Mag-log inEduardo SoaresDois meses. Foram dois meses infernais, trancado dentro do meu próprio quarto na Fazenda Soares, me recuperando do estrago que aquele caipira desgraçado fez no meu corpo. Dois meses suportando o calor sufocante das faixas nas minhas costelas fraturadas, a dor latejante no nariz reconstruído e o amargor diário de olhar no espelho e ver as marcas da humilhação. Mas a dor física não era nada comparada ao veneno que corroía o meu peito por dentro.Assim que os médicos finalmente me liberaram para viagens curtas e o meu motorista colocou o carro na estrada rumo a Belo Horizonte, a primeira coisa que fiz foi exigir um relatório completo dos meus advogados sobre o andamento dos meus negócios e o embargo das propriedades da região.E foi aí que o meu mundo ruiu de vez.A notícia caiu sobre a minha cabeça como um golpe de machado: o Rafael Ventura tinha fechado a compra da Fazenda Palmeiras. As terras do velho Juscelino Medeiros — os dois mil e duzentos hectares mais férte
Lorena Azevedo Abri os olhos devagar quando os primeiros raios dourados do sol começaram a invadir o quarto pelas brechas da cortina. O silêncio da manhã na Fazenda Ventura era acolhedor, quebrado apenas pelo canto distante dos passarinhos lá fora e pelo som suave do vento balançando as copas das árvores. Virei-me de lado na cama king size e fiquei ali, imóvel, admirando o Rafael dormindo ao meu lado. O rosto dele, que durante o dia carregava a responsabilidade e a dureza de cuidar de milhares de hectares, administrar negócios e enfrentar inimigos implacáveis, agora parecia completamente calmo, sereno e em paz. Passei os olhos por cada detalhe com devoção: a barba bem desenhada, o peito largo subindo e descendo no ritmo tranquilo da sua respiração, e até a pequena cicatriz no supercílio, lembrança recente daquela fúria desmedida, que já começava a sumir. Inclinei-me devagar sobre o corpo dele e comecei a distribuir beijos suaves e demorados pelo seu rosto. Beijei a bochecha
Rafael VenturaO sol já tinha se despedido quando tirei o chapéu e enxuguei o suor do rosto com o antebraço. Olhei ao redor e o escuro já tinha descido sem pedir licença, engolindo a cerca, o capim, o horizonte. Naquele horário não dava mais para continuar. Arumei as ferramentas, prendi o portão e voltei para a fazenda com o corpo pesado, as botas arrastando poeira. Subi a escada da casa já pensando no banheiro. Precisava de um banho. Tirei a calça e a cueca no meio do caminho, liguei o chuveiro e entrei na água quente, deixando que escorresse pelos ombros e pelas costas. O vapor começava a subir quando senti mãos no meu abdômen, descendo devagar para a minha masculinidade. Reconheci aquelas mãos antes mesmo de virar o rosto — e já fiquei no ponto.Virei-me. Lorena estava lindamente nua, os cabelos presos de qualquer jeito, os seios molhados, os olhos brilhando no vapor. Puxei-a para um beijo, sentindo a água escorrer entre nós dois.— Boneca, pensei que estava com as crianças.— Est
Rafael VenturaDois meses.Dois meses haviam se passado e eu ainda estava com aquele desgraçado do Soares na minha cola. Cada vez que o nome daquele sujeito surgia nos papéis que o Dr. Albuquerque trazia, a minha vontade era de pegar a caminhonete, ir até a Fazenda daque merda e quebrar o resto das costelas dele. O desgraçado deveria ter apanhado mais; o filho da puta não aprendeu a lição.Lembrei-me da reunião que tive com o Albuquerque no início da semana. Ele me explicou detalhadamente a decisão do juiz sobre o caso da agressão no hotel de Belo Horizonte. Segundo o meu advogado, o magistrado acabou pegando leve, levando em consideração as provações e os antecedentes do caso. Mas a minha situação na justiça era delicada: como eu já tinha enfrentado um julgamento pesado no passado — mesmo tendo sido provada a minha total inocência na morte do Valdir —, o meu histórico no fórum não era de um cidadão comum. O juiz determinou o pagamento de uma fiança consideravél para verme do soares,
Lorena Azevedo Dois meses haviam se passado desde a tempestade que quase nos destruiu. Dois meses de uma rotina intensa, dividida entre os cuidados com as nossas terras, a consolidação definitiva da compra da Fazenda Palmeiras — que agora florescia sob a administração impecável do Rafael — e as constantes reuniões com o Dr. Albuquerque para conter o processo judicial movido pelo Eduardo Soares. Saí do banho quente, sentindo o vapor suave perfumar o banheiro da Suíte Master. Peguei a toalha, me sequei com calma e comecei a me vestir com um vestido solto de algodão florido, perfeito para a manhã amena do interior. Enquanto ajeitava as alças no ombro, o toque estridente do meu celular ecoou sobre o criado-mudo. Olhei o visor e abri um sorriso imediato. Adivinha só: era a Tati. Atendi a ligação colocando o aparelho entre o ombro e a orelha enquanto terminava de fechar o zíper lateral: — Alô, Tati... — Amiga! Que dia esse seu casamento vai sair?! Porque, fala sério, normal não
Melissa MendonçaO barulho do motor do meu carro cessou assim que parei na garagem da minha casa. Desci do veículo com a cabeça fervendo, pisando firme sobre os saltos altos. Deixar a Fazenda Soares e aquele estado deplorável do Eduardo Soares me deixou com um misto de nojo e irritação profunda. O Eduardo era um bruto sem escrúpulos, mas faltava a ele o refinamento e a frieza que um plano de verdade exigia. Ele achava que resolveria tudo na força bruta, e o resultado estava lá: costelas fraturadas e um rosto deformado por socos, nós tínhamos o plano perfeito, mas ele não soube executar direito, como pude acreditar que ele ia conseguir beijar aquela garçonetezinha.Passei pela porta de entrada da minha casa, jogando a bolsa de grife sobre o aparador do hall. O silêncio do casarão me acolheu. Caminhei a passos lentos até o bar da sala, onde a iluminação suave refletia nas garrafas de cristal. Passei os dedos pelos rótulos até encontrar o meu melhor vinho tinto, um rótulo francês e







