INICIAR SESIÓNAproveitando o breve momento de silêncio na cozinha, Dom sorriu, perdido em uma lembrança agridoce. Olhou para Marvila, que comia o arroz gelado com um apetite voraz, e pensou em Ana Carolina. A gravidez dela havia sido um misto de anseios e alegrias contidas, um período em que a casa parecia transbordar de esperança e planos para o futuro. A memória de Ana comendo guloseimas inusitadas no meio da noite trouxe um calor nostálgico ao seu coração, um contraste com o frio que o consumia há tanto tempo.
— Você gosta de café? — ele perguntou, com sua voz suave. — Também não pode passar vontade. Marvila parou de comer e sorriu timidamente, balançando a cabeça em negativa. Dom coou o café com calma, encheu uma xícara para si e comentou que não conseguia viver sem, dizendo que até dor de cabeça sentia se não tomasse. Marvila, então, confessou que sua bebida favorita era água, e ele prontamente encheu um copo para ela, elogiando a escolha. Justo quando ela ia pegar o copo, um chamado do lado de fora interrompeu a quietude. — Ooo, Dom! — uma voz masculina e grave ressoou do quintal. Dom abriu a porta e, para a surpresa de Marvila, entrou de volta na cozinha acompanhado por um senhor de cabelos grisalhos e rosto marcado pelo tempo. Era Chicho, o jardineiro, um de seus funcionários mais antigos. — Chicho, esta é a Marvila. — disse Dom, olhando para o homem com um semblante sério. — Ela é filha de um amigo meu e vai ficar por aqui por algum tempo. Marvila se levantou, envergonhada, mas com um sorriso educado. Estendeu a mão para Chicho, que a apertou com gentileza. Ela o cumprimentou de forma tão cordial e simpática que Dom não pôde deixar de admirar sua delicadeza. A presença de Marvila parecia suavizar o ambiente, preenchendo o espaço antes solitário com uma energia nova e leve. Chicho olhou para a barriga dela com curiosidade e perguntou: — É menino ou menina? Marvila, com a mesma calma, respondeu: — Eu não sei. Quero descobrir só quando nascer. — Boa sorte e muita saúde pra vocês. — disse Chicho, com um sorriso gentil, antes de ir para o quintal retomar seu trabalho. Marvila lavou a panela do arroz e os copos que usaram. Quando foi procurar os guardanapos para secar a louça, Dom a viu. — Pode deixar a louça aí. — ele disse, com uma voz descontraída, pegando as chaves do carro. — Quero te fazer um convite. Marvila o olhou, curiosa. — Você me acompanha até o mercado? — ele continuou. — Não levo jeito pra fazer compras. Minha vida se resume ao trabalho e a essa casa. A preocupação transpareceu no rosto de Marvila. — As pessoas... não vão falar? Maldar de você, de mim? Não quero te trazer problemas. Dom se aproximou dela, sério e gentil. — Não se preocupe com isso. Garanto que ninguém vai falar nada. Você vai trabalhar aqui, ter o seu bebê em segurança. E se alguém perguntar, vamos dizer que você é filha de um amigo meu. A resposta dele a tranquilizou. Marvila assentiu, e um sorriso de alívio e gratidão surgiu em seu rosto, enquanto ela o acompanhava em direção à porta. Eles seguiram para a sala, e Marvila, sentindo-se um pouco mais à vontade, olhou em volta com curiosidade, reparando. A casa era tão grande e silenciosa que ela sentiu vontade de xeretar. Ela disse que ia se trocar, se arrumar melhor. Dom olhou para ela com ternura, com seus olhos fixos na barriga que se destacava sob o vestido solto. — Não precisa se preocupar com isso, Marvila. Essa roupa está ótima, e com essa barriga... — ele sorriu de canto, e um brilho suave e nostálgico passou por seus olhos. — Você está linda. Marvila sorriu timidamente e foi para o quarto de hóspedes. Vestiu um cardigã rosa simples por cima do vestido, arrumou o cabelo em uma trança e calçou a sandália gasta. A ansiedade e a apreensão a consumiam enquanto ela se preparava para sair. Quando se preparava para descer as escadas, Dom