FAZER LOGINNão havia nada decente para cozinhar, e o sinal do celular era tão ruim que mal conseguia acessar a internet, quanto mais procurar algum lugar que entregasse comida naquela região. Também não tinha disposição para entrar novamente no Celta e sair em busca de um mercado.
Só de imaginar o carro depois de horas sob o sol, desistiu.
Abriu a geladeira sem muita esperança. Encontrou apenas alguns restos que provavelmente estavam ali desde antes da morte de Charles e fechou a porta rapidamente. Acabou se contentando com uma barrinha de cereal que carregava na bolsa.
O interior da casa continuava abafado, guardando o calor acumulado durante o dia. Paloma terminou de comer e decidiu que seria melhor ficar do lado de fora até a temperatura baixar um pouco.
Foi até a porta e parou.
O céu começava a mudar de cor.
Tons alaranjados e rosados se espalhavam pelo horizonte, refletindo sobre a paisagem seca de uma forma que a fez esquecer por alguns instantes o cansaço, César, a casa e todos os problemas que ainda precisava resolver.
— Que pôr do sol...
Sorriu.
Em São Paulo, cercada por prédios e luzes, raramente conseguia contemplar o céu daquela maneira. E, se a noite fosse tão limpa quanto parecia, talvez ainda conseguisse ver estrelas.
Animada com a ideia, voltou até a mala e pegou sua Instax Mini, um presente que ganhara no sorteio de fim de ano da empresa. Gostava daquela câmera justamente porque as fotografias saíam na hora e tinham um charme retrô.
Apontou para o casebre com o sol se pondo ao fundo e fez a primeira foto.
Esperou a imagem começar a surgir.
Não ficou boa.
— Ah, não...
Franziu a testa e tornou a olhar para o horizonte. Talvez precisasse apenas encontrar um lugar melhor. A paisagem era bonita demais para que desistisse depois de uma tentativa.
Foi então que avistou, no alto de uma elevação próxima, uma grande formação rochosa que parecia funcionar como um mirante natural. Dali certamente teria uma visão muito mais ampla do pôr do sol.
Paloma olhou para a câmera e depois para a pedra.
Não parecia tão longe.
Começou a caminhar pela estrada até chegar a um pequeno círculo de manobra. A partir dali, procurou algum caminho que levasse à formação rochosa e acabou seguindo por uma trilha pouco definida entre a vegetação.
Não demorou para perceber que estava vestida da pior maneira possível para aquele passeio. O short deixava as pernas expostas, e as sandálias protegiam muito pouco seus pés. Precisava prestar atenção a cada passo para não esbarrar nos cactos ou tropeçar nas pedras.
Quando um espinho arranhou sua perna, Paloma fez uma careta.
— Isso foi uma péssima ideia.
Mesmo assim, continuou.
Havia alguma coisa naquela paisagem que a atraía. O sertão era completamente diferente de tudo a que estava acostumada: silencioso, vasto, áspero, mas cheio de cores que ela só começava a perceber agora. O ocre da terra se misturava aos amarelos secos, aos marrons e aos tons avermelhados das pedras, enquanto os cactos surgiam por toda parte em diferentes formas e tamanhos.
Aqui e ali, juazeiros quebravam a aridez da paisagem com suas copas verdes. Mais adiante, Paloma reconheceu um umbuzeiro e se lembrou das histórias da tia sobre as frutas da região.
Parou para fotografá-lo.
Quando voltou a olhar para a formação rochosa, percebeu que ela continuava mais distante do que imaginara.
Talvez devesse voltar.
O sol estava baixando depressa, e não conhecia o lugar. Bastava perder a noção do caminho para transformar uma caminhada inocente num problema.
Paloma olhou para trás. Ainda conseguia ver a casa de Charles.
Depois olhou novamente para as pedras.
Já tinha chegado até ali.
Continuou.
Quanto mais avançava, mais impressionante se tornava o horizonte. O céu agora ardia em tons de vermelho, dourado e laranja, e Paloma sentiu aquela satisfação quase infantil de quem encontra uma coisa bonita quando menos espera.
Finalmente alcançou a grande formação rochosa.
De perto, descobriu que era muito maior do que parecera lá de baixo. A superfície era irregular e áspera, mas havia um ponto seguro de onde conseguia enxergar boa parte da região. A casa de Charles, ao longe, parecia minúscula no meio da paisagem.
Paloma ergueu a câmera.
Fez uma foto.
Depois outra.
E mais uma.
