INICIAR SESIÓNMarvila parou de mastigar. Engoliu com dificuldade e pousou o garfo sobre a comida. Respirou fundo, como quem se prepara para abrir uma ferida.
— Ficamos juntos, por anos. — começou, com a voz baixa. — Achei que ele mudaria. Que o amor podia consertar alguém. Mas ele só piorava. Bebia todos os dias. Me humilhava. Me machucava. — Eu já perdi outro bebê, de tanto apanhar. Dom ergueu os olhos, atento. — Quando descobri que estava grávida... — ela continuou, com os olhos marejados. — Ele surtou. Disse que eu o estava prendendo, que não queria ser pai. Tentou me bater... Disse que, se eu perdesse o bebê, seria melhor pra todo mundo. Ela apertou os lábios, tentando conter o choro, mas não conseguiu. As lágrimas escorreram silenciosas, e ela as enxugou. — Foi aí que eu fugi. Peguei o pouco que tinha e fui embora. Sem olhar pra trás. Eu só quero que meu filho nasça em paz. Longe dele. Longe de tudo. — Vou trabalhar e dar um jeito. Dom sentiu um aperto no peito. A dor dela era crua, real, e o fez lembrar da própria perda, da mulher que amava e que nunca mais voltaria, com o filho que um dia imaginaram, um sonho que se partira de forma irreparável. Mas havia algo diferente ali. Marvila não estava apenas na pior. Ela estava lutando, pelo filho. Ele se levantou devagar, pegou uma manta dobrada sobre a cama e a colocou sobre os ombros dela com cuidado. — Você não precisa passar por isso sozinha. — disse, com a voz firme, mas gentil. — Aqui, você está segura. E eu vou te ajudar. Não nos encontramos por acaso. Marvila olhou para ele, surpresa, como se não soubesse como reagir à bondade. — Obrigada... — falou, com os olhos baixos. Ele sorriu, indo em direção à porta: — Agora termina de comer. Depois, descanse. Amanhã a gente vê o que fazer. Posso te levar ao médico, obstetra. — A farmácia, talvez. Grávidas precisam de vitaminas, acompanhamento. Ela assentiu, ainda emocionada, e voltou a comer em silêncio. Dom saiu do quarto devagar, deixando a porta entreaberta. No corredor, parou por um instante, respirando fundo. Algo dentro dele estava mudando. E ele sabia: aquela mulher não era apenas uma visita passageira. Ela era o motivo que o fazia não poder desistir. Pelo menos naquele dia. Marvila terminou de comer em silêncio, limpando os olhos discretamente com a ponta dos dedos. O prato estava vazio, e o bebê começou a mexer, agitado, como se quisesse agradecer à refeição. Ela esperou um pouco e saiu do quarto, levando a bandeja, quando passou pela sala, falou desconcertada: — Obrigada, de verdade. Estava delicioso, o bebê gostou, ele se agitou muito. — disse ela, com a voz baixa. Dom assentiu, levantando-se para pegar a bandeja. — Fico contente. Amanhã irei ao mercado, a geladeira está vazia. — Se precisar de qualquer coisa, é só chamar. Eu tenho sono leve. — Meu quarto é perto do seu. Mas eu durmo na sala, quase todas as noites. Ele foi para a cozinha, levando a bandeja até a pia. Ela ficou um pouco parada, em pé, observando-o, e retornou para o quarto, sem saber como se comportar na casa de um estranho. Depois, Dom subiu para o quarto onde costumava ficar, mas não dormir. A casa era grande, cheia de cômodos que agora pareciam vazios demais. Cada porta fechada guardava uma memória, cada corredor ecoava o silêncio de uma vida que já não existia. Ele observou a porta do quarto de Marvila, entreaberta, passou reto e foi deitar, pensando na sorte que ela teve. Deitou-se na cama, mas não conseguiu dormir. Ficou olhando para o teto, com os braços cruzados atrás da cabeça, enquanto a chuva continuava a cair lá fora. Nem trocou as