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Capítulo 3 - Vamos falar do Charles

last update publish date: 2025-08-04 06:33:01

Ele devia ter seus trinta e poucos anos. Tinha cabelos grossos e escuros, penteados com cuidado, e a pele bronzeada contrastava com o terno cinzento de corte impecável. Era alto, de ombros largos, e havia nele uma elegância tão natural que Paloma imediatamente se sentiu ainda mais consciente do vestido florido que escolhera naquela manhã.

Observou-o se aproximar com uma pasta de couro na mão. O andar era firme, seguro, próprio de alguém acostumado a entrar nos lugares sem precisar perguntar se era bem-vindo.

Mas foram os olhos que a deixaram desconfortável.

Castanhos e atentos, percorreram seu rosto numa avaliação rápida, quase impessoal. Paloma não soube dizer se havia suspeita, curiosidade ou simples indiferença naquele olhar. Talvez um pouco de tudo. De qualquer forma, teve a desagradável sensação de estar sendo analisada antes mesmo de abrir a boca.

— Paloma Franco? — perguntou ele.

A voz grave e controlada combinava perfeitamente com o restante.

— Sim.

A pequena confiança que Paloma conquistara enquanto conversava mentalmente com o simpático senhor da fotografia começou a desaparecer. Aquele homem não se parecia em nada com alguém enviado para recebê-la e deixá-la à vontade.

Ele voltou a observá-la por um instante, e o olhar desceu rapidamente pelo vestido, pelos sapatos simples e pela bolsa que ela carregava. Não foi ostensivo, mas bastou para que Paloma se sentisse deslocada.

Talvez estivesse imaginando coisas por causa do nervosismo. Ainda assim, não gostou.

O homem sentou-se no braço de uma das poltronas e abriu a pasta.

— Tenho seu e-mail impresso comigo.

Paloma franziu ligeiramente a testa. Então ele sabia quem ela era e conhecia o motivo da visita.

Isso significava que provavelmente era algum executivo encarregado de tratar do assunto antes que ela chegasse ao presidente.

— Certo.

Ele passou os olhos pelo documento com uma calma que a deixou ainda mais desconfortável. Não parecia ter pressa e tampouco demonstrava qualquer interesse em tornar aquela situação mais fácil para ela.

Paloma apertou a alça da bolsa entre os dedos.

Tinha marcado uma reunião com o presidente da companhia. Depois de tudo o que enfrentara para chegar até ali, não queria contar a história inteira para um funcionário e depois precisar repeti-la ao homem com quem realmente pretendia conversar.

Reuniu coragem.

— Eu prefiro esperar e conversar com o Sr. Monteiro pessoalmente.

Ele ergueu os olhos da pasta.

Por um segundo, Paloma teve a impressão de que alguma coisa divertida atravessara sua expressão.

— Eu sou o Sr. Monteiro.

Ela ficou imóvel.

— O senhor?

Seus olhos foram imediatamente para a fotografia na parede. O homem de cabelos brancos continuava ali, com o mesmo sorriso tranquilo que a fizera ensaiar mentalmente uma conversa muito mais agradável.

O desconhecido acompanhou seu olhar.

— Meu pai. João Monteiro, fundador da companhia. Morreu há seis anos, durante a pandemia de Covid-19. — Fez uma breve pausa. — Eu sou César Monteiro, presidente das Indústrias Monteiro.

Paloma sentiu o calor subir pelo rosto.

Então passara os últimos minutos preparando-se para conversar com um homem morto.

— Sinto muito. Eu não sabia.

César inclinou levemente a cabeça. Um quase sorriso apareceu em seus lábios.

— Sente muito pela morte do meu pai ou por ter descoberto que eu sou o presidente da companhia?

Paloma voltou os olhos para ele, surpresa.

Não havia necessidade daquela provocação.

— Pela morte do seu pai, claro.

Ele sustentou seu olhar por mais alguns segundos, tentando decidir se acreditava nela.

Paloma mexeu na alça da bolsa. A segurança que reunira antes de ele entrar na sala começava a escapar por entre seus dedos. César Monteiro não tinha nada do senhor acolhedor que imaginara encontrar. Era jovem, intimidante e parecia se divertir um pouco com o desconforto dela.