Esperou ansiosamente enquanto a primeira começava a revelar. O resultado a decepcionou. As cores estavam apagadas e o enquadramento não captava nem de longe a beleza do que via.
A segunda estava borrada.
— Não acredito...
A terceira era melhor, mas ainda insuficiente.
Paloma suspirou. Nenhuma fotografia conseguiria reproduzir aquele céu. Talvez devesse simplesmente parar de tentar e aproveitar o momento.
Foi então que sentiu alguma coisa.
Uma impressão incômoda de que não estava sozinha.
Baixou a câmera.
Olhou ao redor.
O silêncio parecia ter se aprofundado agora que começava a escurecer. Paloma sentiu um arrepio.
Foi quando viu a luneta.
Estava montada sobre um tripé, parcialmente escondida atrás de um arbusto. Era grande, sofisticada e definitivamente não tinha aparecido ali sozinha.
Paloma franziu a testa.
Então o viu.
César Monteiro.
Por alguns segundos, Paloma simplesmente ficou parada.
Ele estava encostado numa das pedras, alguns metros adiante, como se sua presença ali fosse a coisa mais natural do mundo. Mas não era apenas encontrá-lo novamente, tão pouco tempo depois da discussão, que a deixou sem reação.
César estava sem camisa.
Paloma tentou olhar apenas para o rosto dele.
Tentou mesmo.
Mas seus olhos desceram antes que pudesse impedir. Sem o terno escondendo o corpo, ficava evidente que os ombros largos não eram efeito do corte da roupa. O peito era firme, os braços fortes e o abdômen definido de um homem que certamente não passava todos os dias sentado atrás de uma mesa.
A luz dourada do fim de tarde cobria sua pele bronzeada e realçava os reflexos acobreados dos cabelos.
Paloma engoliu em seco.
Aquilo era profundamente inconveniente.
Horas antes, César a humilhara, acusara-a de tentar aplicar um golpe e praticamente a expulsara da empresa. Ela tinha uma lista considerável de motivos para detestá-lo.
Nenhum deles, infelizmente, tornava o homem menos bonito.
Ergueu depressa os olhos para o rosto dele.
César já a observava.
Havia um sorriso discreto em seus lábios, como se tivesse percebido exatamente o caminho que os olhos dela acabavam de fazer.
Paloma sentiu o rosto esquentar.
Ótimo.
Era tudo de que precisava.
César descruzou lentamente os braços, ainda com aquela expressão ligeiramente provocadora.
— Sabia que a gente ia se encontrar de novo — disse ele, com a voz baixa e segura —, mas não imaginei que fosse tão cedo.
Desceram do jipe com duas cestas de vime, o vento quente do litoral bagunçando os cabelos de Paloma. Assim que seus pés tocaram a areia fina e dourada, ela fez menção de correr, sentindo-se leve como há muito não se sentia.Mas César foi mais rápido.— Você está grávida. Nada de correr.Ela girou nos calcanhares, irritada, as sobrancelhas arqueadas.— Pelo amor de Deus, César! Não sou uma inválida.Ele sustentou o olhar dela, mas um sorriso brincou no canto da boca. Desde que ela lhe mostrara o teste positivo de gravidez, seis meses antes, César havia se transformado no retrato da superproteção. Às vezes, o cuidado exagerado era adorável. Outras, sufocante.Carregou sozinho as duas cestas e até a bolsa dela, que mal pesava um quilo. Abriu a cadeira de praia, ajeitou a toalha, verificou a sombra do guarda-sol. Paloma, no entanto, preferia a areia quente sob o corpo, o toque salgado do vento, a sensação de liberdade.Enquanto ele montava a mesinha dobrável com os lanches do piquenique,
Paloma arregalou os olhos quando César simplesmente tomou a mala de suas mãos, abriu o zíper e despejou todas as roupas sobre a cama.— Ficou louco?— Sim. Estou louco, Paloma. — largou a mala e apoiou as mãos na cintura, o peito arfando, tentando parecer no controle. — E você não vai embora.Ela bufou, incrédula.— Eu não estou entendendo nada, sabia? Por que não aproveita que eu estou te deixando livre?— Livre? — ele deu um passo à frente, a voz baixa, mas carregada de tensão. — Eu não sou livre desde o dia em que você entrou na minha sala, me encarou com esses olhos e ameaçou me processar. A partir dali, Paloma, eu fiquei preso em você.Ela o olhou, confusa, com o coração acelerado.— Você está mais louco do que eu imaginava. Não fala coisa com coisa. — deu um passo para trás, sentindo o ar rarefeito entre eles. — Daqui a pouco vai acabar dizendo que gosta de mim.Os olhos dele brilharam. Um sorriso lento, perigoso, surgiu em seus lábios.— Não percebeu, Paloma?— Percebi o quê?—