roupas, achando que ela podia chamá-lo às pressas. A ironia do destino o consumia. Sua esposa, Ana Carolina, tirou a própria vida ao descobrir que ele a havia traído, depois de anos de perdas e tentativas de formarem uma família. As lembranças o perseguiam, a ausência que levou tudo, a culpa que ficou. Enterrou sonhos no mesmo gesto e, desde então, carregava um luto que não sabia como abandonar. E agora, ali estava ele. Ajudando uma mulher grávida, abandonada, fugindo de um passado violento. Uma mulher que carregava uma vida dentro de si, mas sem ninguém ao lado. E, ainda assim, ela queria aquele bebê. Dom sentia que não podia simplesmente seguir com o plano que havia traçado para si. Não agora. Não com Marvila ali. Porque o pior poderia acontecer, ele começou a pensar, reflexivo: “Talvez eu possa deixá-la com um bom dinheiro. Uma das minhas casas, para ter segurança. Tudo o que ela precisa para começar de novo. E depois... depois eu sigo com o que tinha decidido.” Mas, mesmo enquanto pensava nisso, algo dentro dele resistia, receio de ela ser ingênua e perder o que ganhasse. Como se a presença de Marvila tivesse acendido uma luz tênue em meio à escuridão que ele habitava há anos. Ele não tinha herdeiros diretos. Sua família tinha boas condições, seus sobrinhos eram estudados, todos bem criados. Seus irmãos tinham as próprias coisas, comércios, casas de aluguel. Ele virou-se na cama, inquieto. O som da chuva parecia mais suave agora. E, pela primeira vez em muito tempo, Dom não se sentia completamente sozinho. Esperou ansioso pelo amanhecer, queria saber se Marvila tivera mais contrações. O sol ainda mal havia tocado as janelas da casa quando Marvila se levantou, curiosa e apreensiva. A casa estava silenciosa, envolta por aquele tipo de paz que só existe na madrugada. Ela caminhou descalça até a cozinha, com os cabelos bagunçados, a roupa amassada. Estava faminta, com a barriga roncando. Tomou água e começou a limpar a cozinha, lavando a louça, um gesto de gratidão. Mesmo com medo, abriu a geladeira, encontrou uma panela com o resto do arroz do jantar e, sem pensar muito, pegou uma colher e começou a comer ali mesmo, em pé, com o olhar atento à porta, como se estivesse cometendo um delito. Dom havia acordado pouco depois, tomou banho. Vestiu-se com a mesma simplicidade de sempre, calça de moletom, camiseta escura lisa, e foi direto ao quarto de hóspedes. Queria ver como Marvila estava, se havia dormido bem, se precisava de algo. Mas, ao abrir a porta, encontrou o quarto vazio. Franziu a testa e saiu à procura dela pela casa. Ao chegar à cozinha, parou na porta, a observando em silêncio. Marvila estava ali, com a panela na mão, comendo deliciosamente o arroz gelado puro, ficou com os olhos arregalados ao perceber que havia sido flagrada. — Me desculpa... — disse ela com a boca cheia, largando a panela de imediato. — Eu estava com fome... não queria incomodar... Dom se aproximou, sem qualquer sinal de reprovação. Começou a rir, surpreso. — Você pode ficar à vontade. Essa casa é grande demais pra continuar vazia. — disse, com um tom divertido. — E, pra ser sincero, não tem quase nada aqui. Eu vou ao mercado daqui a pouco. Vamos encher essa geladeira. — Afinal, você ficará hospedada aqui. Coma, pode comer. Marvila sorriu, tímida, ainda constrangida, pegando a panela novamente. — Eu agradeço... mas não quero abusar da sua hospitalidade. Hoje, eu vou embora. Já fiquei demais. Dom a olhou por um momento, pensativo, enquanto colocava a água para ferver. Havia algo nela que o tocava profundamente, talvez a força disfarçada de fragilidade, talvez