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capítulo 4

Author: Danny Veloso
last update publish date: 2026-09-30 20:12:50

O chão estava imundo.

As algemas machucavam meus pulsos, a comida chegava apenas uma vez por dia e eu era obrigada a fazer minhas necessidades em um balde de metal enferrujado e coberto de sujeira.

Tudo ao meu redor parecia apodrecido.

O cheiro de decomposição impregnava o ar.

Talvez houvesse alguém morto ali.

Ou talvez fosse apenas uma questão de tempo até que eu também estivesse.

Ratos, baratas e besouros infestavam o lugar. No começo, eu me assustava. Depois, simplesmente parei de me importar.

Minhas roupas estavam rasgadas e tão sujas que já era impossível reconhecer sua cor original. Eu havia perdido os sapatos. Meu cabelo se transformara em um emaranhado.

Qualquer vestígio de dignidade que eu tivesse um dia possuído havia sido abandonado naquele lugar.

Ou arrancado de mim.

Eu mal conseguia enxergar.

O ambiente era escuro, abafado e quase sem ventilação. O calor fazia meu corpo inteiro suar.

Eu acreditava estar em um porão.

Conseguia ouvir passos constantemente acima da minha cabeça.

Mas ninguém vinha até mim.

Eu permanecia sozinha naquele escuro havia tanto tempo que já não sabia mais distinguir dias de noites.

Semanas.

Meses.

Horas.

Não fazia ideia.

Também não sabia exatamente como havia chegado ali.

Lembrava-me apenas de ter sido levada no lugar de Karyn.

Depois disso, tudo era confuso.

Quando despertei, estava suja, molhada pela própria urina, faminta e tão sedenta que minha garganta parecia rasgada.

Toda vez que gritava, chamava por alguém ou implorava para sair dali, o mesmo homem aparecia.

O rosto coberto.

As mãos firmes.

Ele segurava minha cabeça e pressionava um pano contra meu nariz.

Então tudo desaparecia.

Depois de algumas tentativas, parei de gritar.

Parei de chorar.

Parei de pedir.

Passei a enfrentar o escuro.

Os sons.

As sombras.

Tudo aquilo que poderia estar escondido ao meu redor.

Eu simplesmente me sentava e esperava.

A comida vinha uma vez por dia.

Eu imaginava que a água também.

O balde era trocado no mesmo intervalo.

Era assim que minha vida funcionava agora.

Comida.

Água.

Escuridão.

Silêncio.

Medo.

Eu sabia exatamente como um animal se sentia.

Eu havia visto quando atiraram em Karyn.

Sem piedade.

Sem misericórdia.

O destino que deveria ter sido meu caiu sobre ela.

A morte.

Chorei muito nos primeiros dias.

Até perceber que cada lágrima significava perder ainda mais água.

Eu não podia me dar ao luxo de desperdiçar nada.

Precisava sobreviver.

Não importava o que fariam comigo.

Eu só tinha Átila para pagar meu resgate.

Mas, naquele ponto, ele já teria feito isso se tivesse alguma possibilidade.

E Damon...

Damon nem sequer gostava de mim.

Para ele, eu sempre havia sido uma pedra no sapato.

A fedelha irritante que ele fazia questão de lembrar que eu era.

Naquela altura, provavelmente estaria destruído.

Árion nos braços.

Karyn morta.

O mundo inteiro desmoronando sobre seus ombros.

Ele não pensaria em mim.

Não perderia sequer um segundo de sua dor pensando na cunhada insuportável que sempre o provocava.

Enquanto isso, eu definharia lentamente naquele porão.

Sozinha.

Esquecida.

Até morrer.

Eu queria chorar.

Chorar pelo meu destino.

Pelo abandono.

Pela injustiça.

Pela minha sorte miserável.

Mas Karyn estava morta.

Eu estava viva.

Não era justo reclamar.