Nos dois dias seguintes, Cesar quase não saiu do hospital. Ficava ali, na mesma poltrona, lendo relatórios que trazia da empresa ou apenas observando-a dormir. Quando precisava ir resolver algo urgente, Bella vinha substituí-lo, e Paloma percebia o cuidado sincero da sogra.Mas ela não falava muito. Não era cansaço, nem o trauma. Era outra coisa; um silêncio que nascia de dentro, feito de percepções que se acomodavam com dolorosa clareza.No segundo dia, o médico apareceu pela manhã, confirmou que ela estava se recuperando bem e que poderia ter alta no dia seguinte. Bella sorriu, aliviada. César apenas assentiu.Quando o médico saiu, Paloma continuou deitada, olhando o teto.— Você vai voltar pra casa amanhã. — disse César, rompendo o silêncio.Não estava muito animada quando voltou para a propriedade dos Monteiro.Bella contou que a família dela fez contato para saber do estado dela assim que tia Cida espalhou para todos a perda do bebê. Preferiram ligar para sua sogra, pois tinham
— Ela acordou. — disse Bella, com um sorriso discreto. — Vou deixá-los um pouco. Procurar uma máquina de café.César apenas assentiu, agradecendo num gesto. Quando a sogra deixou o quarto, o som da porta se fechando soou alto demais, afundando os dois em um silêncio pesado.Ele ficou de pé por alguns segundos, sem saber por onde começar. O ar do hospital era frio, mas o peito de César parecia queimando.Aproximou-se da cama devagar, os passos lentos, o rosto abatido. Paloma o acompanhou com o olhar, sem emoção, apenas uma observação distante, como se olhasse um estranho que invadira seu quarto por engano.César puxou uma cadeira, arrastando-a pelo chão com um leve rangido, e sentou-se. Passou as mãos pelo rosto, tentando encontrar forças para falar.Paloma o observava em silêncio. Continuava tão bonito, uma beleza rebelde em sua camisa branca de gola em V e calças de alfaiataria.— Você quer água? — perguntou ele, por fim, a voz grave.— Não. — respondeu sem hesitar, sem olhar para el
A dor veio como uma lâmina atravessando-lhe o corpo.Paloma tentou se mover, mas o mundo girava. As vozes ao redor soavam distantes, fragmentadas, misturadas a passos apressados e gritos que pareciam ecoar dentro de sua cabeça.— Meu Deus, ela caiu! — alguém gritava.— Chamem ajuda! — outra voz, mais distante.Paloma tentou focar o olhar.Acima dela, o teto dourado do salão girava. Os sons se misturavam com o barulho das taças caindo, o farfalhar das roupas, o choro contido de alguém.Então uma sombra se inclinou sobre ela.Leliana.O rosto da mulher estava pálido, os olhos arregalados de susto.— Paloma! — disse, ajoelhando-se ao lado dela. — Meu Deus...A voz de Leliana tremia. Por um instante, Paloma acreditou ver um lampejo sincero de aflição. Tentou responder, mas o ar parecia preso no peito.Leliana segurou sua mão, mas antes que pudesse dizer algo mais, César apareceu.Empurrou Leliana com força para o lado, quase fazendo-a cair.— Saia de perto dela! — a voz dele soou áspera,
A música agora ecoava forte, o ritmo quente de um forró adaptado fazia os convidados baterem palmas e sorrirem, enquanto pares se aventuravam na pista improvisada. Paloma olhou para César, sentindo a coragem surgir dentro dela.— Vem, quero dançar. — disse, quase em súplica, mas com um brilho nos olhos.Ele a fitou por um instante, sério, como se fosse recusar. O coração dela se apertou. Então, para sua surpresa, César estendeu a mão, puxou-a pela cintura e a levou para o centro.— Vamos dançar, então.Ela riu, aliviada.Os passos dele eram firmes, simples, mas se ajustavam aos dela como se sempre tivessem dançado juntos. O vestido leve de Paloma rodava quando ele a girava, e ela sentiu uma onda de alegria pura. Esqueceu as palavras venenosas, os olhares atravessados, as inseguranças. Ali, só havia o calor da música e os braços dele em sua cintura.— Você dança bem — disse, sorrindo.— Não tanto quanto você. — Ele respondeu sem sorrir, mas o tom tinha algo de cúmplice.Rodaram pela pi







