no visor.

— Oi, mãe. Eu estava pensando na senhora agora.

Era mentira, mas uma mentira carinhosa.

— Estava nada. Quando vem me visitar?

— Tenho música para compor e...

— Compõe aqui.

— Aí?

— Aqui tem cadeira, tomada e silêncio. A guitarra funciona em Goiás.

Olhei a Laurão.

Meu pai e eu havíamos tocado juntos pela última vez poucos meses antes de ele morrer. Depois do câncer, eu passei a evitar tudo o que me aproximasse demais dele.

Inclusive minha mãe.

Maria vivia numa pequena propriedade perto de Anápolis. Eu não a visitava havia um ano e meio.

Em São Paulo, eu conseguia escolher quando sentir saudade. Em Goiás, suspeitava que a saudade escolheria por mim.

— A senhora quer mesmo que eu vá?

— Quero.

Abri o aplicativo da companhia aérea. Havia um voo para Goiânia naquela madrugada.

— Está bem. Acabei de comprar a passagem.

— Acho bom. Traga casaco.

Quando ela desligou, Clara apontou para a tela.

— Por quanto tempo?

— Uma semana.

— E o single?

Coloquei a Laurão no estojo.

— Se eu não encontrar uma música em sete dias, talvez ela não queira ser encontrada.

Naquela madrugada, embarquei com uma mala pronta de uma viagem cancelada, um violão como bagagem especial e a guitarra do meu pai apertada contra o peito.

Às sete da manhã, saí do aeroporto de Goiânia numa big trail alugada porque, aparentemente, crise criativa também prejudicava julgamento logístico.

Foi quando vi o carro cinza.

Estava parado perto da saída do estacionamento. Um homem apoiava uma câmera de lente comprida na janela. Quando olhei diretamente para ele, baixou o equipamento e fingiu conferir o celular.

Imprensa me reconhecendo não era novidade. O estranho era alguém saber de uma viagem que eu decidira poucas horas antes.

Pensei em ligar para Clara.

Não liguei.

Eu tinha vindo justamente para passar uma semana sem alguém administrando cada risco antes que ele existisse.

A estrada ficou mais estreita depois de Anápolis. Terra vermelha, pasto, cerca, placas que meu aplicativo tratava como sugestões. Numa curva, a roda traseira escapou num trecho fofo e corrigi tarde demais.

Uma caminhonete vermelha vinha no sentido contrário.

O motorista freou. Eu também, com entusiasmo excessivo. A motocicleta inclinou, minha bota afundou na terra e consegui segurá-la por puro orgulho.

O homem desceu da caminhonete.

Alto. Largo. Barba curta. Chapéu escuro e uma expressão que não demonstrava qualquer admiração pela minha entrada.

— Freio da frente na terra solta é convite para cair.

— Bom dia para você também.

Ele olhou para a moto, depois para mim.

— Se continuar desse jeito, chega na casa de dona Maria deitada.

Meu corpo ficou alerta.

— Como sabe para onde estou indo?

O homem apontou com o queixo para uma placa meio escondida atrás de mim.

SÍTIO CAMACHO.

Eu havia passado direto por ela.

— Observação avançada — falei.

— Na roça ajuda.

Ele voltou para a caminhonete.

— E você sempre dá aula para desconhecida na estrada?

Abriu a porta.

— Só para as que quase entram debaixo do meu carro.

A caminhonete arrancou, deixando uma nuvem de poeira e minha irritação perfeitamente acordada.

Eu ainda não sabia o nome dele.

Só sabia que Goiás tinha me recebido com uma câmera, uma estrada ruim e um homem que já me irritava antes do café.

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