FAZER LOGINPaloma saiu do estacionamento pisando fundo. Ainda nervosa, errou a marcha e fez o Celta dar um tranco antes de finalmente conseguir seguir adiante.
A imagem de César continuava voltando à sua cabeça: o jeito frio, a voz controlada, a forma como praticamente a expulsara da sala depois de chamá-la de golpista. Apertou as mãos no volante, sentindo a indignação subir novamente.
— Arrogante... insuportável... — resmungou entre dentes. — Me chamar de golpista...
Respirou fundo, tentando se acalmar.
Agora, longe dele, todas as respostas que poderia ter dado apareciam com uma clareza irritante. Na hora, porém, César conseguira desorganizá-la completamente. Cada pergunta vinha antes que ela pudesse ordenar os próprios argumentos, e toda vez que tentava recuperar o controle da conversa ele parecia encontrar outra forma de deixá-la insegura.
Talvez tivesse sido justamente isso que mais a incomodara.
Paloma não gostava de brigar. Sempre preferira conversar, explicar, tentar encontrar algum meio-termo. Mas César a fizera perder a calma como poucas pessoas tinham conseguido na vida.
Quando tornou a cruzar a ponte sobre o rio seco, percebeu que havia seguido pelo caminho errado.
— Ótimo.
Parou por alguns segundos, consultou o GPS e fez o retorno. Dessa vez, prestou mais atenção às instruções.
A nova rota a levou por uma estrada menor, ladeada por arbustos e vegetação baixa. Paloma diminuiu a velocidade à medida que as casas se tornavam mais espaçadas. O asfalto acabou pouco depois, dando lugar a uma estrada de terra seca que levantava pequenas nuvens de poeira atrás do Celta.
Olhou de um lado para o outro, procurando algum sinal da propriedade de Charles.
— Estou entrando no meio do nada...
Havia cactos por toda parte. Alguns pareciam mandacarus, altos e firmes; outros tinham espinhos longos, dourados, que Paloma não sabia identificar. Quanto mais avançava, mais difícil parecia acreditar que Charles tivesse escolhido viver ali.
Já estava começando a pensar que havia passado da entrada quando avistou, ao longe, uma pequena construção.
Seguiu devagar por um caminho estreito até chegar a uma clareira quase escondida da estrada.
Ali estava a casa.
Ou, pelo menos, algo que podia ser chamado assim. Ao lado da janela havia o número dez, pintado de maneira torta. Aquilo, sim, lembrava Charles. Ele nunca se importara muito com aparência.
Desligou o carro e ficou alguns segundos observando o lugar.
A construção era pequena, simples e visivelmente improvisada. Parte das paredes parecia feita de madeira e barro, e um juazeiro próximo oferecia a única sombra razoável ao redor. Não havia jardim, varanda ou qualquer sinal de que alguém tivesse tentado tornar o espaço acolhedor.
Paloma procurou a chave dentro da bolsa. Ela havia sido enviada para tia Cida junto com alguns poucos pertences pessoais de Charles depois do acidente.
Assim que abriu a porta, um cheiro forte de ambiente fechado a fez recuar.
— Meu Deus...
Entrou com cuidado.
A bagunça era ainda pior do que imaginara. Havia roupas espalhadas por cadeiras, maçanetas e prateleiras, livros empilhados em vários cantos e pratos esquecidos na pia.
Charles sempre fora desorganizado.
Numa estante, encontrou várias pequenas invenções cobertas por poeira. Algumas despertaram lembranças da infância. Charles costumava mostrar a ela objetos parecidos, explicando com entusiasmo para que serviam, enquanto Paloma fingia compreender tudo.
Aproximou-se de um pequeno aparelho que lembrava um robô, com uma tela no centro. Apertou o botão.
Nada aconteceu.
Continuou pela casa, abrindo janelas para deixar o ar circular. Nas paredes havia recortes de revistas presos com fita e cadernos de anotações espalhados sobre móveis. Alguns tinham manchas de tinta, outros estavam abertos em páginas cheias de números e fórmulas que Paloma não entendia.
No quarto, a cama permanecia desfeita.
Abriu uma porta nos fundos e encontrou um espaço ainda mais improvisado: um toldo furado, uma caixa elétrica presa a um poste e um varal feito com cordas amarradas em pregos.
Paloma franziu o cenho.
A casa inteira parecia precisar de reparos.
Foi impossível não lembrar da Indústrias Monteiro, enorme e moderna, e do escritório impecável de César. O contraste lhe causou uma nova onda de indignação. Ainda assim, conteve a primeira conclusão que lhe veio à cabeça.
Talvez Charles simplesmente não se importasse com conforto.
Ela o conhecera o bastante para saber que isso era possível, mas, mesmo assim, não gostou do que viu.