Mesmo assim, não iria permitir que aquilo atrapalhasse a conversa.

— Deve ter sido difícil assumir uma empresa deste tamanho tão jovem — comentou, numa tentativa sincera de aliviar a tensão.

César inclinou-se um pouco para a frente.

— Não acho que a senhorita esteja exatamente em posição de opinar sobre juventude.

Paloma franziu a testa.

— Tenho vinte e cinco anos.

Um sorriso discreto apareceu no canto da boca de César.

— Vinte e cinco anos... Realmente uma senhora experiente.

Paloma sentiu o rosto ficar ainda mais quente.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Eu imaginei.

A tranquilidade dele só tornava tudo pior.

— Só quis dizer que não sou tão jovem assim.

— Se está tentando me convencer de que não é uma criança, já entendi.

Paloma respirou devagar, contendo a vontade de responder de maneira mais áspera. Não viera até Cabaceiras para trocar provocações com aquele homem.

— Não estou tentando convencê-lo de nada sobre a minha idade.

César a observou novamente.

Dessa vez, porém, havia alguma coisa diferente no olhar. Ele demorou um pouco mais do que o necessário, e Paloma percebeu isso. O desconforto que sentiu não foi exatamente desagradável, o que a deixou ainda mais constrangida.

Desviou os olhos.

— Eu só quis dizer que não sou uma adolescente iludida.

— Ótimo. Menos chance de dramas.

César fechou a pasta com um movimento preciso e mudou de postura, como se a pequena diversão tivesse terminado.

— Vamos ao motivo da visita?

Finalmente.

Paloma pigarreou e procurou organizar as ideias. Era para aquele momento que havia se preparado durante toda a viagem.

— Marquei esta entrevista porque estou representando minha tia, Aparecida Silva. O filho dela, Charles Silva, trabalhou nas Indústrias Monteiro até morrer, dois meses atrás.

César não respondeu. Apenas esperou que ela continuasse.

— Charles trabalhou muitos anos aqui, se não me engano...

— Dois.

Paloma hesitou.

— Dois anos?

— Exatamente.

Ela assentiu, um pouco desconcertada. Tia Cida certamente fizera parecer que o filho estava na companhia havia muito mais tempo.

— Bem... Charles era chefe do laboratório de bioquímica...

— Não. — César a interrompeu novamente. — Charles Silva não era chefe do laboratório de bioquímica. Essa função é ocupada há cinco anos pelo senhor Carlos Santos.

Paloma ficou em silêncio.

Dessa vez, o embaraço foi maior.

Tinha certeza de que tia Cida mencionara que Charles comandava o laboratório. Ou talvez tivesse sido o próprio Charles quem dissera isso à mãe. De qualquer maneira, começava muito mal aquela conversa.

— Devo ter entendido errado — admitiu. — Mas sei que Charles teve um excelente desempenho na universidade. Ele também desenvolveu algumas invenções e pesquisas na área em que vocês trabalham. Alguma coisa relacionada a fontes renováveis...

A própria hesitação a incomodou.

Deveria ter estudado melhor aquilo antes de aparecer diante do presidente da empresa.

César tornou a baixar os olhos para a pasta. Paloma reconheceu entre os papéis uma cópia do e-mail que enviara solicitando a reunião. Enquanto ele lia, ela aproveitou aqueles poucos segundos para observá-lo melhor.

De perto, parecia ainda mais jovem do que imaginara inicialmente, embora houvesse algo na postura que o fazia parecer mais velho. Os traços eram fortes, e os cabelos escuros apresentavam discretos reflexos acobreados sob a luz. Até os cílios tinham aquela tonalidade mais quente.

Paloma desviou os olhos assim que percebeu que estava prestando atenção demais em detalhes que nada tinham a ver com Charles.

César terminou de ler o papel e tornou a encará-la.

— Onde exatamente você pretende chegar, moça? — perguntou, sem qualquer gentileza. — Acha que é a primeira vigarista que b**e na minha porta?

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