o fato de que, pela primeira vez em muito tempo, ele se sentia útil. — Olha, ninguém da emprego a uma grávida. — Você não quer... um emprego? — perguntou, com naturalidade. — Minha casa precisa de alguém. Alguém que cuide, que mantenha tudo em ordem. — Você poderia ficar. Trabalhar aqui. Ter um lugar seguro. — Claro, quando se recuperar do nascimento. Posso pagar um salário mínimo, te dar moradia e alimentação, sem descontar nada. Marvila ficou em silêncio, surpresa. Seus olhos se encheram de uma mistura de alívio e medo. Era uma oferta generosa, mas também inesperada. Ela abaixou o olhar, pensativa. — Eu... não sei o que dizer, Dom. É muita responsabilidade. Dom deu um leve sorriso, colocando o pó no coador de café. — Diz que vai pensar. Eu gosto, de crianças. — E come direito. Não precisa se esconder pra isso. Tudo o que tiver aqui, você pode comer. — Menos café, né? Sabe que não pode? Ela riu, ainda tímida, e foi sentar-se à mesa. — Não sei nada disso. Que vergonha. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu que talvez o mundo estivesse lhe dando uma chance. E pôde ser notada como uma gestante normal. Ela achou graça do quanto ele dava atenção a isso e, mesmo sem admitir, se sentiu menos sozinha.Capítulo 59 - Parte 3O instinto falou mais alto e realmente iriam todos morrer.Em minutos foram indo pelo túnel, conseguiram alcançar uma rede de esgoto, com muito esforço foram para lados opostos, era sua chance de fugir e voltar ao morro, onde dificilmente seria encontrado.Ainda confuso, ele foi seguindo, com o rosto coberto fugiu sem ter a identidade reconhecida. A confusão era tamanha que o presídio todo parecia uma zona de guerra, demoraram muitas horas para notar a falta deles, a rebelião durou a madrugada toda e ele foi para longe, passou por uma região de usuários, ganhou roupas sujas e um boné, usando da inteligência foi indo pela mata de uma cidade a outra, cada vez mais longe, roubou comida, roupas, sapato, de uma casa classe média, fez a barba e ainda acariciou o cachorro que deveria proteger a casa de invasores.Andando o mais rápido que conseguia sem chamar atenção, pegando carona, foi parar em outro estado, ajudou a descarregar um caminhão de batatas para ganhar dinh
Capítulo 58 - Parte 3Ela foi embora arrasada, no dia seguinte voltou para sua casa no sítio com familiares e amigos. Ela morava em uma casinha simples de maderite, ficou com o contato do advogado dele e um dinheiro que recebeu, cinco mil reais, usou para pagar os custos da viagem, comprar mantimentos, algumas peças de roupas mais simples e confortáveis para grávida.Cada centavo foi muito bem aproveitado, o restinho foi usado para arrumar o telhado que estava com goteiras e comprar uma cama simples usada de casal, porque a de sua mãe tinha sido vendida para ajudar a pagar o velório.Todas as pessoas lá eram muito humildes também, a maioria simplória e trabalhavam na roça. A ajudavam dando verduras, frutas, coisas que tinham em seus quintais, leite de vaca, o básico não faltava. Esmeralda sempre ajudou com as crianças desde nova, era como uma babá e mesmo grávida, se prontificou em continuar ajudando. A verdade é que ela voltou achando que nunca mais iria vê-lo, se conformou com a rea
