FAZER LOGINA moça olhou Paloma de cima a baixo, e o sorriso profissional perdeu um pouco do calor.
— Se veio para a vaga de ajudante de produção, as entrevistas são com...
Paloma sentiu o rosto esquentar. Por um instante, baixou os olhos para o próprio vestido, perguntando-se o que exatamente em sua aparência havia levado a recepcionista àquela conclusão. Ainda assim, não queria começar uma discussão antes mesmo de chegar ao homem que viera encontrar.
— Não. Eu sou prima do Charles. Tenho um horário marcado com o Sr. Monteiro.
A mudança na expressão da jovem foi imediata. O nome de Charles pareceu despertar nela alguma lembrança, porque o desdém desapareceu e deu lugar a uma atenção mais cuidadosa. Ela consultou a agenda digital e, quando tornou a olhar para Paloma, sua voz já estava mais branda.
— Ah, eu conheci seu primo. Foi uma pena o que aconteceu com ele... Mas sim, está tudo certo. Pode me acompanhar, por favor?
— Obrigada.
Paloma a seguiu, ajeitando discretamente a blusa enquanto caminhava. Tentou não pensar demais na maneira como fora recebida. Não estava ali para impressionar ninguém, muito menos para discutir por causa de uma impressão equivocada. Tinha uma questão importante a resolver e esperava que, ao final daquela reunião, pudesse voltar para a casa de tia Cida ao menos com alguma resposta.
A recepcionista a conduziu por um corredor comprido, ladeado por portas e divisórias de vidro. Viraram primeiro à esquerda, depois à direita, e Paloma percebeu que já não saberia retornar à recepção sem ajuda. Enquanto caminhavam, observou discretamente o movimento da empresa. Havia funcionários diante dos computadores, outros conversando perto da máquina de café, documentos sendo levados de uma sala a outra. Tudo parecia limpo, climatizado e organizado, mas não tão frio ou impessoal quanto ela havia imaginado.
Aquela primeira impressão a confundiu um pouco. Desde que lera as últimas mensagens de Charles, começara a formar na cabeça uma imagem nada favorável das Indústrias Monteiro. Talvez por isso tivesse esperado encontrar uma empresa sombria, cheia de homens sisudos e funcionários com semblantes infelizes. Em vez disso, via pessoas trabalhando num ambiente moderno e aparentemente agradável.
Precisava tomar cuidado para não chegar diante do Sr. Monteiro com todas as conclusões prontas. Gostava de Charles, acreditava nele e queria defender os interesses de tia Cida, mas ainda não conhecia todos os lados daquela história.
A recepcionista finalmente parou diante de uma porta dupla. No centro dela, uma placa discreta trazia uma única palavra: Presidência.
O estômago de Paloma se contraiu.
Até então, a reunião lhe parecera algo distante. Agora havia apenas uma porta entre ela e o homem que poderia esclarecer o que acontecera com Charles.
— O Sr. Monteiro vai se atrasar alguns minutos — informou a jovem. — Aceita um cafezinho ou água?
Por educação, Paloma quase recusou. Depois se lembrou das horas dentro do Celta sob aquele calor e percebeu que estava realmente com sede.
— Água, por favor.
— Claro.
A recepcionista se afastou, deixando-a sozinha na pequena sala de espera.
Paloma respirou fundo e se acomodou numa poltrona. Cruzou as pernas, ajeitou o vestido sobre os joelhos e tentou parecer tão tranquila quanto qualquer pessoa que aguardava uma reunião de negócios. Durou pouco. Alguns segundos depois, levantou-se e passou a observar os quadros na parede, apenas para ter alguma coisa com que ocupar a cabeça.
Os cabelos longos e castanhos ainda estavam ligeiramente úmidos nas têmporas por causa do calor da viagem. O vestido florido que escolhera naquela manhã, diante do espelho da casa de tia Cida, de repente lhe pareceu simples demais para aquele ambiente. Talvez uma calça mais elegante e uma camisa tivessem sido escolhas melhores. Algo que transmitisse segurança antes mesmo de ela abrir a boca.
Mas não havia mais o que fazer.
Paloma respirou devagar e lembrou-se do motivo que a levara até ali. Não precisava parecer uma executiva. Precisava apenas explicar a situação com clareza. Tia Cida perdera o filho, dependia em parte da ajuda financeira que ele lhe oferecia e tinha motivos para acreditar que Charles deixara algum direito relacionado a uma descoberta feita durante o período em que trabalhara para a empresa.