apareceu na sala. Sua voz era gentil, mas o tom sério não se desfez. — Segure no corrimão, moça. Tome cuidado. Marvila sorriu e obedeceu sutilmente, segurando o corrimão com delicadeza. A coragem de fazer perguntas veio à tona. — Você fica aqui sozinho? Essa casa tem tantos quartos. E esse quintal, é grandão. Dom se dirigiu à porta e a abriu para que ela passasse. — Sim, minha família vem passear. Às vezes. Gosto muito dessa casa e das lembranças. Marvila saiu e parou, um pouco desconcertada, esperando por ele. — Faz tempo que... sua esposa... Dom seguiu para a caminhonete, cabisbaixo e sério. — Ela faleceu a alguns anos. — respondeu, com a voz embargada. Ele abriu a porta para ela e estendeu a mão para ajudá-la a entrar. Marvila aceitou a ajuda, apreensiva, mas a curiosidade foi mais forte. Quando Dom entrou e ligou o carro, ela perguntou: — E você se casou de novo? Notei que usa aliança. Ele a olhou por alguns instantes, com o olhar pesado, e ligou o carro. — Não. — respondeu, apertando o volante, visivelmente incomodado. Ele suspirou, irritado, mas Marvila não se intimidou e perguntou, desconfiada de tanta gentileza: — Posso perguntar do que ela faleceu? Dom apertou o volante e, sério, preferiu mentir. — Atropelada. — respondeu. Marvila permaneceu em silêncio. Ele parou o carro em uma agropecuária e, ao descer, disse que não demoraria. Voltou com dois sacos de terra, que colocou na caçamba da caminhonete. A camiseta estava com algumas manchas, e Marvila notou o descaso de Dom consigo mesmo. No mercado, ele parou o carro e, em silêncio, abriu a porta para ajudá-la a descer. Marvila, constrangida e emotiva, se desculpou: — Me perdoe por ter falado aquelas coisas. Eu sempre falo demais. Ele sorriu sutilmente, percebendo que ela estava a ponto de chorar. — Você não tinha como saber. Vamos às compras. Você sabe cozinhar? Marvila enxugou os olhos marejados e respondeu que adorava cozinhar. Ele pegou dois carrinhos, entregando um para ela. — Você leva os produtos de limpeza e higiene, e eu pego o resto. Então, Marvila, você trouxe alguma coisa para o bebê na mala? Ela entrou no mercado, cabisbaixa. — Não, quer dizer, sim... um macacão, e só. Eu ia até o cras, pedir doação. — Não! — Dom respondeu, com a voz firme, como se estivesse dando uma ordem. — Você vai ter tudo novo. Eu vou te ajudar. Vamos começar as compras. Desconcertada, Marvila apenas concordou com a cabeça. Ele começou a encher o carrinho sem hesitar, três sacos de arroz, cinco de feijão, seis de farinha, farofa, fubá, sal, milho de pipoca. Marvila ficou parada, observando a cena, cada item uma prova do quão fora de seu alcance aquilo parecia. — Dom, eu não posso aceitar tantas coisas. Não vou me sentir bem. — ela disse, apreensiva. — E bebês não entendem de coisas novas. Eu prefiro buscar doações, como eu planejei. Um sorriso sutil se formou nos lábios de Dom. — Depois decidimos isso. Quer pegar alguma coisa nesse corredor? Qualquer coisa. Pode escolher. Fique à vontade. Ela balançou a cabeça em negativa, e eles continuaram. Dom enchia o carrinho, passando por um corredor após o outro. Marvila sorria, imaginando a fartura que teria para comer. Ela percebeu que ele não tinha o menor jeito para fazer compras e, em alguns momentos, não conseguia segurar o riso quando ele exagerava ou pegava algo errado. Eles já haviam passado por mais da metade do mercado, e entraram, na seção de higiene, Dom pegou um xampu e um desodorante para si. — Pode pegar o que você precisa. — ele disse, estendendo a mão para o corredor. Envergonhada, Marvila pegou um desodorante roll-on simples e barato. Ele apontou para as prateleiras cheias de xampus e cremes, sorrindo. — Pode pegar. Essas frescuras de mulher eu não entendo, e você não quer que eu escolha sozinho, não é? Marvila se aproximou das prateleiras, com a timidez evidente