Capítulo 57 - Parte 3Mais de um mês depois, chegou o grande dia. A Priscila foi quem se ofereceu para ajudar, e enquanto conversava sobre o "jumbo", notou que Esmeralda estava diferente. O Dudu foi quem deu dinheiro para comprar tudo, do bom e do melhor.Ao ser questionada se estava grávida, Esmeralda só falou que não podia deixá-lo, Priscila não disfarçou o espanto:— Espero que seu Deus faça tudo isso valer a pena.— Porque é um caminho que não tem volta!Esmeralda respirou fundo:— Meu Deus é do impossível. Eu creio!Admirando a garra daquela jovem tão crente, cheia de fé, Priscila ajudou a arrumar cada prato, explicando como deveria ser.A irmã do pastor quem levou Esmeralda e relembrou que Mió deu dinheiro para a cirurgia do filho dela quando era soldado e nunca cobrou. Ela também já tinha notado a gravidez, mas ajudou a esconder.Seria a primeira vez que Esmeralda entraria em uma prisão, estava muito nervosa e caminhava bem devagar.Mió foi pego de surpresa quando foi avisado n
Capítulo 56 - Parte 3Ele não podia ficar lá, aproveitando da distração, foi até uma de suas biqueiras mais baixas e pegou uma roupa de gari. Aquele horário era de pico, com a saída do morro, muita gente indo trabalhar. De boné e cabisbaixo, foi até a casa da Priscila, chegou quase arrombando a porta a chamando. Ela abriu assustada, com medo, porque sabia que iriam invadir. O Dudu estava se armando com os soldados lá em cima do morro.Ela perguntou o que ele queria, com o menino nos braços. Ele a encarou sério:— Por.ra, Priscila, me dá o moleque pra eu descer, sair daqui, ninguém me viu, vai ser mó rápido, todo dia cê desce pra trabalhar, todo mundo te conhece.Ela começou a negar, apreensiva:— Não, pelo amor de Deus, se me pegam eu vou presa e quem vai criar meu filho.— Não dá! Pega qualquer outro aí. O Dudu.Ele interrompeu:— Car.alho, o Dudu vai cair, vão te pegar logo mais.— Po.rra, desce comigo, o moleque me conhece, se eu pegar outra criança vai dar perreco.— Car.alho. Bor
Capítulo 55 - Parte 3Ele foi rude:— Presta atenção, mina.— Veja bem como cê fala comigo.— Tá surda, caral.ho?Ela foi sentando ao lado dele, beijando seu pescoço:— Eu só queria tran.sar gostoso e você tá dando para trás?— Tu é ban.dido mesmo? Tá com medo de brochar?Ele mudou a feição e sentindo seu corpo fervilhar pela afronta, a segurou pelo braço com força a afastando:— Cê tá me tirando sua filha da p.uta, v.adia.— Dessa vez vou deixar passar, cê vai sumir daqui e não abrir o bico pra ninguém, se não cê tá fo.dida.A jogou no sofá, ela foi pegando as roupas, saiu às pressas, ele foi no quarto, pegou algumas coisas que eram de Kel, perfume, hidratante corporal, vestidos, colocou tudo em um saco de lixo, ficou o resto da noite lá, bebendo, se drogando sozinho, só foi embora cedo.Ele estava furioso com sua própria atitude, lá dentro, bem no fundo ele sabia que havia uma chama que continuava sempre acesa por Esmeralda e aumentando a cada dia que passava ao lado dela, isso o de
Capítulo 54 - Parte 3Esmeralda se afogou com o suco:— O que? — A senhora está enganada. Eu?— Grávida?— Isso é loucura, não dá. Eu tomo aquela injeção!— Não, isso não. Meu Deus.— Senhor, tem misericórdia de mim!Chica a acudiu batendo em suas costas:— Você usa algum anticoncepcional ou algo do tipo?Ela estava tremendo nervosa:— Injeção para não ficar menstruada.— Não sei direito dessas coisas, minha mãe me levava para tomar, ela faleceu antes de eu mudar para cá.Chica a amparou, deu água com açúcar:— Acho que tudo está respondido, menina. Tinha que usar camisinha, se prevenir.— Se eu fosse você, pediria para o Mió levá-la num ginecologista urgente.Esmeralda não acreditava naquilo, ela só desconfiava desde o início que tinha algo errado com seu corpo, achou que era por estar transa.ndo muito, as cólicas, sei.os sensíveis, sua intimid.ade diferente, também não tinha noção dos dias, das semanas. Teve medo de estar doente sendo um fardo maior ainda para ele, achou que se não







