LOGINNão acredito que a minha rotina seja algo de grande interesse e juro que não vou dar muita ênfase a essas demais coisas, até porque não tem muito sobre o quê falar, afinal de contas, minhas únicas atividades são a auto-escola, a faculdade e o estágio, que também faço pela faculdade, mas que não me ocupam vinte e quatro horas por dia... embora as atividades das aulas me suguem bastante, mas é mais ou menos isso.
Eu moro com a minha mãe, só eu, ela e nosso Pituca, mas nossa família é grande, formada por mais umas três tias e dois tios, todos casados e alguns com filhos. Minha vida é relativamente equilibrada, não estamos nadando em dinheiro, mas também não passamos por necessidades... enfim. Outra coisa que talvez seja interessante dizer é que, dessa matéria do professor Gil, eu só tenho duas aulas por semana, uma na terça e outra na sexta, ambas à noite. Acho bem tendencioso ter aula na sexta à noite, embora alguns considerem ruim, pela ideia de atrapalhar as “noitadas” e tals, mas eu gosto. De qualquer forma, apaguei logo depois do que rolou sobre as mensagens, não cheguei nem a comer nada, quando vi, já era o dia seguinte. Acordei zonza, embora muito descansada, já que havia dormido relativamente cedo, tanto que nem precisei de despertador e comecei logo a me ajeitar pra ir pra auto-escola. – “Você não me respondeu ontem o que eu te perguntei.” – Mensagem da Julia, que encabeçava meu histórico. – “Foi mal, cara, acabei apagando aqui.” Como estava me arrumando pra sair, quase não dei muita ênfase ao celular, mas depois que já estava tudo pronto e tinha alguns minutos de sobra, me sentei no sofá e o abri de verdade pra olhar minhas mensagens. – “Sexta-feira senta com a gente, você e a sua amiga.” Bruna havia me mandado isso na madrugada da noite anterior enquanto eu já estava dormindo. Mais uma vez fiquei paralisada olhando pro celular tentando me convencer de que o que estava acontecendo era extremamente natural, por mais que só estivesse acontecendo comigo, segundo Julia me havia dito. – “Depois respondo sua pergunta, agora to na correria por causa da auto-escola.” – Mandei pra Julia. Já pra Bruna, mandei. – “Pode ser, a gente senta com vocês sim.” Mesmo que Julia não quisesse, ela não teria escolha, porque eu queria muito entender o que estava acontecendo, principalmente no meu privado. Por que essa garota tava me mandando mensagem? Por que essa garota tava falando de sentarmos juntas? O grupinho dela já era grande, não tinha o porquê eles quererem mais alguém por perto, ainda mais duas novas pessoas. Saí correndo pra auto-escola e depois pra faculdade, já que eu tinha outras aulas e matérias além daquela bendita. Julia chegou atrasada, então nem chegamos a conversar, embora ela estivesse com cara de chateada, mas não escapei do intervalo. – Será que agora você pode me responder? – Perguntou ela. – Então... eu te perguntei aquilo ontem porque a Bruna me mandou mensagem no privado pra me dar as boas vindas e achei isso muito estranho. Julia ficou com cara de surpresa e em silêncio por alguns breves instantes. Seus olhos começaram a ir de um canto ao outro, como se estivesse processando muitas informações dentro de si. Ela balançava a cabeça pra frente e pra trás, como se dissesse “sim” pra alguma coisa, enquanto pensava, até que me olhou, respirou fundo, e disse: – Suspeito isso, hein. – Tu fez esse drama todo pra dizer só isso? – Perguntei frustrada. – Ué, o que você queria que eu dissesse? Nem a mensagem você me mostrou. – Sorriu. – Se você queria ver a mensagem era só dizer, né. Peguei o celular, desbloqueei, coloquei na mensagem e a mostrei pra Julia, que ficou mais alguns segundos em silêncio olhando para o aparelho. Era incrível como aquela falta de comentário estava me angustiando, porque seria maravilhoso se ela pudesse me ajudar