Se houvesse uma explicação para tudo aquilo, Paloma queria ouvi-la.
Continuou examinando os quadros enquanto esperava. Um deles trazia informações sobre as atividades da companhia e chamou sua atenção: Complexo Agroindustrial de Processamento da Palma e Derivados do Sertão.
Paloma se aproximou um pouco mais.
— Palma? — murmurou.
Até chegar à Paraíba, nunca havia pensado que aquela planta pudesse estar ligada a uma indústria daquele porte. Leu mais algumas informações, compreendendo apenas parte do conteúdo, e percebeu que o trabalho realizado ali era muito mais complexo do que imaginara.
Quando tia Cida lhe contara que Charles trabalhava numa empresa em Cabaceiras, Paloma criara mentalmente uma estrutura bem menor. Talvez um prédio simples, alguns escritórios e um laboratório modesto. Jamais imaginara encontrar um complexo industrial daquele tamanho, com tantos funcionários e investimentos aparentemente tão altos em pesquisa.
A descoberta aumentou seu desconforto. Não porque mudasse o que Charles havia escrito, mas porque tornava evidente o quanto ela desconhecia aquele mundo.
A recepcionista retornou trazendo um copo de água.
— O Sr. Monteiro não vai demorar.
— Obrigada.
Paloma recebeu o copo e se sentou num sofá cor-de-vinho. Ao tocar o assento, percebeu que provavelmente era couro verdadeiro. Não deveria se impressionar com aquilo, mas era difícil ignorar os sinais de dinheiro ao redor. A estrutura da empresa, os móveis, os equipamentos, tudo deixava claro que as Indústrias Monteiro eram poderosas.
E ela era apenas uma caixa de supermercado de São Paulo que havia atravessado o país para questionar o presidente daquela companhia sobre uma descoberta que nem sequer sabia explicar.
Paloma tomou um gole de água e sentiu o nervosismo crescer.
Charles trabalhara ali durante dois anos. Passara seus últimos meses entrando por aqueles corredores, convivendo com aquelas pessoas, realizando pesquisas que sua própria família pouco compreendia. Pensar nisso lhe causou uma tristeza inesperada. Na infância, os dois tinham sido próximos, mas a vida os afastara com o passar dos anos. Agora ela estava tentando reconstruir os últimos acontecimentos da vida dele através de cartas, mensagens e informações fragmentadas.
Nas últimas conversas com a mãe, Charles parecera convencido de que havia descoberto algo valioso. Mais do que isso: afirmara que não permitiria que Monteiro o enganasse novamente.
Paloma franziu a testa.
Essa era a parte que mais a inquietava.
Talvez tivesse interpretado tudo errado. Talvez Charles estivesse apenas frustrado com alguma questão profissional. Mas tia Cida havia se agarrado àquelas palavras, e Paloma não tinha coragem de simplesmente dizer à mulher que o filho provavelmente se enganara sem ao menos investigar.
Levantou-se outra vez e foi até a janela. Do lado de fora havia um pequeno jardim cuidadosamente mantido, com vegetação própria da região e cada detalhe aparentemente planejado. Observou-o por alguns segundos, tentando acalmar a ansiedade.
Não queria cometer uma injustiça.
Essa era uma coisa que precisava lembrar quando finalmente estivesse diante do Sr. Monteiro. Charles era seu primo, mas isso não significava que estivesse certo sobre tudo. Paloma conhecia o bastante da vida para saber que duas pessoas podiam enxergar o mesmo acontecimento de maneiras completamente diferentes.
Ainda assim, não sairia dali sem fazer as perguntas que precisava.
Virou-se e voltou a observar as paredes. Algumas molduras mostravam momentos da história da empresa. Uma fotografia antiga exibia o prédio original das Indústrias Monteiro, pequeno e bastante simples se comparado ao complexo atual. Ao lado, uma imagem recente mostrava o quanto a companhia crescera.
Foi então que seus olhos pousaram numa moldura menor.
A fotografia mostrava um homem de aproximadamente setenta anos, cabelos brancos e expressão serena. Vestia-se com elegância, mas o sorriso discreto e as linhas ao redor dos olhos davam a ele um ar surpreendentemente acolhedor. A pequena placa prateada abaixo da imagem o identificava como João C. Monteiro.
