LOGINLorena AzevedoO caminho de volta para a Fazenda Ventura pareceu mais longo do que o normal. As crianças conversavam animadamente no banco de trás da picape, felizes porque as aulas haviam terminado mais cedo devido a uma reunião pedagógica do corpo docente. Mas a minha mente não estava ali. Minha cabeça continuava presa na calçada em frente ao colégio, remoendo cada segundo daquele encontro bizarro e inesperado com o Eduardo Soares.Eu não conseguia entender. O homem que se apresentou diante de mim hoje não parecia em nada aquele monstro frio e arrogante que me sequestrou, que infernizou a nossa vida e que quase destruiu a minha família. Ele estava visivelmente abatido, com uma postura humilde, pedindo perdão com uma voz trêmula que parecia... sincera. "Será que um homem como ele é realmente capaz de mudar?", perguntei a mim mesma, sentindo um nó se formar no meu estômago. Aquela dúvida me incomodava profundamente. Parte de mim queria acreditar que a dor e a terapia pudessem transfor
Eduardo SoaresO motor do meu carro importado roncava baixinho enquanto eu mantinha o veículo estacionado sob a sombra de uma oitizeira, a meia quadra do colégio particular onde os filhos do Rafael Ventura estudavam. O ar-condicionado gélido congelava o meu rosto, mas o meu sangue fervia de expectativa. Ajustei os óculos escuros no nariz e olhei pelo espelho retrovisor. Tudo tinha que ser calculado com a precisão de um cirurgião. O caipira era bruto, mas não era burro; qualquer passo em falso e eu terminaria com uma bala na testa antes mesmo de colher os frutos do meu plano.A porta do colégio abriu exatamente às onze e meia hoje. O movimento de mães, peruas escolares e carros de luxo tomou conta da calçada. E então, no meio daquela confusão de pedestres, eu a vi.A Lorena.Ela trajava um vestido leve, floral, que batia um pouco abaixo dos joelhos, marcando a cintura fina e a curvatura dos quadris que eu conhecia muito bem de fotos e de longe. O cabelo castanho estava preso num rabo d
Eduardo SoaresO vidro frio da janela do novo apartamento de alto padrão da Melissa contrastava com o calor que ainda queimava no meu corpo. Na mão direita, o copo de uísque com duas pedras de gelo já derretidas era o meu único companheiro naquela penumbra. Eu observava as luzes da cidade lá embaixo, mas a minha mente estava a centenas de quilômetros dali, cravada na Fazenda Ventura.Tínhamos acabado de transar. Um sexo rápido, agressivo e sem qualquer pingo de afeto, exatamente como costumava ser entre mim e a Melissa. Ela estava no banheiro agora, e o som da água caindo no box parecia ritmar a tempestade de ódio que fervia dentro da minha cabeça.Dei um gole longo no uísque, sentindo o líquido dourado queimar a minha garganta, mas nada parecia capaz de aliviar a frustração que me corroía por dentro.Como era possível? Como aquele desgraçado do Rafael Ventura continuava de pé?Eu já tinha tentado de tudo. Tudo! Movi as minhas influências para tentar prendê-lo por crimes que ele não c
Rafael VenturaFechei a porta pesada de madeira do nosso quarto, girando a chave na fechadura com um estalo seco e definitivo. O som abafou instantaneamente a barulheira das crianças no corredor e a voz da minha mãe na cozinha. O mundo lá fora podia estar desabando, mas dentro daquele quarto existia apenas o meu santuário. E o meu santuário atendia pelo nome de Lorena.A iluminação suave do fim de tarde entrava pelas frestas da janela, desenhando feixes dourados na penumbra do quarto. Tirei a minha jaqueta pesada e a joguei de qualquer jeito sobre a poltrona de couro. Ajeitei o corpo, me virando devagar para encarar a minha mulher. A Lorena estava de pé ao lado da cama, com o vestido leve desenhando as curvas que me enlouqueciam sempre. O peito dela subia e descia rapidamente, mostrando que a ansiedade e o desejo estavam consumindo a minha boneca na mesma proporção que consumiam a mim.Aproximei-me a passos lentos, como um predador encurralando a sua caça favorita, sentindo a temperat
Lorena AzevedoO sol das quatro da tarde dourava as pastagens da Fazenda Ventura, projetando sombras longas sobre a terra batida e trazendo uma brisa suave que aliviava o calor intenso do dia. Eu estava sentada na varanda, acomodada em um banco de madeira de demolição, apreciando a cena que se desenrolava no quintal.Vitória e Miguel corriam pelo gramado ensolarado, gargalhando e arrastando um carrinho de madeira que o próprio Rafael tinha feito para eles. O meu Miguel, com seu jeito esperto e aqueles traços que me faziam lembrar tanto do pai, corria de um lado para o outro sem demonstrar o menor cansaço. Fiquei observando o meu menino com o coração apertado e quentinho ao mesmo tempo. Ele já estava crescendo tão rápido... Em breve completaria treze anos. Treze anos de uma vida que superou tantas dores e tempestades para chegar até aqui.Mas a aproximação desse aniversário me trazia uma inquietação silenciosa. O Miguel vinha comentando há dias que queria muito passar o aniversário del
Rafael VenturaA manhã em Nova York nasceu cinzenta, com uma névoa espessa cobrindo os topos dos arranha-céus e uma chuva fina batendo contra o vidro da suíte do hotel. Acordei antes mesmo do despertador tocar. A noite tinha sido conturbada, pontuada por lapsos de sono leve e pela imagem recorrente do garanhão estendido naquela baia.Levantei-me, passei a mão pelo rosto e fui direto para a cafeteira. Precisava de café forte e preto para colocar o cérebro nos eixos. Enquanto a bebida quente caía na xícara, olhei para o relógio: sete e meia da manhã. No Brasil, na Fazenda Ventura, a lida já devia estar a todo vapor. Pensei em ligar para a Lorena, mas decidi esperar ter informações concretas nas mãos. Não queria levar mais dúvidas para a minha boneca, que já carregava a responsabilidade da casa, das crianças e da fazenda com a ajuda da minha mãe.Bebi o café de uma vez só, vesti uma calça jeans escura, botas de couro italiano, uma camisa de manga comprida e a minha jaqueta pesada. Eu não







