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O sol da manhã já dourava as ruas de João Pessoa quando Paloma Franco cruzou a porta da casa da tia Aparecida e respirou fundo, segurando a ansiedade.
A mochila nova, um pequeno capricho que se permitira para aquela viagem ao Nordeste, pesava em seu ombro. Não tanto pelas coisas que levava dentro, mas pela responsabilidade que havia assumido.
Estava indo a Cabaceiras por tia Cida.
Levava consigo as poucas provas que tinham de que Charles, o filho da tia, poderia ter deixado direitos a receber das Indústrias Monteiro. Depois da morte dele, dois meses antes, Aparecida não tinha condições físicas nem emocionais de resolver a situação sozinha. E Paloma não conseguira simplesmente ficar em São Paulo sabendo disso.
— Boa sorte, menina! — gritou a tia da varanda, acenando para ela. Os olhos estavam marejados, embora o sorriso permanecesse no rosto. — Você tá alembrada de onde tá o “corta-gasolina do Celta”, né, minha fia?
Paloma sorriu.
— Sim, tia. Prometo trazer seu carro inteirinho.
— E você volte bem também!
— Eu também.
Entrou no Celta prateado e fechou a porta. Antes de dar a partida, porém, olhou mais uma vez para a varanda.
Aparecida continuava ali, apoiada com cuidado, acenando.
Paloma respondeu ao gesto e sentiu o coração apertar.
Não sabia quantos dias aquela empreitada levaria, nem se conseguiria realmente resolver alguma coisa. Sabia apenas que precisava tentar. Tia Cida depositava nela uma esperança que Paloma não queria decepcionar.
Ao colocar a mochila no banco de trás, seus olhos pousaram no livro que deixara no banco do carona: O Morro dos Ventos Uivantes, numa edição antiga, com algumas páginas marcadas por pequenas flores secas.
Passou a mão pela capa com carinho.
Era mania sua viajar acompanhada de livros. Lisa Kleypas, Jane Austen, Clarice Lispector... não havia muita lógica na mistura, além do fato de amar todos eles.
Naquela manhã, porém, desejou que alguma da coragem das mulheres que encontrava nas páginas pudesse acompanhá-la.
Paloma sempre fora um pouco assim: sonhadora, sensível, às vezes teimosa demais, e dona de uma fé quase infantil de que, no fim, as coisas deveriam se ajeitar para quem fazia o que era certo.
A vida já lhe mostrara algumas vezes que não funcionava exatamente daquele jeito.
Ainda assim, ela continuava acreditando.
Girou a chave.
O Celta demorou um instante para pegar.
— Vamos, bonitinho... Não faz isso comigo hoje.
Na segunda tentativa, o motor finalmente respondeu.
— Isso. Muito obrigada.
Ajeitou o retrovisor, conferiu o endereço no celular e partiu.
Quase três horas depois, Paloma já começava a se perguntar se havia subestimado a viagem.
O calor aumentara conforme avançava pelo interior da Paraíba, e nem mesmo as janelas abertas davam conta de refrescar o carro. Sentia os cabelos grudarem na nuca e lamentava não ter prendido os fios antes de sair.
Ainda assim, havia algo fascinante naquela paisagem tão diferente da que conhecia.
A vegetação baixa, os cactos, a terra seca e o horizonte que parecia se estender para sempre faziam com que olhasse de um lado para o outro sempre que a estrada permitia. Crescera cercada pelo concreto de São Paulo. Ali, tudo lhe parecia amplo demais.
Estava justamente distraída com a paisagem quando um caminhão surgiu na rodovia PB-148 fazendo uma ultrapassagem pela contramão.
Paloma se agarrou ao volante.
— Meu Deus!
O Celta estremeceu quando ela o conduziu mais para o acostamento. Por um segundo terrível, teve a sensação de que o caminhão passaria perto demais.
O veículo cruzou por ela em alta velocidade.
Paloma permaneceu alguns segundos com as duas mãos firmemente presas ao volante e o coração disparado.
— Que susto...
Respirou fundo.
Foi então que reparou no que estava escrito na lateral da carroceria que se afastava:
Indústrias Monteiro.
Seu medo deu lugar a uma pontada imediata de irritação.
— Claro.