em seus gestos. De maneira humilde, começou a pegar os produtos mais baratos, um kit simples de xampu e condicionador, e um hidratante corporal de algodão, grande e simples. Dom olhou para ela e depois apontou para os óleos corporais que estavam por perto. — Você não usa esses aí? Na barriga? Pra... — ele hesitou, tentando encontrar a palavra certa, mas a intenção era clara. Marvila sorriu sutilmente, com seus olhos baixos. — Não, eu não pude me cuidar. Minha vida mudou muito. Eu não sou assim, sabe. Sempre gostei, de me cuidar. Ela continuou a olhar para o chão, como se a vergonha a impedisse de encarar Dom. Ele se aproximou devagar, olhando para a prateleira. — Eu também não sou assim. Gosta do cheiro de amêndoas? Marvila sorriu, envergonhada, e disse que sim. Ele pegou o óleo de amêndoas mais caro e, em seguida, começou a jogar mais de dez sabonetes no carrinho, fazendo com que ela risse muito. — Esse deixa a pele hidratada. — ele disse. — Mas derrete rápido demais. Quando entraram no corredor de trás, uma senhora se aproximou, falando com ele. Ela disse que quase não o reconheceu. Dom a cumprimentou educadamente e colocou as coisas que estavam em sua mão no carrinho que Marvila segurava. De repente, a mulher mudou o semblante, arregalando os olhos ao reparar na barriga de Marvila. — Misericórdia, você já se casou e vai ser pai de novo! Que coisa. Eu não sabia. Dom ficou sério, quase a ignorando, e respondeu, pegando o carrinho com raiva. — Não, Dona Laura. Ela trabalha para mim. Vai cuidar da casa. A senhora começou a rir, constrangida, mas ainda sendo invasiva. — Ah, sim, que susto. Porque ela parece tão novinha para estar com um homem maduro como você. Quantos anos você tem, mocinha? É casada?Capítulo 59 - Parte 3O instinto falou mais alto e realmente iriam todos morrer.Em minutos foram indo pelo túnel, conseguiram alcançar uma rede de esgoto, com muito esforço foram para lados opostos, era sua chance de fugir e voltar ao morro, onde dificilmente seria encontrado.Ainda confuso, ele foi seguindo, com o rosto coberto fugiu sem ter a identidade reconhecida. A confusão era tamanha que o presídio todo parecia uma zona de guerra, demoraram muitas horas para notar a falta deles, a rebelião durou a madrugada toda e ele foi para longe, passou por uma região de usuários, ganhou roupas sujas e um boné, usando da inteligência foi indo pela mata de uma cidade a outra, cada vez mais longe, roubou comida, roupas, sapato, de uma casa classe média, fez a barba e ainda acariciou o cachorro que deveria proteger a casa de invasores.Andando o mais rápido que conseguia sem chamar atenção, pegando carona, foi parar em outro estado, ajudou a descarregar um caminhão de batatas para ganhar dinh
Capítulo 58 - Parte 3Ela foi embora arrasada, no dia seguinte voltou para sua casa no sítio com familiares e amigos. Ela morava em uma casinha simples de maderite, ficou com o contato do advogado dele e um dinheiro que recebeu, cinco mil reais, usou para pagar os custos da viagem, comprar mantimentos, algumas peças de roupas mais simples e confortáveis para grávida.Cada centavo foi muito bem aproveitado, o restinho foi usado para arrumar o telhado que estava com goteiras e comprar uma cama simples usada de casal, porque a de sua mãe tinha sido vendida para ajudar a pagar o velório.Todas as pessoas lá eram muito humildes também, a maioria simplória e trabalhavam na roça. A ajudavam dando verduras, frutas, coisas que tinham em seus quintais, leite de vaca, o básico não faltava. Esmeralda sempre ajudou com as crianças desde nova, era como uma babá e mesmo grávida, se prontificou em continuar ajudando. A verdade é que ela voltou achando que nunca mais iria vê-lo, se conformou com a rea