---

Uma noite — muito tempo depois — a porta se abriu.

A luz que entrou me fez apertar os olhos.

Um homem apareceu.

Ele usava uma máscara cobrindo o rosto.

Era alto.

Ombros largos.

Eu não conseguia enxergar seus traços e tampouco ouvir sua voz claramente. Ele falava em inglês, mas o tecido abafava as palavras.

— Qual é a senha do cofre?

Meu coração disparou.

Por um instante, pensei que deveria sentir alívio.

Finalmente alguém estava falando comigo.

Finalmente alguém me tratava como uma pessoa.

Mas não.

O medo foi maior.

Por que estavam falando comigo agora?

O que queriam?

O que aconteceria se eu respondesse errado?

Eu estava apavorada.

— Eu não sei de nada — respondi em inglês.

Minha própria voz soou estranha.

Grossa.

Rouca.

Minha língua parecia não saber mais como formar as palavras depois de tanto tempo sem conversar.

O homem inclinou a cabeça.

— Você era amante do seu cunhado, não era?

Não parecia uma pergunta.

Era uma acusação.

— Não! Eu juro que não!

Aquelas perguntas não faziam sentido.

Eu sequer conseguia entender por que estavam falando sobre Damon.

— Você sabe quem eu sou?

Meu coração acelerou ainda mais.

— Não.

Minha voz saiu baixa.

Mas era verdade.

Eu não fazia ideia de quem ele era.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

Então perguntou:

— Quer sair daqui?

Quase ri.

Não porque fosse engraçado.

Mas porque aquilo parecia uma crueldade.

Um deboche.

Ou talvez um teste.

Fiquei encarando-o, tentando descobrir o que ele queria ouvir.

O que deveria responder?

Se dissesse não, ele me deixaria ali?

Se dissesse sim, o que aconteceria comigo?

Por um instante longo demais, permaneci em silêncio.

Então compreendi.

Qualquer coisa que estivesse esperando por mim do lado de fora daquele porão não poderia ser pior do que permanecer ali.

— Sim.

Minha voz tremeu.

Ele não demonstrou reação.

— Ninguém pagou por você, sabia?

Meu estômago se revirou.

— Então você terá que pagar seu próprio resgate.

Ele fez uma pausa.

— Trabalhar ou morrer. O que prefere?

As palavras foram ditas com uma tranquilidade assustadora.

Como se estivesse oferecendo um osso a um cão faminto.

Eu não tinha escolha.

— Trabalhar.

Respondi imediatamente.

O homem estendeu uma folha de papel e uma caneta.

— Assine aqui.

Minhas mãos estavam algemadas juntas, dificultando até mesmo segurar o papel.

Ainda assim, assinei.

Minha mão tremia tanto que mal reconheci minha própria assinatura.

Poderia ser qualquer coisa.

Uma mentira.

Um contrato para vender meus órgãos.

Uma sentença de morte.

Qualquer coisa horrível.

Eu não tinha dinheiro.

Não tinha ninguém ali para me proteger.

Mas o que mais poderia fazer?

Escolher a morte seria estupidez.

Eu precisava viver.

O homem de preto permaneceu em silêncio.

Imaginei que faria outra pergunta.

Talvez explicasse o que aconteceria comigo.

Mas não disse nada.

Apenas me observou por um longo momento, como se estivesse avaliando uma mercadoria.

Então fez um gesto discreto com a mão.

Outro homem entrou.

Meu corpo inteiro ficou tenso.

Ele se aproximou.

Antes que eu pudesse reagir, pressionou um tecido contra meu nariz e minha boca.

Reconheci aquela sensação.

O cheiro.

O pânico.

A mesma coisa que havia acontecido quando me trouxeram para aquele lugar.

Tentei me afastar.

Tentei respirar.

Mas tudo ficou distante.

As paredes desapareceram.

Os sons se apagaram.

E, mais uma vez...

o escuro me engoliu.

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