Não era justo responsabilizar o dono de uma empresa pela maneira como um motorista conduzia um caminhão, e Paloma sabia disso. Mesmo assim, depois de tudo o que lera nas cartas de Charles, naquele momento foi difícil não enxergar aquilo quase como uma provocação.
Ainda não conhecia C. A. Monteiro.
Nunca tinha sequer visto uma fotografia dele.
Tudo o que sabia vinha de Charles.
Nas últimas cartas e mensagens enviadas à mãe, o primo falara sobre projetos, descobertas e, principalmente, sobre a sensação de estar sendo injustiçado pela empresa. Algumas frases eram vagas, outras confusas, mas havia uma que tia Cida repetira tantas vezes que Paloma praticamente a decorara: Charles acreditava ter descoberto algo importante e dizia que, daquela vez, Monteiro não colocaria as mãos em tudo.
Depois Charles morreu.
E Aparecida ficou sem o filho, sem o dinheiro que ele enviava todos os meses e agarrada à certeza de que havia alguma coisa a receber.
Paloma não sabia se a tia estava certa.
Mas pretendia descobrir.
A estrada fez uma curva suave e começou a subir. Pouco depois, Cabaceiras surgiu ao longe, pequena sob a imensidão do céu azul.
Paloma diminuiu um pouco a velocidade.
A cidade parecia cercada pela paisagem seca do sertão, com a vegetação rasteira espalhando-se até onde seus olhos alcançavam e formações rochosas desenhando o horizonte.
Havia uma beleza diferente ali.
Mais severa, talvez. Mas bonita.
Na entrada da cidade, uma placa azul, um pouco desbotada pelo sol, anunciava:
Cabaceiras — Terra das Indústrias Monteiro
Paloma franziu levemente a testa.
Logo abaixo, outra frase prometia:
Emprego, progresso e prosperidade para o nosso povo.
Pensou em tia Cida.
Pensou no casebre onde Charles vivera durante os últimos anos.
E aquela palavra — prosperidade — deixou um gosto um pouco amargo.
Um mapa à margem da estrada indicava o caminho até a companhia, embora logo Paloma percebesse que dificilmente conseguiria se perder. Os prédios da fábrica se destacavam ao longe, grandes demais para passar despercebidos no meio daquela paisagem.
Conforme se aproximava, começou a compreender melhor a dimensão da empresa que estava prestes a enfrentar.
E isso não ajudou em nada seu nervosismo.
Apertou as mãos ao redor do volante.
— Você só vai conversar com ele — lembrou a si mesma. — É uma conversa.
Uma conversa com o presidente de uma empresa enorme.
Sobre dinheiro.
E sobre a possibilidade de essa mesma empresa ter se apropriado do trabalho de um funcionário morto.
Paloma fez uma careta.
Talvez não fosse apenas uma conversa.
Continuou dirigindo.
Cabaceiras, conhecida como “Roliúde Nordestina” por servir de cenário para diversas produções cinematográficas, despertou sua curiosidade assim que entrou na cidade. Ao atravessar uma ponte sobre o leito seco de um rio, percebeu uma mudança quase brusca na paisagem.
De um lado, a parte urbanizada, charmosa e bem cuidada, com casinhas coloridas. Do outro, o asfalto logo cedia espaço à caatinga, aos lajedos, cactos e pedras.
Era tão diferente de São Paulo que Paloma teve vontade de parar para fotografar.
Não parou.
Olhou o relógio.
Quase meio-dia.
Seu estômago se contraiu.
Durante a viagem, ensaiara inúmeras vezes o que diria ao Sr. Monteiro.
Seria educada.
Esse era o mais importante.
Explicaria a situação de tia Cida, mostraria o que Charles havia escrito e perguntaria sobre a descoberta mencionada por ele. Não precisava chegar acusando ninguém. Talvez tudo não passasse de um mal-entendido.
Paloma preferia acreditar nisso.
Mas, se ele tentasse enganá-la ou simplesmente se recusasse a ouvi-la, então seria firme.
Não tinha atravessado o país para voltar para casa sem sequer tentar.
E, se fosse necessário, deixaria claro que Aparecida estava disposta a procurar seus direitos na Justiça.
Só esperava não precisar chegar a esse ponto.
Avistou a entrada das Indústrias Monteiro e sentiu o coração bater um pouco mais depressa.