Capítulo 57 - Parte 3Mais de um mês depois, chegou o grande dia. A Priscila foi quem se ofereceu para ajudar, e enquanto conversava sobre o "jumbo", notou que Esmeralda estava diferente. O Dudu foi quem deu dinheiro para comprar tudo, do bom e do melhor.Ao ser questionada se estava grávida, Esmeralda só falou que não podia deixá-lo, Priscila não disfarçou o espanto:— Espero que seu Deus faça tudo isso valer a pena.— Porque é um caminho que não tem volta!Esmeralda respirou fundo:— Meu Deus é do impossível. Eu creio!Admirando a garra daquela jovem tão crente, cheia de fé, Priscila ajudou a arrumar cada prato, explicando como deveria ser.A irmã do pastor quem levou Esmeralda e relembrou que Mió deu dinheiro para a cirurgia do filho dela quando era soldado e nunca cobrou. Ela também já tinha notado a gravidez, mas ajudou a esconder.Seria a primeira vez que Esmeralda entraria em uma prisão, estava muito nervosa e caminhava bem devagar.Mió foi pego de surpresa quando foi avisado n
Capítulo 56 - Parte 3Ele não podia ficar lá, aproveitando da distração, foi até uma de suas biqueiras mais baixas e pegou uma roupa de gari. Aquele horário era de pico, com a saída do morro, muita gente indo trabalhar. De boné e cabisbaixo, foi até a casa da Priscila, chegou quase arrombando a porta a chamando. Ela abriu assustada, com medo, porque sabia que iriam invadir. O Dudu estava se armando com os soldados lá em cima do morro.Ela perguntou o que ele queria, com o menino nos braços. Ele a encarou sério:— Por.ra, Priscila, me dá o moleque pra eu descer, sair daqui, ninguém me viu, vai ser mó rápido, todo dia cê desce pra trabalhar, todo mundo te conhece.Ela começou a negar, apreensiva:— Não, pelo amor de Deus, se me pegam eu vou presa e quem vai criar meu filho.— Não dá! Pega qualquer outro aí. O Dudu.Ele interrompeu:— Car.alho, o Dudu vai cair, vão te pegar logo mais.— Po.rra, desce comigo, o moleque me conhece, se eu pegar outra criança vai dar perreco.— Car.alho. Bor
Capítulo 55 - Parte 3Ele foi rude:— Presta atenção, mina.— Veja bem como cê fala comigo.— Tá surda, caral.ho?Ela foi sentando ao lado dele, beijando seu pescoço:— Eu só queria tran.sar gostoso e você tá dando para trás?— Tu é ban.dido mesmo? Tá com medo de brochar?Ele mudou a feição e sentindo seu corpo fervilhar pela afronta, a segurou pelo braço com força a afastando:— Cê tá me tirando sua filha da p.uta, v.adia.— Dessa vez vou deixar passar, cê vai sumir daqui e não abrir o bico pra ninguém, se não cê tá fo.dida.A jogou no sofá, ela foi pegando as roupas, saiu às pressas, ele foi no quarto, pegou algumas coisas que eram de Kel, perfume, hidratante corporal, vestidos, colocou tudo em um saco de lixo, ficou o resto da noite lá, bebendo, se drogando sozinho, só foi embora cedo.Ele estava furioso com sua própria atitude, lá dentro, bem no fundo ele sabia que havia uma chama que continuava sempre acesa por Esmeralda e aumentando a cada dia que passava ao lado dela, isso o de
Capítulo 54 - Parte 3Esmeralda se afogou com o suco:— O que? — A senhora está enganada. Eu?— Grávida?— Isso é loucura, não dá. Eu tomo aquela injeção!— Não, isso não. Meu Deus.— Senhor, tem misericórdia de mim!Chica a acudiu batendo em suas costas:— Você usa algum anticoncepcional ou algo do tipo?Ela estava tremendo nervosa:— Injeção para não ficar menstruada.— Não sei direito dessas coisas, minha mãe me levava para tomar, ela faleceu antes de eu mudar para cá.Chica a amparou, deu água com açúcar:— Acho que tudo está respondido, menina. Tinha que usar camisinha, se prevenir.— Se eu fosse você, pediria para o Mió levá-la num ginecologista urgente.Esmeralda não acreditava naquilo, ela só desconfiava desde o início que tinha algo errado com seu corpo, achou que era por estar transa.ndo muito, as cólicas, sei.os sensíveis, sua intimid.ade diferente, também não tinha noção dos dias, das semanas. Teve medo de estar doente sendo um fardo maior ainda para ele, achou que se não







