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02- Privado

Author: Kaike Nunes
last update publish date: 2026-08-09 02:05:54

O que posso dizer? Naquela noite fui pra casa com aquele rosto fixo em minha mente. Queria estar pensando na aula, na matéria e em tudo que envolvesse a minha graduação, até porque aquela era a única aula daquela noite, ou seja, assunto é que não faltaria, mas não, lá estava eu pensando em Bruna, a garota que havia acabado de ver, até porque não podia nem dizer que conhecia, pois não chegou a ser o caso... ainda.

– Vai querer jantar? – Me perguntou minha mãe, assim que entrei pela porta de casa.

Ela estava praticamente deitada no sofá, com nosso cachorrinho lindo, o Pituco, em seu colo, enquanto assistia alguma programação de televisão, que eu desconhecia por falta de tempo e interesse.

Me aproximei, beijei-lhe a testa, beijei nosso totó, que me lambeu a cara com muita animação e, me largando ao seu lado sobre o sofá, respondi, dizendo:

– Jantar, eu acho que não, mas daqui a pouco vou na cozinha e vejo algo pra comer, sim, agora que você perguntou foi que percebi que to faminta.

– Você que sabe, mas se quiser, tem janta. – Me falou com carinho. – Fui no mercado antes de vir pra casa, então hoje é o dia da fartura. – Brincou.

– Esses são sempre os melhores dias. – Brinquei. – Como foi seu dia? – Perguntei pra socializar um pouco.

– Cansativo e estressante, ou seja, bem normal. E o seu?

– Volta às aulas, né... sabe como é? Não fiz muita coisa durante o dia, tava bem ansiosa, depois passei horas ouvindo sobre a mesma matéria. – Sorri.

– Na verdade tem tanto tempo que saí disso, que nem me lembro como é. – Brincou. – Fora que eu não ficava igual você na minha época, o que me enche de orgulho. Sorriu.

– Faz sentido. – Ri. – Mas enfim, meu dia foi normal, nada de muito bom e nem de muito ruim, apenas normal.

– Que bom, menos mal então, isso já é motivo pra agradecer. – Brincou. – Foi na autoescola?

– Das minhas matérias que faltam pra fechar as teóricas, só tem vaga pra amanhã, aí eu vou antes de ir pra faculdade.

– Ah sim, o bom é que tá acabando, né? Mas é assim mesmo.

– Com certeza. Enfim... cabeça ta cheia de informações... vou pro banho, ta?

– Vai sim, mas não esquece de comer, porque do jeito que você é, é capaz de enrolar e dormir, mesmo dizendo que ta faminta.

– Pode deixar. – Respirei fundo e me levantei.

Eu precisava daquele banho, por mais que não me sentisse tão suja assim, mas precisava, porque me sentia angustiada por causa daquele pensamento fixo a respeito do que havia acontecido e queria ficar um pouco sozinha pra tentar processá-lo da melhor maneira na minha cabeça... a volta de ônibus, olhando pela janela, não foi suficiente.

Debaixo do chuveiro quente, em meio a fumaça dentro do box, me encostei na parede gelada, fechei meus olhos e era como se conseguisse rever, com grande nitidez, aquela cena dentro da sala de aula, como em uma ótima cena de filme clichê.

Bruna entrando, em “câmera lenta”, depois os nossos olhos se encontrando e permanecendo conectados... seu sorriso. Realmente fazia muito tempo que não me sentia daquele jeito por ninguém e era muito estranho estar sentindo justamente por alguém que nunca havia visto em minha vida, e que não estava conseguindo não pensar... não lembrar. Aquele era o sorriso mais lindo e iluminador do Mundo. Pareço exagerada? Com certeza, mas era assim que me sentia, mesmo que contra a minha própria vontade.

Saí do banho, já vestida com minha roupa de moletom larga, até porque estava frio naquela noite, mas antes que fosse pro meu quarto, logo ouvi a voz da minha mãe que, da sala, com muito carinho, gritou:

– Vai comer!

Respirei fundo e fui, até porque ela tinha razão, eu sou do tipo que, depois que caio na cama, é difícil ter forças pra fazer qualquer outra coisa, ainda que esteja faminta, coisa que realmente estava, então sim, fui pra cozinha, torrei um pão, coloquei algumas coisas de recheio, tipo pasta de atum, sei lá, era algo que já tava pronto, aí deduzo que fosse atum por causa do cheiro, enfim... peguei um suco e fui pra sala.

– Satisfeita? – Perguntei pra minha mãe, enquanto me sentava no sofá.

Ela me respondeu sem nem me olhar, dizendo:

– Satisfeita eu estaria se isso aí fosse um prato de comida, mas ta bom, faz parte da vida adulta, pelo menos ta comendo.

– Como assim? – Perguntei achando graça, enquanto mastigava e afastava o Pituco.

– Ah, minha filha, logo você vai entender, já tive essa fase também.

– Qual fase?

Dessa vez me olhou e, com ironia, disse:

– A fase da preguiça pra comer. – Silencio. Olhamos pra televisão. Minha mãe me olhou de canto de olho e perguntou. – Cadê seu celular?

– Deixei no meu quarto, por quê?