a pensar a respeito daquilo. – Tu já disse que eu vou sentar com eles sem antes me perguntar se eu topo? – Lógico. Você é fofoqueira demais pra não sentar. – Isso é fato. – Então pronto. – Não, mas eu não to questionando isso não, eu sei que você me faria sentar de qualquer forma, só achei engraçado você responder sem nem me perguntar a respeito. – Sorriu. – Acho que o nível de intimidade aqui já nos permite alguns abusos. – Fato. – Tá bom, agora me diz o que você acha do que você leu. – Olha, não tem muita coisa aqui pra poder achar realmente alguma coisa, mas como ela mandou isso só pra você e, de certa forma, ela mencionou aquele momento estranho entre vocês... – Que momento? – Interrompi perguntando. – Aquela troca de olhares de vocês... enfim... se eu não tivesse visto aquilo, talvez não fosse enxergar nada demais, por mais estranho que seja, já que mandou só pra você, mas, justamente por ter visto o que vi, é que acho meio suspeita essa mensagem dela. Agora, a questão que não quer calar é: Por que você está tão incomodada com isso tudo? – Eu não to incomodada. – A gente estuda junto há dois anos... te conheço, né. – Mas é sério, eu não to, eu só achei estranho e queria saber se era uma impressão só minha... foi só isso. – Foi só isso sim... sei. Pra ser sincera, Julia tinha razão, mas não queria abordar aquele sentimento ainda, até porque não entendia nem o que estava sentindo e não queria achar que realmente sentia alguma coisa por Bruna, ainda mais porque nem sabia quem aquela garota realmente era, mas sabia que sentia sim alguma coisa, isso era fato... enfim, eu só queria saber se era recíproco, ou não... só isso.O período finalmente se encerrou e entramos de férias, mais que merecidas. Meu sentimento era de alívio e de dever cumprido, pois consegui manter minhas notas em alta, independente do meu estado emocional, o que foi uma tremenda vitória. Quem faz faculdade sabe como é, ou seja, mesmo estando com o emocional em dia, é uma luta manter as notas... embora ninguém nunca está bem de verdade. Concluí também a parte teórica da auto-escola, fiz minha prova e passei, o que também foi uma tremenda vitória, me restando agora fazer a parte prática, que, pra muitos, é a parte mais difícil do processo... veremos. No mais, aproveitei minhas férias pra descansar, arejar minha cabeça, ficar mais com a minha mãe e meu cachorro, mas também dei umas voltas com a Julia. Não vou ser hipócrita, beijei algumas pessoas numa balada ou outra, mas quem pode me julgar? Não foi nada sério, na verdade me deixaram com mais saudade dela... pelo menos tentei. Eu ainda estava bloqueada e conferia isso quase todos o
Eu continuava bloqueada em todas as redes sociais, o que era muito estranho, já que Bruna havia ido embora e largado o meliante, mas, depois daquelas últimas conversas esse fato não me machucava mais, porque vi que não era algo pessoal comigo, ainda mais porque ela havia dito que me amava.Era estranho ir pra faculdade e saber que não iria vê-la, o próprio banheiro não era mais o mesmo, por mais complexo que seja afirmar tal coisa, mas era assim que as coisas eram. Todos os dias me sentava no mesmo lugar, longe do antigo grupo, porque Leo ainda se fazia presente... pelo menos no começo.Alguns podem se perguntar sobre o que aconteceu com ele, já que era muito injusto que, depois de tudo, Leo saísse impune, mas as únicas informações que tenho a respeito era que ele quis e foi até lá, mas foi escorraçado pelos parentes dela e, parece, inclusive, que levou uma surra... isso segundo a Julia.Algumas coisas são muito complicadas no nosso País e nos tempos em que estamos, porque a agressão