Voltou ao carro para buscar a bagagem. O calor continuava intenso, e Paloma agradeceu mentalmente por ter trazido shorts e camisetas mais leves, embora em São Paulo aquilo tivesse parecido exagero por causa do frio.
Depois de trocar de roupa, procurou lençóis limpos e arrumou a cama. A eletricidade ainda funcionava, assim como a água, o que já era alguma coisa. A geladeira precisava urgentemente de limpeza e degelo, mas pelo menos ligava.
Não havia internet.
Paloma soltou um suspiro.
Com algum esforço, acreditava que conseguiria deixar a casa em condições de ser vendida em poucos dias.
Começou a procurar material de limpeza. Encontrou um aspirador de pó escondido sob uma pilha de sapatos, mas a bolsa descartável estava completamente cheia e não havia outra. Depois de abrir vários armários sem sucesso, desistiu.
A essa altura, já estava suada, cansada e coberta de poeira.
Ligou o ventilador de teto. O aparelho começou a fazer um barulho tão alto que Paloma o desligou quase imediatamente.
— Melhor não.
Saiu para tomar ar e se sentou nos degraus da entrada.
Aos poucos, o silêncio do lugar começou a pesar.
Observou as janelas sujas, a porta precisando de reparos e a estrutura gasta da casa.
Charles podia ser brilhante quando se tratava de ciência, mas claramente não dedicava a mesma atenção à vida doméstica.
Paloma apoiou os braços sobre os joelhos.
A tarefa seria muito maior do que imaginara, e isso não era sequer o pior problema, pois ainda precisava decidir o que faria em relação a César Monteiro.
A reunião tinha sido um desastre.
Ela o ameaçara com um processo, mas agora, longe daquela sala e com a raiva começando a diminuir, precisava admitir uma coisa que não queria: César tinha razão em pelo menos um ponto.
Ela não possuía provas suficientes.
Havia uma carta, algumas mensagens e a convicção de tia Cida. Mas não sabia qual era a invenção de Charles, quanto valia ou sequer se existia algum documento que comprovasse a descoberta.
Será que um advogado aceitaria um caso daquele jeito?
César ainda tinha o contrato assinado pelo primo.
Esfregou os braços, cansada.
O que mais a incomodava era a sensação de ter sido humilhada. A acusação de golpe ainda doía. E, pior, lembrava-se nitidamente do momento em que ele segurara seu ombro com força demais.
Não gostara daquilo.
Nem um pouco.
Ainda assim, outra lembrança teimava em aparecer junto com a raiva: César era um homem extremamente atraente.
Paloma fez uma careta consigo mesma.
Não havia nenhuma razão para pensar nisso agora.
Mas era verdade.
Provavelmente não faltavam mulheres dispostas a suportar aquela arrogância por causa do rosto bonito, do dinheiro e da posição.
Ela, porém, não pretendia ser uma delas.
César Monteiro era exatamente o tipo de homem de quem deveria manter distância.
Desceram do jipe com duas cestas de vime, o vento quente do litoral bagunçando os cabelos de Paloma. Assim que seus pés tocaram a areia fina e dourada, ela fez menção de correr, sentindo-se leve como há muito não se sentia.Mas César foi mais rápido.— Você está grávida. Nada de correr.Ela girou nos calcanhares, irritada, as sobrancelhas arqueadas.— Pelo amor de Deus, César! Não sou uma inválida.Ele sustentou o olhar dela, mas um sorriso brincou no canto da boca. Desde que ela lhe mostrara o teste positivo de gravidez, seis meses antes, César havia se transformado no retrato da superproteção. Às vezes, o cuidado exagerado era adorável. Outras, sufocante.Carregou sozinho as duas cestas e até a bolsa dela, que mal pesava um quilo. Abriu a cadeira de praia, ajeitou a toalha, verificou a sombra do guarda-sol. Paloma, no entanto, preferia a areia quente sob o corpo, o toque salgado do vento, a sensação de liberdade.Enquanto ele montava a mesinha dobrável com os lanches do piquenique,
Paloma arregalou os olhos quando César simplesmente tomou a mala de suas mãos, abriu o zíper e despejou todas as roupas sobre a cama.— Ficou louco?— Sim. Estou louco, Paloma. — largou a mala e apoiou as mãos na cintura, o peito arfando, tentando parecer no controle. — E você não vai embora.Ela bufou, incrédula.— Eu não estou entendendo nada, sabia? Por que não aproveita que eu estou te deixando livre?— Livre? — ele deu um passo à frente, a voz baixa, mas carregada de tensão. — Eu não sou livre desde o dia em que você entrou na minha sala, me encarou com esses olhos e ameaçou me processar. A partir dali, Paloma, eu fiquei preso em você.Ela o olhou, confusa, com o coração acelerado.— Você está mais louco do que eu imaginava. Não fala coisa com coisa. — deu um passo para trás, sentindo o ar rarefeito entre eles. — Daqui a pouco vai acabar dizendo que gosta de mim.Os olhos dele brilharam. Um sorriso lento, perigoso, surgiu em seus lábios.— Não percebeu, Paloma?— Percebi o quê?—