Paloma se aproximou.
Então aquele era o Sr. Monteiro.
Examinou o retrato com mais atenção e sentiu parte de sua tensão diminuir. Não sabia exatamente o que esperava encontrar, mas certamente imaginara alguém mais severo. O homem da fotografia parecia o tipo de senhor que conversaria com os netos durante horas e contaria histórias nos almoços de domingo.
Claro que aparência não dizia nada sobre caráter, Paloma sabia disso. Mesmo assim, foi difícil não se sentir um pouco mais esperançosa.
Talvez ele compreendesse a situação de tia Cida. Talvez soubesse exatamente do que Charles estivera falando e pudesse explicar tudo sem que fosse necessário transformar aquilo numa disputa. Paloma não estava procurando briga. Queria apenas que a tia recebesse o que fosse justo, caso realmente houvesse alguma coisa a receber.
Ficou imaginando como começaria a conversa. Primeiro explicaria sobre o AVC de Aparecida e sobre a ajuda que Charles enviava todos os meses. Depois mencionaria as mensagens e perguntaria diretamente sobre a descoberta. Evitaria acusações enquanto pudesse. Se houvesse boa vontade dos dois lados, talvez aquela situação fosse muito mais simples do que parecera quando saiu de São Paulo.
— Por favor, seja uma pessoa razoável — murmurou para o homem da fotografia, sentindo-se logo depois um pouco boba por conversar com um retrato.
Sorriu sozinha e tomou o restante da água.
Foi nesse exato instante que a porta se abriu.
Paloma se virou depressa, com o coração acelerado.
— Paloma Franco?
Mas não era quem ela esperava.
O homem que entrou era alto, muito alto, e tinha ombros largos o suficiente para preencher com facilidade o terno bem cortado. Paloma o observou por um instante, surpresa. Definitivamente não era o senhor simpático da fotografia.
Este aqui era outra história. Uma história com menos rugas e mais músculos.
Desceram do jipe com duas cestas de vime, o vento quente do litoral bagunçando os cabelos de Paloma. Assim que seus pés tocaram a areia fina e dourada, ela fez menção de correr, sentindo-se leve como há muito não se sentia.Mas César foi mais rápido.— Você está grávida. Nada de correr.Ela girou nos calcanhares, irritada, as sobrancelhas arqueadas.— Pelo amor de Deus, César! Não sou uma inválida.Ele sustentou o olhar dela, mas um sorriso brincou no canto da boca. Desde que ela lhe mostrara o teste positivo de gravidez, seis meses antes, César havia se transformado no retrato da superproteção. Às vezes, o cuidado exagerado era adorável. Outras, sufocante.Carregou sozinho as duas cestas e até a bolsa dela, que mal pesava um quilo. Abriu a cadeira de praia, ajeitou a toalha, verificou a sombra do guarda-sol. Paloma, no entanto, preferia a areia quente sob o corpo, o toque salgado do vento, a sensação de liberdade.Enquanto ele montava a mesinha dobrável com os lanches do piquenique,
Paloma arregalou os olhos quando César simplesmente tomou a mala de suas mãos, abriu o zíper e despejou todas as roupas sobre a cama.— Ficou louco?— Sim. Estou louco, Paloma. — largou a mala e apoiou as mãos na cintura, o peito arfando, tentando parecer no controle. — E você não vai embora.Ela bufou, incrédula.— Eu não estou entendendo nada, sabia? Por que não aproveita que eu estou te deixando livre?— Livre? — ele deu um passo à frente, a voz baixa, mas carregada de tensão. — Eu não sou livre desde o dia em que você entrou na minha sala, me encarou com esses olhos e ameaçou me processar. A partir dali, Paloma, eu fiquei preso em você.Ela o olhou, confusa, com o coração acelerado.— Você está mais louco do que eu imaginava. Não fala coisa com coisa. — deu um passo para trás, sentindo o ar rarefeito entre eles. — Daqui a pouco vai acabar dizendo que gosta de mim.Os olhos dele brilharam. Um sorriso lento, perigoso, surgiu em seus lábios.— Não percebeu, Paloma?— Percebi o quê?—