Por mais que estivesse tudo dito e definido, ainda assim não me sentia bem ali sentada com Julia. Minha perna balançava desesperadamente, porque minha ansiedade estava gritando dentro de mim. O que fazer? É isso? Acabou assim? Fico aqui comendo como se nada tivesse acontecido? – Você não ta se agüentando, né? – Me perguntou Julia.– Não to... não sei o que fazer, já fui atrás dela, já conversamos, mesmo que rapidinho, mas sei lá, parece pouco pra mim.– Olha, pelo tempo que a gente ta aqui, ou ela já foi embora, ou ta pra ir... quer ir até lá? Se quiser eu vou contigo.Fechei meus olhos e respirei fundo enquanto minha perna continuava a se sacudir. Realmente não havia mais o que dizer, mas acho que eu precisava ver, como se isso fosse a confirmação do que já estava dito. Acabou? Acabou mesmo? Esse era o nosso fim? Depois de tudo que vivemos e sentimos, era assim que íamos terminar?Me levantei afoita e sai andando com Julia vindo atrás de mim e nem sei que fim deu ao que estávamos co
Sem esperar, Bruna me abraçou com tanta força, que fiquei sem reação. Seus braços me apertavam e ela chorava copiosamente. Aquela parecia uma reação muito mais inconsciente do que consciente. Eu a abracei de volta, queria que se sentisse em um ambiente seguro.– Desculpa... – Soluço. – desculpa. – Disse ela ainda em meus braços.Era tão dolorido vê-la naquele estado, nunca pensei que isso aconteceria, ainda mais comigo envolvida nos motivos. Imagina você ter em seus braços a pessoa que você ama enquanto ela chora de soluçar, mas não havia o que eu pudesse ter feito pra evitar que ela chegasse àquele estado, pois quanto mais me envolvesse, pior poderia ter ficado... acho.– Não precisa me pedir desculpas. – Falei.– Preciso sim. – Rebateu se afastando pra me olhar. – Eu não queria nada disso, não queria ter me afastado de você, não queria ter cedido pra aquele filho da puta, mas eu não tive escolha.– Eu sei disso, por isso to dizendo que não precisa se desculpar.– Eu vou embora. – Su
Aquela era realmente a única aula que Bruna andava faltando, segundo Lara, ou seja, ela ia em todas as demais, menos na única onde era certo de nos encontrarmos. Por que disso? Não sabia, óbvio, e não tinha como perguntar, afinal, eu continuava bloqueada, por isso não tinha como entrar em contato, por mais que quisesse.Por fim, a outra sexta-feira finalmente chegou e entrei na sala de aula ansiosa, queria ver se mais uma vez Bruna iria faltar, ou se finalmente iria aparecer. Me sentei no meu mais novo lugar, que era afastada do grupo, e esperei. Todos foram chegando e se sentando, inclusive Leo, até que, com o professor já presente, ela finalmente apareceu.Bruna se sentou com seus amigos, como no primeiro dia, só que sem olhar na minha direção. Era muito ruim ver aquilo, mas ao mesmo tempo sentia um alívio enorme por vê-la ali. Respirei fundo e troquei olhares com Julia, que parecia compartilhar de algum daqueles mesmos sentimentos que eu estava tendo.– “Nós vamos beber depois daqu
Naquele dia fui embora me sentindo mal pelo que vi, mas não havia o que eu pudesse fazer pra ajudar, afinal, qualquer ação poderia ser má interpretada, então não adiantava tentar ajudar, as coisas eram como eram e não iriam mudar por minha causa, pelo contrário, poderiam até piorar.Sei que já disse isso antes e acabei indo parar no apartamento dela, mas a vida é assim, nem sempre a gente cumpre aquilo que achamos ser o melhor, tanto que, no outro dia que tivemos aula juntos, decidi que não sentaria mais com aquele grupo e Julia me acompanhou, lógico. Todos nos olharam com uma expressão de incompreensão, mas Bruna e Leo se sentaram com seus amigos e esse era o meu objetivo. Ficamos distantes, como teríamos feito desde o começo e quase não interagimos com ninguém de lá.O clima era estranho e pesado, ao menos era o que sentia a respeito, mas era melhor assim, já que Bruna estava em uma situação delicada. Julia me olhava com um olhar de tristeza, mas pela primeira vez evitava falar a re