– Milagre você não estar com a cara afundada nele. – Riu. – Você ta bem?

– Só to casada, mentalmente cansada, no caso.

De fato eu não pegava no meu telefone desde que havia chegado em casa e isso realmente não era comum, ainda mais nos dias de hoje, onde tudo gira em torno dessa tecnologia, não que eu super soubesse como era antes, mas deduzo pelo tanto que minha mãe me perturba por causa disso e usa exemplos de seu passado pra enfatizar coisas a esse respeito... enfim.

Terminei de comer e ainda fiquei pela sala, como se estivesse anestesiada, ou em choque, não sei dizer, só sei que tudo estava ainda meio confuso por dentro e, por mais que olhasse pra televisão, nada realmente enxergava além dos olhos e do sorriso de Bruna naquela sala de aula.

Por um segundo recobrei a consciência balançando sutilmente a cabeça e, respirando fundo, me levantei com minha sujeira. Obviamente lavei a louça que sujei, porque é isso que adultos funcionais fazem, depois fui até minha mãe para lhe beijar o rosto e desejar boa noite.

– Deus te abençoe. – Me disse ela enquanto enchia meu rosto de beijos.

– Boa noite, mãe. – Falei, por fim, depois de também encher Pituco de beijos.

Fui pro meu quarto, acendi apenas o meu abajur, me deitei e finalmente senti o silencio que tanto precisava. Olhei pro teto. Aquela luz amarelada era perfeita pra combinar com minhas emoções. Fechei meus olhos, respirei fundo e novamente era como se a visse diante de mim, sorrindo com o canto da boca... quando me dei conta eu estava mordiscando meu lábio inferior e isso era muito bizarro pra mim, que só queria focar nos meus estudos... juro.

Abri novamente meus olhos, olhei ao redor e avistei meu celular sobre a cama, a poucos centímetros de mim. Eu o peguei e desbloqueei, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, ele começou a tocar.

– Oi, Ju. – Atendi, com desânimo.

– Viu o W******p?

– Ainda não, por quê?

– O professor colocou a gente no grupo da matéria, aquele que ele tinha comentado hoje na aula.

– Ah sim, legal... né?

Juro que não estava entendendo o porquê daquela ligação e o que de importante, ou interessante, poderia haver naquela informação, por isso meu tom em resposta era sempre de desânimo, ou algo assim.

– Você não viu mesmo o que houve depois? – Me perguntou ela.

– Te falei que ainda não. Eu cheguei agora pouco, troquei umas palavras com a minha mãe e fui pro banho, só agora que deitei e peguei no celular, mas aí você ligou, então não, eu não to sabendo de nada. – Ri. – Fala logo porque você ta começando a me deixar nervosa.

– Pois então. – Voz de riso. – Sua paquera pegou nossos contatos e nos colocou em outro grupo, também da matéria, mas sei lá, né.

Naquele momento eu me sentei tensa em minha cama enquanto sentia todo o meu corpo se arrepiar. No instante em que Julia havia me dito que o professor nos colocou em um grupo, eu não havia me atentado que Bruna também estaria lá e muito menos imaginaria que ela pegaria nossos contatos e nos colocaria em outro grupo.

– Eu vou olhar aqui, depois falo contigo. – Foi o que consegui dizer, tamanha era minha curiosidade.

Desligamos e de imediato abri meu aplicativo em busca daquelas informações e lá estava, não só os tais dois grupos, mas também uma mensagem enviada diretamente pra mim, uma mensagem privada, marcada com o número de telefone dela, já que nem seu nome eu sabia, mas com sua foto... que era linda, por sinal.

– “Oiê, me chamo Bruna. A gente se viu hoje na aula do Gil. Você e sua amiga devem ser de outra graduação, né? Sejam bem vidas.”

Essa era sua mensagem no meu privado, terminada com um emoji sorridente, o que expressava uma grande simpatia da parte dela, mas pra mim, que sou escaldada, aquilo era simpático demais pro meu gosto... ou costume. Abri o grupo do professor e não havia nada demais, ele era bloqueado para mensagens, só administradores podiam falar, então abri o outro, que parecia ser só dos alunos, e lá haviam poucas mensagens de boas vindas, também encabeçadas por Bruna.

– “Alguém te mandou mensagem no privado te dando boas vindas? – Perguntei pra Julia.”

– “Não, por quê?”

Larguei o celular como quem toma um susto e fiquei em choque, afastada e olhando pra ele como se fosse um monstro na minha frente. O que estava acontecendo? Era o que me perguntava, mas sabia que não podia surtar, porque a grande probabilidade era de que não estava acontecendo nada demais ali e eu que estava viajando nas idéias... será?

– “Oi Bruna, prazer, me chamo Ana. Tudo bom? A gente realmente não é da mesma graduação não e sim, a gente se viu hoje na aula do Gil. Agradeço pelas boas vindas.”

Também finalizei com um emoji simpático antes de desfalecer em minha cama e senti como se fosse morrer. Bruna havia mandado mensagem pra mim, mas não mandou pra Julia. Em sua mensagem, ela mencionou que nos vimos em sala de aula, ou seja, ela citou o que aconteceu entre nós... mas por que ela faria isso? Por quê?

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