Estacionou no pátio amplo, procurando uma vaga sob a sombra do prédio. Assim que desligou o motor, permaneceu alguns segundos sentada.
— Certo, Paloma.
Olhou para si mesma pelo retrovisor.
O calor da viagem havia deixado marcas. Retocou rapidamente a maquiagem, ajeitou os cabelos e secou o suor da testa com uma toalhinha que carregava na bolsa.
Depois tornou a olhar para o prédio.
De perto, a empresa era ainda mais imponente.
Uma placa discreta indicava o caminho até o setor administrativo. O prédio de dois andares tinha telhado vermelho e paredes de concreto queimado. Em frente à entrada, um jardim muito bem cuidado reunia mandacarus, coroas-de-frade e pedras brancas.
Tudo parecia organizado, limpo e cuidadosamente planejado.
Paloma sentiu-se subitamente pequena.
Baixou os olhos para a própria roupa, respirou fundo e lembrou-se de tia Cida na varanda.
Aquilo bastou.
Pegou a bolsa e saiu do carro.
Ao fundo, ouviu o canto rouco de uma gralha-cancã. O som combinava de maneira curiosa com a paisagem escaldante de Cabaceiras.
Difícil acreditar que, poucos dias antes, ainda enfrentava o frio de São Paulo usando casaco e cachecol.
Subiu os poucos degraus da entrada.
Antes de abrir a porta de vidro, parou por um segundo.
— Educação e firmeza — murmurou.
Então entrou.
O ar-condicionado a recebeu como uma bênção.
Uma jovem recepcionista de cabelos crespos se levantou atrás do balcão e lhe ofereceu um sorriso profissional.
— Bom dia. Em que posso ajudar, moça?
Paloma apertou discretamente a alça da bolsa antes de responder.
— Bom dia. Me chamo Paloma Franco, sou prima do David. Tenho uma entrevista à uma com o Sr. Monteiro.
Desceram do jipe com duas cestas de vime, o vento quente do litoral bagunçando os cabelos de Paloma. Assim que seus pés tocaram a areia fina e dourada, ela fez menção de correr, sentindo-se leve como há muito não se sentia.Mas César foi mais rápido.— Você está grávida. Nada de correr.Ela girou nos calcanhares, irritada, as sobrancelhas arqueadas.— Pelo amor de Deus, César! Não sou uma inválida.Ele sustentou o olhar dela, mas um sorriso brincou no canto da boca. Desde que ela lhe mostrara o teste positivo de gravidez, seis meses antes, César havia se transformado no retrato da superproteção. Às vezes, o cuidado exagerado era adorável. Outras, sufocante.Carregou sozinho as duas cestas e até a bolsa dela, que mal pesava um quilo. Abriu a cadeira de praia, ajeitou a toalha, verificou a sombra do guarda-sol. Paloma, no entanto, preferia a areia quente sob o corpo, o toque salgado do vento, a sensação de liberdade.Enquanto ele montava a mesinha dobrável com os lanches do piquenique,
Paloma arregalou os olhos quando César simplesmente tomou a mala de suas mãos, abriu o zíper e despejou todas as roupas sobre a cama.— Ficou louco?— Sim. Estou louco, Paloma. — largou a mala e apoiou as mãos na cintura, o peito arfando, tentando parecer no controle. — E você não vai embora.Ela bufou, incrédula.— Eu não estou entendendo nada, sabia? Por que não aproveita que eu estou te deixando livre?— Livre? — ele deu um passo à frente, a voz baixa, mas carregada de tensão. — Eu não sou livre desde o dia em que você entrou na minha sala, me encarou com esses olhos e ameaçou me processar. A partir dali, Paloma, eu fiquei preso em você.Ela o olhou, confusa, com o coração acelerado.— Você está mais louco do que eu imaginava. Não fala coisa com coisa. — deu um passo para trás, sentindo o ar rarefeito entre eles. — Daqui a pouco vai acabar dizendo que gosta de mim.Os olhos dele brilharam. Um sorriso lento, perigoso, surgiu em seus lábios.— Não percebeu, Paloma?— Percebi o quê?—