Nos dois dias seguintes, Cesar quase não saiu do hospital. Ficava ali, na mesma poltrona, lendo relatórios que trazia da empresa ou apenas observando-a dormir. Quando precisava ir resolver algo urgente, Bella vinha substituí-lo, e Paloma percebia o cuidado sincero da sogra.Mas ela não falava muito. Não era cansaço, nem o trauma. Era outra coisa; um silêncio que nascia de dentro, feito de percepções que se acomodavam com dolorosa clareza.No segundo dia, o médico apareceu pela manhã, confirmou que ela estava se recuperando bem e que poderia ter alta no dia seguinte. Bella sorriu, aliviada. César apenas assentiu.Quando o médico saiu, Paloma continuou deitada, olhando o teto.— Você vai voltar pra casa amanhã. — disse César, rompendo o silêncio.Não estava muito animada quando voltou para a propriedade dos Monteiro.Bella contou que a família dela fez contato para saber do estado dela assim que tia Cida espalhou para todos a perda do bebê. Preferiram ligar para sua sogra, pois tinham
— Ela acordou. — disse Bella, com um sorriso discreto. — Vou deixá-los um pouco. Procurar uma máquina de café.César apenas assentiu, agradecendo num gesto. Quando a sogra deixou o quarto, o som da porta se fechando soou alto demais, afundando os dois em um silêncio pesado.Ele ficou de pé por alguns segundos, sem saber por onde começar. O ar do hospital era frio, mas o peito de César parecia queimando.Aproximou-se da cama devagar, os passos lentos, o rosto abatido. Paloma o acompanhou com o olhar, sem emoção, apenas uma observação distante, como se olhasse um estranho que invadira seu quarto por engano.César puxou uma cadeira, arrastando-a pelo chão com um leve rangido, e sentou-se. Passou as mãos pelo rosto, tentando encontrar forças para falar.Paloma o observava em silêncio. Continuava tão bonito, uma beleza rebelde em sua camisa branca de gola em V e calças de alfaiataria.— Você quer água? — perguntou ele, por fim, a voz grave.— Não. — respondeu sem hesitar, sem olhar para el
A dor veio como uma lâmina atravessando-lhe o corpo.Paloma tentou se mover, mas o mundo girava. As vozes ao redor soavam distantes, fragmentadas, misturadas a passos apressados e gritos que pareciam ecoar dentro de sua cabeça.— Meu Deus, ela caiu! — alguém gritava.— Chamem ajuda! — outra voz, mais distante.Paloma tentou focar o olhar.Acima dela, o teto dourado do salão girava. Os sons se misturavam com o barulho das taças caindo, o farfalhar das roupas, o choro contido de alguém.Então uma sombra se inclinou sobre ela.Leliana.O rosto da mulher estava pálido, os olhos arregalados de susto.— Paloma! — disse, ajoelhando-se ao lado dela. — Meu Deus...A voz de Leliana tremia. Por um instante, Paloma acreditou ver um lampejo sincero de aflição. Tentou responder, mas o ar parecia preso no peito.Leliana segurou sua mão, mas antes que pudesse dizer algo mais, César apareceu.Empurrou Leliana com força para o lado, quase fazendo-a cair.— Saia de perto dela! — a voz dele soou áspera,
A música agora ecoava forte, o ritmo quente de um forró adaptado fazia os convidados baterem palmas e sorrirem, enquanto pares se aventuravam na pista improvisada. Paloma olhou para César, sentindo a coragem surgir dentro dela.— Vem, quero dançar. — disse, quase em súplica, mas com um brilho nos olhos.Ele a fitou por um instante, sério, como se fosse recusar. O coração dela se apertou. Então, para sua surpresa, César estendeu a mão, puxou-a pela cintura e a levou para o centro.— Vamos dançar, então.Ela riu, aliviada.Os passos dele eram firmes, simples, mas se ajustavam aos dela como se sempre tivessem dançado juntos. O vestido leve de Paloma rodava quando ele a girava, e ela sentiu uma onda de alegria pura. Esqueceu as palavras venenosas, os olhares atravessados, as inseguranças. Ali, só havia o calor da música e os braços dele em sua cintura.— Você dança bem — disse, sorrindo.— Não tanto quanto você. — Ele respondeu sem sorrir, mas o tom tinha algo de cúmplice.Rodaram pela pi