Nos dois dias seguintes, Cesar quase não saiu do hospital. Ficava ali, na mesma poltrona, lendo relatórios que trazia da empresa ou apenas observando-a dormir. Quando precisava ir resolver algo urgente, Bella vinha substituí-lo, e Paloma percebia o cuidado sincero da sogra.Mas ela não falava muito. Não era cansaço, nem o trauma. Era outra coisa; um silêncio que nascia de dentro, feito de percepções que se acomodavam com dolorosa clareza.No segundo dia, o médico apareceu pela manhã, confirmou que ela estava se recuperando bem e que poderia ter alta no dia seguinte. Bella sorriu, aliviada. César apenas assentiu.Quando o médico saiu, Paloma continuou deitada, olhando o teto.— Você vai voltar pra casa amanhã. — disse César, rompendo o silêncio.Não estava muito animada quando voltou para a propriedade dos Monteiro.Bella contou que a família dela fez contato para saber do estado dela assim que tia Cida espalhou para todos a perda do bebê. Preferiram ligar para sua sogra, pois tinham
— Ela acordou. — disse Bella, com um sorriso discreto. — Vou deixá-los um pouco. Procurar uma máquina de café.César apenas assentiu, agradecendo num gesto. Quando a sogra deixou o quarto, o som da porta se fechando soou alto demais, afundando os dois em um silêncio pesado.Ele ficou de pé por alguns segundos, sem saber por onde começar. O ar do hospital era frio, mas o peito de César parecia queimando.Aproximou-se da cama devagar, os passos lentos, o rosto abatido. Paloma o acompanhou com o olhar, sem emoção, apenas uma observação distante, como se olhasse um estranho que invadira seu quarto por engano.César puxou uma cadeira, arrastando-a pelo chão com um leve rangido, e sentou-se. Passou as mãos pelo rosto, tentando encontrar forças para falar.Paloma o observava em silêncio. Continuava tão bonito, uma beleza rebelde em sua camisa branca de gola em V e calças de alfaiataria.— Você quer água? — perguntou ele, por fim, a voz grave.— Não. — respondeu sem hesitar, sem olhar para el
A dor veio como uma lâmina atravessando-lhe o corpo.Paloma tentou se mover, mas o mundo girava. As vozes ao redor soavam distantes, fragmentadas, misturadas a passos apressados e gritos que pareciam ecoar dentro de sua cabeça.— Meu Deus, ela caiu! — alguém gritava.— Chamem ajuda! — outra voz, mais distante.Paloma tentou focar o olhar.Acima dela, o teto dourado do salão girava. Os sons se misturavam com o barulho das taças caindo, o farfalhar das roupas, o choro contido de alguém.Então uma sombra se inclinou sobre ela.Leliana.O rosto da mulher estava pálido, os olhos arregalados de susto.— Paloma! — disse, ajoelhando-se ao lado dela. — Meu Deus...A voz de Leliana tremia. Por um instante, Paloma acreditou ver um lampejo sincero de aflição. Tentou responder, mas o ar parecia preso no peito.Leliana segurou sua mão, mas antes que pudesse dizer algo mais, César apareceu.Empurrou Leliana com força para o lado, quase fazendo-a cair.— Saia de perto dela! — a voz dele soou áspera,
A música agora ecoava forte, o ritmo quente de um forró adaptado fazia os convidados baterem palmas e sorrirem, enquanto pares se aventuravam na pista improvisada. Paloma olhou para César, sentindo a coragem surgir dentro dela.— Vem, quero dançar. — disse, quase em súplica, mas com um brilho nos olhos.Ele a fitou por um instante, sério, como se fosse recusar. O coração dela se apertou. Então, para sua surpresa, César estendeu a mão, puxou-a pela cintura e a levou para o centro.— Vamos dançar, então.Ela riu, aliviada.Os passos dele eram firmes, simples, mas se ajustavam aos dela como se sempre tivessem dançado juntos. O vestido leve de Paloma rodava quando ele a girava, e ela sentiu uma onda de alegria pura. Esqueceu as palavras venenosas, os olhares atravessados, as inseguranças. Ali, só havia o calor da música e os braços dele em sua cintura.— Você dança bem — disse, sorrindo.— Não tanto quanto você. — Ele respondeu sem sorrir, mas o tom tinha algo de cúmplice.Rodaram pela pi