Nos dois dias seguintes, Cesar quase não saiu do hospital. Ficava ali, na mesma poltrona, lendo relatórios que trazia da empresa ou apenas observando-a dormir. Quando precisava ir resolver algo urgente, Bella vinha substituí-lo, e Paloma percebia o cuidado sincero da sogra.Mas ela não falava muito. Não era cansaço, nem o trauma. Era outra coisa; um silêncio que nascia de dentro, feito de percepções que se acomodavam com dolorosa clareza.No segundo dia, o médico apareceu pela manhã, confirmou que ela estava se recuperando bem e que poderia ter alta no dia seguinte. Bella sorriu, aliviada. César apenas assentiu.Quando o médico saiu, Paloma continuou deitada, olhando o teto.— Você vai voltar pra casa amanhã. — disse César, rompendo o silêncio.Não estava muito animada quando voltou para a propriedade dos Monteiro.Bella contou que a família dela fez contato para saber do estado dela assim que tia Cida espalhou para todos a perda do bebê. Preferiram ligar para sua sogra, pois tinham
— Ela acordou. — disse Bella, com um sorriso discreto. — Vou deixá-los um pouco. Procurar uma máquina de café.César apenas assentiu, agradecendo num gesto. Quando a sogra deixou o quarto, o som da porta se fechando soou alto demais, afundando os dois em um silêncio pesado.Ele ficou de pé por alguns segundos, sem saber por onde começar. O ar do hospital era frio, mas o peito de César parecia queimando.Aproximou-se da cama devagar, os passos lentos, o rosto abatido. Paloma o acompanhou com o olhar, sem emoção, apenas uma observação distante, como se olhasse um estranho que invadira seu quarto por engano.César puxou uma cadeira, arrastando-a pelo chão com um leve rangido, e sentou-se. Passou as mãos pelo rosto, tentando encontrar forças para falar.Paloma o observava em silêncio. Continuava tão bonito, uma beleza rebelde em sua camisa branca de gola em V e calças de alfaiataria.— Você quer água? — perguntou ele, por fim, a voz grave.— Não. — respondeu sem hesitar, sem olhar para el
A dor veio como uma lâmina atravessando-lhe o corpo.Paloma tentou se mover, mas o mundo girava. As vozes ao redor soavam distantes, fragmentadas, misturadas a passos apressados e gritos que pareciam ecoar dentro de sua cabeça.— Meu Deus, ela caiu! — alguém gritava.— Chamem ajuda! — outra voz, mais distante.Paloma tentou focar o olhar.Acima dela, o teto dourado do salão girava. Os sons se misturavam com o barulho das taças caindo, o farfalhar das roupas, o choro contido de alguém.Então uma sombra se inclinou sobre ela.Leliana.O rosto da mulher estava pálido, os olhos arregalados de susto.— Paloma! — disse, ajoelhando-se ao lado dela. — Meu Deus...A voz de Leliana tremia. Por um instante, Paloma acreditou ver um lampejo sincero de aflição. Tentou responder, mas o ar parecia preso no peito.Leliana segurou sua mão, mas antes que pudesse dizer algo mais, César apareceu.Empurrou Leliana com força para o lado, quase fazendo-a cair.— Saia de perto dela! — a voz dele soou áspera,
A música agora ecoava forte, o ritmo quente de um forró adaptado fazia os convidados baterem palmas e sorrirem, enquanto pares se aventuravam na pista improvisada. Paloma olhou para César, sentindo a coragem surgir dentro dela.— Vem, quero dançar. — disse, quase em súplica, mas com um brilho nos olhos.Ele a fitou por um instante, sério, como se fosse recusar. O coração dela se apertou. Então, para sua surpresa, César estendeu a mão, puxou-a pela cintura e a levou para o centro.— Vamos dançar, então.Ela riu, aliviada.Os passos dele eram firmes, simples, mas se ajustavam aos dela como se sempre tivessem dançado juntos. O vestido leve de Paloma rodava quando ele a girava, e ela sentiu uma onda de alegria pura. Esqueceu as palavras venenosas, os olhares atravessados, as inseguranças. Ali, só havia o calor da música e os braços dele em sua cintura.— Você dança bem — disse, sorrindo.— Não tanto quanto você. — Ele respondeu sem sorrir, mas o tom tinha algo de cúmplice.Rodaram pela pi







